Propor debate de ideias nazistas precisa voltar a ser aberração

Declarações e atitudes do Brasil atual, como as da semana passada, provam que o ovo da serpente já eclodiu. Agora, é não deixá-la reproduzir

O ano é 2025. Cumprindo promessa a seus apoiadores durante a campanha para a reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (Aliança Pelo Brasil), depois de conseguir ampliar sua base no Congresso com mais dois tratoraços bem sucedidos – um para a base do Senado, outro para a nova Câmara dos Deputados, comandada agora por Allan dos Santos (APB-DF), que sucedeu Arthur Lira (PP-AL) –, aprova enfim a criminalização do comunismo no Brasil.

Do PT de Lula à Rede de Marina Silva, do PSB de Tabata Amaral ao PDT de Ciro Gomes, do Cidadania/ex-PPS/ex-PCB de Roberto Freire  ao PCdoB de Alexandre Frota, todos não apenas entram na ilegalidade: comunismo, ou o que a lei entenda que seja isso, passa a ser crime. Mesmo o PCO de Bruno Monark – partido que sempre tentou se aproximar da extrema-direita pela via da extrema-esquerda, lá onde os opostos se encontram – não foi perdoado.

Agora já é 2031. Numa reviravolta espetacular, o senador Kim Kataguiri (Novo-SP) ganha a eleição presidencial diante do favorito, o ex-governador de São Paulo Adrilles Jorge (PTB). Como primeira medida, promete colocar em debate o retorno dos partidos comunistas à atividade legal, desde que condicionado à discussão conjunta do aval eleitoral para o Partido Nacional-Socialista (Parnaso). “Fomos eleitos para entregar liberdade de expressão total a todo o povo e não faz sentido essa segregação às ideias nazistas”, disse o recém-empossado presidente.

Parece um quadro do Porta dos Fundos, mas é um mero exercício de futurologia improvável – embora nunca se deva brincar com a capacidade “criativa” de um país que já elegeu diversas peças caricaturais para os mais diversos cargos. Uma tentativa de sátira para desanuviar a semana cinzenta em que o noticiário teve de se ocupar de dois casos limítrofes para o espaço democrático.

É que na vida real e presente, em que Bolsonaro está em grande desvantagem para o líder nas pesquisas eleitorais, Luiz Inácio Lula da Silva, na corrida eleitoral, também andou acontecendo muita coisa surreal. Aliás, “surreal” foi a palavra exclamativa usada pelo apresentador William Travassos no encerramento do programa Opinião na Jovem Pan News da quarta-feira, 9, quando viu seu colega, o comentarista Adrilles Jorge, se despedir erguendo o braço com um gesto semelhante ao da saudação nazista.

Por coincidência, o último assunto em pauta no debate da TV, a mais aliada ao governo federal, era o episódio de dois dias antes, em live do Flow Podcast, quando o youtuber Monark disse que o Brasil deveria ter um “partido nazista autorizado pela lei”. Para enfeitar mais esse bolo de alfafa, a cereja veio de um de seus convidados, exatamente o deputado Kim Kataguiri, que, questionado pela colega de Câmara Tabata Amaral (PSB-SP), afirmou achar errado a Alemanha ter criminalizado o nazismo.

A repercussão foi imediata e contundente contra os envolvidos. As consequências para o comentarista e o youtuber foram imediatas. Adrilles, aliás, foi demitido pelo próprio dono da Jovem Pan, Antônio Augusto Amaral de Carvalho Filho, o Tutinha.

Monark, apesar de sócio do podcast, deixou o programa, agora conduzido apenas por seu companheiro de bancada, Igor “3k” Coelho. Já para Kim Kataguiri (DEM-SP), a indigestão deve ser prolongada pelos próprios colegas de Câmara: sua declaração vai gerar processo no Conselho de Ética da Casa, onde o parlamentar tem muito mais desafetos do que “camaradas” – para dizer uma palavra cara aos comunistas.

Duas questões centrais afloraram em meio à discussão que se seguiu durante a semana, nas redes sociais e programas de debate político na TV: a) a absurda ideia de que é possível não só colocar em debate, mas admitir a organização política de algo que mundialmente já foi caracterizado como crime contra a humanidade; e b) o apelo à criminalização de partidos de esquerda, que seriam, segundo líderes da direita “conservadora” brasileira, dar o mesmo tratamento a duas ideologias genocidas (nazismo e comunismo).

Vem proliferando nos últimos tempos, em meio a superficialidade dos debates na internet, seja em discussões nas diversas redes, seja em bate-papos com convidados (os chamados “podcasts”), a ideia de liberdade de expressão ao extremo, que considera autoritarismo criminalizar opinião, qualquer que seja ela. Parece ser a uma coisa assim que se filia o pensamento de Bruno Aiube, o Monark, que costuma fumar maconha diante de seus entrevistados – o que ele fez, por exemplo, no podcast com o ex-juiz e pré-candidato Sergio Moro (Podemos) – e admitiu, como se fosse justificativa, estar bêbado na mesa de debate quando fez a defesa da existência de um partido nazista.

Várias foram as polêmicas em que Monark se envolveu buscando provar seu ideal limite (talvez “limítrofe” coubesse aqui também) de “liberdade”, que sustenta o direito de todos a falar o que quiser, mesmo que isso fosse sobre questões como defesa do racismo e da homofobia. Porém, foi só ao sugerir, com o aval em seguida de Kataguiri, que o nazismo deveria ser debatido com transparência e até com um partido o representando, que ele foi “cancelado” – termo que passou a designar, em tempos de redes sociais, o ato de rechaçar coletivamente alguém por uma atitude ou declaração considerada abusiva ou repudiável.

Os paradoxos de Popper
Ora, o nazismo poderia ser, de fato, tolerado a ponto de ser debatido, como se faz com o comunismo, por exemplo? É algo que não deveria nem ser questionado hoje em dia, mas a resposta é, simplesmente, não. O motivo para isso já foi explicado pelo filósofo austríaco Karl Popper em seu livro A Sociedade Aberta e Seus Inimigos, publicado em 1945.

De origem judaica, Popper viveu a ascensão do nazismo, que o forçou a ir com a família para a Nova Zelândia, em 1937. Em sua obra, ele traça três paradoxos que serviriam para esclarecer muita coisa aos radicais da liberdade de opinião, caso tivessem ouvidos para ouvir: o paradoxo da tolerância, o paradoxo da liberdade e o paradoxo da democracia.

Em resumo, o pensador ensina que a tolerância ilimitada impõe tolerar o intolerante, o que, em última instância, significaria dar poder a quem não vai ter tolerância alguma. Da mesma forma, a liberdade ilimitada acarreta o fim da liberdade e o surgimento da tirania; e a democracia sem controle dá causa ao aparecimento e à dominação por aberrações totalitárias.

Um trecho de um discurso de Joseph Goebbels em 1935, quando o Terceiro Reich já estava no poder, mostra como essa questão era vista pelo “outro lado”, o dos nazistas. Em uma reunião em que a plateia reage às gargalhadas ao que diz o braço direito de Adolf Hitler e responsável pela comunicação do governo, ele fala a seus ouvintes sobre liberdade de opinião:

“Se eles fossem mais espertos do que nós, provavelmente teriam juízo suficiente para nos deter. Porque eles já tinham o poder! Nossos adversários dizem: ‘Mas nós demos liberdade de opinião para vocês!’. Sim, vocês deram para nós. Isso não quer dizer que nós tenhamos que fazer o mesmo para vocês. Sua burrice não precisa ser contagiosa para nós. Ter nos dado liberdade é a prova do quanto vocês são burros!”

A segunda questão, mas não menos importante é a tentativa de igualar nazismo a comunismo. Uma “guerra” conveniente à direita que está no poder hoje no País. No fim de semana passado, o presidente Jair Bolsonaro ganhou as redes por não conseguir destravar uma pistola num estande de tiro. As pessoas riram da incoerência entre a teoria e a prática do capitão da reserva e a trapalhada ocultou a “brincadeira” que ele fez ao final: mostrou a parte vermelha do alvo cravada de projéteis, dizendo e sorrindo: “É muita vontade de dar liberdade para esse povo e acabar com o comunismo”.

Na visão dos bolsonaristas, “comunista” é todo indivíduo que se opõe ou opta por deixar de apoiar Bolsonaro. O fantasma do comunismo está presente, notadamente, nas forças militares, ainda presas ao clima da guerra fria do século passado.

Mas, restringindo o comunismo à ideologia de esquerda ou centro-esquerda, a ideia de criminalizar partidos comunistas como se faz com os nazistas parte do pressuposto de que o governo de ambos levaria inevitavelmente a morte de seus opositores. De fato, muitos regimes comunistas foram sanguinários: Josef Stálin, na União Soviética; Pol Pot, no Camboja; e Mao Tse-tung, na China, entre outros, a pretexto do avanço da revolução, mataram juntos dezenas de milhões de pessoas, em um número nunca calculado exatamente, mas certamente superior ao total de 20 milhões.

Se a questão, porém se baseasse apenas em mortos em massacres e genocídios, os governos do capitalismo europeu dos séculos passados também pagariam uma conta alta. A América Latina e a África sofreram por décadas com o extermínio de etnias causado pela subjugação de seus povos originários por Reino Unido, França, Itália, Holanda, Bélgica, Portugal, Espanha e outros. Direta ou indiretamente, as mortes também chegaram à casa de dezenas de milhões.

Mas a questão fulcral é que partidos de esquerda e de direita podem se adequar às leis da democracia. Em seus estatutos não há nada que ataque direitos fundamentais, especialmente o da vida, como se vê na essência do nazismo.

O caminho para o aperfeiçoamento da democracia necessita de debates abertos. Mas não se pode debater com quem não respeita a democracia em seu próprio estatuto político. O nazifascismo precisa da morte porque está na morte sua revolução particular. A destruição do outro é o objetivo, não apenas o meio.

Parece ser simples, óbvio até. Mas, no mundo da desinformação causada justamente pelo excesso de “informações” de qualidade duvidosa, repetir à exaustão esses princípios é talvez a única ferramenta que os lúcidos têm diante da irresponsabilidade de discursos aparentemente inofensivos, mas que vão se multiplicando.

O ovo da serpente do fascismo, como anunciou Ingmar Bergman em seu filme obra-prima, está sempre a ponto de eclodir e é preciso estar atento a isso. No caso do Brasil, talvez já estejamos a lidar com a situação de modo que a serpente que nasceu do ovo da outra não se reproduza.

Uma resposta para “Propor debate de ideias nazistas precisa voltar a ser aberração”

  1. Avatar Marcos Rocha disse:

    Eu amo a DEMOCRACIA, LIBERDADE RELIGIOSA, E O CRESCIMENTO ECONÔMICO DE FORMA LÍCITA. ODEIO O FASCISMO, COMUNISMO, E QUALQUER FORMA DE ELIMINAÇÃO DO DIREITO DO CIDADÃO BRASILEIRO 🇧🇷

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