A temporada das campanhas pobres

Previsão geral é de que vai haver dificuldades financeiras para os partidos, mas grandes candidaturas devem montar boas estruturas

Falta de dinheiro deve restringir os grandes eventos eleitorais e a propaganda de rua dos candidatos a partir de agora

Falta de dinheiro deve restringir os grandes eventos eleitorais e a propaganda de rua dos candidatos a partir de agora

Afonso Lopes

As inúmeras operações da Lava Jato e a inundação de denúncias de corrupção com fundos de campanhas vão provocar um estrangulamento geral no tradicional sistema de financiamento das campanhas eleitorais deste ano, certo? Não é bem assim.

O dinheiro vai continuar fluindo normalmente até porque a grande maioria das doações não significa uma espécie de cheque pré-datado de corrupção futura, a ser compensado após vitória nas urnas. O grande problema deste ano para as candidaturas é mesmo a crise econômica.

As empresas e os empresários, maiores doadores, estão apavorados com o tamanho da encrenca na economia, e tiraram o pé do acelerador em todas as áreas, desde os novos investimentos e, espera-se, também na participação direta das campanhas eleitorais.

A corrupção levantada nas operações da Lava Jato assustam, sim, mas somente os corruptos.
Há uma confusão e uma generalização quando se fala das doações de campanha no Brasil. Há o entendimento geral, e também por isso superficial, de que quem doa abre as portas de falcatruas e estripulias com os cofres públicos depois da eleição.

Uma boa parcela dos doadores, conforme revelaram as investigações na Lava Jato, realmente age dessa forma e com essa nefasta intenção. A maioria, porém, participa das campanhas pela proximidade que as doações provocam. Ou seja, os doares têm acesso ao centro do poder, e não necessariamente para fazer negócios com o setor público.

É como se fosse uma forma de popularização dos detentores do poder econômico entre os detentores do poder político. Não há nada de errado nisso nem algum fim desonesto. Tornar-se conhecido do poder é ter carta de acesso, por exemplo, para expor a opinião sobre assuntos variados, inclusive de costumes e comportamento. É, em resumo, ser ouvido, sair da multidão anônima e se destacar individualmente, e assim ganhar status social, convidar e ser convidado no altíssimo poder político.

Outro lado
Mas há também aqueles que usam as doações de campanha como forma de investimento futuro para negócios desonestos. Esses, sim, vão pensar várias vezes se vale mesmo a pena operar sistemas ilegais que possam resultar, no futuro, em visitas constrangedoras e indesejáveis dos “japoneses da Federal”. A Lava Jato tem sido, nesse sentido, absolutamente didática. O risco tornou-se evidente e muito grande.

Uma parte desse dinheiro mal intencionado das campanhas eleitorais abastece o caixa oficial dos principais candidatos. Imagina-se que o grosso dessa substância financeira acabe nos porões dos caixas 2.

Em ambos os casos, o controle e a fiscalização se tornaram muito mais eficazes, e os exemplos práticos do juiz Sérgio Moro, do Ministério Público Federal do Paraná e da Polícia Federal explodiram forte nos alicerces criminosos das campanhas brasileiras.

Isso vai começar a ser percebido este ano, mas vai se tornar ainda mais dramático porque a crise econômica deve inibir também a doação bem intencionada, daqueles que detêm poder econômico suficiente para quebrarem a barreira do anonimato. Difícil entender como isso acontece? Não é, não.

A ciência política aplicada revela que há uma notável importância dos recursos financeiros em qualquer campanha. Apesar das restrições cada vez mais severas para se fazer campanha política no país, ainda assim as despesas fundamentais têm um custo elevadíssimo.

Do adesivo de lapela ao cabo eleitoral que segura bandeirolas nas calçadas, do panfleto ao jornalzinho informativo, enfim, tudo aquilo que se torna alicerce na divulgação da candidatura custa dinheiro.

Sem falar nos profissionais que são contratados para atuarem na geração de fatos que se tornem notícias e chamem a atenção, visando manter o candidato em evidência. Além dos programas eleitorais no rádio e, principalmente, na televisão. Por mais restrições que se faça em todos esses itens, ainda assim é, e vai continuar sendo, fundamental fazer campanha em uma eleição.

Criatividade
A diminuição do tempo de campanha, que passa a vigorar este ano, além da condensação dos blocos destinados aos programas no rádio e na TV, não vão reduzir a demanda financeira das campanhas. O que haverá é a concentração no investimento qualificado, que normalmente é inclusive mais caro. A criatividade custa caro.

No final, a grande pergunta que se pode fazer diante da novidade deste ano, que é a inibição das doações de campanha, principalmente por causa das incertezas na economia, mas também pelo temor geral em relação aos “investimentos”, é se todas as candidaturas vão se colocar num mesmo patamar de penúria. A resposta é simples e direta: é óbvio que não.

As campanhas eleitorais sem estrutura condizente com seu tamanho, dimensão e perspectiva não permanecem em pé, não vivem até a contagem dos votos. Elas definham antes e se perdem na planície do esquecimento coletivo do eleitorado. Portanto, este ano não haverá fartura financeira nos comitês, e provavelmente a choradeira será ampla e irrestrita, mas com toda a certeza as grandes candidaturas vão montar boas estruturas.

Até nisso o processo eleitoral é incrível e positivamente seletivo. Quem não tem capacidade para somar apoios, inclusive financeiro, durante a campanha, teria condições de, se eleito, liderar uma população inteira em algum tipo de iniciativa?
Enfim, os grandes candidatos vão se destacar em relação àqueles que não representam nada além deles próprios. É sempre assim. Esse é o sistema. l

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.