Por que a sessão do impeachment virou um “show do milhão” na Rede Globo

Para levar Dilma Rousseff ao matadouro político, deputados tentaram tirar proveito de seu minuto de fama da melhor forma possível. Exaltaram a Pátria, Deus ou a própria família. No fim, expuseram a si mesmos — o que para muitos foi o erro fatal

Bruno Araújo (centro) é carregado após o voto decisivo: comemoração de futebol | Foto: Reprodução

Bruno Araújo (centro) é carregado após o voto decisivo: comemoração de futebol | Foto: Reprodução

Elder Dias

Os números do Ibope confirmaram, no início da semana passada, que a votação de domingo, 17 de abril, na Câmara dos Deputados, tornara-se o maior acontecimento midiático da política brasileira em audiência de todos os tempos. No instante em que o tucano Bruno Araújo (PSDB-PE) daria o iminente voto decisivo pela abertura de processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), a TV Globo e as demais emissoras que transmitiam a sessão juntaram 50 pontos entre os telespectadores de São Paulo. Somente na capital paulistana, isso significava que 3,5 milhões de residências – de um total de pouco mais de 4 milhões – estavam ali, testemunhando aquele momento.

Talvez isso consiga explicar um pouco do alvoroço verbal, gestual, sonoro e comportamental que acometeu centenas de deputados naquelas dez horas de votação. Muitos ali, mesmo com vários mandatos nas costas, até então só haviam – se haviam – aparecido em rede nacional na janela obrigatória para o programa de seus partidos políticos. Aquela hora em que geralmente os brasileiros ficam irritados porque, em vez da novela ou do telejornal, surge uma cara feliz, um senhor engravatado, a logomarca de uma sigla e uma animada música de consultório ao fundo.

Entende-se, então, por que cada declaração de voto (dizer um simples “sim” ou um convicto “não” à abertura do processo contra Dilma) se estendeu, por vezes, a quase um minuto. Se a Rede Globo fosse cobrar comercialmente pelo horário – em que normalmente estaria transmitindo o “Fantástico” –, o parlamentar teria de desembolsar cerca de R$ 16 mil por segundo. Ou quase R$ 1 milhão a cada minuto. Um histriônico “show do milhão” que, por ironia, apenas o SBT (a emissora que apresentava uma atração com esse nome) não transmitiu.

Não foi à toa que o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) — acusado de mentir em depoimento a uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) e investigado por uma série de crimes de corrupção, recebimento de propina e lavagem de dinheiro —, agendou a votação estrategicamente para o domingo. Maquiavélico em sua intenção de destronar sua desafeta Dilma Rousseff, ele queria usar o dia de folga do cidadão como forma de aumentar a pressão sobre os pretensos colegas indecisos. O principal efeito que obteve, porém, foi outro: escancarou à Nação a baixíssima qualidade do Legislativo nacional.

Na semana passada, o mais importante jornal dos Estados Unidos, “The New York Times”, usou sua primeira página para dar destaque à votação. A reportagem fez um resumo do que a visão norte-americana captou daquele dia do Congresso brasileiro (tradução a partir do original em inglês): “Para os que não estão acostumados com a verborragia da política brasileira, a sessão legislativa de domingo à noite que aprovou o impeachment da presidente Dilma Rousseff poderia ser confundida com um jogo de futebol. Quando o resultado da votação se definiu, deputados da câmara baixa do Congresso assobiaram, socaram o ar e carregaram em seus ombros o homem que deu o voto decisivo. Um legislador, vestindo uma bandeira como se fosse uma capa, disparou uma arma que jogou confetes.”

Wladimir Costa, o deputado do rojão de confetes: no Pará, é acusado de desvio de recursos da Secretaria de Esportes para a ONG que dirige | Foto: Antônio Barboza/Divulgação

Wladimir Costa, o deputado do rojão de confetes: no Pará, é acusado
de desvio de recursos da Secretaria de Esportes para a ONG que dirige
| Foto: Antônio Barboza/Divulgação

O deputado em questão foi Wladimir Costa (SD-PA). Com a bandeira do Pará como se fosse a capa do Superman e tomando açaí, fruta típica de seu Estado, ele já havia buscado os holofotes na tribuna dias antes, durante seu pronunciamento na fase pré-votação. Também de lá disparou uma espécie de bazuca com papel picado. O mesmo gesto repetiu no domingo. Na semana seguinte, o pós-festa apontou: aquele mesmo deputado que, com convicção, chamou o ex-presidente Lula de “bandido” e a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) de “ladra” era desvelado como o mais faltoso integrante da Casa. De 125 sessões realizadas em 2015, ele deixara de estar em 105. Um índice de menos de 20% de presença. Se o custo mensal de um deputado é de R$ 146 mil, e caso ele tenha recebido salários e benesses integralmente, poderíamos dizer que ele “roubou” mais de R$ 1,1 milhão dos cofres no ano passado ao se ausentar? Talvez. Caso escape desse veredicto, ainda teria de explicar a acusação de liderar um esquema de desvio de recursos por um convênio fechado entre uma organização não governamental que dirige e a Secretaria de Esporte e Lazer do Pará.

Mas o caso de incompatibilidade “discurso versus realidade” mais memorável entre o pronunciado ao microfone e “a vida como ela é” foi protagonizado pela deputada Raquel Muniz (PSD-MG). Na noite do impeachment, antes de pronunciar uma infinidade de felizes “sims” , ela fez propaganda positiva da gestão do prefeito de Montes Claros. No outro dia, o Brasil todo descobriria que o tal gestor era, na verdade, Ruy Muniz (PSB), o marido dela, que então estava sendo preso suspeito de prejudicar o hospital público da cidade para favorecer o de sua família.

Família, aliás, que foi bem lembrada por Raquel em seu discurso de 35 segundos (comercial de R$ 560 mil nos valores da Globo, é bom lembrar). “Meu voto é por Thiago, David, Gabriel, Matheus, minha neta Júlia, minha mãe Elza…”. Assim como ela, quase um quinto dos presentes se lembraram de algum parente. Já com a vitória consumada sobre o governo, o deputado Dudu da Fonte (PP-PE), que mudou seu voto a favor do impeachment, chegou a levar o filho adolescente ao microfone para votar “sim”. Até Eduardo Cunha achou que a bagunça estava tomando ares incontornáveis e impediu a aberração regimental por parte do xará — que, segundo delação do amigo Paulo Roberto Costa (preso na Operação Lava Jato), intermediou propina de R$ 10 milhões ao falecido deputado tucano Sérgio Guerra, em troca de abafar uma CPI sobre a Petrobrás.

Raquel Muniz profere voto em que elogia gestão do marido, prefeito de Montes Claros (MG): na manhã seguinte, Ruy Muniz estava preso por corrupção | Foto: Reprodução/Globo News

Raquel Muniz profere voto em que elogia gestão do marido, prefeito de Montes Claros (MG): na manhã seguinte, Ruy Muniz estava preso por corrupção | Foto: Reprodução/Globo News

Mas a atitude sem noção de Dudu da Fonte escancara muito além: da forma mais clara possível, estão materializados nela séculos de patrimonialismo, da tomada do que deveria ser público para uso privado. Cerca de 50% da Câmara dos Deputados é composta de herdeiros políticos, graças ao repasse do poderio de pai para filho (ou de marido para mulher) sobre currais eleitorais. Em um cenário totalmente pessimista, muito provavelmente daqui a algumas legislaturas esse garoto de Dudu da Fonte estará levando seu próprio filho para votar pelo impeachment do neto de Paulo Maluf (PP). Que, aliás, continua deputado federal por São Paulo e refugiado em seu próprio País – se der um passo fora, a Interpol o prende, por ser criminoso internacional, procurado pelos Estados Unidos. Maluf é outro que também votou pelo impeachment de Dilma Rousseff.

O visual foi essencial

Para aparecer na TV no meio de uma multidão em plena era da sociedade do espetáculo, é sempre bom garantir, além do tempo de exposição, a maior visibilidade possível. É notável como a importância dada a isso mudou em 24 anos, desde o processo de impeachment de Fernando Collor, hoje senador. Em vídeos da época no YouTube, nota-se todos os deputados em trajes formais, sem nenhum adereço – nada de bandeiras, muito menos cartazes “Tchau, querido” ou “Não vai ter golpe”, fitas vermelhas ou verde-amarelas, espingardas de confete. Nem tigelas de açaí.

Talvez esse colorido pudesse ser tido como “legado” da Copa, mas é uma hipótese de pouca consistência. Mais prático, ainda que doloroso, pensar que os deputados se esforcem no figurino para, com a atenção à forma, suprir um visível despreparo ou contundente falta de conteúdo para a função que ali estavam exercendo.

Aqui, uma constatação importante: a declaração de voto, em tese, serviria para o parlamentar justificar seu apoio ou não ao prosseguimento do processo de impeachment por “crime de responsabilidade” contra a presidente. Dos 511 deputados presentes, somente 22 usaram essa expressão e apenas 7 o termo “pedaladas”. Ou seja, só 5,6% se ativeram à real pauta da sessão.

Alguns deputados adotaram a tática “seja você mesmo seu outdoor”, escolhendo posição estratégica de “papagaio de pirata” para permanecer durante toda a sessão expostos na TV. E houve a valorização do tempo do voto. Em 1992, o Paulo Romano (PFL-MG), precisou de 25 segundos para se declarar depois do chamado da mesa para a hora decisiva: “Senhor presidente, pela ética, mas em nome desta Casa e do povo brasileiro, saibamos ser coerentes. Meu voto, pela dignidade, por aquilo que Minas Gerais representa, é sim! Viva o Brasil!”.

No domingo, saudado com a cantiga de arquibancada “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, o tucano Bruno Araújo usou 1 minuto e 38 segundos para dizer: “Senhor presidente, quanta honra… quanta honra o destino me reservou de poder, quanta honra o destino me reservou de poder da minha voz sair o grito de esperança de milhões de brasileiros. Senhoras e senhores, Pernambuco nunca faltou ao Brasil. Carrego comigo nossas histórias de luta pela liberdade e pela democracia. Por isso eu digo ao Brasil: sim pelo futuro!”

Na essência, dois votos muito parecidos: citações a valores universais, exaltação à Pátria e ao próprio estado, bem como à esperança do povo brasileiro. Na prática, uma demora quatro vezes maior para dizer a mesma coisa. No “show do milhão” da Globo, tempo é dinheiro.

A guerra de cusparadas “versus” uma ode à tortura

Jean Wyllys responde com cusparada ao aceno provocativo de “tchau, querida” de Jair Bolsonaro; logo após sofreria o revide do filho dele, Eduardo Bolsonaro | Foto: Reprodução

Jean Wyllys responde com cusparada ao aceno provocativo de “tchau, querida” de Jair Bolsonaro; logo após sofreria o revide do filho dele, Eduardo Bolsonaro | Foto: Reprodução

A história de que os opostos se atraem, advinda da observação da física magnética, é uma das maiores falácias que viraram ditos populares. Na vida prática, os opostos querem, sim, distância um do outro – embora isso não signifique algo negativo para ambos. Jair Bolsonaro (PSC) e Jean Wyllys (PSOL) são deputados federais pelo Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, água e óleo. Na ordem de votação de domingo passado, suas declarações ao microfone — por Estado, em ordem alfabética — foram separada apenas por Jandira Feghali (PCdoB). Talvez a deputada ser chamada entre um e outro tenha evitado coisa mais grave do que a cusparada que o parlamentar do PSOL disparou rumo ao militar. Mas isso é filigrana. O fato é que ambos os lados ganham com a disputa, porque polarizam e radicalizam posições. Em outras palavras, é bem provável que, sendo novamente candidatos, tanto um quanto o outro (Bolsonaro com absoluta certeza) ampliarão bastante seu eleitorado. No lucro, dois arqui-inimigos: digamos que, se Jean Wyllys fosse Batman, Bolsonaro seria a Mulher Gato.

Mas, no episódio de hoje, a história se atém ao que ambos protagonizaram no domingo. Vamos, primeiro, à declaração de voto de Bolsonaro:

— Neste dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história nesta data, pela forma como conduziu os trabalhos nesta Casa: parabéns, presidente Eduardo Cunha! Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve (sic), contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra o Foro de São Paulo, pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é assim!”.

Entre tantas referências de sua pauta ultraconservadora, Bolsonaro lembra o coronel Ustra, que, de 1970 a 1974, foi chefe do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI), considerado o QG da repressão. Era o período do governo Médici, o mais violento em relação aos contrários ao regime, quando Dilma Rousseff esteve presa por quase três anos. Na casa da democracia, o deputado do PSC usa seu voto, portanto, para saudar um profissional da tortura. Mais do que isso usa um aposto provocativo (“o pavor de Dilma Rousseff”) para tripudiar na cara da torturada.

Agora o que disse Jean Wyllys:

— Em primeiro lugar, quero dizer que estou constrangido de participar desta farsa, desta eleição indireta, conduzida por um ladrão, urdida por um traidor conspirador e apoiada por torturadores, covardes, analfabetos políticos e vendidos! Essa farsa sexista! Em nome dos direitos da população LGBT, do povo negro exterminado nas periferias, dos trabalhadores da cultura, dos sem-teto, dos sem-terra, eu voto não ao golpe! E durmam com essa, canalhas!

Foi um voto visivelmente declarado em estado de exaltação. O parlamentar ex-BBB estava alterado e, na volta, não resistiu ao que relatou ter sido um insulto de Bolsonaro e claramente lhe dirigiu uma cusparada. O PSC de Bolsonaro afirmou que vai entrar com representação contra Wyllys por quebra de decoro. Resta saber se o PSOL vai fazer o mesmo contra o deputado paulista Eduardo Bolsonaro, filho da vítima e integrante do PSC de Bolsonaro.

O duelo de cusparadas é só mais um sinal a revelar o nível de maturidade da Câmara dos Deputados. Algo que só não é tão preocupante quanto o nível de caráter, expresso na maldade visceral do pronunciamento de Jair Bolsonaro. Resta questionar e refletir: na Alemanha de hoje, o que ocorreria após um eventual discurso proferido da tribuna do Parlamento por alguém que reverenciasse Josef Mengele, o médico que fazia experimentos com judeus e ficou conhecido como o “Anjo da Morte”? A partir da resposta a essa questão teríamos uma ideia mais concreta da extensão do fosso que separa nosso Legislativo de uma civilidade adequada. Precisamos evoluir muito na política. Essa é a certeza deixada por aquele domingo.

2 respostas para “Por que a sessão do impeachment virou um “show do milhão” na Rede Globo”

  1. Olenka disse:

    Que esses poucos sensatos que nos restam, tenham noção de sua importância e consigam ajudar a melhorar este país.
    E que a população não vote nestes inúteis !!!
    Está difícil sair dessa !!!

  2. Pedro Henrique Peres disse:

    Fora PT!

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