Sem benesses do petróleo, Senador Canedo se reinventa para continuar crescendo

Em tempos de crise, ajustes e cortes nas contas públicas, município de pouco mais de 100 mil habitantes tem conseguido se modernizar, mesmo com redução de recursos

Parque Boa Vista, de 250 mil metros quadrados de área verde, é símbolo da qualidade de vida em Senador Canedo  | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Parque Boa Vista, de 250 mil metros quadrados de área verde, é símbolo da qualidade de vida em Senador Canedo | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Frederico Vitor

A dona de casa Luzilene de Sousa Silva, grávida e mãe da pequena Yara, de pouco mais de 1, ano, brinca com a filha debaixo de uma aprazível sombra de árvore no Parque Boa Vista. Ela, que deixou o Maranhão com o marido em busca de novas oportunidades em Senador Canedo, município com pouco mais de 100 mil habitantes na Região Metropolitana de Goiânia, não nega que encontrou a qualidade de vida sonhada em terras goianas. E é sorrindo que ela brinca com a filha no parque recém-construído na cidade.

Mas por que sair do Nordeste para viver no interior de Goiás? Um dos motivos está ali mesmo, no parque, uma espécie de hibridismo entre a preservação ambiental e a urbanidade. Símbolo da nova modernidade, que todos querem alcançar, mas poucos municípios conseguem. Afinal, não é em qualquer lugar que se encontra 250 mil metros quadrados de área verde e cinco lagos.

A cidade, de médio porte, cresceu muito em qualidade de vida nos últimos anos. Em grande parte devido à presença do terminal da Braspetro, uma subsidiária da Petrobrás que proporciona ao município uma alta arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Contudo, engana-se quem pensa que o cenário continua assim. O que anteriormente era uma mina de ouro tornou-se um grande problema.

Desde 2010 o repasse da petrolífera tem diminuído e, com sucessivos escândalos de corrupção que têm abalado a estatal, juntamente com a baixa do valor do petróleo no mercado internacional, acentuou a queda do repasse de ICMS ao município. Estima-se uma perda em média de R$ 3,5 milhões por mês. Para se ter uma ideia, Senador Canedo já foi o terceiro lugar em arrecadação de ICMS no Estado, com 5,46% do total, mas caiu para o sexto lugar, com representatividade de 3,77%.

Atualmente, a prefeitura detectou que há uma queda de 10% a 12% do repasse do ICMS, ao passo que a arrecadação é em torno de R$ 23 milhões por mês e a folha de pagamento dos servidores públicos municipais está na ordem de R$ 12,3 milhões. Além da diminuição das receitas próprias, também foi verificada queda nos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e um crescente aumento da população, que aumenta em média 12% ao ano. São pessoas que, como Luzilene e o marido, fazem aumentar também as demandas por educação e saúde.

Isso mostra que, além das benesses do petróleo, a cidade encontrou outros meios de se modernizar, saindo à frente, inclusive, da própria capital. Como? Lições básicas de gestão: diferentemente de outras prefeituras, que estão com seus caixas no vermelho, a administração canedense não tem dado passos maiores do que as próprias pernas, ou seja, não gasta mais do que arrecada e não contrai dívidas de grande monta. As verbas destinadas aos investimentos, que tem feito muita diferença, são aplicadas conforme o delineado.

É assim que a cidade tem estabelecido um alto ritmo de obras: construção e entrega de moradias populares, investimentos em saneamento básico. Nada além do papel de um governo, o leitor há de pensar com razão, mas algo que não vê com frequência. Isso faz do município uma espécie de ilha de gestão eficiente em meio a um cenário de crise vivido por muitas cidades brasileiras. O sucesso administrativo desta cidade, prestes a completar 26 anos de emancipação, não tem segredo e o receituário é simples: planejamento.

Prefeito Misael Oliveira (PDT): planejamento tem sido o receituário para sua gestão em Senador Canedo  | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Prefeito Misael Oliveira (PDT): planejamento tem sido o receituário para sua gestão em Senador Canedo | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Misael Oliveira (PDT), prefeito da cidade, garante que tem conseguido fazer muito com pouco, sem que áreas importantes e essências sejam afetadas. Em um futuro não muito distante, talvez há de se dizer que Senador Canedo pode se tornar uma das cidades referência em infraestrutura e qualidade de vida — e não se trata de um exagero. A questão é que, como o dinheiro do petróleo já não é garantia, é hora de mudar o foco e começar a retomada da vocação industrial da cidade.

O município de Aparecida de Goiânia, por exemplo, que era o sexto no ranking do ICMS e nos dias atuais figura em quarto, investiu pesadamente nos distritos industriais. Assim, seguindo os passos de Aparecida, a prefeitura canedense pretende investir na industrialização aplicando tempo e recursos em infraestrutura e educação — até porque a recuperação do repasse do ICMS não se faz da noite para o dia —, além de cortes nas despesas. No ano passado, segundo informa o prefeito, foi criada uma comissão de controle de gastos, que decidiu por vários deles. Matemática simples: ou faz isso, ou não há investimentos.

O Jornal Opção passou um dia em Senador Canedo e visitou as principais obras em andamento. O que se observa é um cenário de trabalhos em pleno vapor. Para que a prefeitura possa trabalhar em grandes frentes é preciso ter um maquinário próprio. Por isso, a gestão investiu R$ 11,7 milhões em equipamentos, e comprou 26 novas máquinas — motoniveladora, compactadoras, retroescavadeiras, pá-carregadeira e bobcat — e 10 novos caminhões basculantes (Volkswagen Constellation).

Todo este parque de maquinários é usado diariamente em várias frentes de trabalho em infraestrutura e saneamento básico. Já foram concluídos, por exemplo, 15 quilômetros de rede de esgoto. Com esta importante obra, as populações dos bairros periféricos ficam livres da contaminação e proliferação de doenças. Parece algo simples, sim, mas mostra um avanço, uma mo­dernização. Além disso, uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) e uma Estação de Trata­mento de Água (ETA) já foram entregues. As duas obras custaram R$ 25 milhões e R$ 9,5 milhões, respectivamente.

Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) custou R$ 25 milhões | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) custou R$ 25 milhões | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

Em breve também será inaugurado um reservatório de 10 milhões de litros de água, que poderá abastecer a cidade inteira durante cinco dias, em caso de emergência. A obra custará R$ 3,5 milhões e aparenta estar adiantada. Já é possível ver os contornos da silhueta da imensa caixa d’água que preenche o visual do alto do morro no Setor Boa Vista.

Mobilidade

A administração tem como foco a modernização da cidade, nese sentido, a mobilidade urbana não poderia ser deixada de fora, sobretudo com o aumento da população e a constante presença de pessoas de outras cidades, como goianienses, por exemplo. A prefeitura tem trabalhado em duas obras viárias importantes, avenidas que farão a ligação de dispersas regiões da cidade.

A primeira, com quase dois quilômetros de extensão, orçada em R$ 8,5 milhões, vai ligar as regiões dos setores Boa Vista à Flor do Ipê. A obra está em seu estágio inicial e o levantar da poeira é verificado ao longo do dia pelo intenso tráfego de máquinas e de caminhões basculantes.

A segunda via é a Avenida Pedro Miranda, uma pista-dupla com 6,9 quilômetros de extensão, que possibilitará o acesso da região sul da cidade à GO-020. A obra, que vai custar R$ 8,9 milhões, en­contra-se em seu estágio final. A maior parte da pista já está asfaltada, porém ainda não foram pintadas as faixas de sinalização ou implantados os postes de iluminação e transmissão de energia. Naquela região será construído um empreendimento privado do grupo paulista Alphaville.

Estrutura de saúde atrai moradores de Goiânia

A saúde é uma área problemática e nevrálgica em qualquer cidade. Porém, a de Senador Canedo parece tomar um rumo diferente das demais. A gestão aponta que o número de goianienses que procuram os postos de saúde da cidade tem aumentado muito nos últimos anos. Por quê? Um dos motivos certamente é a qualidade do atendimento — que tem dado suporte ao sobrecarregado sistema da capital.

Por isso a gestão deve reformar, construir e inaugurar cerca de 20 PSFs (Programa Saúde da Família, im­plantado no Brasil, pelo Minis­té­rio da Saúde em 1994) e maternidades. Antes, as mães canedenses não po­diam dar à luz seus filhos na própria cidade por conta da falta de ma­ternidades. Hoje, a realidade é outra. Além de maternidades que contam com cartório de registro dentro da unidade, Senador Ca­nedo tem um alentado efetivo de médicos: são 184 para 110 mil habitantes — para comparar, Aparecida de Goiânia conta com 150 para 500 mil habitantes. São ao todo 22 PSFs, uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e três prontos-socorros. Nos últimos anos foram R$ 3,5 milhões de investimento na área.

Cidade vai receber 20 postos de saúde familiar (PSF) e maternidade | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Cidade vai receber 20 postos de saúde familiar (PSF) e maternidade | Foto: Fernando leite/Jornal Opção

Educação

Qualquer município que almeja se tornar um polo industrial importante, com grande potencial de atrair investimentos que reflitam diretamente na arrecadação, na geração de emprego e renda, precisa oferecer mão de obra qualificada. Pensando não somente nisso, mas também no social, a prefeitura tem investido pesadamente na área de educação por meio da construção e reforma de cinco Centros Muni­cipais de Educação Infantil (Cmeis), nos setores Morada do Bosque, Boa Vista, Residencial Marília, Bougan­ville e Thaís de Souza. Mais duas escolas estão planejadas para serem construídas até 2016, e juntas vão atender 1.300 alunos da rede municipal de ensino. Porém, o grande feito desta administração foi a entrega de 23 mil kits escolares aos estudantes canedenses e mil notebooks aos professores.

5 Cmeis em bairros diferentes: futuro passa por investimento em educação | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

5 Cmeis em bairros diferentes: futuro passa por investimento em educação | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

Investimento em moradia é prioridade

O que mais chamou a atenção do repórter foi o elevado volume de moradias populares que serão entregues na cidade. No residencial Prado, por exemplo, já são 350 casas totalmente prontas. Segundo informações da prefeitura, o município ocupa o primeiro lugar na Região Metropolitana de Goiânia em investimento nessa área. Já entregou moradias às famílias carentes, com um montante de R$ 63 milhões investidos. No setor Residencial Prado, por exemplo, foram construídas 350 casas, graças a R$ 18,5 milhões investidos em parceria com o governo federal, por meio da Caixa Econômica Federal, dentro do programa Minha Casa Minha Vida.

Prefeitura vai entregar 432 apartamentos no Setor Santa Edwiges 1 e 2 | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

Prefeitura vai entregar 432 apartamentos no Setor Santa Edwiges 1 e 2 | Foto: Prefeitura de Senador Canedo

As casas do Residencial Prado, algumas já habitadas e devidamente muradas, possuem iluminação LED e água aquecida, sendo a primeira obra deste perfil da região Centro-Oeste. O modelo escolhido, que também foi usado na construção de 148 casas no Setor Flor do Ipê, por R$ 8 milhões, gera uma economia de até 70% na tarifa de energia dessas famílias. Além disto, o conjunto conta ainda com rede elétrica, água potável e esgoto. Mas, como em todo princípio de conjuntos habitacionais populares como estes, ainda faltam alguns equipamentos públicos, como pontos e terminais de ônibus, posto policial e um Centro Municipal de Educação Infantil (Cmei). Apesar disso, o bairro dispõe de um Posto de Saúde da Família (PSF).

Outra forma de habitação popular construída em Senador Canedo pelo programa Minha Casa Minha Vida são apartamentos em condomínios verticais compostos de blocos de até quatro andares. Estes prédios já foram erguidos no Setor Veredas dos Buritis, onde há 208 apartamentos já prontos para serem habitados, ao custo de R$ 12,2 milhões, como na Santa Edwiges I e II, com 432 apartamentos ao custo de 25,3 milhões. A exemplo das casas, a obra está acabada, porém, ainda não está habitada. É necessário mais celeridade para que estes prédios sejam ocupados antes que envelheçam e comecem a deteriorar. Tais unidades habitacionais serão ocupadas por famílias inscritas em programas sociais da prefeitura, com renda mensal de até R$ 1,6 mil.

No Residencial Prado, mais 350 casas populares para famílias de baixa renda |Foto: Prefeitura de Senador Canedo

No Residencial Prado, mais 350 casas populares para famílias de baixa renda |Foto: Prefeitura de Senador Canedo

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