Um ano de pandemia: impactos e consequências no aprendizado

Levantamento do Banco Mundial apontou que após pandemia 71% dos alunos brasileiros terão dificuldades em aprender a ler

Ensino remoto | Foto: iStockphoto

O Banco Mundial divulgou neste mês de março levantamento sobre os efeitos do fechamento das escolas na América Latina e Caribe. O estudo apontou que 71% dos alunos brasileiros podem não aprender o básico da educação: ler.

A “pobreza de aprendizagem” pode afetar o Brasil de maneira muito contundente, pois o relatório mostra que alunos da América Latina já possuem um atraso médio de três anos em relação a alunos de países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Um dos motivos apontados para esse prejuízo do aprendizado é a restrição de internet, que não está acessível a todos. Além disso, a falta de aula presencial pode elevar em 15% a desistência dos alunos. Sem falar na ausência da merenda escolar, por exemplo, que impacta 10 milhões de estudantes na América Latina, de acordo com o estudo.

Os prejuízos excedem o campo intelectual, e abalam o emocional e físico, além de impactar na capacidade de ingresso dessas pessoas no mercado de trabalho, resultando em prejuízos de capital nos países, segundo informações do levantamento.

Alice da Silva Castro | Foto: Arquivo Pessoal

Para a professora do 4º ano do Ensino Fundamental 1, Alice da Silva Castro, a educação à distância prejudica o aprendizado, porque os alunos não têm contato com a leitura coletiva da sala de aula.

“Você não consegue passar uma leitura que extrapole a do livro didático. A gente também não sabe se esse aluno está lendo”, afirmou. “O que a gente consegue ter certeza são das atividades que vêm prontas, vem respondidas. Mas a gente também fica com dúvida se são os alunos mesmo que estão respondendo essas atividades ou se são os pais para que eles não fiquem prejudicados”, reflete.

A pedagoga Nathália Simão também acredita que o ensino remoto dificulta o acompanhamento do aluno. “Percebo um desânimo da própria criança. Muitas ficam com a câmera desligada. A gente desconfia se alguns jogam ao invés de assistir aula. Se não há supervisão de um adulto isso pode acontecer”, observa.

Quando o aluno já possui uma dificuldade maior para aprender o conteúdo em relação aos outros, a distância agrava ainda mais o problema. “Por trás de uma tela é muito difícil trabalhar isso. Não há tempo de sentar com essa criança. Mesmo que eu abra uma sala para conversar em particular, não é o mesmo que pegar no caderno dela, ouvir ela me contar o que está acontecendo”, conta Nathália.

Nathália Simão | Foto: Arquivo Pessoal

Ytallo Ribeiro da Silva, que é professor do 2º ao 9º do Ensino Fundamental 2, percebe as mesmas dificuldades. “Não se tem muito controle sobre a turma no que diz respeito a execução das atividade e avaliações. E entra outro fator importante que é a tutoria e participação dos responsáveis em casa. Alguns alunos têm outros não têm”, apontou.

No caso do Ensino Superior, em que cada aluno é responsável por seu próprio empenho, os problemas também existem. Todo o conteúdo tem de ser compactado em poucas horas, não apenas porque muitos estudantes trabalham, têm famílias e responsabilidades extras, mas também porque o estudo direto de uma tela é cansativo por si só.

“Para as aulas síncronas a UFG estabelece que não ultrapassemos a carga horária de duas horas. Seria o teto, considerando que cada período tem quatro aulas de 50 minutos no período diurno e quatro aulas de 40 minutos no período noturno. A gente estabelece esse teto do ponto de vista de estratégias de ensino e aprendizagem para não deixar, tanto os docentes quanto os discentes, em uma situação de exaustão”, explica o professor de graduação e pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás, Adriano Rodrigues de Oliveira.

Mudança de hábito

“Tivemos de reestruturar uma série de estratégias. Gravação de áudios, vídeos, utilização de recursos audiovisuais, como filmes, documentários, músicas, excertos de publicações com domínio público”, conta o professor de ensino superior.

Adriano Oliveira | Foto: Arquivo Pessoal

“Enquanto docentes, tivemos que reestruturar todo nosso processo de plano de ensino para que os materiais utilizados sejam sempre de domínio publico e que eles possam ser obtidos na internet sem comprometer direitos autorais, ou obras que já tenham direitos autorais em domínio público”, diz Adriano.

“Tenho diminuído substancialmente a carga em leitura. Em contraposição a isso, tento suscitar temas fundantes para serem trabalhados com esses outros recursos para além do referencial bibliográfico”, relata.

Ele conta que criou um “diário de inquietações” para conseguir ajudar os alunos a conectarem o conteúdo ensinado com aspectos da vida prática. “É uma espécie de diário, de fato, que meus discentes são motivados a escreverem como que no cotidiano o tema da disciplina pode ser visualizado nas diferentes ações, seja no supermercado, na feira, ou mesmo neste processo de isolamento. Tem sido uma estratégia no sentido de mensurar o processo de aprendizagem”, explica.

Com as crianças, Nathália conta que utiliza táticas para não perder o vínculo. “Todo dia pela manhã coloco música para eles, converso com eles. […] Trabalho em uma escola que fica bem em cima [do aluno] para saber se está tudo bem e isso faz toda a diferença.”

Segundo a pedagoga, os investimentos do colégio aplicados em tecnologia fizeram muita diferença para uma adaptação mais serena ao ensino remoto, tanto no caso de professores, como de alunos. Ela relata que o colégio disponibilizou profissionais de T.I. para dar apoio aos professores e às famílias.

“Tivemos muitos cursos de formação no começo da pandemia. Tudo é feito no drive, desde planejamento a post de fotografias, tudo está lá. O planejamento da escola, anual, os professores estão muito bem alinhados”, diz Nathália.

Ytallo Ribeiro da Silva | Foto: Arquivo Pessoal

Ytallo ressalta que a realidade dos professores e alunos nem sempre são as mesmas. “Colocar, por exemplo, na mesma caixa professores e alunos do ensino privado, que é meu caso, e do ensino público, traria dados distorcidos da realidade de cada um”, pontua o professor.

“Outro exemplo é que cada disciplina utiliza metodologias diferentes. Ensinar matemática no modelo presencial é diferente de ensinar Geografia, que é a minha área”, acrescenta.

Adaptação

“Os professores não estavam preparados para lidar com as plataformas digitais, mas eu considero que a gente se reinventou muito rápido”, opina Alice. “Acredito que todos os professores, independente da idade, eles conseguiram, mesmo com muita dificuldade, se adequar, até porque nós somos obrigados a se adequar às plataformas.”

“Nem alunos e nem professores estavam preparados para isso”, reforça Adriano. “A gente gosta muito de utilizar a metáfora que é como se trocasse o pneu de um veículo com ele em movimento, porque a pandemia nos pegou de surpresa. Não tínhamos um projeto estruturado de estabelecer um processo de ensino e aprendizagem de forma remota”, disse.

“O que se percebe é que todo mundo está em um processo contínuo de aprendizado, tanto os professores quanto os alunos”, acrescentou. “Essa modalidade de ensino remoto é para enfrentar uma conjuntura de emergência. Ela não pode ser universalizada ou tida como estratégia possível de levar em período posterior à pandemia como modelo ideal”, analisa o professor.

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