Quem é a cientista de Rio Verde premiada pela Unesco cuja pesquisa pode salvar os plantios de soja

Com toda sua formação obtida em instituições públicas, a pós-doutora Fernanda Farnese tem se destacado no campo das ciências agrárias com sua pesquisa

Fernanda Farnese é professora e pesquisadora no IF Goiano de Rio Verde | Foto: Reprodução/Facebook

Natural do interior de Minas Gerais, a pesquisadora do Instituto Federal Goiano (IF Goiano) de Rio Verde, Fernanda Farnese, de 34 anos, tem ganhado os olhos – e premiações – do mundo científico e agro ao conduzir uma pesquisa inovadora que pode manter a salvo as plantações de soja mesmo durante longos períodos de estiagem, fenômeno que leva agricultores, não só de Goiás, mas de todo o país a perecerem em prejuízos astronômicos.

Fernanda tem uma trajetória acadêmica de respeito. A pesquisadora nasceu em Lagoa da Prata, um município de 50 mil habitantes no interior de Minas Gerais, onde cursou todo o ensino fundamental e médio numa escola estadual na periferia do município. Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG) e com mestrado e doutorado em Fisiologia Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), com parte do doutorado feito na Alemanha, a pesquisadora também inclui no currículo um pós-doutorado em Hidráulica de Plantas feito no Institut National de la Recherche Agronomique, na França.

A formação de Fernanda foi obtida, do primeiro ao último grau, em instituições públicas de ensino, e foi justamente em uma delas que Fernanda se tornou professora e pesquisadora. Em 2015, a bióloga conta que se mudou de Minas Gerais para Rio Verde, em Goiás, após ser aprovada num concurso do IF Goiano. “Eu não conhecia a cidade, nem Goiás, mas me apaixonei”, diz.

No ano seguinte, ela deu início a uma pesquisa voltada para a conservação das plantações de soja, pesquisa essa considerada tão promissora que o resultado não poderia ser diferente. Em agosto deste ano, Fernanda foi uma das sete brasileiras vencedoras da edição nacional do Programa para Mulheres na Ciência, projeto da Unesco em parceria com a L’oréal e a Associação Brasileira de Ciência.

O programa tem como objetivo enaltecer a presença das mulheres no campo da ciência, além de incentivar seus trabalhos com bolsas para pesquisas. Segundo a L’oréal, o projeto já premiou mais de 100 pesquisadoras desde que nasceu, distribuindo mais de R$4,5 milhões em bolsas-auxílio.

Ao Jornal Opção, Fernanda, que inscreveu sua pesquisa no programa em maio de 2020, conta como ficou sabendo que havia sido selecionada. “Em agosto, eles [equipe da L’oréal] me ligaram marcando uma reunião com o diretor-coordenador da Academia Brasileira de Ciências, porque ele gostaria de fazer algumas perguntas sobre o meu projeto. Só que, na verdade, era para me avisar que eu tinha sido uma das selecionadas”, recorda.

Fernanda foi premiada com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil | Foto: Arquivo pessoal

A estratégia foi usada, segundo Fernanda, uma vez que ela não podia contar para ninguém do resultado antes do anúncio oficial. Além de um treinamento, com duração de dois dias, incluindo webinars sobre gênero, carreira, media training e outros assuntos relacionados às mulheres na ciência, Fernanda foi contemplada com uma bolsa-auxílio para sua pesquisa no valor de R$ 50 mil. “Foi uma emoção muito grande, uma das maiores da minha carreira, sem dúvida”, revela.

Após o treinamento oferecido pela Unesco, Fernanda conta que passou a ter mais abrangência em sua visão sobre a presença da mulher na ciência. “Eu pude, através desse treinamento coordenado pela Unesco, conhecer mulheres maravilhosas com carreiras e trajetórias maravilhosas, então eu me tornei cada vez mais consciente desses desafios”, complementa.

A pesquisadora conta que a bolsa-auxílio de R$ 50 mil chegou em boa hora e será usada na compra de reagentes necessários para o prosseguimento de sua pesquisa.

Soja mais resistente

A pesquisa conduzida por Fernanda foi premiada na categoria Ciências da Vida do programa da Unesco e ganhou destaque por seu teor inovador e útil, uma vez que pretende fortalecer as defesas da soja durante os longos períodos de seca.

A pesquisadora explica que a primeira fase da pesquisa foi realizada em 2016 e serviu para constatar o processo de defesa da soja. De acordo com Fernanda, existe um gás comum às células de praticamente todos os organismos vivos chamado óxido nítrico. No caso da soja, esse mesmo gás ajuda a planta a lidar com “situações de estresse” como, por exemplo, um período de seca.

Pesquisa de Fernanda Farnese busca aplicar óxido nítrico em plantas de soja | Foto: Arquivo pessoal

Entretanto, ainda segundo Fernanda, em uma época em que períodos prolongados de estiagem estão ficando mais frequentes, a planta da soja, sozinha, não consegue produzir óxido nítrico o suficiente para responder à falta de água e é aí que os métodos científicos desenvolvidos pela bióloga entram. “O que nós estamos fazendo é aumentar a quantidade do gás óxido nítrico para a planta, para que ela possa apresentar uma resposta mais forte”, explica Fernanda.

Conforme a pesquisadora, é justamente na segunda fase da pesquisa – que foi a fase premiada no Programa para Mulheres na Ciência – que se pretende incutir na planta da soja o óxido nítrico de forma a não degradá-la. Para isso, uma parceria entre o IF Goiano, instituto onde toda a pesquisa está sendo desenvolvida, e a Universidade Federal do ABC foi criada para o uso das chamadas nanopartículas.

“A universidade tem auxiliado na questão de tentar fornecer para a planta o óxido nítrico dentro de nanopartículas. As nanopartículas são esferas muito pequenas, milhares de vezes menores que a própria célula da planta, e o gás está lá dentro dessas esferas. É uma forma mais eficiente de entregar óxido nítrico para a planta e que não causa danos”, esclarece a pesquisadora.

Segundo Fernanda, essa fase da pesquisa ainda está em andamento mas já tem obtidos resultados promissores.

O machismo na ciência

Conforme um artigo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), as mulheres são cerca de 54% dos estudantes de doutorado no Brasil. Contudo, elas representam apenas 24% dos beneficiários de um subsídio do governo brasileiro concedido aos cientistas mais produtivos do país (a bolsa produtividade). A baixa representatividade em posições de liderança também persiste: as mulheres cientistas são apenas 14% da Academia Brasileira de Ciências.

Ao Jornal Opção, Fernanda relata que esse é um fenômeno observado por ela desde que ingressou na carreira científica. De acordo com a bióloga, as mulheres estão menos presentes em altos graus da carreira justamente por receberem menos convites para parcerias, bancas e, conforme mostrado pelos dados do Ipea, financiamentos de pesquisas.

Fernanda é doutora e pós-doutora em Hidráulica de Plantas | Foto: Arquivo pessoal

Fernanda revela situações em que sofreu diretamente as consequências de um machismo dentro do meio científico, como quando viu um pesquisador homem colher os louros pelo seu trabalho. No entanto, a bióloga respondeu ao fato da melhor forma possível. “Eu lido com isso trabalhando em dobro”.

“Uma vez eu fiquei muito chateada por ver meu trabalho sendo atribuído aos pesquisadores homens. A coordenadora do projeto era eu e eu vi meu trabalho sendo atribuído a um homem que era apenas o colaborador. Fiquei muito chateada com aquilo, mas pensei ‘o que eu vou fazer com essa minha chateação? Não vou só ficar chateada, vou escrever um artigo científico sobre isso’”, relembra.

E foi o que ela fez. Fernanda está produzindo um artigo científico sobre as condições e desafios das mulheres no campo científico, e o trabalho deve ser publicado em breve. “A ciência é um reflexo da sociedade. Se acontece na sociedade, acontece na academia também”, considera.

As dificuldades da pesquisa

Além do problema do machismo, Fernanda expõe a falta de incentivo e estrutura para a pesquisa no Brasil. A pesquisadora conta que os pesquisadores e instituições têm sofrido com cortes de bolsas ou dificuldade de acesso a elas, o que impacta diretamente a produção científica. “Esses trabalhos científicos são feitos por estudantes de graduação, de mestrado, doutorado. São eles que realizam essas pesquisas, muitas vezes, exaustivas”, diz.

“Meus alunos ficam ali de manhã, algumas coletas são feitas de madrugada, outras no período noturno. Eles estão lá, viram a noite trabalhando, muitas vezes sem bolsa. O corte de insumos é uma realidade que tem imposto vários desafios para a ciência brasileira”, desabafa.

A preocupação de Fernanda é justificável. Conforme o Senado Federal, pela proposta orçamentária de 2021, elaborada pelo governo federal e em análise no Congresso Nacional, o Ministério da Ciência e Tecnologia terá para investimento R$ 2,7 bilhões, sem contar os já esperados bloqueios que serão impostos no correr do ano.

Fernanda, durante pesquisa de campo | Foto: Arquivo pessoal

Ainda segundo o Senado, se os parlamentares confirmarem o montante, os cofres do ministério continuarão se esvaziando, uma vez que, para o ano atual, como comparação, o valor reservado no Orçamento federal é de R$ 3,7 bilhões. No ano passado, foi de R$ 5,7 bilhões.

No entanto, Fernanda assegura que sua pesquisa tem seguido firme e forte, graças à instituição que escolheu como segunda casa. “Felizmente, o IF Goiano conta com uma estrutura bem estabelecida que me permite fazer as análises científicas. E a bolsa [obtida no programa da Unesco] vai auxiliar muito na compra dos reagentes”, conclui.

Alívio para os agricultores

Para o engenheiro agrônomo e responsável do departamento técnico da Associação dos Produtores de Soja, Milho e outros Grãos Agrícolas do Estado de Goiás (Aprosoja-GO), Cristiano Palavro, a pesquisa de Fernanda representa uma lufada de ânimo para os produtores de soja não só de Goiás, mas para todo o Brasil.

Conforme Cristiano, o ganho principal com o método de conservação da soja é, “sem dúvida, uma estabilidade maior de produção”, uma vez que ele pode auxiliar na lida com os temidos períodos de estiagem. “Hoje, dentre os fatores que podem derrubar a produtividade, os períodos de seca são os principais deles”.

Cristiano Palavro, engenheiro da Aprosoja-GO | Foto: Divulgação/Faeg

Ainda segundo o engenheiro, a disponibilização de um meio que proteja as plantações de soja do prejuízo ocasionado pelas secas confere tranquilidade ao agro. “Se você tem um produto, uma estratégia que melhora a condição das lavouras em relação à seca, a proteção da lavoura, você vai ter uma tranquilidade maior que sua soja vai resistir a períodos de estiagem sem responder com perda de produtividade tão agressiva”, finaliza.

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