Por medo de contrair Covid-19, doentes crônicos têm sofrido em casa

Profissionais da saúde alertam que negligência de condições crônicas pode ser mais perigosa do que a Covid-19 e que hospitais podem recebê-los em segurança

Hospital Anis Rassi destinou fluxo de atendimento isolado para pacientes com suspeita de Covid-19 | Foto: Reprodução

Desde o decreto de 17 de março, o enfrentamento do novo coronavírus (Sars-CoV-2) mudou o cotidiano em Goiás. Aglomerações estão proibidas, a higienização dos ambientes é compulsória, máscaras são obrigatórias. Os 100 dias de combate salvaram incontáveis vidas – apenas no domingo em que esta reportagem for publicada serão 1.137 mortes a menos em função do isolamento social, segundo estimativa de pesquisadores da Unicamp –, mas também transmitiram a mensagem de catástrofe iminente.

Não sem razão, afinal, são 1.233.147 casos e 55 mil mortos pela Covid-19 em todo país, segundo a contagem do Ministério da Saúde. Entretanto, quando o medo suplanta a razão, o número de vítimas pode ser ainda maior. Segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia, o receio de contrair o Sars-CoV-2 está causando o afastamento dos hospitais de pacientes que necessitam atendimento e acompanhamento rotineiro para o tratamento de doenças crônicas. 

Luiz Francisco Teles de Almeida é hipertenso e portador de uma cardiopatia hipertensiva. Em função da pressão arterial alta, seu coração e vasos sanguíneos são sobrecarregados. Ele afirma que, pelo fato de a hipertensão ser um fator de risco para a Covid-19, ele resolveu cancelar suas consultas agendadas. “Eu tenho de ser acompanhado de tempos em tempos e tomar remédios para o coração. Mas, por conta dessa situação toda, fiquei isolado em casa. Achei melhor cancelar uma consulta e não marquei outra, porque o cardiologista atende em um hospital que interna pacientes com coronavírus”, conta Luiz de Almeida.

“O risco de morrer de infarto era muito maior”,
diz Luiz de Almeida |
Foto: Reprodução / Acervo Pessoal

Entretanto, no final de maio, Luiz de Almeida foi forçado a procurar o cardiologista por sentir fadiga, tonturas e vertigens. “Foi um desmaio que me fez mudar de ideia e ir me consultar. Quando eu disse para o médico que tinha problema no coração, me examinaram e viram que estava completamente descompensado”, ele conta. “Me explicaram que o risco de eu morrer de infarto era muito maior do que de coronavírus se eu não fizesse o acompanhamento”.

Em tempos normais, pré-coronavírus, as doenças cardíacas são responsáveis por 30% dos óbitos registrados no Brasil. Somadas às neoplasias, a proporção chega a praticamente metade de todas as mortes no país. Apenas em 2020, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cardiologia, o número de mortes causadas por doenças cardiovasculares já ultrapassa 190 mil. 

Por isso, profissionais da saúde temem o afastamento de pacientes crônicos dos consultórios médicos. Bárbara Teodoro, médica e diretora técnica do Hospital Santa Bárbara, afirma: “Muitos pacientes crônicos têm chegado agonizando. Apendicites, derrames, acidentes e infartos não deixaram de acontecer, eles só deixaram de vir ao hospital. As pessoas estão escolhendo ficar em casa passando mal e isso não é solução para a pandemia, apenas piora o quadro do próprio paciente”. 

A negligência no acompanhamento de condições crônicas, como cardiopatias, faz com que  o quadro clínico se agrave pela demora na assistência, segundo Humberto Graner Moreira, médico cardiologista, membro do corpo clínico e coordenador da UTI Cardiológica do Hospital Anis Rassi. Este agravamento do quadro clínico amplia o tempo de tratamento, onera seu custo e pode até inviabilizar a chance de cura. 

Humberto Graner Moreira | Foto: Reprodução

Humberto Graner Moreira afirma que a observação do fenômeno da piora dos quadros crônicos começou em países como a Itália, Reino Unido, França e Espanha. “Em março e abril foram publicados os primeiros relatos de agravamento de condições crônicas na literatura nesses países europeus que atravessavam o lockdown. Agora, estamos vendo o mesmo acontecer no Brasil”, diz o cardiologista.

No Hospital Anis Rassi, onde Humberto Graner Moreira coordena a  UTI Cardiológica, a equipe observou pacientes frequentes desaparecerem. “Quem deveria fazer suas consultas periodicamente tem ficado em casa por receio de se contaminar. Para estas pessoas, o risco que a descompensação de doenças cardiovasculares oferece é muito maior do que o risco da Covid-19”, diz o médico. 

Ignorar sintomas, simplesmente esperando que eles desapareçam, pode ser uma atitude que causa danos a todo o corpo, segundo Humberto Graner Moreira. “As consequências são sistêmicas”, diz o cardiologista. “A demora no atendimento de uma condição cardíaca pode ocasionar problemas pulmonares, renais, pouca oxigenação cerebral”. O problema fica ainda mais complexo quando se trata de neoplasias, pois, segundo Humberto Graner Moreira, o diagnóstico precoce de câncer é o principal fator de sucesso no tratamento. 

Além de a ameaça oferecida por condições crônicas não tratadas ser proporcionalmente maior do que a ameaça da Covid-19, profissionais da saúde se prepararam para atender pacientes com segurança. Bárbara Teodoro afirma que o hospital que dirige tem fluxos isolados para os pacientes de Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) e demais pacientes. “Fizemos duas recepções separadas para a entrada de quem tem suspeita de Covid-19 e quem não tem. Além disso, adotamos todos os equipamentos de proteção e protocolos de segurança. Os riscos de contágio no ambiente hospitalar são mínimos”, diz.

“Os hospitais se prepararam desde o começo para enfrentar a Covid-19 sem negligenciar as outras doenças”, afirma cardiologista | Foto: Reprodução

No Hospital Anis Rassi, o fluxo de atendimento foi organizado de forma que as pessoas com suspeita de Covid-19 não tenham contato com outros pacientes, desde a recepção até a alta. Humberto Graner Moreira afirma: “Os hospitais se prepararam desde o começo para enfrentar a Covid-19 sem negligenciar as outras doenças. O paciente pode se sentir seguro no hospital. Não ignore os sintomas, pois agir rápido pode fazer toda diferença.”

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) publicou no dia 20 de abril novas orientações para a realização de atendimentos eletivos (que não são urgentes) com segurança. Além do uso de Equipamentos de Proteção Individual pelos profissionais da saúde, o documento determina que consultórios e hospitais devem distribuir máscaras cirúrgicas a todos os pacientes e acompanhantes, independentemente de apresentarem sintomas respiratórios. Nas salas de espera, a distância mínima de dois metros deve ser mantida. Os atendimentos devem ser agendados com intervalos mínimos de 30 minutos para evitar o contato entre os pacientes e possibilitar a correta higienização e desinfecção do espaço.

Leonardo Mariano Reis, médico oftalmologista e vice-presidente do Cremego, afirma que os médicos goianos têm relatado ao conselho a situação de medo dos pacientes e a queda no número de consultas para acompanhamento de condições crônicas. “Infelizmente, quem sai de casa hoje está sujeito à contaminação. Em Goiânia, o número de casos explodiu e tanto o sistema privado quanto o sistema público de saúde estão no limite de suas capacidades. Ir a um local onde se concentram infectados com coronavírus não agrada as pessoas. Com razão, elas devem evitar qualquer aglomeração. Mas atendimentos de saúde são essenciais e inevitáveis. Até por isso, é importante seguir as recomendações de segurança”, afirma Leonardo Mariano Reis.

Leonardo Mariano Reis | Foto: Reprodução

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