Professores e alunos goianos mantém boas expectativas para novo Ensino Médio

Modelo que será implantado integramente no próximo ano já é testado de forma gradual em unidades da rede estadual desde 2020

Sancionada pelo ex-presidente Michel Temer (MDB) em 2017 (depois de ser rapidamente aprovada no Congresso Nacional no mesmo ano), a promulgação da lei do novo ensino médio nº 13.415/2017, chegou a causar desconfiança e revolta de educadores e alunos na época e suscitou até mesmo a ocorrência de protestos em contrariedade. O cenário atual, no entanto, é o oposto a esse contexto de rejeição. Goiás, em 2020, iniciou a reforma do ensino médio em 596 escolas estaduais como “projeto piloto”, para testar o novo modelo.

A implantação do Novo Ensino Médio, nessas escolas, se deu, inclusive, antes da homologação do Documento Curricular para Goiás – Etapa Ensino Médio pelo Conselho Estadual de Educação de Goiás, o qual é fundamentado na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em dezembro de 2018. Hoje, prestes ao novo modelo a ser implementado de vez em toda a rede estadual, no início de 2022, o documento com todas as diretrizes necessárias para guiar educadores e gestores conta com 1.397 páginas, de modo a explicar detalhadamente todas as alterações a serem realizadas.

Em 2021, a implementação se deu nas turmas de 1ª série do ensino médio, com a inserção dos componentes curriculares Projeto de Vida e Eletivas e ampliação da carga horária em 62% das turmas de 1ª série da rede estadual de ensino, além da implementação do V Itinerário, em 48 unidades da rede estadual de ensino. E, para 2022, será ampliada a carga horária em 100% das turmas de primeiras séries e haverá a implementação das trilhas de aprofundamento nas segundas séries, contemplando 120 escolas de período parcial, conforme informou a superintendente do Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), Osvany Gundim.

De acordo com a Superintendente “encaminhamos às unidades escolares vídeos e orientações explicativas acerca do processo de implementação, a medida em que as ações foram sendo executadas. Realizamos, ainda, o trabalho de coleta das contribuições dos professores para a escrita do documento curricular, a ser implementado em Goiás. Também tivemos um seminário em Goiânia que contou com a participação de todos do sistema de ensino goiano.

Em Goiás, inclusive, Osvany explica que a continuidade da reforma, em 2022, ocorrerá gradualmente. Além dos direcionamentos encaminhados à rede, a superintendente explica que alunos e professores foram ouvidos acerca da proposta por meio de questionários e rodas de conversa.

“Fizemos questionários por meio do One Drive e encaminhamos os links às unidades escolares. A partir disso, os estudantes, pais e professores deram suas contribuições. Também atuamos com rodas de conversa e ações que chamamos de ‘protagonismo juvenil’, onde orientamos as coordenações regionais que guiam as escolas a reunir os estudantes e discutir sobre os temas que encaminhamos”, conta a superintendente. Segundo ela, a partir dessas rodas de conversa, são geradas abas, gráficos e relatórios que contribuem para a consolidação do modelo a ser implementado”. 

Isso, porque apesar de todos os estados terem como base a referida Lei de Diretrizes e Bases da Educação, cada um deles executa o plano de uma forma distinta, conforme seu cenário, suas demandas e condições. 

Amanda Stephanie, que é professora de Fundamentos da Administração em uma das escolas de Goiânia que implantaram de forma piloto o Ensino Médio, explica, inclusive, que foi a partir de toda essa preparação que o receio se esvaiu e professores e alunos conseguiram aproveitar a nova estrutura. “No início, ficamos com medo, por ser o novo. O diferente, ficávamos sem saber o que ia acontecer, se íamos tirar disciplinas ou não, mas depois das formações que tivemos, os cursos que fizemos e tiramos nossas dúvidas isso foi tranquilizado”, explica a professora.  

O que mudou?

Não apenas em Goiás, mas em todo o Brasil, uma das principais alterações foi a carga horária, que obteve ampliação de 2,4 mil horas para 3 mil horas durante os três anos que compõem esta etapa da Educação Básica. Dessas 3 mil, 1,8 mil são direcionadas à formação básica a qual todos os alunos anteriormente já tinham acesso. Já as demais 1,2 mil são direcionadas aos itinerários formativos, que é uma forma de flexibilização do currículo que promove a autonomia ao estudante e permite que eles possam escolher em qual área desejam se aprofundar, a partir do que é ofertado e do próprio interesse do aluno.

Esses itinerários são formados por três componentes: o projeto de vida, as eletivas e as trilhas de aprofundamento. Enquanto o projeto de vida busca orientar os estudantes quanto ao futuro, as eletivas são “disciplinas” ofertadas considerando a demanda da escola e escolhidas pelos alunos conforme seus interesses próprios. 

Diferente dos dois primeiros, as trilhas só serão ofertadas a partir da 2ª série do Ensino Médio e, ainda, não foram estreadas. Isso, porque a reforma para a implantação do novo modelo é gradual. O motivo, segundo a superintendente do Ensino Médio da Secretaria de Estado da Educação (Seduc), Osvany Gundim, é para que tanto alunos, quanto professores e gestores possam se apropriarem das novidades com maior qualidade. 

Até o momento, mesmo que, no começo, tenha ocorrido certo estranhamento, o parecer de professores e alunos que passaram por essa implementação inicial é positiva. Eduardo Vales da Silva, por exemplo, tem 15 anos, estuda em Goiânia e não teve reclamações do que experienciou em 2021, momento em que cursou o primeiro ano de seu Ensino Médio. Indo para a 2ª série em 2022, a expectativa é alta quanto as próximas mudanças – de concretização da reforma – pelas quais irá passar. 

Já implantado, o Projeto de Vida foi uma das mudanças elogiadas por ele. “É uma matéria necessária, já que consigo esquematizar o que quero ser, o que quero estudar e a carreira que quero seguir”, pontuou. Foi, inclusive, nesses encontros, que Eduardo oficializou a decisão de futuramente cursar Engenharia (Mecatrônica ou Aeroespacial), a partir da compreensão que passou a ter sobre o que tem mais apreço de estudar e fazer. “Não adianta muito você entender da profissão e não gostar, com o tempo, você acaba desistindo dela”, explicou. 

Mãe de Laura, aluna do nono ano que, em 2022, irá ingressar no Ensino Médio,  Renata Fernanda Pereira anseia o tipo de orientação que o novo ensino médio promete ofertar à filha, com a expectativa de que ela descubra o melhor caminho para estudar o sonhado curso de Medicina Veterinária. “Hoje em dia, nossos filhos acabam ficando alheios às coisas que ocorrem no mundo e precisam de maior orientação, e isso é dever dos pais e da escola fazer a parte dela para fornecer isso. Então qualquer coisa que venha agregar conhecimento a nossas crianças, é muito bem-vindo, principalmente colaborando para que eles entendam o que realmente gostam”, opina.

Renata, inclusive, afirma que gostaria que essas mudanças tivessem chegado antes, especialmente durante a pandemia, momento que considera ter sido frágil para a educação dos adolescentes. Isso, porque além de Laura, Renata é mãe de Letícia, que em 2022 irá cursar a terceira série do Ensino Médio e não irá passar por essas alterações”. Acredito que a Laura estará muito mais bem assistida do que a Letícia esteve, infelizmente”, avalia, ao comparar a estrutura curricular fornecida para cada uma das filhas. 

Os itinerários formativos ofertados pela rede estadual contam com 17 propostas diferentes. No caso, cada escola oferta de acordo com sua demanda própria. Essas propostas, de acordo com a superintendente, consistem em duas na área de Linguagens e suas Tecnologias, duas da área de Matemática e suas tecnologias, duas de Ciências da Natureza e suas tecnologias, duas de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, seis itinerários integrados (junção de duas ou mais áreas do conhecimento) e três itinerários técnicos profissionalizantes. Esses itinerários integrados buscam, principalmente, atender municípios que possuem poucas unidades escolares.

A opção de escolher um itinerário técnico profissionalizante agradou tanto Eduardo quanto Matheus Vieira e Gabriel Amorim. Tanto Eduardo, quanto Gabriel realizam o curso técnico em Administração – que, inclusive, é ministrado pela professora Amanda Stephani.  “É um excelente curso, por sinal”, avalia Eduardo. Matheus, por outro lado, focado em concursos da área das Polícias Federal, Rodoviária ou Civil, destaca a importância de ter a possibilidade de autonomia para escolher o que estudar nos itinerários. “Um dos conteúdos da prova da Polícia é informática, e eu tenho aulas técnicas de informática. Então ao invés de eu estar em casa, com o aumento da carga horária e a oferta desses conteúdos eu posso estar na escola e aprender esses componentes que irão me ajudar a engatar na minha futura carreira”, explica Matheus. 

Vitor Magalini Zago, que é professor de Física no município de Rubiataba, considera todas essas alterações como uma oportunidade do estudante “se conhecer e conhecer uma área que ele realmente tem interesse”. “O aluno precisa sonhar, ter objetivos. Se ele tem mais interesse em uma área, ele pode escolher um itinerário formativo que será mais prazeroso para ele. Especialmente porque as disciplinas eletivas ofertadas pelas escolas serão construídas também de acordo com a demanda dos alunos”, avalia.

Em Rubiataba, na escola em que Vitor atua, até o momento são ofertados duas eletivas técnico profissionalizantes. Um chamado “Mundo do Trabalho” e o de “Educação Ambiental e Sustentabilidade”. Enquanto a primeira busca esclarecer questões burocráticas, direitos e deveres sobre o ingresso do jovem no mercado, a segunda é voltado ao desenvolvimento da educação ambiental. 

“No início, os alunos estranharam muito essas disciplinas novas, já que nunca haviam tido contato com elas, mas agora recebem muito bem. No projeto de vida começaram a pensar nos próprios objetivos. Agora eles estão familiarizados e, inclusive, acham tudo muito interessante. São muito ativos. Inclusive durante a pandemia, ainda em 2020, enquanto o ensino era estritamente remoto”, conta Victor.

A participação dos alunos nas aulas também foi um aspecto ressaltado, com surpresa, pela professora de Fundamentos da Administração, Amanda Stephanie. “A adaptação dos alunos foi excelente. A turma que trabalho, desde o início, foi muito coesa e não teve quase que nenhuma desistência, mesmo com as aulas à distância. São alunos engajados, participativos e extremamente curiosos. O novo Ensino Médio acaba fazendo com que o aluno seja protagonista e agente ativo de sua formação acadêmica. Isso é fundamental para que eles se desenvolvam como cidadãos críticos e capazes de fazer escolhas para o futuro”, complementa a educadora.

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