Pane na saúde na capital é constatada in loco por repórter

Durante 8 horas em visita a Cais e UPAs, Jornal Opção vê falta de médicos em unidades 24 horas, obrigando pacientes a voltar para casa ou procurar outros locais, filas de espera por resultados de exames e insatisfação com atendimentos “relâmpagos”; funcionários reclamam de falta de remédios e ambulância

Pacientes voltam para casa após SMS não mandar médicos para unidade | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

A 30 minutos de deixar o plantão, o único médico que atendia no Cais Cândida de Morais, no setor de mesmo nome, avisou a uma técnica de enfermagem que não atenderia mais na terça-feira, 20. Na recepção da unidade, cerca de 20 pessoas aguardavam, ainda sem terem passado pela triagem. Caberia aos pacientes esperar o próximo plantão, às 19 horas.

Gente com dor de cabeça, enjoo, tontura e outros incômodos conversava amenidades, às vezes espiando o corredor e o entra e sai de alguns técnicos de enfermagem e enfermeiros. “Acho que hoje vai ter médico”, apostou Rosilda Oliveira, de 59 anos. Ela acompanhava uma vizinha que havia desmaiado na porta de casa após o almoço. Mesmo se sentindo bem, a viúva sem filhos Laudiceia Moura, de 74, aceitou ir ao posto, desde que fosse atendida no Cândida de Morais.

Valdete Pereira: “Não me esperem nas urnas para votar” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Um comunicado assinado pela coordenadora técnica do Cais fixado no quadro de plantão anunciava o nome dos quatro médicos previstos para aquela noite, mas, por volta das 19h50, nenhum havia aparecido ainda.

A recepção já estava lotada e um grupo exigia explicações a um desorientado funcionário. Depois de sumir porta adentro, ele voltou acompanhado de uma assistente social da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) um pouco nervosa que, sem rodeios, anunciava que a unidade não teria médico no Cais que deveria durante toda a noite.

A assistente social tentou justificar. “Entramos em contato com a secretaria, mas não conseguiram um médico para substituir. Por enquanto o que eu sei é que o Bairro Goiá tem três clínicos. Vocês encontram médicos no Curitiba e no Urias Magalhães”, informou a funcionária.

Os protestos de Valdete Pereira, de 51 anos, acompanhante da nora, Alana Marques, de 19, não adiantaram. Enfermeiras que se amontoavam na mesa de triagem fecharam o portão que separa a recepção do corredor que dá para a Emergência do Cândida de Morais, provocando ainda mais irritação nas pessoas.

Valdete chegou ao Cais às 18 horas em busca de atendimento para Alana que, com fortes dores nas pernas, não consegue trabalhar há dias. “Eu não consigo entender como pagamos tantos impostos e recebemos a porta literalmente em nossa cara”, reclamou Valdete.

Alana Marques: “Eles fecham a porta na nossa cara” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

A expectativa da mulher era de que um médico assumisse o plantão, por isso esperou. Sem outra opção, decidiu voltar para casa com a nora, mas deixa um recado: “Não me esperem nas urnas para votar nessa cambada”. Alana endossa a revolta: “Bastaria um encaminhamento, mas nem um médico eles conseguem manter no Cais”.

Rosilda, Laudiceia, Valdete e Alana voltaram para casa, desapontadas. O Cais Cândida de Morais foi o primeiro em que o repórter e o fotógrafo do jornal compareceram a partir das 17 horas do último 20 de fevereiro até 1 hora da madrugada do dia seguinte. Em uma jornada de oito horas, os repórteres flagraram a falta integral ou número insuficiente de médicos em unidades que deveriam atender 24 horas. Com isso, pacientes se viram obrigados a voltar para casa ou procurar outros locais.

Foi possível conversar com quem esperava não menos de duas horas por resultados de exames, principalmente hemograma. Para alguns pacientes, a única solução seria dormir nas calçadas adjacentes. Foi o caso de duas mulheres — uma gestante e a mãe de um menino de 4 anos, no Cais Campinas.

Sob o relento da noite que anunciava o frio da semana, o menino, com um “caroço” no pescoço, reclamava de fome. Sem dinheiro, a mãe aproveitou-se do colchão improvisado como cama por um grupo em situação de rua. “Já fiz amizade com eles por causa de outras situações. Com eles, eu e meu filho não ficamos desamparados”, disse, sob anonimato. “É que tenho problemas com a Justiça e não quero expor meu filho”, justifica-se.

Falta de medicamentos e diagnóstico suspeito

Jovem em situação de rua aguarda atendimento médico do lado de fora do Cais Campinas. Ela espera exame | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Depois de vencer horas de espera, pacientes saem meneando cabeças, insatisfeitos com atendimentos “relâmpagos”, com “diagnósticos suspeitos”. Foi o caso de Raimunda Miranda de Oliveira, de 68 anos.

Pela terceira vez em cinco dias ela voltava ao Cais Finsocial. O corpo trêmulo, pressão anormal e tonteira. “O médico teve a cara de pau de, em menos de três minutos, dizer que estou com ansiedade. É revoltante”, protestou a idosa acompanhada por uma amiga, que relutou de voltar ao Cais. “Deixei uma irmã deficiente visual em casa para eu procurar ajuda. Nem cuidar dela estou conseguindo.”

Em comunicado, médicos estavam escalados no Cândida de Morais, mas não compareceram à unidade de Saúde, deixando pacientes sem atendimento na terça-feira, 20, dia em que o Jornal Opção percorreu Cais e UPAs na capital | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Para piorar, Raimunda voltou para casa sem qualquer solução para os desconfortos que vêm sentindo. “O remédio que o doutor me passou é quase 50 reais. Não tenho condições de pagar. O jeito é esperar a ajuda Divina.”

Mesmo em unidades com seu quadro técnico completo, há ou­tros motivos para reclamações. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Maria Pires Perillo, no Jardim Curitiba, o problema era a falta de medicamentos. “A gente conta com morfina, gazes, dipironas. Mas não é o suficiente”, contou, enquanto fumava, um dos funcionários da unidade.

Aposentada Raimunda Miranda: “O jeito é esperar a ajuda Divina” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

Conforme ele, a ambulância que estacionou em frente à unidade era a única disponível naquela terça-feira. “A idosa demorou horas na espera. Não sabemos a quem atender primeiro”, disse.

Dois médicos, naquela plantão, aceitaram falar com o repórter, desde que não fossem identificados, nem o local em que trabalham. Eles reclamam da falta de remédios e farmácias nas unidades, o que deixa pacientes sem medicamento porque normalmente o preço é alto, sobretudo nas redondezas dos centros de saúde.

“Já tirei do meu bolso para comprar dipirona semanas atrás. A criancinha chorava muito, mas pouco ou nada conseguimos fazer. Pior é que as pessoas nos culpam, nos veem como preguiçosos”, relatou um deles, da janela do consultório.

Sobrecarga

Roseni José Santos: “É um direito de todos nós termos saúde digna” | Foto: Fábio Costa / Jornal Opção

A falta de pediatras é uma reclamação recorrente em várias unidades. Em apenas dois locais, Cais de Campinas e Novo Mundo, é oferecida a especialidade. Durante as duas horas em que o jornal permaneceu no Cais Campinas, pais, com crianças chorando, contaram histórias em bancos e corredores.

Indignada, uma mulher aguardava a aplicação de soro no filho de 5 anos. Há seis dias ela e o menino percorrem unidades de saúde em busca de um diagnóstico que, até aquela noite, ainda não chegara para aliviar o coração da mãe, que já enterrou outro filho, no interior mineiro. “Vim para cá para esquecer, mas o descaso é generalizado”, diz a professora, em contrato com a Secretaria de Educação de Goiânia, que prefere não se identificar. “Me sinto desmembrada desde que meu filho morreu em um posto, sem atendimento”.

Roseni José Santos, 35 anos, ouve a mulher. Quer opinar, mas engasga nas palavras e não consegue dizer o tamanho da sua revolta. A filha dela, Lucy, de 6 anos, corrobora a mãe: “Estou com muita dor de garganta, febre”, reclama a menina.

A mãe, finalmente, esboça uma frase. Chama o repórter para o centro do saguão de espera do Cais de Campinas e diz em alto e bom som: “Eles [a Prefeitura] deveriam entender que é um direito da criança. É um direito de todos nós termos uma saúde digna. Pagamos para isso [atendimento médico]”, protesta.

Veja vídeos feitos pelo repórter:

 

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