O El Niño é o maior evento climático do planeta. Em certo período, as águas do Oceano Pacífico equatorial aquecem, resultando em uma mudança nos padrões dos ventos que pode causar desequilíbrio em várias regiões do mundo. O Bureau de Meteorologia da Austrália revelou que o El Niño de 2023 pode se tornar o mais severo já registrado. A agência climática até mesmo apelidou esse fenômeno de Super El Niño e emitiu um alerta sobre as alterações que ele provocará.

O evento terá o poder de afetar condições de umidade e temperatura, resultando em situações climáticas extremas. O El Niño ocorre a cada dois a sete anos e pode durar de nove a doze meses. Como consequência, há registros de recordes de temperaturas, tanto frias quanto quentes, além do aumento de ocorrências de chuvas intensas e períodos de seca, dependendo da localidade. De acordo com a agência australiana, em 2023, espera-se que o evento cause um aumento de temperatura acima do normal, resultando em condições mais secas.

Além disso, cientistas preveem fortes ventos ao longo do equador, o que afeta as correntes marítimas. No Oceano Pacífico oriental, espera-se que as águas permaneçam mais frias. Por outro lado, na região equatorial, prevê-se um aumento de temperatura de aproximadamente 3º C a 3,2º C entre os meses de outubro e novembro. É certo que o mundo inteiro sofrerá as consequências desse Super El Niño, e o Brasil não será exceção.

No Centro-Oeste brasileiro, por exemplo, os especialistas indicam um considerável aumento nas temperaturas e uma diminuição na quantidade de chuvas, enquanto no sul do país, espera-se um aumento nas precipitações, com possibilidade de grandes enchentes. No nordeste do Brasil, que já é castigado por secas todos os anos, as previsões são de estiagens ainda mais severas. Na Amazônia, os efeitos serão de um verão mais intenso, o que terá um impacto direto no Nordeste e no Centro-Oeste.

Os pesquisadores, no entanto, não estão otimistas em relação à economia global, pois o El Niño terá um impacto desastroso em todas as nações. Os efeitos poderão repercutir não apenas neste ano, mas também no futuro. De acordo com os especialistas, o prejuízo estimado acumulado em todo o mundo chegará à casa dos R$ 16,6 trilhões de reais.

Em Goiás

Para especialistas em climatologia e representantes de produtores rurais, é necessário agir com cautela, pois essa é uma circunstância sobre a qual não se tem controle. André Amorim, gerente do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo), explica que o El Niño começou oficialmente em 8 de junho, sendo identificada uma anomalia positiva de mais de meio grau de temperatura no início. 

André Amorim, gerente do Cimehgo | Foto: Reprodução

André Amorim prevê que a população goiana começará a perceber as características desse fenômeno a partir deste mês de julho. “Quando o El Niño se tornar mais ativo, o ar frio não conseguirá percorrer o Brasil com tanta facilidade, resultando em altas temperaturas em Goiás, especialmente nos meses de agosto e setembro. Em algumas regiões como Porangatu, Aragarças, São Miguel do Araguaia, Crixás e no centro-norte, a sensação térmica poderá chegar a cerca de 45º C.” 

O gerente do Cimehgo reforça que as condições climáticas são prognósticas e, nesse sentido, o El Niño estará dentro da escala de moderado a forte em termos de intensidade. Segundo André Amorim, não ocorrerá um Super El Niño, como alguns estão prevendo. “O planeta não vai explodir ou pegar fogo, ninguém vai morrer queimado ou assado”, brinca ele.

No entanto, esse cenário gera certa preocupação quando se trata da agricultura, que depende de água para obter uma boa produção. Com a escassez de chuvas e solo muito seco, os produtores rurais devem tomar precauções, avalia André Amorim. 

Ele destaca que a previsão para os meses de novembro e dezembro é de pouca chuva, e por isso os agricultores devem ser cautelosos. “Os produtores precisam acompanhar as informações atualizadas sobre o evento para fazer um planejamento adequado diante desse possível panorama. O que não é recomendado é que os produtores se entusiasmem e, nas primeiras chuvas, plantem da mesma forma que fariam em um ano normal, evitando assim surpresas desagradáveis”, alerta André Amorim. 

Outro fator que deve ser observado é o aumento de incêndios florestais, uma vez que a vegetação ficará mais seca. Alexandro Alves dos Santos, Coordenador Técnico do Instituto para Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG) e assessor Técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG), destaca que Goiás está localizado em uma região central do país, o que significa que os efeitos do El Niño não serão tão drásticos como em regiões extremas.

No entanto, Alexandro ressalta que os goianos não escaparão das consequências desse evento. “Qualquer extremo climático é prejudicial tanto para a agricultura quanto para a pecuária. Como temos uma pecuária extensiva, não podemos deixar de mencionar os impactos nas pastagens, que também são afetadas. As plantas, assim como os seres vivos, possuem fisiologia, respiração e reações metabólicas. Portanto, o fato de a agricultura em larga escala ser desenvolvida ao ar livre torna essa ocorrência preocupante”, avalia Alexandro.

Alexandro Alves dos Santos, Coordenador Técnico do Instituto para Fortalecimento da Agropecuária de Goiás | Foto: Acervo Pessoal

Segundo ele, a produtividade certamente será afetada, causando prejuízos para os produtores, reduzindo a oferta de produtos no mercado e inevitavelmente elevando os preços finais das mercadorias. No entanto, Alexandro destaca que os produtores devem se manter atualizados, planejar-se e estar atentos às condições climáticas.

Outro elemento importante nessas circunstâncias, de acordo com Alexandro, é que os produtores não deixem de contratar o seguro agrícola, que indeniza em caso de adversidades anormais, uma vez que o seguro oferecido pelo governo federal é ineficiente. “Cautela no momento do plantio é o procedimento a ser adotado pelos produtores”, enfatiza Alexandro.

Para Josué Lopes Siqueira, Gerente de Divisão Técnica da Ceasa de Goiás, nos últimos cinco anos os produtores têm enfrentado mais períodos de estiagem e escassez de água para irrigação. Segundo o técnico, a bacia do Meia Ponte tem sofrido esvaziamento gradativo ano após ano, mesmo em situações normais. No entanto, Josué ressalta que a preocupação será ainda maior este ano devido ao El Niño.

“Se a incidência desse fenômeno ocorrer conforme os cientistas estão dizendo, as condições serão realmente muito complicadas para os produtores em geral. As hortaliças e produtos hortifrúti serão especialmente prejudicados pela escassez de água nos mananciais. Na verdade, ainda não sabemos a extensão dos danos que podem afetar essa produção.”

Josué, no entanto, explica que o setor atacadista possui uma grande vantagem que é o intercâmbio, e sempre que ocorre algum fator que afeta a produtividade, o setor recorre a outros estados que estão produzindo o mesmo produto. Josué esclarece que Goiás sempre tem fornecido produtos para outras regiões, e o oposto também é verdadeiro. Por esse motivo, ele avalia que não há motivo para pânico por parte da população em relação a possíveis problemas de abastecimento. “Estamos preparados”, garante.

Aprosoja

Joel Ragagnin, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja), reconhece que o mundo está sob a influência do El Niño e que isso também afetará as safras de 2023 e 2024, causando consequências nessas produções. Joel reitera que os produtores devem considerar possíveis reduções na produtividade devido ao fenômeno em seus planejamentos.

Joel alerta os produtores a ficarem atentos a possíveis mudanças climáticas durante o cultivo da safra de soja e do milho safrinha. “Nós, que estamos no Centro-Oeste, sofremos intervenções climáticas em certa medida imprevisíveis. Podemos enfrentar situações de muita chuva e, ao mesmo tempo, um aumento nas temperaturas, e é claro que isso prejudica o cultivo das lavouras em Goiás”, afirma.

Segundo Joel, a região norte será a mais impactada de forma negativa, mas ele ressalta que os produtores não precisam ficar angustiados. “Não há motivo para aflição, mas é importante agir com cautela e utilizar todas as ferramentas disponíveis para nos protegermos dessas variações climáticas. Devemos seguir boas práticas agrícolas, como o plantio direto, a cobertura do solo com palhada, observar as questões relacionadas ao momento do plantio e estar bem preparados para a colheita”, orienta.