Papa Francisco: fazendo o impossível virar coisa simples

Consolidação do acordo entre EUA e Cuba foi mais uma cartada certeira do pontífice argentino, que usa a eficiente rede de relações da Santa Sé para avançar em temas espinhosos

No Vaticano, o papa Francisco recebe o presidente dos EUA, Barack Obama: encontro ajudou a selar acordo com Cuba

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Elder Dias

Alguém que carrega a própria mala; um homem poderoso que, se preciso, anda de transporte coletivo; um superior que dorme no mesmo recinto que outros religiosos; uma autoridade moral que torce abertamente por um time de futebol, que faz piadas e sorri um riso franco. Se perguntar a qualquer um que tenha acompanhado os 21 meses de pontificado do sagitariano Jorge Mario Bergoglio, recém-chegado aos 78 anos, será essa face carismática que aparecerá em primeiro plano. Se fosse submetido a uma pesquisa de avaliação “à la Ibope” entre católicos e não católicos do mundo inteiro que já tiveram oportunidade de ouvir falar dele, o papa Francisco certamente teria considerável aprovação. Talvez mesmo maior entre os não católicos — o que já é um sinal para o que vai ser falado nos próximos parágrafos.

A verdade é que a primeira preocupação de Francisco não é agradar. Ele tem tarefas a cumprir como chefe de 1,2 bilhão de católicos espalhados por todos os continentes. Em alguns, os fiéis são maioria (América Central e do Sul) ou dispõem de relativa tranquilidade para expressar sua fé (América do Norte e Europa); em outros, como a África e a Ásia, a situação é complicada para o catolicismo: há discriminação, perseguição e até execuções não são raras, especialmente em áreas de conflito com extremistas islâmicos.

Isso explica, em parte, o envolvimento do papado — e não só do papa, ou deste papa — em questões como o imbróglio diplomático entre Estados Unidos e Cuba, de relações cortadas desde o começo dos anos 60 e que, um quarto de século após a derrocada da guerra fria, continuavam “de mal” até hoje praticamente por birra ideológica. Tirando o proselitismo político, não havia nada de consistente nos discursos estadunidense e castrista para sustentar um impedimento de sentar à mesa para uma conversa civilizada.

Esse é o ponto: ser civilizado parece fácil, mas não é. É preciso certa abertura, da qual nem todos dão conta, nem mesmo extraordinários líderes — às vezes menos por causa de seu próprio interesse do que pelos acertos político-econômicos e relações de poder envolvidos. Deveria ser citado aqui o ranço milenar entre judeus e árabes, que ultrapassa gerações sem grandes esperanças de acordo, mas há também exemplos menos radicais e ainda sem solução.

É preciso desapego ao poder para poder ter poder de resolver certos temas. Este talvez seja o precioso detalhe que faz toda a diferença: Bergoglio provavelmente passaria feliz o resto de sua vida de cardeal não houvesse sido entronizado como papa Francisco em 19 de março de 2013. Ser o Santo Padre não era algo que o consumia, que aquele argentino cobiçasse. Evidentemente, uma vez no posto, ele não encara a função como um fardo, mas como missão a ser cumprida utilizando seus talentos, como pede o próprio Evangelho que busca expandir.
Mas o que torna Francisco o que é hoje diante do mundo já estava em Bergoglio. E a razão de este ter escolhido aquele nome para se eternizar na história da Igreja e do mundo diz muito sobre como desempenha o que faz: Francisco de Assis — que na verdade se chamava Giovanni di Pietro di Bernardone — é o santo despojado, o homem que abriu mão das riquezas que possuía e dos prazeres a que tinha acesso para viver a vida simples. O santo da simplificação.

Na China amanhã, se for preciso

Em meio a um mundo tão complicado, cheio de espécies de vaidade que o Eclesiastes jamais imaginou existir, o papa Francisco é um homem direto, simples, resolutivo. Este ano, na viagem de volta de sua visita à Coreia do Sul, durante a tradicional entrevista no voo de volta para Roma, ele foi questionado se gostaria de visitar a China. Francisco respondeu rápido: “A­manhã mesmo.” O governo chinês cortou relações com o Vaticano desde que o Partido Comunista assumiu o poder, em 1949.

Cinco dias antes ele já tinha quebrado uma pequena barreira entre os dois Estados: foi o primeiro papa a cruzar o espaço aéreo do gigante asiático — em 1999, João Paulo II visitou o continente, mas evitou a rota sobre a China. Como sinal cortês, enviou uma mensagem via rádio ao presidente Xi Jinping: “Ao ingressar no espaço aéreo chinês, estendo meu melhores desejos a Sua Excelência e a seus cidadãos, e invoco as bênçãos divinas da paz e bem-estar para sua nação.” Na visita, cumpriria formalmente uma agenda de um encontro de jovens católicos; como pano de fundo, claro havia a questão da unificação das Coreias.

Em seu ainda curto pontificado, Francisco já promoveu no Vaticano o encontro entre os presidentes de Israel e da Autoridade Palestina e visitou a Turquia, um dos países acossado pelo insano Estado Islâmico. Nem o radicalismo de terroristas que fazem a Al-Qaeda parecer benigna tiram do papa uma declaração antidiplomática. “Eu nunca digo ‘tudo está perdido’, nunca. Talvez não possa haver um diálogo, mas você nunca pode fechar a porta”, ressaltou.
Ao comentar o acordo EUA

–Cuba, que ele próprio ajudou a engendrar, Francisco admitiu que esse é um trabalho de formiguinha. “Estamos felizes porque vimos dois povos darem um passo de aproximação depois de tantos anos”, discursou. E este é o segredo: pequenos, mas contínuos, passos. Já falam que Bergoglio, de novo,merece ganhar o Nobel da Paz. Este ano concorreu, mas perdeu para a paquistanesa Malala Yousafzai e o indiano Kailash Satyarthi. Achar gente mais merecedora do prêmio do que este argentino é algo animador. Ainda mais promissor para a humanidade seria vê-lo por anos e anos na fila da honraria sem que a ganhasse.

Existência recente do Vaticano não o impede de ser referência em diplomacia

Papa João XXIII, hoje canonizado: o homem que, pela diplomacia, pode ter evitado uma guerra nuclear

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Mundo afora, não são poucos os casos de assombro com as posições adotadas por Francisco. O desconhecimento de alguns faz o considerarem um ponto fora da curva, por conta do que seria um natural conservadorismo e passividade da Santa Sé. Não é bem assim, nem de longe.

Primeiramente, é preciso não confundir Santa Sé com Vaticano. Este é um Estado independente, que tem menos de um século de existência. Foi fundado em 1929, por meio do Tratado de Latrão, acordo com o governo italiano que serviu, entre outras coisas, para compensar a perda dos Estados Pontifícios com a unificação do país. Já a Santa Sé é uma instituição bimilenar: remonta aos primeiros cristãos e, em questão de direito internacional, responde pelas relações e acordos do Vaticano com outros Estados. Ou seja, o Vaticano poderia ser definido como um território sobre o qual a Santa Sé tem soberania. E o papa, chefe de Estado do Vaticano, é também o soberano que comanda a Santa Sé.

Karol Wojtyla em sua primeira aparição como João Paulo II: a entronização que fez o Kremlin tremer

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Embora recente, a diplomacia do Vaticano já tem uma história respeitabilíssima. É basicamente “low profile”, discreta, costurada em gabinetes bastante reservados; excepcionalmente, porém, em questões nas quais a estratégia pede mais volúpia, se expõe de forma clara. De ambas as maneiras, os efeitos são sempre poderosos.

Essa política de mexer o mundo com reuniões e documentos une todos os que passaram como líderes daqueles 44 hectares do antigo bairro de Roma: Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. A exceção foi João Paulo I, que, eleito papa após a morte de Paulo VI, governou a Igreja por apenas 33 dias, em 1978.

Pelo que produziu em apenas 85 anos, o Vaticano pode ser considerado o Estado mais bem sucedido em termos de relações exteriores: derrubou ditadores, contestou falsas democracias, denunciou alguns regimes e destruiu outros, encampou batalhas, produziu armistícios, apoiou independências e bateu de frente com terroristas. Tudo isso sem disparar um tiro.

Foi Pio XI quem assinou o Tratado de Latrão, colocando sua rubrica ao lado da de Benito Mussolini para criar o Estado do Vaticano. Dois anos depois, em 1931, publicou a encíclica antifascista “Non abbiamo bisogno” (“Nós Não Precisamos”, em italiano), em cujo espectro estava, obviamente, o ditador italiano. Por documentos também, condenou tanto o liberalismo como o socialismo. Com outra encíclica, “Mit brennender Sorge” (“Com Profunda Preocupação”, em alemão), em 1937, condenou o nazismo por seu conteúdo nitidamente racista. E chamou Hitler de “um profeta louco de arrogância repulsiva”.

Seu sucessor, Pio XII, cujo pontificado começou no mesmo ano da Segunda Guerra Mundial, foi durante muito tempo visto pela história como omisso — e até colaborador, na visão dos mais radicais — em relação ao conflito e ao extermínio de milhões de judeus e demais vítimas do nazismo. Uma injustiça. Antes de ser sagrado papa, o italiano Eugênio Pacelli foi formado diplomata pela própria Santa Sé, que, no início do século 20, apostou forte na melhoria da qualidade de suas relações exteriores para garantir a própria sobrevivência como instituição. Tornou-se doutor em concordatas — instrumentos diplomáticos bilaterais com cuja assinatura a Igreja garantiu (e garante) seus interesses em outros países. De família aristocrática, teve seu irmão Francesco Pacelli, também diplomata, como responsável pela redação do Tratado de Latrão.

Em Cuba, Bento XVI se encontra com Raúl Castro: o começo da negociação histórica foi com o papa alemão

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Durante a guerra, Pio XII teve a chance de aplicar seus conhecimentos. E os usou de forma polêmica: interviu diretamente muito pouco no conflito, o que levou a muitos questionamentos, inclusive o de que esse procedimento não tão claro teria levado a um maior número de mortos. Um historiador e rabino americano, David Dalin, escreveu “The Myth of Hitler’s Pope” (“O mito do papa de Hitler”, obra sem versão em português), em que relata provas históricas de que milhares de judeus foram salvos de ir para o campo de concentração de Auschwitz quando os nazistas ocuparam Roma em 1943 por causa do papa. Uma delas é um editorial do “The New York Times” de dezembro de 1941, o qual afirma: “A voz de Pio XII é a única no silêncio e na escuridão envolvendo a Europa neste Natal.”

Entretanto, a controvérsia sobre sua figura continua até hoje. Isso embora alguns estudiosos afirmem que se deva a ele e à Igreja na Itália a salvaguarda de pelo menos 700 mil pessoas que seriam mortas por Hitler e foram abrigadas em mosteiros, igrejas e até nos próprios domínios diretos do Vaticano. Documentos revelam que Hitler chegou a ordenar o sequestro de Pio XII.

Evitando a Terceira Guerra Mundial

João XXIII, canonizado em 27 de abril, nem sonhava ser papa. E, Concílio Vaticano II à parte — encontro que promoveu a maior revolução da história da Igreja —, foi responsável direto por evitar uma iminente Terceira Guerra Mundial. Sua encíclica “Pacem in Terris” foi um claro recado ao perigo nuclear. Foi elaborada em 1963, meses após a crise dos mísseis em Cuba, quando o pontífice interveio por meio de cartas aos líderes da União Soviética, Nikita Kruschev, e dos Estados Unidos, John Kennedy. Um apelo de paz pela Rádio Vaticano também foi crucial. Nada por acaso: o hoje São João XXIII tinha experiência no trato internacional com a Europa Oriental: tinha sido visitador apostólico na Bulgária, em 1925 e, depois, delegado da Igreja na Turquia e na Grécia. Chamado de “o Papa bom”, Angelo Roncalli era mjuito mais que um simplório.

Paulo VI foi decisivo para o estabelecimento das antigas colônias africanas como países independentes. Sua visita ao Santuário de Fátima em 1967, sem passar por Lisboa, foi um sinal claro de que não compactuava com o salazarismo. Na visita, para participar das solenidades do cinquentenário das aparições da Virgem Maria na localidade, ficou hospedado em instalações da Igreja, sem qualquer aparato do poder público. Três anos depois, o papa recebeu no Vaticano o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) , a Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) e o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAICG), em indicação clara de que não fechava as portas aos grupos pró-autonomia.

O papel do polonês Karol Wojtyla contra o comunismo é mais do que conhecido. Ao se tornar o papa João Paulo II, impôs força à derrocada do poder soviético, a começar de sua terra natal. Lutou contra o regime do general Jaruzelski e deu força a Lech Walesa e ao sindicato Solidariedade. O mundo ocidental reconhece sua importância para derrotar o regime do Leste europeu e levar à queda do Muro de Berlim e da própria União Soviética. Por fim, apesar de discreto em seus posicionamentos políticos, Bento XVI, assim como João Paulo, manteve o diálogo da Santa Sé com Cuba. Basta ressaltar que ambos visitaram a ilha.

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