Os grandes temas que precisam ser debatidos nas próximas eleições

Disputa eleitoral precisará sair do senso comum para convencer eleitor do melhor projeto para a capital. Temas centrais como mobilidade urbana, saúde, educação, meio ambiente e segurança vão dominar as discussões de campanha

Frederico Vitor

A próxima eleição municipal terá o primeiro turno no dia 2 de outubro de 2016. Até lá serão 11 meses, mas o debate eleitoral já foi antecipado. Prova disso é que os partidos se movimentam e seus líderes já apontam quadros que se apresentam como pré-candidatos. Em Goiânia, diferentemente de processos eleitorais anteriores, não é esperada uma disputa polarizada, ou seja, com foco em dois candidatos. Tudo indica que o pleito será acirrado com diversos nomes com chances reais de ser o sucessor de Paulo Garcia (PT) no comando do Paço Municipal.

Com a antecipação informal do processo eleitoral, a discussão acerca dos temas relacionados a Goiânia se tornou frequente na imprensa, nas reuniões partidárias e nas tribunas tanto da Câmara Municipal quanto na Assembleia Legislativa. Os partidos e seus líderes não economizam retórica no apontamento de problemas e soluções para os gargalos da capital.

Os discursos ainda estão no senso comum, mas há setores da política mais qualificados que estão buscando com especialistas e estudiosos da cidade a elaboração de um projeto mais amplo e que contemple os problemas do município.

Até o momento, os quadros que se apresentam como pré-candidatos são: o ex-prefeito Iris Rezende (PMDB), a deputada estadual Adriana Accorsi (PT), o presidente da Agência Goiana de Transportes e Obras (Agetop), Jayme Rincón (PSDB), o deputado federal Waldir Soares (PSDB), o empresário e ex-prefeito de Senador Canedo Vanderlan Cardoso (PSB) e o ex-deputado Luiz Bittencourt (PTB). Mas, afinal, o que pensam os líderes dos partidos desses políticos, que possivelmente vão protagonizar a eleição municipal de 2016?

O que propõem para a cidade, as lideranças das legendas de Iris, de Adriana Ac­corsi, de Jayme Rincón, de Waldir Soares e de Vanderlan Cardoso?

A reportagem ouviu o presidente do diretório me­tro­politano do PMDB, o deputado estadual Bruno Peixoto, os presidentes estadual e metropolitano do PSDB, respectivamente Afrêni Gonçalves e Rafael Lousa, e o presidente estadual do PT, Ceser Do­nisete, para saber deles quais os temas que não poderão faltar no debate eleitoral do ano que vem. Até o fechamento desta edição, a senadora Lúcia Vânia, presidente estadual do PSB e o deputado Jovair Arantes, presidente do PTB em Goiás, não deram retorno.

PMDB

O deputado Bruno Peixoto classifica infraestrutura, mobilidade urbana, saúde, educação, iluminação pública e limpeza como temas centrais que não poderão faltar na mesa de discussão do processo eleitoral. Indagado sobre a segurança pública, o parlamentar diz que esta área não compete ao município. Para ele, a Prefeitura já contribui para a segurança da integridade dos goianienses por meio de ações em iluminação e limpeza de terrenos baldios, além do patrulhamento da Guarda Civil Metropolitana nos equipamentos públicos de responsabilidade do município.

Perguntado sobre a questão da expansão urbana e os problemas relacionados ao crescimento desordenado da cidade, o parlamentar defende que a expansão deve ser contínua. O peemedebista explica que Goiânia precisa evitar os vazios urbanos, por isso, se um loteamento tiver 70% dos terrenos já vendidos, automaticamente outro ao lado deve ser aberto para o mercado imobiliário. “A dispersão da cidade dificulta a gestão pública, por isso defendo que todo município precisa estar dentro de sua macro zona construída”, diz.

PT

Ceser Donisete afirma que segurança, mobilidade urbana, saúde, educação, cultura, esporte e lazer, meio ambiente e políticas sociais deverão monopolizar o debate eleitoral. O petista diz que o prefeito Paulo Garcia começou a recuperar sua imagem de gestor público, portanto, a discussão acerca do planejamento terá espaço de destaque na campanha. “O setor público precisa dar resposta às demandas do contribuinte, por isso acredito que esta é a chave para uma gestão bem avaliada”, afirma.

Segundo Donisete, a segurança pública, ao lado de mobilidade urbana, saúde e educação, deverá ganhar atenção especial dos eleitores. Ele diz que o candidato que propuser a recuperação dos espaços públicos como forma de combater a insegurança poderá crescer no conceito do eleitorado. O petista explica que, quando uma praça ou qualquer espaço público de convivência é recuperado e entregue à população, sua utilização pela comunidade inibe ações criminosas. “Políticas voltadas à segurança vão desde a iluminação pública, recuperação de espaços degradados e a vigilância por meio de câmeras de monitoramento”, diz.

PSDB

Afrêni Gonçalves diz que mobilidade urbana, em especial o transporte coletivo, meio ambiente, saúde, educação e segurança pública deverão ser pautas prioritárias. Para o presidente estadual do PSDB, os candidatos a prefeito de Goiânia vão precisar dialogar com o eleitor, de acordo com a perspectiva da realidade da cidade. Ele acrescenta que no quesito educação o debate deverá se aprofundar em relação ao número de creches existentes em Goiânia e na qualidade do serviço ofertado pelos Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) da capital. “As creches precisam de estruturas físicas e equipamentos adequados”, afirma.

Rafael Lousa, por sua vez, afirma que o debate eleitoral vai mirar para a questão da gestão pública. O presidente do diretório metropolitano do PSDB explica que a qualidade da prestação dos serviços de responsabilidade do município, como o transporte coletivo, os atendimentos dos Cais e a educação básica, mais uma vez, serão a tônica da discussão. Para ele, adensamento urbano e segurança pública são temas que ganharão mais espaço nos discursos políticos em 2016. “Nossos pré-candidatos já discutem estes itens, e tenho certeza que darão mais profundidade durante a campanha.”

“Debate deve ser atual e não propriamente sobre 2016”

Rafael Lousa: “Segurança será item de importância”

Tadeu Arrais: “Candidatos não poderão se afastar das discussões do presente”

Professor do Instituto de Estudos Socioambientais (Iesa) da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor pela Univer­sidade Federal Fluminense (UFF), Tadeu Arrais é crítico da forma como os temas sobre Goiânia é colocada pelos pré-candidatos para discussão com a sociedade. Ele concedeu entrevista ao Jornal Opção em sua sala no Iesa, no Campus Samambaia da UFG, e defendeu maior clareza das questões do município. O ponto de vista de Tadeu Arrais serve como um sóbrio e realista contraponto das ideias expostas pelos líderes partidários.

É cedo para se discutir eleições municipais, porém este é um debate que já foi antecipado, levando em consideração que os partidos e políticos estão se movimentando e apresentando à sociedade quadros que se declaram pré-candidatos a prefeito. Em sua avaliação, de quais temas eles não poderão fugir no processo eleitoral do ano que vem? Qual deverá ser a discussão central dos rumos de Goiânia em 2016?
O debate não pode ser propriamente de 2016, mas sobre o agora. A forma como cada candidato se porta diante dos problemas e das soluções que se apresentam revela muito do que eles propõem. Não dá para imaginar que estes candidatos possam apresentar um álibi dos temas centrais e se afastarem da discussão do presente. Neste sentido, o projeto de lei sobre a convenção das áreas rurais, que autoriza o parcelamento de áreas rurais para condomínios e núcleos industriais é, sem sombra de dúvidas, um ponto de clivagem na história de Goiânia. Não consigo lembrar outra lei pior do que esta.

O sr. acha que os candidatos não podem fugir da questão da expansão urbana e as consequências das ocupações desordenadas?
Isso precisa ser debatido. Por que os candidatos não querem debater? Porque todos têm compromisso com o mercado imobiliário. Esta lei de parcelamento de áreas rurais é um paradigma de mudança de ocupação de todas as áreas de Goiânia. No momento em que em São Paulo se discute a captação de água, há um problema grave vivenciado em Mariana (MG), não há como fugir da questão hídrica. Os gestores parecem não estar preocupados com o abastecimento de água. A lei sobre a convenção das áreas rurais atinge toda uma área de Goiânia com mananciais. Em breve estas áreas serão convertidas para assentamento de residências. Entre a quantidade de coisas que acontecem em Goiânia, no momento, eu julgo esta como principal, porque mexe com o ordenamento da cidade inteira. O que está em questão não são fatores técnicos, mas um jogo de interesse sobre o uso do solo.

O sr. quer dizer com “os interesses econômicos estão colocados acima dos da coletividade”?
São interesses de grupos imobiliários. A narrativa de todas as prefeituras era de vender áreas públicas porque a cidade estava falida. Lembro que eu disse ao Jornal Opção que o município não iria falir, como não faliu, mesmo assim o poder público vendeu áreas públicas. A segunda questão que resulta nisso é a transparência. Não ficar apenas no discurso maniqueísta de ser refém de determinados segmentos.

E a questão do transporte coletivo e mobilidade urbana? É um tema que precisa ser aprofundado e debatido com maturidade pelos candidatos em 2016. Como o sr. avalia o discurso dos líderes partidários acerca deste tema no momento?
Vamos imaginar duas questões. A primeira é de fundo que pode ou não mobilizar forças progressistas na cidade. O transporte coletivo em Goiânia é um problema muito grave. De tempos em tempos isso entra na agenda da classe política e do poder público. Mas a discussão sobre os problemas ocorre todos os dias na periferia de Goiânia e a imprensa sabe disso. A situação do transporte é lamentável. É inconcebível que as pessoas gastem de duas a três horas diárias de suas vidas num transporte ruim, sem qualidade, sofrendo todo tipo de assédio. O transporte público da capital está cada vez mais inseguro no ponto de vista de furtos e roubos. As administrações nunca levaram este tema a sério, trata-se de um gargalo histórico. É preciso mais investimentos no ordenamento do transporte coletivo e do privado.

Como achar so­luções para o problema dos congestionamentos e a crescente frota de veículos, algo que é reflexo direto da insuficiência da qualidade do transporte coletivo?
Por um lado, Goiânia tem uma frota enorme de carros e motocicletas; por outro, temos um problema sério de engenharia de trânsito e acessibilidade. Não há grande segredo em relação à falta de dimensão das calhas. Não há também se­gredo na ausência punitiva. A pergunta que se faz é: qual foi a lógica que o poder público utilizou para retirar a Secretaria Municipal de Trânsito (SMT) do deslocamento em direção aos acidentes de trânsito? Trata-se de uma ação pequena, mas que tem um impacto muito grande no cotidiano do trânsito da cidade. Se o cidadão compra um carro tem responsabilidade para lidar com o trânsito. Já a prefeitura não o tem. Fora que temos que ressaltar o problema dos agentes de trânsito, que vivem em situação precária de condição de trabalho. Temos um quadro do mais qualificado, porém sem apoio. Os problemas do transporte em Goiânia estão naturalizados, o que pode servir de álibi para os políticos. Portanto, o problema da mobilidade é sério.

Fala-se muito que segurança pública não é dever nem responsabilidade do município. Mas essa é uma pauta da qual os candidatos não poderão fugir. Qual é o papel da prefeitura na contribuição da segurança pública?
Tem muito. O que torna uma cidade segura? Os espaços públicos. Quando os espaços públicos são utilizados, quando há vida e diferença, ele se torna mais seguro. Dou o exemplo da Praça do Avião, no setor Aeroporto. Ela é frequentada majoritariamente por crianças e pais que residem nos arredores. Trata-se de um espaço que tem oscilado bastante entre o pequeno tráfico de drogas e furtos. Como a praça estava acabada, sem luzes e aparelhos de ginástica, os jovens deixaram de frequentá-la. O que quero dizer é que, se os frequentadores do mesmo espaço público se conhecem, eles zelam da segurança um do outro. Esta é a lógica da ocupação dos espaços públicos. Mas o que percebo é que as praças estão se degradando. Dessa forma, impera a política do claustro, ou seja, o enclausuramento das pessoas em suas próprias casas, como na Idade Média. Não é por acaso que, quando se refere aos grandes investimentos em segurança feitos em Nova York, que são tomados como exemplos, não tomam o cuidado de criminalizar a miséria. Não se pode fazer uma correlação entre extrema pobreza e a extrema violência. Por que esta lógica pode afastar o pobre dos lugares da cidade.

Então, a questão da segurança do município está ligada à questão social?
Exatamente. Por que os bairros pequenos apresentam baixos índices de violência? Porque todos se conhecem. Por que o Centro de Goiânia está sendo majoritariamente ocupado por população sem habitação, conhecida como população de rua, submetida a todo regime de violência? Por que o poder público não tem um programa de assistência. O drama vivido hoje no Centro é este. População de rua crescendo e o tráfico de drogas aumentando. A população idosa que é numerosa no Centro está ficando trancada nos apartamentos. São coisas estruturais, portanto o futuro prefeito precisa se preocupar com segurança da mesma forma que o governador tem que se preocupar com a questão do saneamento. Tem que ter uma ação conjunta.

Os políticos que se propõem a pensar a cidade, quase na totalidade, apontam para os sistemas de monitoramento de câmeras como uma solução tecnológica para a questão da segurança da cidade. O sr. concorda?
Uma pessoa que está vivendo na rua está se importando com monitoramento? Ela está se importando em reproduzir o pouco que lhe resta daquela vida. Se o sistema de monitoramento com câmeras for por falta de saber onde ocorrem com frequência os delitos, então estamos na Londres do século 18, onde era preciso fazer um grande mapeamento das áreas violentas. O poder público sabe onde estão os focos de violência. Faltam, na verdade, investimentos da Prefeitura em parceria com o Estado. Parece-me que a tensão agrada alguns setores da política. E tudo isso reverbera nas grandes cidades, onde está o desemprego, as carências em saúde, educação e segurança. É com este caldo que estes pré-candidatos vão ter que lidar. O quadro que está colocado não é de interesse público da cidade.

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