Renasce no PT discussão para criar uma nova frente de esquerda

Ideia, ainda embrionária, pode tentar reunificar atuação dos partidos esquerdistas brasileiros em oposição ao governo federal, que eles consideram golpista

Deputado estadual e presidente metropolitano da sigla, Luis Cesar Bueno diz que PT vai debater a criação da Frente de Esquerda em congresso partidário

Deputado estadual e presidente metropolitano da sigla, Luis Cesar Bueno diz que PT vai debater a criação da Frente de Esquerda em congresso partidário

No dia 31 de agosto de 2016, o Senado destituiu a então presidente da República Dilma Rousseff (PT) do cargo e encerrou o processo de impeachment contra a petista com 61 votos a favor e 20 contra. Por fim, em 2 de outubro, o resultado da votação do primeiro turno das eleições municipais em todo o Brasil trouxe uma notícia ruim para o Partido dos Traba­lhadores: a vitória de apenas 256 candidatos seus a prefeito nas urnas, levando sete para o segundo turno. Perderam todos. O fato demonstra que o crescimento continuado em quatro eleições municipais seguidas foi interrompido em 2016.

Depois das derrotas de 1989, 1994 e 1998, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi eleito presidente da Re­pública em 2002 e 2006. E com Lula no poder o Partido dos Tra­balhadores viveu um crescimento do número de prefeitos de 219,78% da votação de 2000 para 2004, quando o partido chegou a 411 candidatos a prefeito eleitos no Brasil, contra 187 em 2000.

O salto continuou em 2008, quando o PT conquistou 558 prefeituras. Esse resultado representou um crescimento de 135,76% em relação a 2004 para o Partido dos Tra­balhadores.

Já com Dilma Rousseff em seu primeiro mandato como presidente, depois de ser eleita em 2010 no segundo turno contra José Serra (PSDB), o PT se manteve em alta nas eleições municipais. O crescimento em 2012 foi de 115,41%, quando os prefeitáveis petistas eleitos chegaram a 644, entre eles o reeleito Paulo Garcia, de Goiânia. O total de 644 inclui prefeitos eleitos nas votações de 2012 e escolhas suplementares realizadas por Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) após o pleito daquele ano.

Nova configuração

A partir de janeiro de 2017, o PT terá um total de 256 prefeitos no comando de cidades brasileiras. Apenas 39,75% dos 644 que assumiram de 2013 em diante. Antes de encarar esse cenário de redução do número de prefeituras sob seu comando, o ex-ministro e ex-governador do Rio Grande do Sul Tarso Genro (PT), da ala petista Mensagem ao Partido, que é contra a cúpula que comanda a sigla, já ensaiava, no final de 2014 e início de 2015, a tentativa da criação da Frente de Esquerda.

A Frente de Esquerda pensada por Tarso Genro e outros petistas buscava uma aliança esquerdista partidária que incluísse, por exemplo, PDT, PCdoB e PSol, com a intenção de iniciar pelo Rio de Janeiro a construção de uma candidatura forte apoiada por todos esses partidos unidos em um único nome. A ideia de Tarso era se aproximar do PSol e fortalecer a candidatura do deputado estadual Marcelo Freixo, da sigla.

Como a eleição na capital fluminense evidenciou, essa frente não saiu do papel. Tanto não deu certo que o PCdoB lançou a deputada federal Jandira Feghali como prefeitável apoiada pelo PT, em uma disputa na qual Freixo, ao lado do PCB, foi para o segundo turno e Jandira teve apenas 3,34% dos votos válidos no primeiro turno, ficando num nada honroso sétimo lugar. A candidata que dividiu chapa com o PT terminou a eleição atrás de Pedro Paulo (PMDB), Flávio Bolsonaro (PSC), Índio da Costa (PSD) e Osório (PSDB), todos derrotados no dia 2 de outubro.

Retomada das discussões

Enfraquecida junto à opinião pública, a esquerda sofre com a identificação que parte da população faz de um modelo errado e corrupto de gestão de que se atribuiu ao PT como a representação de todas as legendas esquerdistas no País. Para reagrupar essa esquerda, ou a parte dela que atua em oposição ao presidente Michel Temer (PMDB), tratado como golpista, a ideia da criação da Frente de Esquerda volta à pauta do PT.

As conversas iniciais dão conta de que esse novo bloco nacional de alinhamento partidário pode se dar se o diálogo evoluir, inicialmente, entre PT, PCdoB e PDT. Mas a discussão não é consenso. Nem se sabe, até o momento, se essa Frente de Esquerda terá apoio do próprio PT.

Presidente metropolitano do PT Goiás, o deputado estadual Luis Cesar Bueno afirma que essa decisão deve ser tomada durante o congresso do partido em 18 de março de 2017. “Va­mos debater esse assunto em março. A Frente de Esquerda pode ser formada por partidos que compõem os movimentos populares, sindicais e têm identificação com as pautas dos movimentos sociais.”

Alguns candidatos petistas em 2016, como o prefeito Fernando Haddad em São Paulo e a deputada estadual Adriana Accorsi em Goiânia, optaram por usar outras cores e símbolos na campanha que não fossem o vermelho e a estrela da sigla durante as eleições. A mudança não adiantou para produzir bom resultado nas urnas, com a derrota dos dois no primeiro turno. Isso gerou uma série de informações não confirmadas sobre uma possibilidade de mudança de nome do PT, fato que Luis Cesar Bueno trata como boato.

“Nunca houve essa discussão no PT. Nós não temos a intenção de mudar de nome em hipótese alguma. A formação da Frente de Esquerda passa pela união de partidos de esquerda, mas sem acabar com o partido ou mudar o nome”, explica o presidente metropolitano petista.

Na espera das decisões que serão tomadas a partir dos debates marcados para o congresso partidário em março, o deputado goiano diz que não há outro caminho a não ser o PT se manter na oposição ao PMDB nacional, “um governo golpista”, mas que os Estados terão autonomia para fazer suas alianças partidárias para 2018. “Tudo vai depender do nosso congresso.”

Ele não nega, porém, uma oposição ao governo estadual com uma possível nova aliança com o PMDB em Goiás, mas também não deixa claro se essa volta do diálogo pode acontecer após o rompimento entre o prefeito Paulo Garcia e o prefeito eleito Iris Rezende (PMDB).

Não quer o PT

Deputada federal Flávia Morais afirma que é importante o PDT se desvincular do PT, pois pode, afinal, lançar Ciro Gomes candidato a presidente

Deputada federal Flávia Morais afirma que é importante o PDT se desvincular do PT, pois pode, afinal, lançar Ciro Gomes candidato a presidente

Deputada federal pelo PDT, uma das siglas que pode vir a fazer parte da Frente de Esquerda, Flávia Morais nega que tenha interesse em ver o seu partido atrelado ao PT em Goiás. Quase expulsa do ninho pedetista após mudar seu voto e se declarar no dia 17 de abril a favor da abertura do processo de impeachment contra Dilma no plenário da Câmara dos Deputados, a mineira de Belo Horizonte que representa o PDT goiano no Congresso se mostra contrária à ideia de participar de um grupo de esquerda ao lado do PT.

“Pode até ser que a direção nacional do PDT trate do assunto, mas aqui em Goiás eu não vejo espaço para essa análise.” Para Flávia, o fato de os pedetistas colocarem o nome de Ciro Gomes como pré-candidato a presidente da República exige uma desvinculação dos petistas até para arquitetar a participação do PDT nas eleições de 2018.

Ela prefere não comentar a situação vivida pelo PT, que busca sua reestruturação. “Temos que aguardar para ver qual vai ser a posição que o PT vai adotar a partir de agora. Só posso comentar que é um partido que tem um desgaste muito grande, o que pôde ser visto com o resultado das eleições”, declara.

Renovação real

Para Flávio Sofiati, que disputou a Prefeitura de Goiânia, não há interesse do PSOL em integrar uma frente com um partido que não ouve sua militância

Para Flávio Sofiati, que disputou a Prefeitura de Goiânia, não há interesse do PSOL em integrar uma frente com um partido que não ouve sua militância

Ex-candidato a prefeito de Goiânia, o professor universitário Flávio Sofiati (PSol) não vê qualquer possibilidade de participar de uma frente ao lado do PT na atual conjuntura do Partido dos Traba­lhadores. “O PSol já participa de uma frente de esquerda formada pelo PCB, o Mais, o Polo Co­munista, e que atua junto com a Frente Popular.”

Sofiati afirma que o PT precisa mudar sua direção para mostrar uma reaproximação do partido de sua militância. “O PT precisa ser assumido pelos militantes. Hoje a direção está muito distante da base, hoje são os burocratas, políticos profissionais, que dirigem o PT”, explica.

Para o ex-candidato a prefeito pelo PSol, seria interessante discutir uma nova frente de esquerda com a participação do PT, se a visão petista se pautasse pela mudança de realidade para a sociedade. “A indicação do candidato a vice na chapa da Adriana Accorsi é um exemplo de decisão que foi imposta de cima para baixo sem consultar as bases do partido. Tanto que parte da militância do PT não vestiu a camisa da candidatura da Adriana.”

Uma resposta para “Renasce no PT discussão para criar uma nova frente de esquerda”

  1. Gustavo Auriqueo disse:

    O pt é tão bom que nem os partidos realmente de esquerda querem participar da tal Frente da esquerda capitaneada pelo pt.

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