Medidas anunciadas pelo governo federal vão agravar terrivelmente o desempenho da economia do País, e não será fácil sair da crise

O mundo capitalista mo­derno, ultraglobalizado, conhece duas portas de saída para fortíssimas crises nacionais. Uma adotada pelos Estados Unidos, país de onde a crise se alastrou contagiando todas as demais economias do planeta em 2008, e a outra seguida à risca na Zona do Euro. A diferença entre esses formatos é brutal, muito embora visem atingir idênticos objetivos: sair do atoleiro da maneira mais rápida possível. E neste momento, a euforia está de volta à terra de Tio Sam, enquanto os europeus permanecem lamuriando, ainda desencantados embora com um fundo de esperança de que os tempos de dificuldades estão prestes a terminar.

Pois o Brasil parece querer inventar uma nova roda dentro desses modelos anticrise. Nem vai na direção dos Estados Unidos, ao contrário, nem segue realmente a cartilha europeia. O governo federal fez uma “bananização” à lá sabe-se lá o quê.

Diferenças

Todos os problemas financeiros do planeta explodiram a partir do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que lastreavam investimentos especulativos mundo a fora. Grosso modo, bastou a bolha estourar para arrebentar com praticamente todo mundo.

Nos Estados Unidos, os bancos foram os primeiros a sentir o drama do caixa vazio. Logo em seguida, a fortíssima indústria de automóveis e, como um dominó, setores inteiros se prostraram imediatamente. Na Europa, a crise foi igualmente forte, mas atingiu muito mais as contas públicas dos países da zona do Euro do que propriamente as empresas. Por lá, apenas a Alemanha e a França estavam com os caixas mais ou menos sob rígido controle. Todos os demais países gastavam por conta de dívidas fáceis de serem roladas, e enroladas, ao longo do tempo de fartura de dinheiro. Com dinheiro muito mais curto, quebrou todo mundo.

O governo americano criou mecanismos para salvar as empresas, saneá-las e devolvê-las aos seus controladores. Claro que sem deixar de punir, inclusive com temporadas na cadeia, executivos que se deixaram levar pelos ganhos fartos e arriscados. O desemprego subiu, atingiu taxas realmente preocupantes e teve-se a nítida impressão de que o inverno econômico-financeiro seria semelhante ao caos vivido em 1929.

Na Europa, liderada pelos caixas da Alemanha e França, o modelito foi diferente: os cortes atingiram o orçamento que estava sendo computado, mas que não existia se não como forma de novos empréstimos. Grécia, Portugal, Espanha, Itália e outros mais, gastavam o que não tinham produzido, e foi nesse ponto que os alemães e franceses exigiram cortes.

O problema é que praticamente toda a economia desses países era mantida artificialmente por esses empréstimos fartos e baratos, e os Estados gastavam além da conta com a manutenção de benesses sociais incríveis. Sem esse dinheiro de uma hora para outra, as economias locais voltaram ao leito natural. O resultado, obviamente, foi um desemprego ainda maior, e com todas as suas nefastas consequências diretas, com o padrão de consumo despencando na mesma proporção.

Há coisa de seis meses, os americanos voltaram a sorrir. Como a economia sofreu um fortíssimo baque, mas não parou, as próprias engrenagens recuperaram o movimento uma das outras, e o país voltou a esbanjar neste momento alguma saúde econômico-financeira. Mais do que a que se verifica na Zona do Euro, fortemente amarrada por uma interminável recessão.

Bananada

Ainda no final do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a crise globalizada chegou às costas brasileiras revelando que a onda não era uma marolinha qualquer, mas algo muito mais intenso e duradouro. Só que o governo federal resolveu fazer piada de tudo ao invés de se preparar melhor. Esse modelo, que não se sustenta por muito tempo, faz água desde então, mas vinha sendo mantido aos trancos e barrancos, com “pibinhos” e tudo mais. Era evidente que a manivela iria emperrar mais cedo ou mais tarde.

Pois emperrou de vez. Mesmo com eventuais desonerações, setores importantes da indústria emitiram sinais de que não se conseguia avançar. Na outra ponta, entre os consumidores, a conta bancária foi do azul preventivo e desconfiado para o vermelho da oferta de crédito incentivada. Como no caso da Zona do Euro, a economia foi mantida rodando fora do eixo pelo dinheiro fácil, e não pela produção intensa de riquezas. Chegou o momento de colocar novamente a locomotiva nos trilhos.

O ministro Joaquim Levy é um craque, sem dúvida, mas o modelo que ele criou é inédito nos tempos atuais. Seria coerente se o governo promovesse uma formidável diminuição de seu próprio custo administrativo, mas isso não foi feito. Pelo menos, não até aqui. Brasília permanece com inacreditáveis 39 estruturas ministeriais, mantém programas e benefícios em países de difícil retorno, como Cuba e Bolívia, ao mesmo tempo em que promove um enxugamento brutal no bolso de cada brasileiro, que de um momento para outro se vê espremido por dívidas cada vez mais caras, via aumento nas taxas de juros, do custo de vida, com preços disparando e crescendo como bola de neve descendo ladeira íngreme. É óbvio que, com muito menos dinheiro em circulação, o efeito será devastador e terá um caráter terrivelmente recessivo.

Vai dar certo? Pode até ser que funcione, sim, mas o custo pode ser alto demais. As ruas estão se enchendo rapidamente, e embora a bandeira contra a corrupção seja de fácil absorção popular, o problema é o bolso vazio e o carrinho de supermercado cada vez menos cheio. Brasília terá que se acostumar com o barulho das ruas. Ele será cada vez mais ensurdecedor. Quando dói no bolso, dói em tudo.