O povo vai pra rua?

PT sabe que o levante popular marcado para este domingo não é “coisa da elite”, porque a revolta contra a corrupção e a incompetência do governo Dilma extrapola classes sociais

Em junho de 2013, como em todo o Brasil, os goianienses foram às ruas em protesto contra a corrupção e os serviços públicos ruins: os problemas só aumentaram desde então e agora Dilma personifica o desgosto popular | Foto: Renan Accioly

Em junho de 2013, como em todo o Brasil, os goianienses foram às ruas em protesto contra a corrupção e os serviços públicos ruins: os problemas só aumentaram desde então e agora Dilma personifica o desgosto popular | Foto: Renan Accioly

“… vem pra rua,
Porque a rua é a maior
arquibancada do Brasil…”
(O Rappa)

Cezar Santos

J. S. M. tem 24 anos, trabalha num supermercado durante o dia e estuda numa faculdade no período noturno. Ele mora com os pais e duas irmãs numa pequena casa que a família aluga na Vila Brasília, em Goiânia. Em junho de 2013 foi um dos milhares de goianos que estiveram nas ruas protestando por melhorias no transporte público, na educação, saúde e segurança.

O mote daquela manifestação — que ocorreu simultaneamente em outras 100 cidades brasileiras — eram os tais 20 centavos no aumento da passagem de ônibus. Mas J. lembra que era mais que isso: “Fomos eu e uns amigos e a gente carregava cartazes pedindo o fim da corrupção, melhorias na qualidade de vida, e, claro, investimentos nos serviços públicos e no transporte coletivo.”

Neste domingo, 15, ele diz que vai estar nas ruas novamente, protestando de novo (a manifestação foi marcada para a Praça Taman­daré, no Setor Oeste), principalmente contra Dilma Rousseff. “Acho que o melhor é ela sair, ela é muito ruim!”

O Brasil vai viver uma data histórica. Milhares de pessoas certamente vão estar nas ruas, manifestando seu descontentamento com o pior governo da fase pós-redemocratização no Brasil. Há uma grita pelo impeachment, ou deposição, da presidente da República. Para quem acha que pedir impeachment é “golpe”, é bom saber que se trata de um instrumento previsto na Constituição Federal.

Numa tentativa de esvaziar o movimento, que vem sendo propalada há algumas semanas, o governo e o PT quiseram dar uma conotação de que os protestos contra o governo de Dilma Rousseff são circunscritos à “burguesia”, a uma “elite”, aos ricos, enfim (veja texto abaixo).

Não é assim. A decepção com o governo Dilma é já há algum tempo uma fenômeno que extrapola classes sociais. Há na população brasileira um larguíssimo contingente de pobres, remediados e, sim, ricos repudiando uma administração que está levando o País para a estagnação econômica e para a inflação. Além da má gerência administrativa, a corrupção escancarada na Petro­brás operada por representantes do PT e dos aliados PMDB e PP, perdões financeiros a ditadores, dinheiro farto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social a um clube de amigos… É muita coisa mal explicada que os brasileiros não aceitam mais.

Vaias 

A crise econômica é fato, não é teoria, e as pessoas sentem seus efeitos no dia a dia. As empresas já começaram a demitir trabalhadores — em 2014, a indústria fechou 216 mil postos de trabalho —, a inflação corrói os salários e começa a corroer a poupança — no ano passado, a captação da caderneta caiu 66,17% em relação ao saldo de 2013. As famílias estão endividadas acima do seu limite, pois cairam na ilusão de gastar pelo crédito aparentemente barato e farto dos anos Lula e do primeiro mandato de Dilma Rousseff. A conta chegou.

Uma prévia dos protestos deste domingo ocorreu há exatamente uma semana. Enquanto a petista fazia um pronunciamento desastrado na TV, houve buzinaço, panelaço e vaias em ao menos 12 capitais: São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia, Belém, Recife, Maceió e Fortaleza. Nas janelas dos prédios, moradores batiam panelas, xingavam a presidente, enquanto piscavam as luzes dos apartamentos. Nas ruas, motoristas acionavam as buzinas.

Na TV, simbolicamente num retrato da total desconexão com a realidade, enquanto era alvo do protesto Dilma dizia compreender a irritação e preocupação de brasileiros diante do cenário atual, com inflação em alta, economia fraca e aumento do endividamento das famílias. Ela pediu a confiança da população e conclamou a todos a se unirem em um esforço coletivo para a retomada do crescimento do país.

Ocorre que nos últimos quatro anos, Dilma fez tudo ao contrário do que deveria para não deixar a situação econômica degringolar. Mesmo o brasileiro comum, aquele que não “entende” de economia, sentiu os efeitos da incompetência. Por isso, além de ataques a Dilma e ao PT, muitos manifestantes aproveitaram para incentivar a manifestação pró-impeachment, programada este domingo. Nas redes sociais, internautas comparavam este 15 de março ao 29 de maio de 1992. Naquele dia, os jovens foram às ruas de cara-pintadas pedir a saída do então presidente Fernando Collor do governo.

A insatisfação contara o governo está espraiada na sociedade brasileira, não só entre os “ricos”, como querem os petistas. Mostra inequívoca dessa clima malfazejo contra a presidente se deu na terça-feira, 10, no 21º Salão Internacional da Construção, no parque de exposições do Anhembi, em São Paulo. Dilma chegou antes da abertura ao público, com certeza seguindo recomendação da segurança. No momento, só estavam no local expositores e trabalhadores. “PT ladrão” e “eu não voto do PT” foram as palavras que Dilma teve de ouvir. Não tinha rico.

O estudante J.S.M., o personagem com quem este texto foi aberto, ganha 900 reais por mês. Ele vai estar nas ruas hoje, protestando contra um governo que tem a marca da incompetência e da corrupção. J. não sabe, mas no julgamento do petismo, por protestar, ele é “rico”.

Petistas estão preocupados com as manifestações

Na semana passada, a “Folha de S.Paulo” publicou reportagem relatando que os petistas temem que novos protestos repitam junho de 2013. Segundo o jornal paulista, a principal preocupação do partido é com São Paulo, onde se concentraram os protestos e reações ao PT e à presidente. Os petistas teriam sido “pegos de surpresa” com o panelaço ocorrido durante o discurso televisivo de Dilma Rousseff na TV, no domingo passado.

O paralelo com os manifestos de 2013 seriam, segundo palavras de um aliado de Dilma, é que desta vez, em vez de “20 centavos”, o sentimento de mudança está agora centrado no poder central. Petistas ouvidos pelo jornal atribuem o desgaste de Dilma ao abandono da agenda política pelo governo.

Na avaliação destes interlocutores, o Planalto apresentou uma agenda em junho e prosseguiu com as políticas públicas, mas perdeu a comunicação com a população. Um ministro disse que a tensão nas ruas se deve ao fato de que o País ainda vive o clima das eleições de outubro. Lembrando que Dilma ganhou a eleição presidencial por uma margem apertada contra o tucano Aécio Neves (MG).

O partido chegou a emitir uma nota em seu site afirmando que a mobilização pode ter apoio de partidos de oposição. “Tem circulado clipes eletrônicos sofisticados nas redes, o que indica a presença e o financiamento de partidos de oposição a essa mobilização”, disse o secretário nacional de Comunica­ção do PT, José Américo Dias.

Vice-presidente e coordenador das redes sociais da legenda, Alberto Cantalice disse que o panelaço tinha ligações com outras reações oriundas de setores que pretendem um golpe contra o governo Dilma. “Existe uma orquestração com viés golpista que parte principalmente dos setores da burguesia e da classe média alta”, afirmou.

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