Programas sociais abandonados por Iris Rezende ajudam a explicar a desigualdade de Goiânia

Importantes projetos implantados por Nion Albernaz e Darci Accorsi foram encerrados pelo peemedebista e fica claro, agora, que a cidade precisa retomá-los se quiser promover maior igualdade no meio de sua variada população

Local da obra inacabada da Casa de Vidro, no Jardim Goiás, projeto anunciado no fim da primeira gestão de Iris Rezende. No lugar, funcionava o posto de venda dos produtos feitos pelos participantes do programa social criado por Nion Albernaz

Local da obra inacabada da Casa de Vidro, no Jardim Goiás, projeto anunciado no fim da primeira gestão de Iris Rezende. No lugar, funcionava o posto de venda dos produtos feitos pelos participantes do programa social criado por Nion Albernaz

Marcos Nunes Carreiro

Costuma-se dizer que a assistência social é a principal marca dos governos petistas, afirmação que tem muitos fundos de verdade, visto que o Brasil experimentou avanços importantes na área social nos últimos anos com petistas à frente do governo. Porém, restringir a bandeira social a um partido não é nada acertado.

Goiânia, por exemplo, experimentou dois importantes programas sociais nos últimos 25 anos: Trabalhando com as Mãos e Cidadão 2000. O primeiro foi criado no segundo governo de Nion Albernaz (PSDB) e ainda é lembrado por sua re­levância social, tendo dado oportunidade para que centenas de adolescentes em situação de vulnerabilidade social tivessem condições de se preparar para o mercado de trabalho.

Nion saiu da Prefeitura em 1993 e Darci Accorsi (PT) assumiu e reformulou o Tra­ba­lhan­do com as Mãos, dando origem ao Cidadão 2000. E no retorno de Nion ao governo mu­nicipal, em 1997, o Tra­ba­lhan­do com as Mãos foi recriado. Os programas foram mantidos pelo prefeito seguinte, Pedro Wilson (PT), mas encerrados quando Iris Rezende (PMDB) assumiu, em 2005.

Durante os dois governos de Iris à frente da Prefeitura da capital goiana (na verdade, um e meio: de 2005 a 2010) nenhum “substituto” foi criado e Goiânia, que antes tinha importantes ações sociais, passou a não ter mais referência pública em assistência social. O atual prefeito, Paulo Garcia (PT), tentou fazer algo nesse sentido, mas não conseguiu ter êxito.

Talvez, ressalte-se o talvez, seja por isso que Goiânia, en­tre 2008 e 2012, tenha pontuado no topo dos rankings de desigualdade social. Em 2008, ano em que Iris foi reeleito prefeito, um re­latório da Organização das Na­ções Uni­das (ONU) revelou que a capital goiana era a cidade mais desigual da América Latina; em 2010, outro relatório, apresentado des­sa vez no Fórum Urbano Mun­dial da ONU, realizado no Rio de Janeiro, colocou Goiânia co­mo líder do ranking das cidades brasileiras mais desiguais, sendo a 10ª colocada no ranking mundial.

Obviamente, a falta de programas sociais relevantes não é a causa principal do aumento da desigualdade social e econômica em Goiânia, mas auxilia — e muito. Programas sociais, sobretudo os que envolvem profissionalização, capacitação e que ajudam jovens a se inserir no mercado de trabalho, colaboram com a movimentação do capital da cidade e dão oportunidade para que pessoas das classes mais desfavorecidas possam se aproximar das classes mais abastadas da sociedade.

Iris Rezende: ex-prefeito encerrou programas sociais e não apresentou solução viável para sanar a demanda na cidade | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Iris Rezende: ex-prefeito encerrou programas sociais e não apresentou solução viável para sanar a demanda na cidade | Foto: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Em seu programa de governo, Iris propõe agora promover programas para redução da desigualdade. Em 2008, porém, suas propostas tinham como foco a “hu­ma­nização de Goiânia”. Basta andar pela cidade para saber que Goiânia não foi humanizada. Tanto é que, no relatório da ONU de 2012, Goiânia ainda estava no topo do ranking de desigualdade. Não houve humanização.

As resoluções propostas por Iris para o transporte público, por exemplo, não foram realizadas e a cidade sofre com vários problemas de engenharia de trânsito, o que prejudica a vida dos motoristas de automóveis individuais, que foram o principal meio de transporte incentivado pelos governos municipais dos últimos anos, principalmente os de Iris. E quem não pode andar de carro? Sofre com a má qualidade do transporte público.

O que é possível ser feito? Entre os quatro principais candidatos, dois pretendem reformular programas sociais: Van­derlan Car­doso (PSB) e Adri­a­na Ac­corsi (PT). É bandeira de campanha da de­legada reformular o Cidadão 2000, programa criado por seu pai, Darci, e que vai ao encontro de sua pró­pria atuação profissional, visto que foi titular da Delegacia de Pro­­teção à Criança e ao Ado­lescente (DPCA) durante muitos anos.

Já Vanderlan, em reunião com seu vice, Thiago Albernaz (PSDB) e com o ex-prefeito Nion Alber­naz, chegou à conclusão de que é preciso modernizar um programa como o Tra­balhando com as Mãos, projeto que oferecia capacitação e encaminhamento ao mercado de trabalho a jovens em situação de vulnerabilidade social.

Programas assim ajudam, inclusive, no combate à insegurança, visto que projetos de incentivo à profissionalização de jovens reduzem a possibilidade de que eles se envolvam com roubos e tráfico de drogas, por exemplo, para ficar no óbvio. Porém, fazem mais que isso: garantem a inclusão desses jovens no mercado de trabalho e a consequente produção de riquezas para a sociedade.

Mas, afinal, o que era o Tra­ba­lhando com as Mãos? “O programa foi criado por nós, em parte com uma equipe da Fumdec [ex­tinta Fundação Municipal de De­sen­vol­vimento Comunitário], e de­pois fomos contratando outras pessoas. Tratava-se de um projeto de inclusão social e resgate de ci­dadania. Uma das exigências do pro­jeto era que os participantes fossem adolescentes de baixa renda e que estivessem matriculados na escola. E não podia ter mais de um indivíduo da família in­tegrando o programa”, conta a historiadora Geralda Alber­naz, ex-primeira-dama de Goiânia e a principal idealizadora do programa.

Geralda relata que o programa não funcionava sozinho, mas estava integrado a vários outros projetos da Prefeitura. “Na gestão do Nion, existiam também o Renda Mínima, o Banco do Povo municipal, que ajudava as famílias dos adolescentes atendidos pelo Tra­ba­lhando com as Mãos, e também as oficinas profissionalizantes, que eram 30”, afirma.

As oficinas citadas funcionavam em vários locais da cidade, como Vila Redenção, Vila União, Setor Nova Esperança, em convênio com a Universidade Católica de Goiás (antiga UCG), e também Jardim Curitiba e Bairro da Vi­tória. As oficinas eram variadas e tinham a intenção de ensinar uma profissão aos adolescentes.

“Nós tirávamos modelos da Revista Elle francesa e os meninos fabricavam. Eram móveis de madeira. Nós também tínhamos fábrica de vasos de cimento e de fibra. Sem contar as outras. Na­quela época, quem queria comer empadão, tinha que ir à cidade de Goiás, então, nós passamos a ter oficinas de empadão, pão de queijo, doces em compotas. Também tínhamos oficinas de embalagens, de decoração, de massas, de flores etc. No último ano da administração do Nion, nós fizemos uma exposição de páscoa com quase duas toneladas de chocolate”, revela Geralda.

Vanderlan Cardoso: se eleito, poderá modernizar o importante programa Trabalhando com as Mãos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Vanderlan Cardoso: se eleito, poderá modernizar o importante programa Trabalhando com as Mãos | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

E os produtos feitos nas oficinas eram vendidos na loja do Trabalhando com as Mãos, que funcionava no Jardim Goiás. “A loja do programa funcionava em uma casinha de madeira, antes do Shopping Flamboyant, perto do antigo Relógio das Flores. A demanda para comprar os produtos era grande, então, havia um limite para cada comprador. A loja funcionava de quinta a sábado; os outros dias eram para reposição. O dinheiro que arrecadávamos era nosso capital de giro. Tudo era feito com muita seriedade”, diz.

De fato, existiu um posto de venda do programa Traba­lhando com as Mãos. O endereço correto é o encontro entre as Avenidas E, Deputado Jamel Cecílio e Rua 52, no Jardim Goiás, próximo ao Shopping Flamboyant. A casinha de ma­deira citada por Geralda já não existe mais. No local, agora, há uma obra inacabada, como é possível ver na foto que abre a reportagem.

A casinha foi derrubada para dar lugar a um projeto anunciado no fim da primeira gestão de Iris à frente da Prefeitura, em 2008: a Casa de Vidro, que deveria ser um importante centro para manifestações culturais da cidade. Previa-se para a obra: uma cúpula de vidro, formato elipsoide com mais de 13 me­tros de altura; e um salão multiuso acoplado, que seria revestido com lâminas de alumínio inspiradas nas escamas do fruto do buriti. A obra seria importante para a cidade, mas nunca saiu do papel.

A Casa de Vidro foi orçada em quase R$ 4 milhões e os recursos para a construção viriam de emenda parlamentar proposta pela então deputada federal Iris de Araújo (PMDB). A emenda foi feita junto ao Ministério do Turismo em 2008. Contudo, o primeiro repasse foi realizado apenas em 2011, visto que Iris deixou a Prefeitura para disputar o governo e a obra só foi autorizada no fim de 2010, pelo já prefeito Paulo Garcia.

A obra começou, mas parou quando a empreiteira contratada por licitação para realizar a construção decidiu deixar o projeto. A empresa, segundo consta, afirmou ter dificuldades na execução do projeto. Menos de 10% das obras foram executadas e a área hoje se encontra em estado de degradação. A Prefeitu­ra, diante da reclamação de moradores da região de que as fundações da Casa de Vidro estavam servindo de abrigo para usuários de drogas, chegou a cercar o local com tapumes e promoveu ações para que artistas de rua fizessem pinturas nos tapumes, como incentivo à arte. Porém, os tapumes foram derrubados e a área se encontra aberta novamente.

De acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Seinfra) da Prefeitura de Goiânia, o projeto da Casa de Vidro está em fase de aprovação em órgãos externos, como Celg e Corpo de Bom­bei­ros. Após aprovação desses ór­gãos, o projeto será enviado à Cai­xa Econômica Federal para análise e aprovação de nova licitação.

Cidadão 2000

Adriana Accorsi: é sua bandeira de campanha reviver o Cidadão 2000, projeto criado na gestão de seu pai | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Adriana Accorsi: é sua bandeira de campanha reviver o Cidadão 2000, projeto criado na gestão de seu pai | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O Cidadão 2000, programa acoplado ao Trabalhando com as Mãos, foi uma iniciativa da então primeira-dama Lucide Sauthier Accorsi, logo no início da gestão de Darci Accorsi, que sucedeu Nion Albernaz na Prefeitura de Goiânia em 1993.

O programa funcionava em parceria entre o município e a Sociedade Cidadão 2000, uma organização não-governamental que foi criada com o objetivo de dar agilidade e efetividade à proteção de crianças e adolescentes.

O Cidadão 2000, que contava com diversos profissionais, entre psicólogos, pedagogos e assistentes profissionais, atuava em três frentes: no atendimento preventivo, na proteção integral e na inserção ao mercado de trabalho.

Adriana Accorsi, candidata do PT à Prefeitura de Goiânia e filha do ex-prefeito Darci e de Lucide Accorsi, tem como uma de suas principais bandeiras de campanha reativar o Cidadão 2000. Faz par­te do que ela chama de “gestão humanizada”, com foco na criança e no adolescente.

De acordo com Adriana, esse objetivo vai ao encontro tanto da história de sua família, visto que seus pais desenvolveram o Cidadão 2000, quanto à sua própria história de trabalho como delegada. Faz parte do projeto de reformulação do programa também a de reativação de outros projetos da gestão de Darci, como as Escolinhas Esportivas, que também atendiam crianças e adolescentes, dando ocupação a eles no contra turno escolar.

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