Petróleo, mapa e fé: a trinca que move a guerra da Síria

Não há o risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial. Mas é preciso dizer que o xeque dado pelos Estados Unidos no jogo ainda é seguido por uma incógnita

Síria: Soldados da defesa civil da Síria, trabalham na remoção dos escombros de um hospital da ONG Médicos Sem Fronteiras, que foi bombardeado | Foto: Civil Defense Idlib

Omran Daqneesh está coberto de pó e de sangue. Ali, daquela cadeira laranja, em meio à correria da situação de emergência, ele mira um ponto fixo, que talvez signifique apenas não ver lugar algum, nem enxergar qualquer perspectiva. É compreensível que esteja naquele estado, naquele momento. É inacessível o que esteja pensando, assim como é incompreensível o que se percebe além de sua aparência chocante. Intangível é uma palavra melhor. Sentado naquela cadeira laranja de uma unidade de socorro humanitário, Omran está vivo e inteiro, o que já é uma vitória – toda sua família ficou mais seriamente ferida do que ele. Seu irmão, Ali, vai morrer em alguns dias.

Na verdade, olhando por uma perspectiva enviesada, Omran é um sortudo. Ele foi fotografado e filmado após ser recolhido dos escombros de sua casa, atingida por um bombardeio das forças militares sírias em Aleppo, epicentro de um cenário que já matou mais de 400 mil pessoas em seis anos de conflito e fez mais de 5 milhões deixarem seu país. Fugir e buscar refúgio foi o que sobrou à família de outro menino famoso: Alan Kurdi, de 3 anos, virou o mais simbólico meme com sua funesta fortuna – era dele o corpo infantil encontrado na praia da Turquia.

Toda guerra comove quando se tornam visíveis suas desgraças, mas as tragédias com crianças em meio ao conflito são ainda de maior impacto. Essa é a rotina da Síria há mais de seis anos. Para dar um exemplo mais concreto da carnificina, a quantidade de mortes equivale a um atentado a Paris por dia – em novembro de 2015, ações simultâneas de terroristas deixaram mais de 180 mortos na capital da França.

Omran Daqneesh, de 5 anos, na foto que correu o mundo após um dos sangrentos ataques a Aleppo | Criança síria é socorrida após o ataque com gás sarin na cidade de Khan Sheikhoun | Fotos: Reprodução

O rumo da guerra que vitimou Omran, Ali e Alan mudou na semana passada, por causa de outras crianças mártires. Na terça-feira, 4, pelo menos 20 delas agonizaram e morreram, assim como 66 adultos, todos envenenados por um gás letal, muito provavelmente disparado por armas químicas do governo sírio. Foi o pretexto que Donald Trump queria para sua primeira aventura militar: dois dias depois, em decisão unilateral – não consultou nem mesmo o Congresso –, o presidente norte-americano ordenou o bombardeio da base aérea de onde teriam partido os caças que lançaram o ataque a Khan Sheikhoun, no noroeste da Síria.

O mundo foi pego de surpresa, com a entrada dos Estados Unidos de forma direta e incisiva no conflito. Ainda que o ataque tenha sido previamente informado a Rússia e Irã – aliados do ditador Bashar Al Assad, ainda que por conveniência –, o tabuleiro intrincado do conflito ficou ainda mais instável.

Os motivos de Trump, obviamente, não se restringem a salvar criancinhas de novos ataques químicos: sua tendência natural à beligerância e à demonstração de força uniu-se à necessidade de dar resposta à baixa popularidade de seu governo – a menor de um presidente em seus primeiros meses. O apoio de Reino Unido, França e Alemanha ao ataque, ainda que com ressalvas, lhe devolve parte da respeitabilidade que vinha perdendo. China e Rússia obviamente não gostaram, mas reagiram com prudência.

Não há, como temeriam os mais alarmados, o risco iminente de uma Terceira Guerra Mundial. Mas também é preciso dizer que o xeque dado pelos Estados Unidos no jogo ainda é seguido por uma incógnita.

Um país biônico

O corpo de Alan Kurdi, na imagem que se tornou o mais triste meme produzido pela guerra civil na Síria | Foto: Divulgação

A história é feita de causa e consequência. A Síria na verdade é um país biônico. Ela existe formalmente há menos de cem anos, fruto de uma divisão territorial aleatória que criou fronteiras de acordo com critérios de interesse de britânicos e franceses, depois de derrotarem o Império Turco-Otomano na Primeira Guerra Mundial. Fizeram o mapa com o único objetivo de traçar o que fosse mais conveniente para sua geopolítica e para escoar a grande riqueza da região: a gigantesca reserva de petróleo e de gás natural.

Como bons ocidentais, desprezaram as diferenças étnicas, culturais e religiosas daqueles bárbaros, cujas terras dominariam como suas possessões pelas décadas seguintes. A cereja do bolo veio com a Segunda Guerra Mundial e a instauração do Estado de Israel. A bomba-relógio macabra e perfeita, que continuaria explodindo por décadas e décadas.

Desde então a história da Síria tem de ser tristemente narrada em parágrafos contendo a intercorrência de conflitos, golpes de Estado, ditaduras e instabilidade política. Como se pode perceber, o fato de ser um grande corredor para o escoamento do petróleo está longe de ser o fator único: assim como todo o Oriente Médio dividido pelas forças imperialistas ocidentais do início do século passado, a Síria é como um assentamento fechado à revelia dos ocupantes, onde se misturam povos de costumes completamente diferentes. Seria muito mais razoável que existisse um Curdistão, por exemplo – os curdos têm língua própria e se espalham por um território que envolve áreas de Irã, Iraque, Turquia e Síria, com uma população total de 28 milhões. Não por acaso, gostariam de ter sua própria nação e, por isso, são repelidos pelos chefes de todos os Estados estabelecidos. Na mais memorável – e deplorável – contra o povo na história, o ditador iraquiano Saddam Hussein atacou a cidade curda de Halabja usando gás sarin, causando cerca de 10 mil mortes.

O caldeirão de toda a Península Árabe é complicado, mas a situação da Síria aumenta a fervura. O governo de uma elite da minoria xiita, que apoiaria um Estado laico, é rechaçado pela maioria sunita e pelos extremistas da Al-Nusra e do Estado Islâmico. Na prática, há quatro lados internos de acordo com visões da mesma religião: xiitas, sunitas, curdos e jihadistas.

Não existe mocinho nesse jogo. Nem internamente nem externamente. Todos almejam algum tipo de hegemonia, seja política, econômica ou religiosa. Ingenuidade extrema pensar que a queda de Bashar Al-Assad vai resolver o quadro – basta ver o que ocorreu com o Iraque pós-Saddam. Os dois maiores líderes mundiais, o americano Donald Trump e o russo Vladimir Putin, estão em uma das posições mais críticas desde o fim da guerra fria entre EUA e União Soviética. A temperança nem passa perto de ser uma qualidade de qualquer um dos dois. Mas talvez seja uma imposição a que o momento terá de submetê-los. l

Uma resposta para “Petróleo, mapa e fé: a trinca que move a guerra da Síria”

  1. Prezado Elder Dias, Bom Dia!
    Agradeço os esclarecimentos quanto ao conflito na Síria. Nada justifica gerras e genocídio de um povo, as custas de interesses do petróleo, gás e terras. Estamos envolvendo os nossos Estudantes do Centro de Ensino Médio Taguatinga Norte – Brasília/Distrito Federal, que estão elaborando cartas de reconforto às famílias atingidas no conflito na Síria. É uma forma de amenizar as dores, que são muitas, bem como, as injustiças causadas por aqueles que querem os bens do Povo Sírio, a custa de milhares de mortes.
    Estamos a inteira disposição para compartilharmos as cartas às famílias atingidas na Síria com vocês e acompanharmos as respostas das famílias que irão receber as cartas dos nossos Estudantes.
    Parabéns pela reportagem.
    Desejo sucesso.
    Att.,
    Prof Davi Silva Fagundes

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