A recuperação de Marconi

Não se pode falar em favoritismo, mas pesquisa Fortiori indica que o governador está no jogo e pode vencer mais uma vez

Governador Marconi Perillo: a oposição chegou a dá-lo como derrotado, quadro que mudou consideravelmente hoje | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Governador Marconi Perillo: a oposição chegou a dá-lo como derrotado, quadro que mudou consideravelmente hoje | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

Nem o mais pessimista oposicionista conseguiria prever que o quadro eleitoral preparatório deste ano encontraria Marconi Perillo (PSDB) virtualmente pronto para disputar com reais chances de vitória novo mandato de governador. Os otimistas da oposição diziam que o tucano “já era”, que seria fácil vencê-lo nas urnas. Isso se ele “tiver a coragem de se candidatar ao governo”, completavam. Pois é, mas pesquisa feita pelo instituto Fortiori no início deste ano mostra um quadro completamente diferente desse pintado nas ondas otimistas dos grupos oposicionistas. Marconi “apanhou” como nunca havia “apanhado”, mas não foi a nocaute. Ao contrário, voltou a ter condições de vencer mais uma vez.

Quando a pesquisa encomendada pela rede Sucesso de rádio foi divulgada, o jornalista e presidente do Fortiori, Gean Carvalho, que tem especialização superior em estatística, disse que o governador estava recuperado e reunia novamente condições de disputar a eleição deste ano. Esta semana, o Jornal Opção voltou a conversar com Gean, e seu diagnóstico está levemente alterado. “Aquele quadro era de janeiro. Hoje, é melhor. O levantamento mostrou que o governador não apenas tinha novamente voltado ao jogo (eleitoral), mas que ele permanecia em recuperação”, explicou.

Isso significa que Marconi já pode ser considerado como favorito nas eleições. Gean diz claramente que a situação atual é melhor do que a registrada em 2010, quando ele venceu o primeiro turno com 10% de vantagem sobre o segundo colocado, Iris Rezende, e foi eleito no segundo turno com quase 6% de votos a mais que o peemedebista. “Mar­co­ni ainda não bateu no teto e as próximas pesquisas vão definir melhor esse quadro geral”, disse Gean.

Duramente golpeado, mas não nocauteado

Os oposicionistas subestimaram Marconi Perillo? Sim e não. Revendo a situação de 2011, primeiro ano de governo, nem os aliados do governador se sentiam confortáveis. Rodovias abandonadas, sem condições ao menos razoáveis de uso, escolas caindo aos pedaços, servidores com salários atrasados pelo governo anterior, dívidas acumuladas e vencidas, além de uma forte demanda reprimida de material de consumo rotineiro nas repartições públicas e um déficit potencial de R$ 2 bilhões diagnosticado pela área financeira do Estado. Isso aliado ao sucateamento de “joias” das administrações desse grupamento, que chegou ao poder nas eleições de 1998, como as unidades de Vapt-Vupt, e o abandono dos programas de proteção e de inclusão social. Os próprios governistas deixavam escapar que Marconi andava macambúzio, quase desanimado. Os pessimistas viam ali o fundo do poço, sem possibilidade de retorno à superfície.

Se o cenário era péssimo administrativamente em 2011, um ano depois o quadro político também foi destroçado pelas denúncias contra o então senador Demóstenes Torres e Carlinhos Cachoeira. Demóstenes tinha natural influência, como acontece em todos os governos de coalizão, e indicou, soube-se depois, alguns nomes ligados a Ca­choeira. Em Brasília, como a orientação era “pegar” Marconi, bastou unir as coisas e o inferno astral se aliou ao fraco desempenho administrativo do ano anterior. Um arraso quase total.

Foi nesse momento que a oposição pode ter cometido um grave erro de avaliação. O mais grave de todos na política: subestimar a capacidade de reação. Marconi tinha sido duramente golpeado, mas não havia sido nocauteado, como julgavam. Ao contrário, foi nesse momento que seu governo e ele próprio iniciaram uma trajetória completamente oposta.

Sem dinheiro suficiente para levantar a administração amarrada pelo governo anterior, Marconi concentrou esforços em Brasília. É lá onde se concentram 70% de todos os impostos pagos pelos brasileiros (os Estados ficam com 25% e as cidades, 5%). Apesar de ser filiado a um partido que faz o­po­sição ao governo federal, Mar­co­ni conseguiu muito mais recursos nesse endereço do que, por exemplo, a administração de Al­ci­des Rodrigues, que se vangloriava por erguer palanques, em Goiânia, para o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O segredo de Marconi nesse aspecto pode estar em dois pontos: primeiro, completou bem o chamado dever de casa, corrigindo distorções encontradas no campo fiscal, e, em segundo lugar, procurou manter uma relação respeitosa e republicana com a presidente Dilma Roussef, que, mesmo sem recebê-lo em audiência particular, atendeu inúmeros pedidos do governo de Goiás.

Os oposicionistas mais afoitos levantaram, nessa época, inúmeras bandeiras administrativas contra Marconi e seu governo. Um erro crasso diante da experiência administrativa acumulada pelo governador. A primeira saraivada de críticas foi na Educação, graças a prédios escolares caindo aos pedaços. Aos poucos, essa situação mudou completamente, apesar de movimento grevista dos professores ter criado forte crise de imagem para o governo.

A segunda bandeira oposicionista foi o estado de abandono das rodovias estaduais. Dia sim, e dia não também, ouviram-se discursos in­flamados sobre os riscos de acidentes, desconforto, comprometimento do escoamento de safras e prejuízos causados pelas estradas esburacadas. Esse argumento também caiu por terra diante de um grande programa que recuperou, reconstruiu e abriu novas rodovias no Estado.

Comparação a ele mesmo

Há ainda questões não totalmente superadas, como certo grau de insatisfação registrado entre servidores públicos. Aqui, pesa muito o padrão de comparação com os governos anteriores do próprio Marconi. Antes dele, até 1998, os salários eram irrisórios e passavam por intermináveis atrasos. Ou seja, não há como comparar. Depois, no governo de Alcides Rodrigues, o final melancólico deixou como herança para 2011, mais uma vez, compromissos salariais atrasados e o adiamento por quatro anos de reposição da chamada data-base. O governo atualizou novamente o pagamento dos servidores, e tem quitado a data-base, embora de maneira parcelada. Mais uma vez, não há parâmetros para comparar o tratamento recebido pelos servidores no governo imediatamente anterior com o que se vê atualmente.

É exatamente nessa comparação, ou a falta dela em relação aos outros governos, onde se registra um certo desconforto entre os servidores e a administração. Marconi está sendo comparado com o próprio Marconi. Se antes ele concedeu aumentos que recuperaram historicamente os salários aviltantes de tempos passados, o que mudou? Mudou o patamar. Antes, servidores com salários abaixo do mínimo recebiam complementações. Hoje isso não existe mais. A imensa defasagem, que sempre existiu, diminuiu a níveis muitas vezes menor.

Se o quadro geral da pesquisa Fortiori em todo o Estado é favorável ao governador, em Goiânia e em Aparecida de Goiânia registra-se um descompasso. Os oposicionistas se animam exatamente por causa desses índices menos positivos para Marconi. Mas Gean Carvalho, do Fortiori, discorda: ¨O que se tem é o mesmo que se tinha em 2010, quando Marconi perdeu em Goiânia e em Aparecida. Isso não o impediu de vencer o primeiro turno com 10% e o segundo com 6%. Nada mudou nesse sentido.”

Marconi é favorito? Não, não é. É certo que, na pior das hipóteses, nenhum oposicionista tem a coragem de dizer que se as eleições forem definidas em dois turnos, uma das vagas não será dele. Então, para quem foi considerado nocauteado, Marconi não apenas voltou ao jogo. Ele pode vencer. De novo.

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