Rodrigo Caio, corrupção e sociedade: a Lava Jato segue, mas apertada pela malandragem instituída

O futebol tem muito mais a ver com a política e com o País do que mostram as listas de empreiteiras

Contrariando regras não escritas do futebol, Rodrigo Caio se denuncia ao árbitro e livra Jô, seu adversário

Nos documentos da Odebrecht, em meio àquelas muitas descobertas de tudo que na verdade já se sabia, um fato passou um tanto despercebido dos holofotes: a tabela na qual cada um dos partidos políticos ganhou o nome de um clube de futebol. O PT virou “Flamengo”, o PSDB foi batizado de “Co­rinthians” (curiosamente o time do ex-presidente Lula) e o PMDB tornou-se o “Internacional” . Não se sabe qual era a intenção positiva, diria algum psicólogo, na escolha dos apelidos.

Cada cargo político também ganhou uma função de jogador em campo: quem quisesse ser presidente era chamado de “centroavante”, governador era “meia” e senador, “ponta”. Os menos prestigiados no tabuleiro da política eram também coadjuvantes do futebol – deputados federais (“volantes”) e deputados estaduais (“zagueiros”). O “goleiro” designava todo aquele que não tinha cargo, mas pertencia a um partido.

Futebol é mesmo “a” paixão nacional. Assim, sem a transigência de um artigo indefinido. Basta um pequeno “tour” em expressões populares para presenciar como isso envolve até quem não tenha a menor aptidão para a prática do esporte ou mesmo a mínima vocação para torcer para qualquer time. As páginas políticas dos jornais são prova. O noticiário está cheio de “pontapés iniciais” em obras, de políticos “na marca do pênalti”, de ex-aliados “jogados para escanteio”, de viradas eleitorais aos “45 do segundo tempo”.

Futebol, política e sociedade têm muito mais a ver entre si do que mostram criativas listas de empreiteiras. O quadrilátero do gramado, o plenário do parlamento e a vida urbana mostram constantemente um aspecto marcante e controverso do “ethos” nacional: a malandragem. Ou alguém acha que foi à toa que o Brasil foi apresentado ao mundo na forma de Zé Carioca, o periquito marrento de Walt Disney que tira onda com o turista Pato Donald no Rio de Janeiro?
Por uma curiosa coincidência, o costume nacional segundo o qual se deve levar vantagem em tudo ganhou o nome de “lei de Gérson”, por causa de um comercial de cigarro estrelado pelo meia campeão do mundo na memorável seleção da Copa de 70. A propaganda foi criada em 1976 e marcou época, caindo no gosto popular, para desgosto do craque.

Se tem um lugar em que se pode – ou, melhor dizer, se deve – levar vantagem em tudo impunemente é dentro das quatro linhas de um campo. Para assegurar um bom resultado, o jogador tem o dever moral em uma lei não escrita de driblar a visão do árbitro sempre que possível. É baseado nesse princípio que se cavam pênaltis, se disfarçam cotoveladas dadas e se simulam tapas recebidos. A grande ironia é que “ladrão” fica sendo sempre o juiz.

E foi assim, confiando na ilusão de ótica, que foi concebida a grande jogada da malandragem do futebol mundial: “La Mano de Dios”, assinada por Diego Maradona na Copa de 86, mas corroborada por atacantes do mundo inteiro, do craque francês Thierry Henry (carrasco do Brasil na Copa de 2006 e que classificou a França para a Copa seguinte ajeitando a bola com o braço para dar um passe para o gol decisivo) ao falastrão artilheiro Túlio Maravilha (autor de um gol semelhante contra a Argentina).

Se enganar é a lei, se autodenunciar é absurdo. Nos primeiros tempos do futebol, houve um jogador que acusava qualquer ato ilícito que porventura cometesse: era Mimi Sodré. Atacante do Botafogo no início do século passado, ele delatava a própria falta ao juiz, como escreveu o jornalista Mario Filho no livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, uma obra seminal sobre esporte e sociedade no Brasil. Mesmo naquele tempo, os companheiros ficavam furiosos, porque muitas vezes Mimi destruía a chance de uma vitória com sua transparência de caráter. A própria síntese viva do avesso da lei de Gérson.

Na semana passada, surgiu um Mimi Sodré do século 21: Rodrigo Caio, zagueiro do São Paulo, fez Luiz Flávio de Oliveira retirar o cartão amarelo que tinha dado a Jô. O árbitro vira falta do atacante do Corinthians sobre o goleiro Renan Ribeiro, mas quem tinha acertado o camisa 1, ainda que involuntariamente, fora seu companheiro de equipe. A atitude foi vista com nariz torcido por colegas de equipe de Rodrigo Caio. O companheiro de zaga, Maicon, disse, de forma sintomática: “Eu prefiro a mãe do meu adversário chorando em casa do que a minha.” A honestidade do são-paulino fez com que Jô pudesse atuar pelo Corinthians no jogo seguinte da semifinal do Campeonato Paulista. Mais: o centroavante fez o gol do time no empate por 1 a 1.

O exemplo de Rodrigo Caio não é raro somente no Brasil; pelo contrário, no mundo do futebol a regra é só ser honesto se isso não causar conflito de interesses com os objetivos da equipe. O sentimento é que de “fair play” é uma utopia. E, então, temos um entendimento mais amplo sobre o que é a “paixão nacional”.

Observando o comportamento de brasileiro que defenestram políticos, mas, ao mesmo tempo fazem uso indevido das vagas preferenciais em estacionamento, furam fila de cinema, abrem mão da nota fiscal do produto para ter um desconto no preço, entre outras infrações, dá para fazer uma ponte entre as regras tácitas do futebol e a vida na selva da sociedade tupiniquim: até que ponto temos uma sociedade que pode sair às ruas para cobrar o fim da corrupção? Vendo a quantidade de políticos que caminharam firmes nas passeatas de 2016 por um Brasil livre de trambiques, não seria mais honesto exigir o fim da corrupção “dos outros”?

Na política, assim como no futebol, os espertos parecem ser sempre premiados com seu simulacro de vitória – o mandato. Ou pelo menos pareciam, se o efeito Lava Jato realmente se consumar como determinante de novos termos a partir de agora. Mas não há como negar que ainda temos muito que caminhar até ver a Lei de Gérson apenas como folclore de um passado nada saudoso. l

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