O PT precisa descer do jatinho e voltar a andar de ônibus

Ela já deveria ter ocorrido há pelo menos 13 anos, com o escândalo do mensalão. Mas, com a condenação de seu maior nome em segundo grau, o partido não sobrevive mais sem uma autocrítica refinada

Olívio Dutra, ex-governador do RS, e Lula, ex-presidente: o PT do ônibus precisa voltar a prevalecer ao do jatinho

A condenação de Lu­la por 3 votos a 0 no colegiado de Por­to Alegre me­re­ce muito mais reflexão do que a sentença de primeira instância de Sérgio Moro. Esse era um juiz apenas, e sobre ele ha­via senões em pelo menos dois episódios que deixariam a pul­ga atrás da orelha de qualquer pessoa isenta em sua análise – uma condução coercitiva do ex-presidente, em março de 2016 (algo que o mundo ju­rídico em geral viu como me­dida desnecessária ou exagerada) e, dias depois, a divulgação dos áudios de uma conversa deste com a então presidente Dilma Rousseff, pouco depois de seu anúncio como no­vo ministro do governo.

De Curitiba a Porto Alegre pas­saram-se seis meses – um pra­zo menor do que a média dos julgamentos em segunda ins­tância para o mesmo tribunal, diga-se. E Lula foi condenado novamente. Como dizem seus defensores, não se apresentou um re­cibo do apartamento – o cha­mado “preto no branco” –, mas realmente havia muita coisa que ligava o ex-presidente àquele imóvel nem tão luxuoso assim no nem tão gla­moroso Guarujá.

É verdade que Geddel Vi­ei­ra Lima – ex-ministro de Lu­la, diga-se também – foi derrubado do go­verno Temer por um apartamento muito melhor, em cons­trução no litoral de Salva­dor. É verdade que dentro de outro apartamento encontraram um quarto “à la caixa-for­te do Tio Patinhas”, com R$ 51 milhões, que compraria pe­lo menos uma dúzia de tríplex.

Ocorre que, em um país conservador como o Brasil, dominado por descendentes de capitanias hereditárias e seus parceiros internacionais, fazer um governo que de alguma forma mexa com as estruturas (ainda que menos do que o necessário) tem um custo alto e exige sa­cri­fícios e cuidados bem maiores do que gestões convencionais. Acrescente-se a isso o fa­to de o PT ter sido mesmo um par­tido diferente, nascido e de­senvolvido de baixo para cima, como uma real esperança de uma política também diferente.

É verdade, em números Geddel fez algo muito mais gra­ve do que Lula, deixando in­clusive suas próprias digitais nas cédulas como prova cabal. Mas de Geddel não se esperava outro comportamento – ou, pelo menos, talvez não sur­preenderia tal atitude. O mes­mo não podia ser dito do me­talúrgico que foi levado à Pre­si­dência como a personificação do projeto coletivo de um partido realmente representativo.

A responsabilidade de Lula ter chegado onde chegou e ter es­quecido o projeto original do PT – seja por ter passado a mão na cabeça de companheiros no caso do mensalão, seja por ter sido arrogante ao escolher pra­ticamente sozinho sua sucessora, seja por ter aberto tantos flan­cos para questionamentos – não é só dele. Seu carisma é inegável e único entre os maiores lí­de­res brasileiros. Aliados exaltam essa características e adversários mais desprendidos saberão reconhecer.

Por isso tudo, mesmo que os petistas e grande parte da esquerda considerem a condenação de Lu­la injusta – e mesmo observadores internacionais colocaram observações real­mente sérias, rela­tando lacunas no processo –, é pre­ciso que ela sirva menos para a au­tocomiseração do que para o en­frentamento da realidade.

Na semana em que Lula foi condenado pela turma do TRF-4, o ex-prefeito de Porto Alegre e ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra fez considerações valiosas ao partido. Palavras que dizem sobre algo que todos dentro da engrenagem chamada Par­ti­do dos Trabalhadores sabem mui­to bem: “Fizemos concessões a um tipo de política em que as ne­gociações de cúpula valem mais do que o envolvimento do povo”, dis­se ele, em entrevista ao site “The Intercept Brasil”. Olívio é fundador do PT e, como Lula, passou uma temporada preso, em 1979, quando presidia o sindicato dos bancários de seu Estado.

As “negociações de cúpula” a que se refere o petista têm a ver não só com algo “interpartidos”. Muito já se falou sobre o golpe dado pelo vice Michel Te­mer em Dilma Rousseff. Pou­co se fala que foi um ato “in­trapartido”, liderado pela cúpula do próprio PT, que decidiu por dar guarida ao en­tão PMDB, hoje MDB, na cha­pa. Em prol da governabilidade mais fácil, o grupo que lidera o partido ignorou um processo mais duro, a ser cons­truído com a força da mili­tância e com uma forma alternativa de angariar apoio no Congresso.

Parte desse problema foi esmiuçado em uma entrevista no fim de 2014, na qual o ex-ministro de Lula e hoje pré-candidato à Presi­dên­cia, Ciro Gomes (PDT), disse que Dilma só iria até o fim do segundo mandato – que aca­bara de conquistar, a duras pe­nas – se fizesse uma “risca no chão” e dissesse: “Daqui pra trás”. Ou seja, estabelecer os li­mites éticos necessários para as negociações visando a governabilidade. Talvez Ciro es­tivesse errado, talvez fosse tarde demais já naquele mo­mento. Talvez a “risca” tivesse de ter sido feita muito antes.

No fundo, essa “risca” de que Ciro fala é a mesma a que Olí­vio Dutra se remeteu: é o li­mite da ética, interna e externamente. O mensalão seria o mo­mento de ver que a “risca” tinha sido desobedecida; o petrolão veio como con­sequência dessa negligência. Se o primeiro es­cândalo chamuscou o partido, o segundo o jogou por ter­ra. Se no nascedouro do partido ser petista era sinônimo de “comunista” para as mentes mais rasas, passou agora a ser, pa­ra essas, também sinônimo de “la­drão”. Se fosse uma pessoa, po­deria se dizer que o PT, ho­je, está na sarjeta; mas, justamente por toda sua história, é o único que em tais condições po­deria se levantar, tomar um banho e recomeçar a vida.

A condenação de Lula pode ter sido injusta? Sim, mas o PT precisa ser maior do que Lu­la. Não é com autocomiseração que o partido poderá sair do lugar difícil e incômodo em que se meteu. Precisa voltar a dialogar com a sociedade e esta vai além das forças e da militância de esquerda. Isso não se faz sem algumas perdas e sem um pouco de pragmatismo. As eleições estão aí e é essencial ao PT ter um plano B a Lula ou até mesmo a humildade de se alinhar com um candidato que represente seu campo ideológico e que tenha maior chance eleitoral.

Raros partidos, na situação do PT, poderiam tentar recomeçar. A situação do partido é ruim, difícil, mas suas raízes são sua força. Pena que elas estiveram esquecidas durante tanto tempo. O PT de verdade é o que anda de ônibus com o ex-prefeito e ex-governador Olívio Dutra pela capital gaúcha. Não o que viaja com Lula em jatinho emprestado de acusado de corrupção. Os pequenos detalhes e os grandes exemplos farão toda a diferença para que o PT se reconstrua. É a última – e única – chance para o partido ser, de fato, dos trabalhadores.

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