Uma cena que pode compor o cotidiano de qualquer metrópole: ao sair da repartição em que trabalha, um servidor público típico, com sua remuneração mensal por volta de R$ 10 mil, encontra uma moeda de 10 centavos ao entrar no estacionamento em que deixa seu carro. Ele automaticamente se abaixa, a recolhe e a coloca no console do veículo.

Aquele valor representa 0,001% do que recebe em seu contracheque todo início de mês e, como não considera aquilo como algo que vá fazer alguma diferença para ele, pensa em doar a algum pedinte que certamente vai encontrar no caminho até sua casa, em um dos muitos semáforos que terá de enfrentar com muita paciência no trânsito pós-18 horas.

Reparando a moeda ali no chão, talvez muitos nem se dessem o esforço de se abaixar para pegá-la. Outros o fariam apenas por curiosidade de dela saber o valor de face para então, de certo modo, ficarem decepcionados por, pelo menos, não ser dez vezes mais (uma moeda de 1 real) ou ao menos o quíntuplo (50 centavos), como recompensa pelas calorias dispendidas naquele agachamento no meio da rua.

Em um exercício de imaginação, o que faria a mesma pessoa – ou qualquer outra que estivesse – se tivesse encontrado não uma moeda de 10 centavos, mas uma cédula de 50 reais? Dependendo do nível ético, a reação poderia ser desde escondê-la rapidamente da vista de outros até procurar alguém por perto que pudesse tê-la perdido por aqueles instantes. Afinal, 50 reais não ficam de bobeira esvoaçando pelas ruas por muito tempo.

Indo mais fundo no exemplo: e se a pessoa encontrasse, extraviada por ali, não uma simples nota, mas uma gorda pasta recheada com mil exemplares do mesmo valor? Ora, R$ 50 mil é o que ela demoraria cinco meses ou 150 dias para colocar no bolso. Mesmo os mais gananciosos não levariam a mala embora daquele lugar com tranquilidade, porque a tentação não seria maior que o medo. Afinal, muito provavelmente quem perde pelo caminho uma mala com R$ 50 mil em espécie está enquadrado em pelo menos uma de duas alternativas: poderoso ou criminoso.

Certas coisas são difíceis de serem processadas por um ser humano. Na natureza, o tamanho do universo, em que existem centenas de bilhões de galáxias contendo cada uma centena de bilhões de estrelas – e há muitos que dizem que há vários universos. Certamente, surpreenderá muita gente descobrir que, para um bilionário, se abaixar para pegar a pasta com R$ 50 mil corresponderia à mesma decisão tomada por aquele funcionário público em fim de expediente sobre a moeda de 10 centavos. Sim, proporcionalmente, é a mesma coisa!

Uma das espantosas mostras da distribuição irregular da riqueza mundial está nisto: um montante que, para certa pessoa, equivale a meses ou anos de trabalho, significa para outra, a bilionária, o equivalente à moeda para dar como esmola.

Convencionou-se chamar de bilionária à pessoa que tem como total de suas riquezas em dinheiro, investimentos e bens materiais um valor de pelo menos 1 bilhão de dólares. Um bilionário “simples”.

Estipulando a cotação do dólar em 5 reais, como estava há pouco tempo, um bilionário em moeda nacional precisaria, portanto, multiplicar sua riqueza por cinco para chegar ao patamar exigido pela revista Forbes para entrar em sua célebre lista.

A publicação estadunidense de negócios e economia virou quase sinônimo de ostentação, por anualmente apresentar quem e quantos são os super-ricos do planeta. Em sua relação de 2023, divulgada em abril, o número de bilionários havia caído dos 2.688 do ano anterior para 2.640 nomes. Um grupo que caberia dentro de Marzagão, cidade no Sul goiano perto de Caldas Novas e a 200 quilômetros da capital. Com esses habitantes no lugar da população atual, essa cidadezinha somaria US$ 12,2 trilhões de patrimônio por CPFs, o que, tomando o produto interno bruto (PIB) de todos dos países, só não seria maior do que o de Estados Unidos (US$ 25,4 trilhões) e China (US$ 17,9 trilhões).

Quem iniciou 2023 como o homem mais rico do mundo, segundo a Forbes, foi o francês Bernard Arnault, cuja família, além de possuir outras empresas, é a principal acionista do grupo LVMH – sigla para Louis Vuitton (bolsas e acessórios de luxo), Möet (marca de champanhe) e Henessy (famosa produtora de conhaques, da cidade francesa de Cognac, que dá nome à bebida). Ele havia deixado para trás Elon Musk, dono da Tesla (carros elétricos) e da Space-X (naves e turismo espacial), que se tornou o primeiro ser humano a perder mais de US$ 200 bilhões – há dois anos, a fortuna do sul-africano era calculada em US$ 340 bilhões.

Mas a disputa entre os dois ricaços está animada. De acordo com outra lista, a da rede Bloomberg (aliás, empresa de outro bilionário, Michael Bloomberg, 7º da lista da Forbes, com US$ 94,5 bilhões), Elon Musk está de volta à liderança, acumulando US$ 192 bilhões. Uma diferença de US$ 5 bilhões à frente do francês. A publicação atesta que, nos primeiros cinco meses do ano, Musk acumulou ganhos de US$ 55,3 bilhões. Ou seja, em números do PIB de 2022, pelo Banco Mundial, ele guardava uma Colômbia inteira dentro do bolso, perdeu o bastante para passar ter “apenas” o equivalente a duas Croácias e agora pode dizer que poderia ser dono de todas as riquezas da Argélia. Recentemente, Arnault e Musk se encontraram para um almoço em Paris. A Torre Eiffel contemplou mais de US$ 400 bilhões trocando sorrisos em meio a garfadas.

Das agruras de ser bilionário

Uma das características – e um dos dramas – das riquezas gigantescas é sua volatilidade. Em 2022, entrava na lista dos dez mais ricos do mundo o indiano Gautam Adani. Foi a pessoa que mais fez fortuna no ano, chegando a estar em 2º lugar no ranking. No último 30 de janeiro, porém, quando detinha mais de US$ 120 bilhões, perdeu a metade de tudo. Assim mesmo: de um dia para o outro.

O indiano Gautam Adani, que perdeu US$ 60 bilhões em um dia | Foto: Reprodução

Aos 60 anos, Gautam Adani é fundador do Grupo Adani, conglomerado de empresas com negócios diversos, como infraestrutura, logística e energia, além de ser também o maior operador portuário da Índia e ter participações em aeroportos – é dono de três quartos do aeroporto de Mumbai, o mais movimentado da Índia –, cimento e imóveis, entre outros. O indiano quer se tornar o maior produtor de energia verde do planeta e anunciou US$ 70 bilhões em projetos de energia renovável.

Mas o que ocorreu para acordar num belo dia e ver quebrada pela metade sua espinha financeira? É que seu grupo foi alvo de indicações contrárias da Hindenburg Research, uma empresa estadunidense que é um tipo de agência de risco de investimentos – e que leva o nome do dirigível envolvido na tragédia sobre Nova Jersey, em 1937. A Hindenburg é conhecida por fazer apostas ousadas contra corporações de alto nível as quais acredita que passam por supervalorização, fraude corporativa ou outro tipo de vulnerabilidade. Por meio de seu site, a empresa divulga relatórios públicos dessas “apostas”. E um deles atingiu em cheio o Grupo Adani, que viu investidores fugirem, mesmo rebatendo os questionamentos como “infundados” e “maliciosos”. A desconfiança dos parceiros de negócios e dos credores, além de uma investigação do próprio governo da Índia, se tornaram sombras sobre a prosperidade do indiano.

Um brasileiro entre os super-ricos

Calcado no crescimento das commodities nacional no fim da década de 2000 e começo da década seguinte, o brasileiro Eike Batista chegou a ser a 6ª pessoa mais rica do mundo, em 2012, na lista da Forbes. Tinha então consigo US$ 30 bilhões, em investimentos predominantes em mineração e suas empresas marcadas com o X indefectível no nome.

Eike Batista, o ex-bilionário brasileiro | Foto: Reprodução

A partir do ano seguinte, tudo degringolou e a fortuna de Eike caiu para “ínfimos” US$ 200 milhões de dólares. Isso significava nada menos do que perder mais de 99% do patrimônio. Para trazer para mais perto do real, é como alguém ter um sítio de 20 hectares num dia e, no outro, fica apenas com o Fusca que emprestava ao peão. Pior: em 2016, o megaempresário se tornou o caso pioneiro de “bilionário negativo”: seu patrimônio tinha sido reduzido a -US$ 1,4 bilhão, por causa de dívidas. Nos anos seguintes, em processo falimentar e envolvido em escândalos financeiros e políticos, incluindo aí a Operação Lava Jato, chegou a ser preso duas vezes.

Hoje, ele virou tema de livro que virou filme: Eike – Tudo ou Nada, escrito pela jornalista Malu Gaspar, ganhou versão para cinema no ano passado, contando a trajetória do ex-bilionário que fez aposta certa no início do pré-sal, mas que não sustentou seus ganhos.

O fato de haver um bilionário ganhando tanto não significa que haja outro ganhando menos, ou que ele esteja diretamente retirando seus ganhos de outra parte da população. A cada ano, o planeta soma novas riquezas. O PIB mundial se expande, embora, incrível e infelizmente a pobreza extrema continue inacabável.

Depois de uma passada pelos números tão distantes da realidade de praticamente todas as pessoas, segue o drama de imaginar o quão grande são essas fortunas. Para tentar entender a escala, o rico é quem paga uma passagem aérea de classe executiva em uma viagem a Dubai, com direito a hospedagem na suíte mais luxuosa do melhor dos hotéis; o milionário compra o avião para ir até Dubai; já o bilionário vai a Dubai e adquire a Emirates.

Mas fica a questão filosófica: ser bilionário é melhor que ser milionário? Ou mesmo, ser rico, “apenas”? Fica a impressão de que o estresse e o esgotamento evoluem à proporção em que é necessário ter tempo, informações e agilidade para cuidar de tanto dinheiro. Pobres bilionários, não deve ser fácil.