Pandemia pode afetar a saúde mental de crianças e adolescentes

Especialistas explicam como os adultos podem ajudar os mais jovens a se proteger do excesso de notícias negativas e ao medo do coronavírus

Vinicius Xavier: “As crianças e adolescentes estão no grupo de risco para adoecimento mental” | Foto: Ana Terra Curado da Rocha

Contagem de mortes e de doentes. Cenas de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) lotadas. Caixões enfileirados e enterros coletivos. A cobertura jornalística, aliada às informações nem sempre confiáveis das redes sociais, tem atingido um conjunto de pessoas que não fazem parte dos chamados grupos de risco para a Covid-19: o de crianças e adolescentes. Em meio ao bombardeio diário, eles acabam se deparando com um sentimento incomum para a idade, o medo excessivo. “Eles não são grupo de risco em relação à Covid-19, mas são para o adoecimento mental”, resume o psicólogo Vinicius Xavier.

Isso ocorre porque as crianças e adolescentes ainda estão em fase de formação. O aparelho cognitivo e as habilidades para articular as informações ainda estão incompletos. Por isso, de acordo com o psiquiatra Pablo Bernardes, eles estão mais propensos a doenças psicossomáticas, decorrentes das informações sobre a pandemia. “Podem desenvolver vários sintomas físicos, como dor de cabeça e diarreia, e transtornos mentais, como a depressão”, alerta.

Essa vulnerabilidade maior ocorrer porque o desenvolvimento físico, emocional e psíquico está em uma velocidade diferente, como explica a psicóloga Máris Eliana Dietz. “Existem, naturalmente, oscilações de humor, descobertas e construção da personalidade. Crianças e adolescentes são mais vulneráveis frente às pressões e ao medo que se instalou”, diz.

Durante essa fase da vida, a interação com familiares e amigos é fundamental. Exatamente o que não pode ocorrer nesse momento, por causa das barreiras sanitárias adotadas para conter o avanço do coronavírus Sars-CoV-2, o causador da Covid-19. Em Goiás, por exemplo, as aulas foram suspensas no dia 19 de março, mas algumas escolas anteciparam a paralisação para o dia 16.

Portanto, há mais de um mês 1,1 milhão de estudantes estão em casa – muitos deles com aulas virtuais, em tempo real ou com conteúdo gravado. “A criança estava indo normalmente para a escola. De repente, perdeu o contato com os colegas. Ela não tem maturidade para lidar com isso”, explica Vinicius Xavier.

“Por natureza, os jovens precisam de sociabilidade e o exercício de boa convivência”, afirma o psiquiatra Pablo Bernardes. Ele lembra que a interrupção dessa interação ocorreu de forma abrupta, pois o isolamento social foi imposto repentinamente. “É um período difícil, complicado e imprevisível, que os afeta muito”, diz.

Assim, a dificuldade de quem tem pouca idade de assimilar essa mudança brusca na rotina é mais acentuada que para os adultos. “É diferente de quem já enfrentou desertos, vendavais e espinhos na vida”, lembra Pablo Bernardes.

Alessandro e o filho caçula, Pedro, de 12 anos | Foto: Pessoal

O microempresário Alessandro Pereira Silva tem observado dentro de casa como a pandemia de Covid-19 tem afetado emocionalmente o filho mais novo. Pedro, de 12 anos de idade, está assustado com o que ocorre em seu redor. “Ele não tem noção ainda do que é perigo, mas só vê falar em mortes no mundo inteiro, no distanciamento social”, afirma Alessandro.

Ele conta que o filho tem sido rigoroso com os cuidados com a higiene e mantém a rotina normal dentro de casa, inclusive acompanhando as aulas on-line. “Mas, o que me deixa mais triste, é a resistência dele sair de casa. Não quer ir nem mesmo cortar o cabelo, por medo”, conta Alessandro.

Os três avós de Pedro têm idade avançada: Maria Helena tem 78 anos de idade, Pedro tem 85 e Feliciana tem 74. Mas o receito do menino, ao menos pelo que o pai consegue notar, não é com a saúde dos avós, o que seria mais compreensível por eles estarem no chamado grupo de risco. O medo é de ele mesmo adoecer.

“O medo é presente. Eles estão vendo que há jovens morrendo. E não é só medo de morrer, mas de ver os pais, avós ou amigos [morrendo]”, lembra Pablo Bernardes. Sentimento que pode ser reforçado com a exposição continuada “à dor e à tragédia”, conforme o psiquiatra.

De acordo com o psicólogo Vinicius Xavier, a preocupação com a saúde é natural. Mas passa a ser preocupante quando ela se manifesta de forma incontrolável. “Quando o adolescente ou a crianças não dormem, não estudam, aí [a preocupação] é patológica”, alerta. Os pais, portanto, devem ficar atentos com mudanças de comportamento e de experiências.

Máris Eliana Dietz lembra, ainda, que a pandemia é decorrente de algo novo e invisível, o que dificulta a compreensão e causa conflitos internos. “É difícil para a crianças compreender esse todo, as medidas de proteção”, ressalta. E elas têm de lidar com isso “diante da incerteza do amanhã, de quanto tempo viveremos nesse formado de isolamento social”.

Pablo Bernardes, psiquiatra: “É preciso exercitar a paciência e a fé” | Foto: Marco Aurélio Monteiro da Silva

Adultos devem filtrar as informações

Em plena era da informação, é praticamente impossível evitar que os filhos tenham contato constante com as notícias – verdadeiras ou falsas – em torno da pandemia. “Assisto um pouco do Jornal Nacional com ele”, diz o microempresário Alessandro Pereira Silva, em relação ao filho caçula, Pedro, de 12 anos. Apesar de filtrar o que o menino vê, o microempresário liberou um pouco mais o acesso à internet, por causa do isolamento em casa.

Máris Eliana Dietz: “Com diálogo e linguagem apropriada, as criaças tendem a se acalmar” | Foto: Pessoal

Esse filtro, segundo a psicóloga Máris Eliana Dietz, é importante. Isso não significa, contudo, manter as crianças alheias ao que está ocorrendo no mundo todo. “Na medida em que existe o diálogo, com explicações e linguagem apropriada, elas tendem a se acalmar”, afirma. Isso deve ser feito por meio do acolhimento dos adultos, o uso de brincadeiras e planos para quando a pandemia acabar. “É de suma importância permitir a expressão dos sentimentos e falar sobre a Covid-19 e sobre outros temas também”, diz. Para ela, é preciso “ser verdadeiro sobre a gravidade da Covid-19 sem amedrontar a criança”.

O problema, conforme o psicólogo Vinicius Xavier, é quando os pais também não estão preparados para lidar com todas essas questões. “Pais ansiosos só filtram notícias negativas”, alerta. Segundo ele, os adultos precisam mostrar informações mais realistas e que as pessoas que se cuidam passarão de forma melhor por esse momento.

Em relação aos adolescentes, o psicólogo enxerga uma oportunidade. “É uma grande chance de se reaproximar. Os pais precisam ficar mais próximos para perceber as dificuldades dos filhos. Se forem atentos, poderão trabalhar a melhora disso”, afirma.

Para o psiquiatra Pablo Bernardes, o papel dos pais é garantir a saúde emocional dos filhos, especialmente nesse momento, “que requer mais resiliência”. “É hora de exercitar a paciência, exercitar a fé e não ficar se inundando do essas histórias [trágicas]”, recomenda.

Nesse contexto, de não se alimentar apenas com a tragédia, Máris Eliana Dietz acredita que a pandemia também terá impactos positivos nos mais jovens. “Não somos ilhas, somos seres sociais. Precisamos dos outros para nossa sobrevivência. [Aprendemos] o valor de cada profissional que mantém a cidade e o mundo funcionando”, afirma.

Segundo a psicóloga, os jovens terão a oportunidade autoconhecimento e de compreenderem que a tecnologia serve, também, para aproximar as pessoas. “Se antes o excesso do uso de celulares e internet os afastava dos adultos, agora é usada para conectar com amigos, familiares, professores e profissionais de saúde”, diz.

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