Teatro em Goiás vive expansão e entusiasmo, mas ainda lida com falta de incentivos e perda de espaços culturais
28 fevereiro 2026 às 21h00

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A cena teatral goiana alcançou um patamar de maturidade técnica e estética que a coloca entre as mais consistentes do país. A diversidade de linguagens, a descentralização para cidades do interior e a formação acadêmica sólida sustentam esse crescimento. Mas o setor enfrenta um contraste evidente: enquanto o Estado mantém políticas de fomento e circulação, a gestão municipal de Goiânia é criticada por defasagem de incentivos e perda de espaços culturais.
Para tentar compreender o assunto, o Jornal Opção falou com o presidente do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, Carlos Willian Leite; o presidente da Federação de Teatro de Goiás (Feteg), Robson Soares Parente; diretor de produção e diretor geral da companhia, Alcides Miranda da Silva Neto; a atriz que atualmente vive a Jasmine do espetáculo infantil, Aladim, Marcela Suê; e o ator que atualmente vive o Aladim, Lister Araújo.
Presidente do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, Carlos Willian Leite
Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente do Conselho Estadual de Cultura de Goiás, Carlos Willian Leite, traçou um panorama abrangente sobre a cena teatral no Estado.

“Os maiores desafios hoje são infraestrutura, sobretudo no interior, onde faltam espaços equipados, e formação de público, sem a qual a cadeia produtiva enfraquece. Financiamento é importante, mas não se sustenta sem público e estrutura. ”
Para os próximos dez anos, Leite projeta um futuro positivo, desde que haja continuidade nas políticas culturais, com foco em descentralização, formação, circulação e profissionalização. “Mantida essa direção, o teatro goiano tende a ampliar protagonismo nacional e consolidar um ecossistema sustentável em todo o estado”, afirmou.
Apesar dessas dificuldades, segundo Leite, Goiás possui uma das cenas teatrais mais fortes do Brasil, marcada por produção contínua e grande pluralidade estética. Os grupos atuam em múltiplas linguagens, do teatro popular e de rua ao realismo, teatro épico, absurdo, físico, performativo, documental, comédia, musical e pesquisas híbridas. Essa diversidade revela maturidade e capacidade de renovação.
O presidente também apontou que embora Goiânia seja o centro mais visível, o teatro se fortalece também em Aparecida de Goiânia, Anápolis, Rio Verde, Catalão e na Cidade de Goiás. Porangatu merece destaque especial por sediar o TeNpo, festival que se tornou referência ao reunir grupos, estimular formação e consolidar público no interior. Leite ressalta que o teatro é capilarizado, quase todos os municípios têm alguma prática teatral, muitas vezes ligada a escolas, igrejas e projetos comunitários.
Carlos explicou que existe uma dramaturgia autoral consistente em Goiás, com nomes importantes que dialogam com o território e temas contemporâneos. Ao mesmo tempo, montagens de textos nacionais e internacionais coexistem, fortalecendo o repertório e ampliando referências sem diminuir a relevância da criação local.
Segundo ele, o teatro goiano é sustentado por mecanismos como a Lei Goyazes, o Fundo de Arte e Cultura e recursos federais. Editais contemplam produção, circulação, manutenção de grupos e formação, garantindo previsibilidade e continuidade. O Conselho de Cultura atua na qualificação dessas políticas, com foco na descentralização e interiorização dos recursos.
As universidades e escolas técnicas oferecem formação qualificada, mas Carlos alerta: “Formação não garante subsistência”. “O desafio é transformar preparo em permanência profissional, o que depende de circulação, estrutura técnica e redes de trabalho. Há diálogo entre instituições de ensino e grupos independentes, por meio de oficinas, intercâmbios e festivais, mas políticas de incentivo são necessárias para transformar aproximações pontuais em estrutura permanente”, disse.
O presidente afirmou que teatros públicos, como o Teatro Goiânia, seguem como base da cena, sustentando programação e fortalecendo a cadeia técnica.
Há esforços de manutenção e modernização, com crescente compreensão de que acessibilidade e atualização técnica devem ser políticas contínuas. O Conselho defende a descentralização dos equipamentos culturais, não apenas com novas construções, mas com circuitos, espaços multiuso e programação regular no interior, contou.
Ampliar o público, especialmente entre jovens e comunidades periféricas, exige combinar circulação com formação cultural. Carlos apontou que ações em escolas, oficinas, mediação e debates pós-espetáculo podem ser soluções. Circulação de espetáculos pelo interior já acontece, com destaque para o TeNpo de Porangatu e a Mostra Internacional de Teatro de Catalão, que reforçam o papel do interior como produtor de cena e público.
Presidente da Feteg
Em entrevista exclusiva ao Jornal Opção, o presidente da Federação de Teatro de Goiás (Feteg), Robson Soares Parente, também produtor cultural, ator e professor de teatro, fez uma análise criteriosa sobre o cenário teatral goiano.

Robson destacou que o teatro goiano melhorou consideravelmente desde o início dos anos 2000, impulsionado pelas leis de incentivo e pela formação de novos profissionais.
Já existiam grupos que resistiam, mas a partir dos anos 2000, com os cursos da Universidade Federal de Goiás (UFG) em Artes Cênicas, o Basileu França e o Gustav Ritter, houve uma formação mais sólida de atores e produtores. Isso elevou a qualidade e a produção, afirmou.
Hoje, segundo ele, há tantos grupos que nem sempre consegue acompanhar todos os espetáculos em cartaz. “Tem grupo que eu não conheço. Às vezes, descubro quando vejo o que estão apresentando. Tento assistir ao máximo, mas nem sempre a agenda permite”, apontou.
Apoio governamental
O presidente da Feteg elogiou a atuação da Secretária de Estado da Cultura de Goiás (Secult-GO). “Nós temos duas figuras muito fortes, a secretária Yara Nunes e o diretor de projetos Sacha. Ele sempre foi militante da cultura, começou no teatro e hoje organiza os editais junto ao jurídico. Ambos são acessíveis e comprometidos”, disse.
Já em relação ao município, Robson criticou a falta de incentivo. “A lei de incentivo municipal está há 20 anos sem atualização. O valor máximo de investimento é R$ 60 mil, insuficiente para montar e circular um espetáculo. Além disso, falta diálogo”, afirmou.
Ele ressalta que a situação é totalmente diferente da titular da pasta da Cultura estadual, cuja qual afirma que sempre tem um espaço na agenda para ouvir os artistas. “O secretário municipal parece ter medo da categoria. Vive num universo paralelo, voltado apenas para o sertanejo. Recebe vários cantores do gênero, mas não os artistas de teatro”, apontou.
Espaços independentes
Robson reconhece que houve ampliação dos espaços independentes em Goiânia, mas lamenta o fechamento do Teatro Goiânia Ouro pela Prefeitura. “Foi uma perda significativa. O prefeito alegou despesas excessivas, mas a verdade é que há uma política de privatização e afastamento da cultura”, criticou.

Ele listou os espaços que surgiram nos últimos anos: Teatro Novo Ato, Teatro Norval, Ouro Maia, Spartacus, além da sede da Feteg, que funciona desde 1976 e ganhou estrutura mais sólida a partir dos anos 2000. Também mencionou o pequeno teatro do Colégio Santo Agostinho, o Madre Esperança Garrido e o espaço alternativo usado pelo grupo Ateliê do Gesto, no Setor Jaó. “Esse último foi construído por uma família apreciadora das artes, para a filha, e hoje serve para ensaios e apresentações. É um espaço muito legal”, destacou.
O presidente ressaltou a importância dos pontos de cultura, iniciativa do Governo Federal que repassa verbas para estados e municípios. “Temos o Vera Cruz, o CRJ, o espaço do Mestre Vermelho, o do Noé, no setor Santo Antônio do Verve, que parece uns cogumelos gigantes, além do Eldorado Carajás, que migrou para a região Noroeste. Esses espaços ampliaram muito as possibilidades de atuação”, disse.
Ele lembrou ainda de dificuldades enfrentadas em gestões anteriores, como a do ex-prefeito Iris Rezende, quando houve tentativa de exigir devolução de verbas já aplicadas em projetos concluídos. “Fizemos tudo, com fotos, relatórios, filmagens, e queriam que devolvêssemos o dinheiro. Não tinha como”, lembrou.
Questionada sobre os levantamentos realizados por Robson, a Secretaria Municipal da Cultura (Secult), disse que “a atual gestão da Pasta está focada em fomentar uma cultura empreendedora, visando melhorias para a classe cultural em todas as modalidades, sem exceção, bem como com foco na expansão do turismo e da economia da cidade. O calendário cultural de 2026 prevê a realização de eventos diversos, inclusive para artes cênicas.”
A nota ainda continua: “A Secult lançou e já finalizou as inscrições para um edital com R$ 90 mil reais de fomento específico para realização de eventos culturais em março, mês do MotoGP em Goiânia, com abertura para artes e performance nas categorias dança, teatro e circo. As apresentações serão realizadas em parques e hotéis da cidade. Em breve, a Secult publicará novos editais para Política Nacional Aldir Blanc e Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com possibilidade de inscrição e benefício de quase R$ 14 milhões direcionados a todos os artistas.”
Sobre o Teatro Goiânia Ouro, a pasta disse que “a mudança do local ainda está sendo analisada como uma possibilidade. A decisão final será comunicada oficialmente de forma que não prejudicará a classe artística, muito pelo contrário, o objetivo da Secult é oferecer melhores condições para elencos e públicos que frequentam o local, visto que o Teatro Goiânia Ouro é uma construção muito antiga e o prédio não possui acessibilidade”, finalizou o texto.
Formação e qualificação
Sobre espaços de formação, Robson explicou que a Feteg atua mais como espaço de ensaios e apresentações, sem capital para manter cursos regulares. “Hoje temos o Basileu, o Gustav Ritter e a Universidade Federal de Goiás (UFG) que oferecem formação sólida desde a base até o nível superior. Isso tem garantido uma geração de artistas muito bem preparados”, afirmou.
Ele destacou também a importância da qualificação para elaboração de projetos. “Com o aumento de profissionais, a concorrência nos editais ficou maior. Hoje, além da documentação correta, é preciso mérito cultural e experiência. Mas a formação melhorou muito, com cursos livres que ensinam a escrever projetos. Nossa companhia, a Antropos, já realizou seis projetos de formação cultural, formando dezenas de pessoas”, apontou.
Acessibilidade e gratuidade
O presidente da Feteg ressaltou que os projetos financiados por leis de incentivo garantem acessibilidade cultural. “Normalmente as apresentações são gratuitas, porque fazem parte da contrapartida. Isso democratiza o acesso e leva o teatro a públicos diversos”, explicou.
Projetos futuros
Entre as metas da federação, está a ampliação de sua sede no setor Sul. “Queremos construir um prédio maior, com mais salas. O projeto arquitetônico já está pronto, mas precisamos de edital de financiamento. Não será menos de um milhão de reais, porque será um prédio alto, adequado às demandas”, revelou.
O Robson destacou que os editais contemplam também artistas iniciantes. “Existem editais específicos para novos talentos, que não concorrem diretamente com companhias de 30 anos de experiência. A Feteg cuida dos seus filiados, que já têm estrutura, mas os editais garantem espaço para quem está começando. O currículo pesa muito nessas horas, não tem jeito”, disse.
O custo invisível do teatro
Robson Parente também revelou em entrevista os bastidores financeiros da produção teatral. Segundo ele, montar um espetáculo hoje, mesmo de pequeno porte, exige investimentos muito superiores aos valores previstos em editais públicos, que permanecem desatualizados há mais de duas décadas.
O presidente explicou que uma montagem considerada “pequena” não sai por menos de R$ 150 mil. “Parece muito, mas não é. Na hora que você começa a pagar as contas, já foi o dinheiro. Você tem que ensaiar, montar e apresentar”, afirmou.
Os custos incluem cachês de ensaio e apresentação, montagem de cenário, figurino, preparação física e vocal, locação de espaços e divulgação em mídias sociais.
Ele ressaltou que apenas em casos de monólogos ou produções extremamente enxutas é possível reduzir o orçamento para algo entre R$ 50 mil e R$ 100 mil. “Isso é muito relativo, depende do cenário e da proposta artística”, pontuou.
No caso de espetáculos de maior porte, os valores sobem para até R$ 250 mil. “É muito dinheiro se você pensar, mas não é. São dois, três meses de ensaio, locação de teatro, mídia social, assessoria de imprensa, cenário, figurino, preparação física e vocal. Tudo isso é investimento porque você está contratando outros artistas e profissionais para auxiliar na montagem”, explicou.
Ele criticou a falta de atualização dos valores destinados às montagens pela Prefeitura de Goiânia. “O valor que tem lá é R$ 60 mil. Com isso você não faz um espetáculo bom… não é que não vá fazer algo de qualidade, mas terá que trabalhar com sérias restrições. Um monólogo, dois atores em cena e olhe lá. Senão, você tira dinheiro do bolso”, denunciou.
Sobre os editais da Feteg, o presidente explicou que a entidade não possui editais próprios de montagem, mas participa de concorrências voltadas a festivais. “Um festival aprovado na Lei Goyazes com R$ 200 mil é um valor legal. Você não precisa trabalhar com montagem, os espetáculos já estão prontos. O investimento vai para equipe técnica, assessoria de imprensa, mídia social e produção. É bem mais fácil”, afirmou.
No entanto, quando há necessidade de trazer grupos de fora, os custos sobem. “Aí o valor mínimo é R$ 300 mil, porque você vai gastar com passagens, hospedagem, alimentação e cachês. Tudo isso é investimento no produto de qualidade que está vindo”, destacou.
O presidente explicou que, quando a Feteg organiza festivais financiados por editais, os grupos filiados têm prioridade para se apresentar. “Se houver dez espetáculos da Feteg, podemos incluir outros dez de artistas não filiados, com cachês proporcionais. É uma forma de valorizar os grupos locais e, ao mesmo tempo, abrir espaço para outros artistas”, apontou.
A arte como essência humana
Robson fez uma reflexão sobre o significado de ser artista e a importância do teatro para a sociedade. “O teatro faz parte da vida. A gente está interpretando o tempo inteiro: no trabalho, em casa, com os amigos. O ser humano não vive sem arte. A roupa que vestimos precisou de um artista para desenhar, o carro que dirigimos também. Arte está em tudo. É preciso valorizar os artistas, olhar para eles sem preconceito. Às vezes não entendo uma arte, não gosto, mas existe outra que me toca. O importante é investir, se apropriar e procurar conhecer as diferentes áreas. Música, artes visuais, teatro… tudo isso é essencial”, finalizou.
Alcides Miranda, o teatro goiano
Com 32 anos de experiência e à frente da AM Produções Artísticas há mais de duas décadas, Alcides Miranda da Silva Neto, 48 anos, vive o teatro intensamente. Diretor de produção e diretor-geral da companhia, ele compartilhou sua visão sobre o cenário cultural goiano, os avanços recentes e os obstáculos que ainda persistem para manter viva a arte cênica.

Segundo Alcides, a cultura goiana tem caminhado bem nos últimos anos, especialmente pelo apoio do Estado. “Inclusive a gente está hoje com espetáculo em cartaz no Teatro Goiânia, com incentivo da da Secult estadual, um incentivo muito bacana”, afirmou.
Ele reconheceu que esse apoio tem sido fundamental, mas aponta que ainda falta maior envolvimento da Prefeitura de Goiânia. “Eu acho que a Prefeitura também deveria ir no mesmo caminho. Falta, de uma certa forma, um incentivo maior da Secretaria Municipal de Cultura”, disse.
Os desafios da produção teatral permanecem intensos. “Às vezes, na produção independente, você tem que levantar toda uma equipe: cenógrafo, figurinista, coreógrafo, atores, diretor de cena. E também não estamos tendo muito espaço para ensaios”, explicou.
Nesse ponto, Alcides destacou o papel da Federação de Teatro do Estado de Goiás (Feteg), que tem cedido espaços para grupos e companhias. “A maioria dos artistas não tem sede própria, não tem teatro, não tem espaço para ensaio. Então, a luta é muito grande para levantar um espetáculo, fazer cenário, figurino, muitas vezes a custo zero”, apontou.
A AM Produções, que completa 21 anos de existência, é especializada em espetáculos para crianças. “Nosso maior público são alunos das escolas públicas, aqueles que não têm muito acesso ao teatro. Uma grande parte nunca foi ao teatro”, relatou.
A companhia trabalha releituras de clássicos, como o atual espetáculo “Aladim”, adaptado para os dias de hoje. “Demos uma roupagem diferente, trabalhando valores e princípios, que são coisas de que as crianças precisam muito. O mundo, na verdade, está precisando”, contou.
O objetivo é unir ludicidade e reflexão. “A criança vê a mensagem através do personagem, num espetáculo muito lúdico, que atrai a atenção e facilita o entendimento, até mesmo em relação ao dia a dia dela”, afirmou.
Para Alcides, o teatro deveria ser parte da educação formal. “O teatro é transformador. Ele dá liberdade de pensamento, estimula a criatividade e a imaginação. A pessoa se sente mais livre. Já foi comprovado que ajuda até em casos de depressão. O teatro é muito importante para a sociedade e para o ser humano”, disse.
Apesar dos avanços, Alcides aponta uma barreira cultural. “O grande problema do brasileiro é não ter a cultura de ir ao teatro. Às vezes, a gente faz espetáculo no fim de semana e o público não dá nem para pagar a taxa do teatro. A cultura do brasileiro é outra: futebol ou barzinho. Os teatros estão vazios, as bibliotecas e os museus também”, contou.
Ele acredita que essa realidade pode mudar. “A partir do momento que o brasileiro começar a despertar para esse prazer que é o teatro, muita coisa vai ser transformada. O teatro é uma terapia além de ser arte. Você não perde nada por ir ao teatro, só tem a ganhar”, explicou.

Para Alcides, o futuro da arte goiana depende de apoio institucional e da consciência do público. “O artista não tem condições de andar sozinho. Precisa de incentivo do Estado e do município. E as pessoas precisam experimentar. Tem gente que fala: ‘Ah, eu não gosto de teatro’. Mas já foi? Não. Então por que fala que não gosta? Vá pelo menos uma vez, sem compromisso. Experimente”, disse.
Alcides Miranda resumiu sua trajetória e sua crença no poder da arte: “Eu vivo o teatro. O teatro é muito bom porque é uma terapia. Você só tem a ganhar. Para que a arte goiana continue em pé, precisamos de incentivo e de público consciente”, finalizou
A atriz que dá vida à princesa Jasmine
Aos 31 anos, Marcela Suê vive intensamente o sonho de ser atriz. Há três anos no teatro, ela encontrou na arte infantil não apenas uma realização pessoal, mas também a oportunidade de transformar o olhar das crianças sobre o mundo. “Ser atriz é uma realização de um sonho, primeiramente. E é um prazer realizar um sonho e realizar o sonho de outras pessoas. É levar o lúdico, a arte, a imaginação, é trazer essa euforia para as crianças”, afirmou.

Marcela destacou a importância do teatro como espaço de libertação e descoberta. Para ela, o palco é o lugar onde os pequenos podem sair da rotina da sala de aula e mergulhar em histórias que despertam novas possibilidades.
“As crianças saem desse cubículo que é a sala de aula e podem ver toda a construção de um novo mundo, onde elas podem imaginar o que quiserem. Claro que a gente conta uma história, mas o que elas fazem dessa história na mente delas é outra coisa completamente diferente”, disse.
No espetáculo, Marcela interpretou Jasmine, personagem que sempre a fascinou. Diferente das princesas tradicionais, Jasmine é marcada pela força e pelo desejo de liberdade. “Ela não é aquela princesa do larararará, ela é uma princesa muito empoderada. O pai a protege demais, não deixa nem sair do castelo. Ela se sente aprisionada e não tem voz, porque só os homens podem falar”, explicou.

A frustração da personagem diante de um destino imposto a leva a fugir do palácio. É nesse momento que encontra Aladdin, cuja bondade e simplicidade contrastam com os príncipes que lhe são apresentados. “Ela tem essa gana de conquistar o mundo, de conhecer o mundo. O Aladdin, com o seu tapete, apresenta o mundo para Jasmine, porque ela não quer ficar só dentro do castelo. Ela não quer só ficar dentro da caixinha. Ela é a própria salvadora”, diz Marcela, emocionada por dar vida a uma princesa que considera “poderosa, dona do próprio nariz e que corre atrás do que realmente quer.”
Apesar da paixão pela atuação, Marcela reconheceu as dificuldades da profissão, especialmente em Goiás. Formada em design gráfico pela UFG há cerca de 15 anos, ela decidiu seguir o caminho da arte mesmo diante dos desafios. “Sempre foi um sonho ser atriz. Mas a gente sabe que a arte não é valorizada. Cresci numa família humilde, onde a arte era um hobby. Chegou um ponto da minha vida em que eu disse: ‘eu nasci para isso’”, disse.
Ela afirmou que ser artista exige coragem e amor pelo que se faz. “A gente sabe que não é fácil. O artista não é valorizado, às vezes, é ridicularizado. Mas a gente faz porque ama. E sabemos que faz a diferença. No fim das contas, tudo vale a pena e é incrível”, finalizou.
O ator que dá vida ao Aladim
O ator goiano Lister Araújo, de 27 anos, acumulou uma década de experiência nos palcos e atualmente interpreta Aladdin no espetáculo infantil homônimo. Em entrevista ao Jornal Opção, ele compartilhou sua trajetória, a importância do teatro para crianças e adultos, e sua visão sobre o cenário artístico em Goiás.

Aladdin, segundo Lister, é um personagem humilde e sonhador, que ajuda quem precisa e luta contra injustiças. “Ele nunca teve nada na vida, mas sempre sonhou. Por vir de um lugar de baixa renda, às vezes, opta por outros meios e acaba preso. É nesse caminho que encontra Jasmine, descobre que ela é princesa e vive a aventura de conquistar seu amor. Ja’Far o procura porque só quem tem coração puro pode entrar na caverna mágica. Aladdin é o único digno, e lá encontra o gênio e o tapete, que o ajudam a se tornar príncipe”, explicou.

Para Lister, ser ator é uma experiência transformadora.
É uma maravilha poder fazer parte da vida das crianças, colocar brilho em um mundo que, às vezes, é tão cruel. A arte faz sonhar e mostra que tudo é possível, basta acreditar. É um prazer enorme poder contribuir com isso, disse.
Ele destaca a relevância do teatro na formação infantil. “O teatro é maravilhoso para as crianças. Elas conseguem imaginar, criar, desenvolver criatividade, se divertir com colegas e vencer a timidez. Eu mesmo fui uma criança tímida, e o teatro me libertou disso. Hoje, consigo dar entrevistas, conversar, me expressar. Minha mãe me colocou no teatro e eu me apaixonei. Quero passar essa cultura adiante, porque o mundo sem arte vira cinza. É a arte que colore tudo”, contou.
Sobre o cenário profissional em Goiás, Lister disse e Estado é referência. “Já assisti espetáculos no Rio, São Paulo e Salvador, e posso dizer que Goiânia está no mesmo nível, até um pouco acima em alguns aspectos. Não temos o glamour da Broadway, mas conseguimos chegar perto em qualidade. Levamos crianças ao teatro em projetos especiais, oferecendo a mesma experiência que em grandes centros, mas acessível às classes populares”, apontou.
Apesar da excelência, ele reconheceu os desafios de uma forma geral.
O público goiano, às vezes, esquece do teatro, porque vive na correria do trabalho. Preferem bares, festas, boates. Mas por que não ir ao teatro? Precisamos de mais divulgação, entrevistas e apoio da mídia para atrair esse público. O artista goiano é excelente, mas falta valorização, afirmou.
Lister também ressaltou o impacto emocional do teatro. “Quando você sai de um espetáculo, sai feliz, refletindo sobre as cenas, sobre os personagens. Às vezes, um personagem pode até influenciar sua vida. O teatro ensina bons costumes, mostra o certo e o errado. Até o vilão tem um passado, um motivo para ser como é. Essas nuances enriquecem a experiência”, disse.
Ele conclui a entrevista com um convite. “Quem gosta de espetáculo, vá ao teatro. É essencial para o desenvolvimento pessoal. O teatro me ajudou a criar minha própria personalidade e continua me transformando até hoje. A arte é cultura, é vida, é o que colore o mundo”, finalizou.
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