Um cassetete e um crânio quebrados. E a oportunidade de mudar

A grave agressão sofrida pelo estudante Mateus leva a muitas indagações sobre o papel da PM, os protestos populares e o discurso das redes sociais. Mas das reflexões podem (e devem) surgir frutos

A violência absurda contra Mateus Ferreira da Silva foi flagrada pela câmera de Luiz da Luz: estudante cai após receber o golpe e a arma branca se partir ao meio | Foto: Luiz da Luz

Há males que vêm para bem. Talvez esse seja um dos ditados de sabedoria mais antiga. Em inglês, isso seria dito como “every cloud has a silver lining”, que, em uma tradução livre e precária, poderia ser “toda nuvem tem algo de prata dentro dela”. Para os ingleses, isso significa que apesar das aparências tenebrosas vem alguma coisa melhor por aí, que há um quê de esperança escondida. Muito provavelmente, um provérbio que, com suas variações, deva existir em todas as culturas nas quais haja a dicotomia entre “bem” e “mal”.

O preâmbulo introduz um assunto bastante triste e sobre o qual nem deveria haver controvérsia. Nem deveria, mas há. E isso é um dos pontos que motivaram este artigo, sobre a grave agressão sofrida por Mateus Ferreira da Silva, aluno do curso de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (UFG), na sexta-feira, dia 28 de abril. Ele foi ferido gravemente durante as manifestações contrárias à reforma da Previdência e a reforma trabalhista do governo de Michel Temer (PMDB), com uma pancada que o levou à UTI do Hospital de Urgências (Hugo). Diagnóstico: traumatismo craniano. Mateus passou vários dias inconsciente, entubado, respirando por aparelhos, sofreu cirurgias e tratamento de hemodiálise. Teve pneumonia, agora não tem risco de morte, mas sua recuperação ainda será longa.
Essa foi a consequência visível do golpe de cassetete desferido pelo policial militar Augusto Sampaio de Oliveira Neto contra o rosto do estudante. Um ato que passou a ter muito de simbólico e cinzento.

Começando do pior: após a repercussão nacional do caso, houve uma arrecadação via internet para a família de Mateus, que é de São Paulo e teve de vir às pressas para cuidar dele. A movimentação gerou R$ 13 mil (a meta era de R$ 10 mil) e uma resposta que seria apenas humor de muito mau gosto se não fosse insultuosa: um evento aberto no Facebook por um gaúcho tinha o título “Vaquinha para novo cassetete pro PM de Goiânia”, com o seguinte texto:
“Não consigo entender! Já vi e revi várias vezes as fotos e o vídeo que está circulando na internet e não consigo entender como o governo investe em cassetetes tão fracos e que quebram na primeira porrada. Um cassetete fraco desse jeito impediria que o PM se defendesse de um próximo ataque, deixando-o totalmente desprotegido. Como forma de remediar essa situação, estou lançando esta vaquinha para doarmos um cassetete novinho, de 1ª linha, para o PM de Goiânia, a fim de que ele possa continuar realizando o seu trabalho de maneira eficiente e profissional, sem riscos à sua segurança. Confirme presença e convide seus amigos a colaborarem também!”

Em sua página da rede social, o rapaz apresenta com orgulho várias fotos e postagens de apoio ao deputado extremista Jair Bolsonaro (PSC-RJ), à Polícia Militar e às Forças Armadas, bem como muita propaganda anti-PT e anti-esquerda.

Dois parágrafos e meio perdidos com um caso aparentemente tolo apenas para dizer: esse tipo de perfil existe e prolifera. Claro, a maioria (ainda) age de forma menos acintosa. Houve quem justificasse, por exemplo, que Mateus não poderia estar mascarado ou, pior, que não deveria estar na manifestação, promovida por “baderneiros”. Ou seja, quem lá esteve assumia assim o risco de levar um cassetete no meio da testa. É como uma garota que vestisse minissaia e andasse sozinha por uma rua deserta: no fim, ela seria culpabilizada por um eventual estupro. Pode ter certeza: muita gente pensa isso de verdade.

Ricardo Balestreri: o homem com a missão de mudar a polícia | Foto: Fernando Leite Jornal Opção

A questão é que, como consequência do racha ideológico que se aprofundou de 2014 até o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e depois não se amenizou, qualquer tema que pareça estar pendendo para “o outro lado” deve ser rechaçado. Assim, a tática, voluntária ou não, passa a ser questionar mais a intenção da vítima – no caso, Mateus, supostamente militante da esquerda – ao tapar o rosto do que se ater ao ato de um PM despreparado para sua prerrogativa de uso da força.

Como há males que vêm para bem, é auspicioso ver o posicionamento que Ricardo Balestreri, o secretário estadual de Segurança Pública empossado há poucos meses, teve sobre o episódio. Sua principal missão no governo é mudar a cara da polícia goiana, torná-la mais bem preparada e mais humanizada. Historiador e com um currículo de décadas destinadas ao conhecimento de diversas forças policiais mundo afora, bem como uma passagem pela presidência da seção brasileira da Anistia Internacional, Balestreri é, com certeza, um dos nomes mais bem preparados que o governo de Marconi Perillo (PSDB) poderia encontrar para esse trabalho.

A agressão absurda e quase fatal sofrida por um manifestante mascarado não mereceria ser destinada nem mesmo a um bandido, estando ele desarmado. É simples de entender, para quem quiser entender: a PM é treinada – ou deveria ser – para usar a força necessária, não para excedê-la. Por isso, o que pode sair de “prata” da cinzenta ocasião é justamente catalisar o processo de capacitação das forças policiais em Goiás. À exceção dos grupos especializados, são raros os PMs que buscam aprimoramento pessoal. O sonho de boa parte dos militares, hoje, é ter uma função “de gabinete”, acompanhando alguma autoridade ou lotado na segurança de algum órgão público. Ir para o trabalho nas ruas é algo que passou a ser evitado.

Não basta capacitar a polícia. É preciso, ainda, encontrar uma trégua entre as partes. E isso inclui também o “outro” lado. Como disse o secretário Balestreri em entrevista ao Jornal Opção, a ditadura já acabou há mais de três décadas no Brasil, mas um segmento da comunidade dos direitos humanos ainda não deixou de enxergar o policial como um adversário. Um PM fardado na UFG só não pode ser considerado um ET porque talvez o alienígena fosse visto com bons olhos. Em “London London”, um exilado Caetano Veloso cantava o que via em terras britânicas: “Um grupo aborda um policial; ele parece cheio de prazer em poder atendê-los e é tão bom viver em paz”. Que o crânio de Mateus não tenha sido partido à toa. Que da estupidez do mal possa brotar um pouco de bem. l

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