Sentimento de desilusão não faz cabeça de jovens políticos

Apesar dos escândalos de corrupção, vereadores, deputados estaduais e prefeitos que representam a juventude confiam no futuro da política

Lucas Calil afirma atuar no incentivo ao jovem empreendedor | Lucas Kitão se vê consciente do poder para ajudar muita gente | Fotos: Arquivo Jornal Opção

Muito se fala sobre o descrédito na política e as consequências que isso pode gerar nas próximas gerações. Os exemplos são inúmeros, tanto no Brasil quanto no mundo. Declarar-se um não político tem sido, inclusive, estratégia eleitoral — e isso nada tem a ver com a dicotomia direita-esquerda, pois a prática é adotada por candidatos dos mais diferentes espectros ideológicos.

Os casos de João Dória (PSDB) e Alexandre Kalil (PHS), prefeitos de São Paulo e Belo Horizonte, respectivamente, não deixam mentir, bem como o de Donald Trump, nos Esta­dos Unidos, e o do MoVi­mento 5 Estrelas, na Itália, que recusa ser chamado de partido político — autointitula-se um movimento contrário ao sistema —, apesar de ter sido o grande vitorioso nas recentes eleições gerais do país europeu e controlar as prefeituras de Roma e Turim.

O Jornal Opção ouviu alguns dos principais políticos jovens de Goiás para buscar entender a visão deles antes e depois de ocuparem um cargo eletivo e como tal desilusão, causada, em maior parte, por escândalos de corrupção — especialmente na conjuntura brasileira —, afeta seus trabalhos e o que eles têm feito para ajudar a melhorar a política.

O Estatuto da Juventude classifica como jovens as pessoas entre 15 e 29 anos. Na política, contudo, esse limite deve ser estendido devido ao pré-requisito de idade mínima para cargos eletivos — 18 para vereador; 21 para prefeito, deputado estadual, distrital e federal; 30 para governador; 35 para senador e presidente.

Nárcia Kelly: política como ferramenta de transformação | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Prefeita de Bela Vista, Nárcia Kelly (PTB) afirma que, antes de entrar para a política, ficava decepcionada com o que via, mas acreditava ser um instrumento para fazer a diferença. “Depois que entrei, tive a absoluta certeza de que a política é um instrumento para ajudar as pessoas. Quem não gosta de política acaba sendo governado por aqueles que a amam.”

O entendimento da prefeita sobre a política como ferramenta de transformação da sociedade é compartilhado pelo deputado estadual Lucas Calil (PSL). “A política com certeza é uma ferramenta que ampara o cidadão e a única capaz de estabelecer diálogo e solução aos maiores problemas sociais que enfrentamos”, afirma.

Calil declara que o sentimento de lutar por mudanças, que vem desde a época que começou a atuar em movimentos estudantis, sobrevive até hoje. “Eu sempre idealizei a política e gostei de atuar ativamente em movimentos de representação.”

Seu colega de Assembleia Le­gislativa, Virmondes Cruvinel (PPS), avalia que, mesmo desgastada, não há saída para o Brasil fora da política, definida pelo deputado como “o melhor caminho para lutar por melhorias para a população”.

Tatiana Lemos foi criada em meio à política: “intimidade com a área” | Foto: Fernando Leite Jornal Opção

A vereadora Tatiana Lemos (PCdoB) é filha da deputada estadual Isaura Lemos e do ex-vereador Euler Ivo. Nascida no ano de 1978 em plena Mata Atlântica — seus pais eram perseguidos pela ditadura militar —, Tatiana sublinha que foi criada em meio a comícios e campanhas e, assim, passou a ter, desde cedo, uma intimidade com a política.

Atualmente, a diferença para ela é a de que ocupa um cargo eletivo pela terceira vez e, por isso, tornou-se protagonista do grupo que representa. “Agora, a minha responsabilidade é muito maior”, explica.

Embora os políticos jovens demonstrem ânimo, algumas questões são frustrantes. A dificuldade em avançar projetos nas casas legislativas é uma delas. Na opinião do vereador Lucas Kitão (PSL), a morosidade da máquina pública é o que mais pesa.

“Ficamos amarrados pela burocracia e impedidos de dar resposta imediata à sociedade”, diz. Porém, Kitão declara que não se abala e a vontade de militar na política é a mesma. “Tenho consciência que é possível ajudar muita gente.”

Priscilla Tejota: participação da sociedade no processo político deve ser maior | Sabrina Garcez: popularização da internet tem tornado o eleitor exigente || Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

As também vereadoras Sabrina Garcez (PMB) e Priscilla Tejota (PSD) dividem o mesmo sentimento. “Sempre acreditei na política. Essa mesma crença continua, mas fico um pouco frustrada pelas amarras burocráticas do nosso sistema administrativo”, lamenta Sabrina. Já Priscilla argumenta que, no Legislativo, é praticamente impossível implementar grandes mudanças devido à “administração engessada”.

Prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha (MDB) confessa que a burocracia é um obstáculo, mas garante que está promovendo mudanças no sentido de desburocratizar algumas ações, como licenças e alvarás mais rápidos por meio da internet.

Melhorar a política

Gustavo Mendanha diz que desburocratizará administração | Foto: Fernando Leite

Os políticos consultados pelo Jornal Opção disseram que colocam seus respectivos gabinetes à disposição da população e clamam pela participação dos cidadãos no sentido de eles participarem efetivamente do mandato, ajudando-os a contribuir ainda mais com a política e, consequentemente, com a sociedade.

Gustavo Mendanha diz que procura estar sempre próximo da população, seja nas ruas ou nas redes sociais. “Um dos grandes diferenciais de nós, políticos jovens, é que nascemos neste ambiente e conseguimos usufruir das ferramentas digitais”, afirma.

Prefeito de Vianópolis, Issy Quinan (PP) enfatiza que a primeira atitude que um homem público deve tomar é a de prestar bons exemplos. Ele diz acreditar que vem fazendo isso de maneira satisfatória. “Sou um prefeito reeleito como candidato único. Isso ocorreu em razão do reconhecimento que a população atribuiu ao meu trabalho.”

Nárcia Kelly concorda e revela que, em seu gabinete, há pastas colocadas na parede que mostram as promessas feitas durante a campanha em diversos setores como agricultura, saúde, educação, infraestrutura, meio ambiente, entre outros. “Tenho grifado tudo o que já cumprimos”, conta. É uma maneira de saber os resultados práticos já entregues à população e ter consciência daquilo que ainda pode ser feito.

Lucas Calil descreve como ações de seu trabalho como o incentivo ao jovem para empreender e a elaboração de políticas voltadas à juventude e a proteção ao Rio Araguaia. “A defesa do meio ambiente é uma luta que encampamos. Como este foi o meu primeiro mandato, me preocupei muito com a apresentação de propostas relevantes que pudessem contribuir de alguma forma com a população goiana.”

O deputado estadual Simeyzon Silveira (PSC) diz estar concentrado no legado que pretende deixar. “Não justifica ser político se você não deixar resultados que fiquem para as futuras gerações”, frisa. Ele considera o programa Goiás Solar, que visa implementar energia fotovoltaica no Estado, uma das principais heranças de sua atividade parlamentar.

“Há dois anos, Goiás tinha apenas 16 conexões fotovoltaicas. Hoje, são mais de 600. Saímos do 18º do Brasil para 6º”, celebra Simeyzon, que diz preferir discutir soluções ao invés de crise. O Estado tem o segundo maior potencial de energia limpa — só perde para a Bahia — e boa parte do aumento de tais conexões é oriunda de incentivos fiscais para investidores.

Deputado diz que atual geração está “divorciada” da política

Simeyzon Silveira alerta para o perigo de uma sociedade distante da política | Foto: Alego

Simeyzon Silveira faz uma análise alarmante: “A política não é ruim. A forma com que ela tem sido feita por muitos é o que tem prejudicado. A atual geração está divorciada da política e isso é perigoso”. No entendimento do deputado, o Brasil precisa de uma geração crítica que entenda de política.

A demonização da classe, segundo Simeyzon, não é sem razão. “Vejo políticos que não compreendem o valor de sua missão. A nossa função, se benfeita, é uma ferramenta social importantíssima.” O deputado do PSC assegura que seu idealismo não mudou. No dia em que deixar de acreditar na política, ressalta, ele deixa de participar. “Sou político e não tenho vergonha de sê-lo.”

Issy Quinan lembra que todos os políticos compõem a sociedade organizada. São médicos, advogados, engenheiros e empresários que se fazem representados no setor público. “As pessoas agem como se os políticos fossem habitantes de outro planeta”, observa.

Para o prefeito de Vianópolis, as ações danosas são cometidas por seres humanos. Na política, argumenta, as coisas acontecem de forma mais explícita porque tudo é público. Por isso, a demonização da classe é vista por ele como injusta, já que as políticas públicas que impactam a sociedade acabam sendo colocadas à margem da repercussão midiática.

Priscilla Tejota sugere que a participação da sociedade no processo político deva ser maior. De acordo com a parlamentar, é difícil ver uma jovem dizer que não vai votar. A vereadora adverte que esse tipo de postura não resolve os problemas, já que ainda não conhecemos uma maneira de cuidar de um país sem a política ou a democracia.

Outro fato que exerce influência no debate político brasileiro abordado por Priscilla e reforçado por Sabrina Garcez é a popularização da internet, que, para a vereadora do PMB, tem tornado o eleitor mais exigente. Dessa forma, a qualidade da política tende a aumentar, avaliam. Por outro lado, a parlamentar do PSD sustenta o argumento de que as redes sociais contribuem para o acirramento das discussões.

Para Virmondes Cruvinel, não há saída fora da política| Foto: Y. Maeda

Virmondes Cruvinel defende que a política tradicional precisa mudar. “O cidadão quer lideranças políticas honestas e conectadas com os anseios populares. A política precisa entregar mais resultados.” Na visão do deputado estadual, há um desgaste grande da classe política e, com isso, o próprio sistema absorve este descontentamento. “Os escândalos de corrupção só confirmam que precisamos melhorar nossos políticos”, comenta.

Tatiana Lemos chama a atenção para a importância do voto e pede aos eleitores que percebam o poder que têm nas mãos. “Tanto os que fazem um bom trabalho quanto os corruptos foram eleitos pela população”, que, segundo a vereadora do PCdoB, está interessada na política, sim. “É diferente. O que a sociedade não quer saber é de politicagem, do uso da política para benesses pessoais.”

Lucas Kitão se mostra otimista ao analisar que, neste momento, estamos passando por um processo de transição de uma política antiga, analógica e arcaica para uma mais dinâmica e transparente.

Conforme aponta o vereador, mesmo que muita gente não goste, é necessário que o cidadão opine e participe. “Se a população participar cada vez mais, a classe política muda. Gostando ou não, é dever do cidadão eleger candidatos para representa-lo e, posteriormente, cobrar resultados deles.” l

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Paulo Ricardo Dias

Todos os citados são de famílias de políticos…

alex rodrigues palopoli

Eu acredito que a solução do país esteja na base jovem política, desde que, a mesma, não venha já com herança corrompidas e de corrupção.