Tudo bem na economia, mas na política…

Autonomia para a equipe econômica comandada por Henrique Meirelles tem dado bons resultados, mas a política tem os mesmos problemas de sempre

Henrique Meirelles comanda a economia: confiança começou a voltar e organismos financeiros trabalham com a possibilidade de crescimento em 2017 | Foto: Lula Marques/AGPT

Henrique Meirelles comanda a economia: confiança começou a voltar e organismos financeiros trabalham com a possibilidade de crescimento em 2017 | Foto: Lula Marques/AGPT

Afonso Lopes

Não há parâmetros equilibrados para se comparar rapidamente as administrações de Michel Temer e Dilma Roussef-2 — mandato iniciado em janeiro de 2015. A mudança é da água para o vinho. Com Dilma, o país cambaleava errático na economia, sem conseguir fazer qualquer projeção para um período superior a uma semana. Com Temer, retornou a previsibilidade e, dentro dela, a transparência. Politicamente também são situações diferentes. Dilma exercia o poder presidencial exalando empáfia e isolamento palaciano.

Não havia diálogo nem possibilidade de relação futura melhor com o Congresso Nacional. Com Temer, houve uma melhora enorme na relação entre o Parlamento e o Executivo, mas não muita coisa além disso aí. As negociações políticas continuam se dando no varejo, individualmente, e não no atacado, através dos partidos.

Observadores e analistas em Brasília entendem que esse comportamento se dá pela intensidade com que Michel Temer trabalha para ver a aprovação do processo de impeachment pelo Senado. Pode ser isso, sim, mas também há questões estruturais da composição partidária do Congresso. A pluralidade é grande o suficiente para impedir uma ação mais harmônica, que favoreça a formação de um “presidencialismo de coalizão”, como insinua necessariamente a Constituição em vigor. Exemplo prático dessa pulverização partidária é o PMDB, partido com maior bancada na Câmara dos Deputados, que não alcança 15% das cadeiras. Isso provoca uma abertura demasiada do compasso político-partidário, o que inibe a negociação por bloco e provoca o tête-à- tête, situação em que as questões de interesse pessoal são quase sempre muito mais frequentes do que as noções de princípio republicanas.

Esperança

Essa falta de avanço na questão política tem prazo de validade. Por enquanto, a equipe econômica tem se virado como pode, algumas vezes muito mais dentro de perspectivas futuras do que com medidas concretas, que dependem de aprovação no irrequieto ambiente político. Esse prazo de validade é exatamente a votação do impeachment.

De qualquer forma, essas questões mais estruturantes da economia, e que precisam de aval do Congresso, não oferecem resultados a curto prazo. Meirelles e sua equipe sabem disso, e estão se desdobrando na recomposição do sistema de confiança gerado pela previsibilidade. Na primeira reunião do Copom teve-se exatamente essa impressão.

Alguns economistas arriscaram que a taxa Selic poderia recuar 0,25%, fechando em ainda estratosféricos 14% ao ano. Como houve uma declaração horas antes do ministro Eliseu Padilha de que o presidente gostaria que a taxa caísse, a prudência indicou pela manutenção. Justificada ou não, qualquer queda naquele momento representaria que o Banco Central iria continuar como dantes, com Dilma, se sujeitando aos humores. Essa previsibilidade e transparência, passando pela atuação do Banco Central com independência suficiente para adotar as medidas necessárias, tem provocado ondas positivas. Internamente, já é quase unanimidade que a economia voltará, ainda que muito timidamente, a crescer já em 2017. Análises de organismos financeiros externos dizem estar trabalhando com a possibilidade de crescimento de 1,5%. Há também a perspectiva de queda no ritmo da inflação. O governo acha que consegue segurar as pontas em 4,5%, o que seria o alvo central da meta de inflação para o ano que vem.

Em resumo, o Brasil melhorou muito no tratamento que o governo da à economia. Ao contrário da falta de meta da época de Dilma Roussef, com o comando atual existem, sim, planos devidamente traçados. E não apenas um, mas três. E com possibilidade inclusive de se juntar algumas das alternativas num pacote evolutivo só, com mudanças em legislações pesadas, desonerações do Estado, e privatizações de ramos estatais, como no caso da ineficaz e deficitária Eletrobrás.

O problema todo, de qualquer forma, passa pela solução também das relações políticas. Meirelles e sua turma conquistaram a confiança e têm demonstrado que são capazes de tirar o Brasil do atoleiro econômico em que foi atirado. Resta saber se Michel Temer terá a mesma competência para desentravar o país no campo político. Essa sintonia é fundamental.

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