Pacientes de Covid-19 relatam traumas deixados pela doença

Fatores de risco fazem com que o quadro grave da Covid-19 se torne mais provável

Candidato Maguito Vilela se recupera da Covid-19 | Foto: Divulgação

Internado desde outubro no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, Maguito Vilela (MDB) foi eleito e diplomado a distância como prefeito da cidade de Goiânia. Segundo o boletim médico divulgado nesta sexta-feira, 18, pela instituição de saúde, o político encontra-se traqueostomizado e em ventilação mecânica, na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Maguito não apresenta mais no corpo o vírus Sars-CoV-2 que o levou a ser internado, em função de um quadro grave de Covid-19.

Embora oito a cada dez pessoas que se contaminem com o novo coronavírus desenvolvam apenas um quadro brando da doença, aqueles com 50 anos ou mais têm cerca de 2 vezes e meia mais probabilidade de progredir para um caso grave de Covid-19. É o caso de Maguito Vilela, de 71 anos de idade. Entre os pacientes em grupos de risco e que desenvolvem sintomas severos da doença, a taxa de mortalidade sobe de 1,4% para até 66%, segundo levantamento do Projeto UTIs Brasileiras, da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) e do Epimed.

De acordo com um estudo que quantifica os fatores de risco que aumentam as chances de as pessoas infectadas com o coronavírus desenvolverem um caso grave da doença, ser homem aumenta as chances de progredir para uma doença grave em 1,3 vezes, enquanto fumar torna isso um pouco mais de 1 a 2 vezes e meia mais provável. No geral, os pacientes com condições médicas subjacentes, incluindo hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, tinham 2 a 3 vezes mais probabilidade de progredir para doença grave.

Certas condições aumentaram ainda mais essas chances, de acordo com o estudo: por exemplo, pessoas com distúrbio pulmonar obstrutivo crônico tinham de 2,5 a 11 vezes mais probabilidade de adoecer gravemente. A doença renal também é um grande fator de risco. Embora a pesquisa não tenha identificado exatamente o quão grande é esse risco, ela sugeriu que é algo entre 2 e 16 vezes.

Leito de UTI | Foto: André Araujo / Governo do Tocantins

A pesquisa foi conduzida por médicos em Xangai, e é uma meta-análise que examinou dados de 30 estudos conduzidos entre dezembro de 2019 e 19 de fevereiro, envolvendo 53.000 pacientes com casos confirmados de COVID-19. A maioria dos estudos foi conduzida em Wuhan e outras cidades chinesas, embora a análise tenha incluído três estudos envolvendo pacientes dos Estados Unidos, Austrália e Coréia.

Os casos foram considerados graves se apresentassem sintomas como falta de ar, exigindo 30 ou mais respirações por minuto (12 a 20 respirações por minuto é considerado normal para um adulto); níveis perigosamente baixos de oxigênio no sangue; e evidência radiográfica de dano pulmonar que cresceu 50% ou mais em um período de 24 a 48 horas.

Apenas um deslize

Como Maguito Vilela, muitos outros goianos pertencem a grupos de risco, foram infectados e levados à UTI por complicações em seus quadros clínicos. João Adriano Assunção, 42 anos, reúne diversos fatores de risco: é homem, fumante, tem sobrepeso, hipertensão e é cardiopata. Ele, que é contador na cidade de Aparecida de Goiânia, relata que estava trabalhando de sua casa, em home office desde março de 2020, respeitando os protocolos de segurança. 

“Eu estava em isolamento social quase total – só saía às vezes para fazer compras”, diz João Adriano Assunção. “Mas é muito difícil ficar isolado todo esse tempo. Até para a cabeça da gente, faz mal”. O contador diz que se contaminou com o coronavírus em uma festa de aniversário no final de setembro – a única ocasião que foi a uma aglomeração desde o começo da pandemia. 

“A gente pensa que pode ir para a aglomeração porque consegue usar máscara e lavar as mãos, mas, na prática, é impossível fazer tudo certo o tempo todo. Você tira a máscara para comer; as pessoas falam próximas a você sem máscara; você fica em um ambiente fechado onde existem pessoas infectadas”, conta João Adriano Assunção. 

“As pessoas que dizem que não querem se vacinar não sabem do que estão falando”, diz João Adriano Assunção | Foto: Acervo Pessoal

Cerca de uma semana após a festa, ele começou a apresentar os sintomas típicos da doença: tosse seca, dores no corpo, indisposição, dor de garganta. Isolado e sozinho em casa, João Adriano Assunção se consultou à distância com um médico, que o aconselhou a monitorar o nível de oxigenação em seu sangue com um oxímetro. Alguns dias depois, a taxa de saturação apontada pelo aparelho caiu abaixo dos 90% e João Adriano Assunção teve de ser internado. 

João Adriano Assunção necessitou de ventilação artificial com cânula orotraqueal. O processo levou a uma infecção secundária devidas ao acúmulo de pus e bactérias da cânula invasiva. Além da ventilação mecânica e do tratamento com plasma convalescente, a equipe de saúde do hospital em que João Adriano Assunção se internou utilizou anticoagulantes, dexametasona e colchicina.

O contador passou 27 na UTI e teve 50% dos pulmões comprometidos. Como sequela, afirma que sente fraqueza e indisposição que não parecem diminuir. “Quase um mês imobilizado numa cama deixam seus músculos muito fracos”. João Adriano Assunção se diz arrependido de ter ido à festa de aniversário, onde relata que outras pessoas também se contaminaram, e recomenda que, caso as pessoas necessitem fugir da quarentena, que escolham passeios ao ar livre ao invés de aglomerações em locais fechados.

João Adriano Assunção também afirma estar decidido a parar de fumar, além de se dizer esperançoso com a perspectiva de ser vacinado em breve. “Por mim, qualquer vacina que mostre eficiência e segurança aos órgãos responsáveis está ótima! As pessoas que dizem que não querem se vacinar não sabem do que estão falando. Elas vão colocar pessoas próximas em um sofrimento muito grande. As vacinas já nos livraram de tantas doenças, a Covid-19 tem que ser a próxima doença extinta.”

Danos permanentes 

Sâmara Kelly, 32 anos, contraiu a Covid-19 de sua mãe em meados de junho. A mãe faleceu por uma parada respiratória em decorrência da doença apenas dois dias antes de Sâmara Kelly ser internada. Ela, que estava grávida de dois meses à época, viria a passar 103 dias internada no Hospital das Clínicas, em Goiânia – destes, 60 dias esteve na unidade de tratamento intensivo (UTI).

Sâmara Kelly chegou a ter 85% dos pulmões comprometidos; teve duas paradas cardiorrespiratórias; sofreu com infecções bacterianas em decorrência das traqueostomias. Como resultado, ao retornar para casa, além da fraqueza muscular que a confinou à cadeira de rodas, Sâmara Kelly teve complicações neurológicas e perda quase completa da audição. 

Embora nem todos esses danos advenham do novo coronavírus propriamente dito, mas de medicamentos e terapias utilizadas para tratar sintomas da doença, médicos explicam que sequelas após a internação em decorrência da Covid-19 são normais. Caso haja internação em UTI, são até mesmo prováveis. 

Hélvio Gervásio é o médico intensivista que atua na linha de frente contra o coronavírus no hospital Anis Rassi e explica que entre as mais sérias consequências da infecção grave pelo coronavírus podem haver danos neurológicos, renais e hematológicos. Ele pontua que, além dessas complicações, pacientes que ficam longamente internados na UTI podem ficar emocionalmente debilitados; com fraqueza muscular importante; apresentar dores como mialgia e lombalgia; danos na traqueia em decorrência da intubação. 

No caso de Sâmara Kelly, que perdeu quase completamente a audição e ainda não recebeu um prognóstico médico a respeito da reversibilidade da surdez, o dano foi causado por consequência do antibiótico amicacina, que recebeu para combater uma infecção bacteriana contraída na UTI. Hélvio Gervásio afirma que, no tratamento intensivo, são comuns as situações em que se tem de se tem de pesar os prós e os contras de medicamentos com efeitos colaterais extremos.

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