Nem as flores estampadas em suas roupas conseguem dar à presidente a calmaria que tanto almeja ter para governar um País que, no entanto, luta contra a classe que a petista representa: a política

Esperando brisas, mas só recebendo tempestades. | Foto: reprodução
Esperando brisas, mas só recebendo tempestades. | Foto: reprodução

Marcos Nunes Carreiro

As pessoas costumam gostar de flores por duas razões: 1) Elas são bonitas. Existem de todas as cores: azuis, lilases, rosas, amarelas, vermelhas e até de não-cores, como preto e branco; 2) São perfumadas. Quem não gosta de um leve aroma percorrendo um lugar que costuma passar todos os dias? Flores são poeticamente olfativas. E dentro desse universo, existe a babiana, uma flor muito bonita que tem por característica suas seis grandes pétalas.
A babiana é uma flor interessante, pois cresce no meio do inverno e se mantém viva e elegante até a primavera, quando atinge o auge refletindo beleza acima de sua folhagem, apoiada por longas hastes.

A principal dica para quem quer cultivar uma babiana é plantá-la em solo fértil, preferencialmente arenoso e bem drenável, enriquecido com matéria orgânica e que seja irrigado regularmente. Além disso, como é uma planta de clima tropical, deve crescer sob sol pleno. Logo, não tente cultivar essa flor em inverno muito rigoroso.

Mas a principal curiosidade desta flor fica por conta de seu nome. No inglês, é conhecida por baboon flower. Em tradução livre, é possível aportuguesá-la como flor-de-babuíno. Isso porque, em seu habitat natural, essas flores servem de alimento àqueles primatas de nádegas exibidas e bastante territorialistas.

Os brasileiros que assistiram os noticiários de quinta-feira, 19, ou leram os jornais e notícias de internet na sexta-feira, 20, viram muitas babianas. Onde? Na blusa usada pela presidente Dilma Rousseff. Costuma-se dizer que ninguém repara em roupa de homem, sobretudo políticos. Isso porque, a não ser que alguém use um terno amarelo mostarda, todos se vestem de maneira muito semelhante, em tons de cinza e preto. Isso não ocorre com as mulheres.

A presidente estava mais elegante que o normal na quinta-feira, 19. Na­da de vermelho PT ou os tons pas­tel que se acostumou a usar ultimamente: blusa, calça e sapatos pretos, um pequeno relógio dourado, colar e brincos de pérolas bastante discretos. Is­to é, nada que chamasse muito a atenção.

Talvez, por isso, nem todos tenham re­parado que a presidente não teve tempo para se trocar entre os dois eventos dos quais participou naquele dia. Pela manhã, em cerimônia no Pa­lá­cio do Planalto, em Brasília, Dilma assinou medida provisória que trata da re­ne­gociação das dívidas dos clubes de futebol com a União — algo em tor­no de R$ 4 bilhões; à tarde, em Goiâ­nia, a presidente participou do lançamento das obras do BRT Norte-Sul, que fazem parte do PAC da Mobilidade.

Os dois eventos eram importantes, não por seus motivos centrais, mas pelo que representavam para Dilma: em Brasília, foi a primeira vez que ela falou sobre a saída do ministro da Educação, Cid Gomes, que pediu demissão no dia anterior, após entrar em conflito com o principal partido da base, o PMDB; e Goiânia marcou sua primeira aparição pública desde as manifestações do dia 15 de março.

Na verdade, não há relevância alguma no fato de a presidente não ter trocado de roupa. É uma futilidade. Acontece que, por não ter tido tempo de fazê-lo, foi possível reparar na estampa de sua blusa, as babianas, que são, por sua vez, uma metáfora perfeita para a atual situação do governo Dilma.

O governo petista, como a flor, carece de terreno fértil, enriquecido com matéria orgânica e que seja irrigado regularmente. Mas não é do que dispõe no momento, ao contrário, Dilma se vê em um contexto que é como a planta tropical tentando sobreviver em um inverno rigoroso sem ao menos avistar a primavera que lhe fará florescer novamente as flores. Além disso, há vários, inúmeros babuínos — aqueles políticos exibidos — almejando arrancar-lhe da terra. A fome é grande. Ou seja, faltam os componentes para um novo florescimento petista.

Além disso, as babianas se assemelham — repare bem — à insígnia do xe­rife que Dilma não consegue ser. Ora, que xerife deixa que seus comandados forcem a saída de um colega? Foi o que aconteceu com Cid Gomes, forçado a sair depois que a cúpula do PMDB, representada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, pediu a cabeça do então ministro. Sim, bem ao estilo “velho oeste”.

Por que Dilma concedeu? Não tinha escolha. Ela não tem força para fazer valer suas vontades porque precisa do Congresso Nacional, inclusive para voltar a reconquistar pontos com a população, visto que a maior parte das medidas previstas no pacote anticorrupção (leia matéria ao lado), por exemplo, dependem de aprovação de deputados e senadores.

Nesse aspecto, o xerife do go­verno atualmente se chama PMDB, que não apenas detém a vice-presidência como também o comando do Con­gres­so Nacional, literalmente. “Mas Eduardo Cunha e Re­nan Calheiros estão no alvo do maior escândalo político do mo­mento”, o leitor pode argumentar, estando correto. Contudo, isso é mais um motivo para que sua força au­mente, pois, pressionados, os peemedebistas crescem ainda mais para cima do governo.

Isso significa que o governo está condenado a secar e cair ao fim do inverno? Não exatamente. Se os babuínos ainda não conseguiram arrancar as babianas do chão é porque esta planta tem raízes fortes. Além disso, acabamos de entrar no outono.

Pacote anticorrupção só será resposta à população se sair do papel

No evento em Goiânia, a presidente Dilma estava confortável. Era o centro das atenções de todos os deputados, prefeitos da base do governo federal e também do governador Marconi Perillo. Sim, o tucano confirmou sua postura de “apoio” à Dilma, inclusive em discurso, quando falou que já chegou a defendê-la até dentro do PSDB. Estratégia política, obviamente, afinal gestão e política caminham lado a lado e não é possível governar um Estado sem o auxílio do governo federal, que detém os recursos, mesmo que isso irrite um pouco o tucanato.

Quando anunciado que Dil­ma iria fazer sua primeira aparição “pública” após as manifestações do dia 15 em Goiânia, ficou a pergunta: por que a presidente, que está com um índice de reprovação de 75% no Centro-Oeste, segundo pesquisa Datafolha, virá a Goiânia, cidade em que o prefeito não compartilha apenas o partido, mas também a alta rejeição? Paulo Garcia, de acordo com a última pesquisa Serpes, tem 63% de “ruins” e “péssimos” para sua gestão.

A pergunta foi respondida logo ao chegar ao evento e explica também porque Dilma estava tão à vontade: apenas convidados entraram no cercado Paço municipal da capital goiana. Acesso extremamente controlado. Isso, claro, foi feito sob medida para que a presidente não tivesse um curto momento de paz após uma semana tão conturbada:

1) Manifestações que levaram aproximadamente dois milhões de pessoas às ruas; 2) Prisão do ex-diretor de Serviços da Petro­brás Re­nato Duque, de quem to­dos dizem que virá a ligação do governo com os esquemas de corrupção; 3) En­fren­tamento entre o então ministro da Edu­cação, Cid Gomes, e os de­pu­tados federais; 4) O presidente da Câmara Federal, Eduardo Cu­nha, pressionando para a saída de Cid sob ameaça de retirada do PMDB da base do governo; 5) Con­firmação da saída de Cid do MEC e pressão por reforma ministerial.

Assim, se Dilma estava con­for­tável, a população não. A situação em que a presidente retomou seu contato com a população não serviu de termômetro, pois o direcionou ao resultado almejado. A verdadeira temperatura é a que fez balançar novamente o governo, que está aberto a ataques por dentro e por fora. A gestão do País está instável e é isso que faz o po­vo se revoltar com a situação política como um todo, pois essa irregularidade mostra os problemas da base inteira, sobretudo no Le­gislativo.

O termômetro ideal é o que fez o governo correr para apresentar o pacote de medidas anticorrupção prometido ainda na campanha eleitoral do ano passado. O tal pacote prevê sete possíveis ações: tornar crime a prática de “caixa 2”; estabelecer o confisco de bens e propriedades provindas de enriquecimento ilícito; estender a Lei da Ficha Limpa também para os servidores públicos, inclusive cargos de confiança; e criação de grupo de trabalho com membros do Executivo, do Con­selho Nacional de Justiça (CNJ), da Ordem dos Advo­gados do Brasil (OAB) e do Ministério Público para estudar outras ações de combate à corrupção.

As outras medidas são: pedido de urgência ao trâmite do Projeto de Lei que autoriza venda antecipada de bens apreendidos, cuja renda ficará depositada em juízo; pedido de urgência do Projeto de Lei que torna crime a incompatibilidade de bens e ganhos dos funcionários públicos; e, por último, o decreto que detalha a Lei Anticorrupção, em vigor desde 2005, ao incentivar empresas privadas a adotarem medidas para reduzir atos ilegais.

Quatro das medidas são novas, as outras três não, mas seis delas dependem de aprovação do Con­gresso Nacio­nal. Isso pode explicar porque Dilma tem feito tantas concessões ao “xerife” PMDB e falado tanto em “moralidade republicana”, expressão que serve como um pedido, um desabafo do tipo “deixem-me governar em paz”.

No foco de discussões, Legislativo mostra o quanto é ineficiente

Presidente da Câmara, Eduardo Cunha: demonstra ser o exemplo de que o Legislativo brasileiro só exerce independência quando ameaçado | Foto:  Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil
Presidente da Câmara, Eduardo Cunha: demonstra ser o exemplo de que o Legislativo brasileiro só exerce independência quando ameaçado | Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

A “queda” de Cid Gomes na se­mana passada decretou duas coisas: a importância do Legis­lativo para o Brasil e para o go­verno Dilma. A primeira questão é clara: um Legislativo insatisfeito imobiliza o País; a segunda é mais ainda: um Legislativo insatisfeito imobiliza o governo.

Cid Gomes falou aquilo que muitos brasileiros gostariam de expressar, sua revolta com um Congresso Nacional que é inócuo, sem sentido, inchado e, ainda por cima, corrupto — uma palavra mais conhecida que o “achacar” usado pelo agora ex-ministro da Educação quando se referiu ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB).

Mas não apenas. Cid disparou na Câmara o que provavelmente Dilma gostaria de ter dito, mas não pode: que há gente da base fazendo mais oposição a ela que os tucanos. Eduardo Cunha é um deles. Prova disso é que, de novo, ele ameaçou tirar seu partido da base governista caso Cid não renunciasse. Disse que era ou Cid ou o PMDB. “Dessa vez é sério”.

Isso tudo porque Eduardo e Renan Calheiros culpam Dilma e o governo petista por deixarem seus nomes serem ligados às investigações da Operação Lava Jato. Estão sob pressão e, por isso, estão pressionando de volta. A crise na base governista colocou o Legislativo no mapa da população, algo quase inédito, pois as pessoas quase não sem lembram da existência dos deputados e senadores que elegeram. Eles se sentiam livres e agora se sentem acuados. As manifestações fizeram isso.

Colocar o Legislativo em foco fez com que ele se mostrasse como que tem sido nos últimos anos: quando convém, braço direito do governo; quando não, uma espécie de antipoder. Neste momento, não convém. Dilma com popularidade baixa, vários escândalos envolvendo gente próxima ao Execu­tivo, partidos insatisfeitos, lista com dezenas de nomes de deputados e senadores participando de ilegalidades. Logo, atualmente, o Legislativo é o antipoder. Mas a questão é: até quando?

Se a população, que se vê cansada da velha (não)atuação política no Brasil, continuar pressionando por mudanças — que não sejam para “português ver” —, ninguém pode dizer que alterações são impossíveis. Porém, é necessário mais: mais gente nas ruas, mais seriedade no trato das questões que envolvem o País, mais maturidade política. Se isso ocorrer, talvez vejamos as babianas voltarem a crescer sob sol pleno e em terreno fértil e irrigado constantemente.