Os opositores jamais acreditaram

Há dois anos, a maioria da oposição não acreditava nem na possibilidade de Marconi se candidatar à reeleição. Sempre foi assim, mas, hoje, ele não só chega às urnas outra vez como tem possibilidade de vencer já no 1º turno

Governador Marconi Perillo: nunca perdeu uma eleição desde que se elegeu deputado estadual, em 1990 | Fernando Leite/Jornal Opção

Governador Marconi Perillo: nunca perdeu uma eleição desde que se elegeu deputado estadual, em 1990 | Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

A vida política de Marconi Perillo nunca foi tranquila. Ele começou como auxiliar do governador Henrique Santillo, em 1986, e alcançou, a partir de sua posição dentro do Palácio das Esmeraldas, a Pre­si­dência estadual do PMDB-Jovem. Desde então, coleciona vitórias nas urnas. Algumas, de maneira espetacular. Outras, contra todos os prognósticos possíveis e lógicos.

O primeiro mandato, de deputado estadual, foi conquistado por ele nas eleições de 1990, marcada fortemente pela guerra interna no PMDB entre as forças de Iris Re­zen­de e do então governador em fi­nal de mandato Henrique Santillo. Mar­coni estreou nas urnas nessa au­têntica prova de fogo. Naquela eleição, embora Santillo e Iris estivessem no PMDB, eles se tornaram fer­renhos adversários. Com o controle da maioria, Iris lançou-se candidato ao anunciar que era oposição a Santillo. Isso foi dito abertamente, já no discurso de lançamento de sua candidatura. Todos os possíveis nomes santillistas ficaram inviabilizados de imediato no choque interno.

Sobrevivente

Naquela época, Iris tinha uma extraordinária capacidade de mapear as potencialidades de votos dos candidatos. Foi dessa forma que ele lançou candidatos de seu grupo em todos os nichos trabalhados pelos candidatos apoiados por Santillo. Essa invasão bárbara dos iristas nas bases dizimou o exército de candidatos santillistas em todo o Estado. Me­nos um: Marconi Perillo, o jo­vem estreante. Assim, na Assem­bleia Legislativa, entre os anos de 1991 e 1994, apenas um deputado do PMDB de Santillo marcou presença.

E que presença. O sobrevivente foi uma pedra no sapato do Palácio das Esmeraldas. Sem deixar o PMDB, o deputado estadual Mar­co­ni foi o mais empedernido e persistente oposicionista. Tornou-se, as­sim, e rapidamente, uma das maiores referências da minoritária bancada de oposição. Iris fez o possível para isolá-lo, mas não conseguiu evitar que uma chuva de denúncias contra a sua administração tivessem como denunciante o deputado santillista.

Quando se imaginava que Mar­coni se candidataria à reeleição, que era considerada muito mais tranquila do que a estreia, ele mudou de ares e entrou em outra parada tortíssima: a disputa por uma das 17 cadeiras da Câmara dos Deputados, em Brasília. Se quatro anos antes, contando com apoio de Henrique Santillo, ele precisou enfrentar a máquina eleitoral trituradora de Iris para se eleger deputado estadual, arriscar tudo num voo ainda mais ousado era quase um suicídio político. Não foi.

Durante toda a campanha, o nome de Marconi jamais apareceu nas possíveis listas de candidatos favoritos. No máximo, ele figurava no bloco intermediário, o que reforçava inclusive a imagem de que a ousadia custaria muitíssimo caro. Contados os votos, lá estava ele entre os deputados federais eleitos.

Nacional

O desembarque em Brasília não foi fácil. De estrela estadual em ascensão, Marconi era mais um numa multidão de 513 deputados federais. Mas na Presidência da República estava o tucano Fernando Henrique Cardoso, e no Ministério dele, Sérgio Motta, turma que desde sempre se identificava politicamente com Henrique Santillo. Essa proximidade foi importante para o recém-eleito deputado federal Marconi, que caiu nas graças do super-ministro de FHC.

Dois anos depois, em 1996, já com certa influência dentro do ninho tucano, Marconi foi um dos principais articuladores da candidatura de Nion Alber­naz à Prefeitura de Goiânia. E também foi ele quem conseguiu trazer Sérgio Motta para, no início da campanha, anunciar apoio de Brasília a um possível governo de Nion em Goiânia, o que abriu caminho para a consolidação da união total dos principais partidos de oposição ao PMDB e ao PT em Goiânia, PSDB, PP, PTB e PFL/DEM.

O trabalho desenvolvido em Brasília construiu para Marconi Perillo um tranquilo caminho rumo à reeleição, em 1998. Seu relacionamento com o prefeito Nion também era perfeitamente sincronizado. Assim, aparentemente nada indicaria qualquer mudança de rumo nas eleições de 1998. Ninguém imaginava outro cenário senão o da reeleição de Marconi para a Câmara dos Deputados. Quer dizer, ninguém vírgula. Marconi tinha outros planos: disputar o governo do Estado contra o mito sagrado da política estadual, Iris Rezende.

Qualquer hipótese eleitoral futura para Marconi em 1998 levaria em conta sua reeleição para a Câmara. Uma dessas hipóteses seria a de suceder Nion no comando da Prefeitura de Goiânia, em 2000. Até porque não havia a menor possibilidade concreta de as oposições vencerem as tropas palacianas do então governador Maguito Vilela, que era candidato natural à reeleição pelo PMDB. Iris estava em Brasília, muito bem instalado no Ministério da Justiça.

Mas Iris resolveu voltar a Goiás e se candidatar pela terceira vez ao governo do Estado. Maguito recuou da reeleição e se lançou para o Senado. Maguito seria imbatível naquela eleição e, mesmo com Iris, a situação do governo era absolutamente tranquila. Para a oposição, mesmo unificada, não restava muita coisa. Chance zero.

Tentou-se um grande acordo com o PMDB, mas os 74% de intenções de voto captadas a favor de Iris pelas pesquisas inviabilizaram qualquer aproximação que não significasse uma rendição incondicional. No Palácio do Planalto, Fernando Henrique apontou que o caminho do PSDB goiano deveria ser o apoio, incondicional se fosse o caso, a Iris Rezende, seu ex-ministro da Justiça. Mas, também em Brasília, Marconi aproveitou o trânsito livre que tinha com o super-ministro Sérgio Motta e conseguiu dele o sinal verde para que os tucanos fechassem com a oposição e não com o PMDB.

Completamente atordoada diante da avassaladora preferência por Iris nas pesquisas, a oposição era um exército maltrapilho contra a azeitada máquina irista. O primeiro candidato ungido pelo grupo, o deputado federal Ro­berto Balestra, não suportou a enorme pressão e abriu mão do privilégio às avessas de enfrentar Iris Rezende. Os principais líderes dos partidos oposicionistas procuraram outro candidato, mas ninguém topou a parada tortíssima. Foi então que surgiu o jovem deputado federal Marconi disposto a sair da zona de conforto da reeleição para a Câmara dos Deputados e enfrentar o bicho-papão peemedebista. Na realidade, nos bastidores e em silêncio, Marconi trabalhava para ser o candidato ao governo contra Iris.

Foi uma eleição duríssima a de 1998. A mais difícil de todas. Apesar de unida, as oposições não somavam densidade suficiente para enfrentar o até então imbatível Iris Rezende e o PMDB. Marconi, logo na primeira pesquisa com o seu nome, surgiu com dois pontos porcentuais a menos que o candidato anterior, Roberto Balestra. A liderança de Iris era acachapante. Mas no final da campanha, em dois turnos, Marconi Perillo venceu e se tornou governador do Estado. Era apenas a sua terceira disputa, em oito anos – 1990, estadual, 1994, fe­deral, e 1998, governador – e sua terceira e mais impressionante vitória.

Inferno astral

A reeleição em 2002 foi muito mais tranquila do que as três disputas anteriores. Em 2006, buscou e conseguiu cadeira de Senador com sobras e sem ne­nhum sufoco. De quebra, teve forças suficientes para eleger também seu sucessor. Em 2010, nova pedreira, mas a vida dele foi facilitada pela divisão na oposição.

Herdeiro de uma máquina administrativa onde se identificava um déficit potencial que alcançava R$ 2 bilhões, em 2011, conforme denunciou seu então secretário da Fazenda, Simão Cirineu, Marconi começou o governo acumulando dificuldades. Além disso, a pressão criada naturalmente pela esperança de seu retorno, após o governo de Alcides Rodrigues, ampliou extremamente as demandas e a urgência nas soluções. Foi um ano duríssimo.

Nem bem iniciava o ano de 2012, quando se imaginava que o sufoco administrativo maior havia passado, eis que explode o caso Cachoeira, que envolveu politicamente o Palácio das Esmeraldas. Em Brasília, uma CPI com digitais do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, arqui-inimigo de Marconi, acabou provocando uma crise seriíssima que criou um efeito de terra arrasada sobre todo o patrimônio político de Marconi. Era o fim, concluíram os opositores.

Recuperação

Se a vida eleitoral de Marconi nunca foi fácil, há dois anos ninguém na oposição acreditava sequer que ela ainda continuaria a existir. Era comum, nos bastidores e publicamente, ouvir líderes opositores prevendo que Marconi nem candidato seria este ano. Não teria coragem, diziam. Politicamente, ele estava morto e enterrado.

Hoje, Marconi não apenas chega às urnas mais uma vez como tem possibilidade real de vencer já no primeiro turno, conforme revelam as pesquisas mais recentes. Se ele vai mesmo conseguir ganhar de todos os adversários agora ou em um 2º turno, descobriremos em breve. Mas a verdade é que os que fazem oposição a ele jamais acreditaram.

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