Pesquisadores apontam cientificamente o que os brasileiros já sabem por intuição: o cérebro se adapta à corrupção

Estudo revela que a amígdala, estrutura cerebral que controla atividades emocionais, reduz suas atividades diante da repetição de atos desonestos, mostrando que, infelizmente, a corrupção faz parte do ser humano

Segundo a Teoria das Janelas Quebradas, pequenas ações podem gerar grandes consequências. A corrupção parece seguir o mesmo padrão

Segundo a Teoria das Janelas Quebradas, pequenas ações podem gerar grandes consequências. A corrupção parece seguir o mesmo padrão

Marcos Nunes Carreiro

O leitor deve pensar: ok, outro artigo sobre corrupção. A matéria já parece um pouco cansativa, mas até o mais intolerante dos leitores há de admitir que, no Brasil, o tema é uma fênix: mesmo quando achamos que se esgotou, ele ressurge das cinzas. Ora, na imprensa nacional, já há alguns anos, a palavra é praticamente o nome de uma editoria.

São tantos casos que os estudantes de jornalismo já entram na faculdade se perguntando qual caso eles vão reportar primeiro — se algum deles entrou numa redação recentemente, talvez seu primeiro caso noticiado tenha sido aquele que talvez possamos batizar “caso Geddel-Calero-Temer”, aquele que já resultou na queda de outro ministro e em mais um pedido de impeachment, essa outra palavra que já cansou a muitos.

Sim, amigos, a corrupção não acabou com a saída do infame PT do poder. Será por quê? Aparen­temente, todos começam, enfim, a se convencer de que a editoria de corrupção não publica apenas o vermelho-PT, afinal o PMDB, mesmo temendo admitir, também possui um temerário vermelho na bandeira. Mas, vá lá, vermelho não é a cor da corrupção. Essa palavra tem também muitos tons de azul, e de branco, verde… é um arco-íris.

Aliás, a corrupção não está, sequer, apenas na política — quiçá estivesse. Robert Klitgaard, professor da Universidade de Claremont, na Califórnia, há vários anos estuda, por exemplo, o fator corruptivo na economia. Tendo trabalhado durante décadas em várias partes do mundo, prestando assessoria para muitos países, ele enfim chegou à conclusão de que a corrupção é fruto de oportunidades e, como bom economista, criou uma fórmula para explicar a questão: C = M + D – A.

A corrupção (C) seria o resultado de “monopólio” (M) somado a “critério próprio” (D, do inglês “discretion”), menos a “prestação de contas” (A, de “accountability”, que também poderia ser traduzido como “responsabilização pública”). Em outras palavras, corrupção seria o resultado do monopólio em alguma atividade econômica, somado às decisões tomadas com critérios próprios em um local em que não haja transparência o suficiente para que os agentes da corrupção precisem assumir responsabilização pública, isto é, onde não haja cobrança sobre o que foi feito.

A fórmula serve para explicar vários dos casos de corrupção vistos no Brasil nos últimos anos, como o da Petrobrás. Contudo, a questão vai muito além, pois a desonestidade (para dar um sinônimo à palavra) é parte integrante do mundo e influencia vários de nossos domínios, da política à administração pública, das finanças às relações pessoais. A corrupção, então, é parte do ser humano.

Parte? Quer dizer, biologicamente falando? É quase possível dizer isso. Quatro pesquisadores de duas universidades, uma britânica e outra estadunidense, publicaram recentemente um interessante artigo na revista científica Nature Neu­rosci­ence com o título “The brain adapts to dishonesty” (O cérebro se adapta à de­sones­tidade), em que apresenta o resultado de uma pesquisa de­sen­volvida com voluntários acerca do comportamento corruptivo.

O ponto chave da pesquisa é revelar, empiricamente, que há respaldo neural para o entendimento de que as digressões de um código moral funcionam muitas vezes como uma série de pequenas brechas que crescem ao longo do tempo. Em outras palavras, o estudo mostra a progressiva escalada de desonestidade de um indivíduo, provando que esse tipo de comportamento aumenta com a repetição, ao passo em que indica o mecanismo neural que o sustenta.

Janelas quebradas

Neil Garrett assina o artigo que foi publicado na Nature Neuroscience, juntamente com outros três pesquisadores

Neil Garrett assina o artigo que foi publicado na Nature Neuroscience, juntamente com outros três pesquisadores

A desonestidade, sobretudo aquela cometida em benefício próprio, é desprezada socialmente por ser moralmente errada. Por isso, grande parte das pesquisas já realizadas em relação ao assunto mostra que as pessoas geralmente relatam certo desconforto quando praticam atos desonestos. Isso ocorre porque pessoas que não têm o hábito de enganar e trapacear costumam apresentar traços fisiológicos e neurológicos de excitação emocional quando o fazem.

Estudos mostram que o bloqueio dos sinais do sistema nervoso simpático (que estimula ações que permitem ao organismo responder, por exemplo, a situações de estresse), farmacologicamente, resulta em aumentos na desonestidade. Isso porque, na ausência de um sinal afetivo que possa ajudar a conter a desonestidade, as pessoas podem se envolver em atos mais frequentes e graves de corrupção. Porém, não apenas medicamentos podem inibir a sensibilidade do organismo ao desconforto da desonestidade.

Na introdução de “The brain adapts to dishonesty”, os pesquisadores dizem que um grande número de pesquisas demonstra que a resposta a um estímulo evocador de emoção enfraquece com a exposição repetida. Se uma pessoa tem uma resposta negativa quando vê uma imagem pela primeira vez, por exemplo, essa reação negativa tende a diminuir a cada apresentação subsequente da mesma imagem.

Dessa forma, segundo os pesquisadores, se realmente os sinais que podem ajudar a reduzir a desonestidade são diminuídos ao longo do tempo, os atos desonestos podem aumentar. Logo, “o que começa como pequenos desvios de um código moral poderia escalar para grandes desvios com consequências potencialmente prejudiciais”.

Usando ressonância magnética funcional (uma técnica específica do uso da imagem que é capaz de detectar variações no fluxo sanguíneo em resposta à atividade neural), os cientistas viram que a amígdala, pequena estrutura do cérebro que de­sempenha um importante papel no controle das atividades emocionais, com a repetição de ações desonestas, reduz sua sensibilidade diante de tais a­tos, abrindo caminho para a con­clusão de que pequenas de­so­nestidades podem se transformar em transgressões maiores.

Em linhas gerais, o estudo dá certa razão à famosa Teoria das Janelas Quebradas, desenvolvida pelo cientista político James Q. Wilson e pelo criminologista George Kelling, ainda na década de 1980. A teoria diz que se a janela de um edifício, por exemplo, estiver quebrada e não for reparada, a tendência é que mais janelas sejam quebradas até que o prédio esteja completamente depredado.

É claro que a teoria deu base a uma política radical de segurança pública nos Estados Unidos, que escondia uma forte intolerância social, mas a questão central é “desordem gera desordem”. Isto é, um ato de caos, por menor que seja, tem a capacidade de gerar uma situação de anarquia completa e é nesse sentido que o estudo publicado re­centemente caminha: o cérebro se adapta a pequenos atos de de­sonesti­dade, como furar o si­nal ou colar na prova, sendo in­capaz de impedir que uma pessoa acabe por praticar, depois, cor­rupções maiores, como participar de es­quemas políticos de corrupção.

O experimento
O experimento que gerou o artigo foi comandado por Neil Garrett, cuja pesquisa de Ph.D. no Affective Brain Lab, da Uni­versity College London, trata da base neural da escolha baseada no valor. Para o estudo, foram usados voluntários (o participante e o parceiro) que deveriam fazer uma estimativa sobre a quantidade de dinheiro contida num jarro.

Foram realizados dois experimentos com estruturas de incentivo diferentes para que a desonestidade do participante a respeito da quantidade de di­nhei­ro no frasco pudesse ser me­dida em quatro níveis: em benefício de si e em desfavor do par­ceiro, em favorecimento do par­ceiro e prejudicando a si mesmo, em proveito próprio sem desfavorecer ninguém, e em favor do parceiro sem afetar a si. Os dois primeiros níveis per­tencem ao Expe­ri­mento 1 e os dois últimos ao Experimento 2.

De acordo com Garrett (et al.), o importante dos dois experimentos foi fazer com que os participantes acreditassem que seu parceiro não estava ciente acerca da estrutura de incentivo, embora tenha chegado a pensar que os dois, o participante e o parceiro, estavam trabalhando juntos em todos os momentos para fornecer a estimativa mais precisa, o que beneficiaria ambos igualmente. “Uma condição de linha de base nos permitiu inferir a quantidade de desonestidade em cada julgamento sem que o participante fosse instruído a agir de forma desonesta ou obrigado a admitir a desonestidade”, relata no artigo.

Entre cada um dos experimentos, foi verificado que a resposta da amígdala à desonestidade foi reduzida com as repetições. Garrett (et al.) diz: “En­quanto a amígdala também pode sinalizar emoção positiva, esta interpretação é menos provável como a região mais associada com afeto positivo, o núcleo accumbens (pequena estrutura do cérebro importante para a motivação, prazer e dependência), não revelou um padrão semelhante de resultados”. Ou seja, segundo Garrett (et al.), eles puderam fornecer evidências empíricas de que a desonestidade “aumenta gradualmente com a repetição, enquanto tudo o mais é mantido constante”.

Os resultados também apontaram que, embora a amígdala responda às repetições, a escalada de desonestidade depende da motivação para o ato desonesto. Isto é, enquanto a magnitude da desonestidade era impulsionada por considerações de benefício tanto para o eu como para o outro, a escalada da desonestidade, bem como a resposta da amígdala a ela ao longo do tempo, era melhor explicada se os atos de corrupção fossem em favor próprio. “Quando os participantes eram desonestos em benefício de outra pessoa, foi observada que a desonestidade era mantida a uma taxa constante”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Tomados em conjunto, os resultados da pesquisa revelam um mecanismo biológico que está ligado à escalada da desonestidade, o que proporciona uma nova visão desta parte do comportamento humano já tão estudada por outros campos de pesquisa. Os resultados, de acordo com os pesquisadores, mostram possíveis perigos do engajamento regular em pequenos atos de desonestidade por parte das pessoas, perigos esses que são frequentemente observados em domínios que vão desde o negócio à política e à aplicação de leis, como bem sabem os brasileiros.

É necessário ressaltar, entretanto, que não foram levados em consideração no estudo fatores como castigo externo por desonestidade ou louvor pela honestidade. Garrett (et al.) afirma: “No mundo real, no entanto, outros fatores provavelmente facilitarão a escalada da desonestidade ou a interromperão, incluindo o feedback, a oportunidade e as mudanças nas recompensas e na punição”.

Para os brasileiros, contudo, quase independente dos fatores externos, a conclusão parece até um pouco óbvia, diante das entrevistas e justificativas dadas pelos presos e denunciados pela Opera­ção Lava Jato, por exemplo: com o tempo, os praticantes da corrupção, se anestesiam e passam a acreditar, de fato, que aquilo que fazem está correto. Haverá um remédio, literalmente falando, para isso?

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