“O mercado do design é o mundo todo. Basta estar conectado”

Coordenador do curso de Design Gráfico na UFG explica quem é esse profissional, desde sua formação até a atuação no mercado

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Yago Rodrigues Alvim

Wagner Bandeira nasceu em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Estudou em escola técnica. Gostava de desenhar e associou o gosto com a possibilidade de emprego. Graduou-se em curso integral, na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Esdi-Uerj), que possibilitou a ele o contato com as diversas áreas do design. Veio para Goiânia em 2001. Pela feição à imagem e por absorção do mercado, Wagner cresceu na área de design gráfico. Trabalhou em um escritório de comunicação e lecionou na Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO). Na academia, se interessou pelo mestrado, que cursou na PUC-RJ com pesquisa em interfaces. Atualmente, ele dá continuidade à pesquisa no doutorado em Cultura Visual, na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde coordena o curso de Design Gráfico.

Com foco em Experiência do Usuário, Wagner realizará um workshop e participará de uma mesa-redonda no N_Goiânia. O encontro, desde seu início em 1991, reúne estudantes de design de todo o país. Itinerante e anual, de caráter acadêmico, científico, cultural e político o NDesign propõe: mude seu estado_. David Carson, designer gráfico da Ca­lifórnia (EUA), Gustavo Yamin, de Vancouver (Canadá), Alberto Antoniazzi, de Londres (Inglaterra) e Helen e Jason, de Nova Iorque (EUA), se juntam a tantos outros nomes reconhecidos de diversas partes do Brasil e áreas do design, para repensar os Estados: geográfico, psíquico, cultural, filosófico, social e pessoal. E, como afirmam: “O N_Goiânia aposta em você como elemento influenciador”.

Como o curso de design é pensado?

O curso da UFG tenta diferenciar o profissional em três aspectos principais: inovação e criatividade, expressão artística e, por último, metodologia e tecnologia. Como estamos inseridos em uma Faculdade de Artes Visuais (FAV) temos esse privilégio de nos aproximarmos da tradição artística. Ao mesmo tempo, temos desenvolvido, junto a laboratórios de pesquisa, a área tecnológica. Essa integração, hoje, é uma grande diferencial para o mercado. O design tem uma demanda que se diferencia bastante de décadas atrás, por conta da tecnologia. Ao invés de ser um profissional que tem a tecnologia contra sua criatividade, inibindo-a, nos propusemos trabalhar a tecnologia a favor da criatividade. No sentido de experimentar, pesquisar inovações. E inovação é uma palavra forte no curso. Esse é nosso foco.

Qual a diferença entre um curso integral na área de design e um curso mais específico, como de design gráfico?

Em relação ao curso em que me formei, hoje em dia, até por uma pressão da sociedade e do sistema de ensino, é difícil ter um curso na estrutura que eu tive por causa da carga horária. Era um curso de cinco anos, sendo os dois primeiros em período integral. Ou seja, a carga horária do curso era praticamente o dobro da atual. E, isso, para sociedade de modo geral é complicado. Os alunos não querem estudar oito anos. Quanto antes eles terminarem, melhor. No fim, exige essa necessidade de fragmentação. Essa formação mais ampla está relacionada a uma carga horária maior. Como hoje o tempo é menor, trabalhamos mais focado. Ter essa divisão propõe uma orientação mais direcionada para um mercado específico e responde a uma necessidade. Existe um fator: a escolha. Você tem que escolher a área em que vai atuar, muito claramente, antes de entrar no curso. Sobre a formação do profissional, é muito difícil ele atuar em todas as áreas. No final, você acaba fazendo uma escolha. Mesmo com formação integral, falo até por mim e por todos os meus amigos que se formaram, nós escolhemos uma área e a seguimos. Não faz muita diferença lá na frente.

E quais são as especificidades do curso de design gráfico?

As especificidades do curso são de produto e não do ethos profissional. O designer que trabalha com web e editorial é o mesmo que trabalha com sinalização e embalagem. Em termos de pensamento, de projeto e de metodologia, não muda nada. O que se tem de especificidade é a tecnologia para a aplicação desse conhecimento. Se você é um profissional de Embalagem, os fundamentos de design, tipografia, estudo de cores, composição, fundamentos de comunicação, tanto visual como verbal, e etc. são os mesmos. O que muda é que você tem que pensar, por exemplo, o suporte, uma tecnologia de impressão que é diferente do editorial, que é diferente da web. Na essência, em termo de projeto, não muda muito. Por isso, não usamos muito o termo “habilitação”. Não chega a ter uma formação específica. É mais uma área de atuação. Eu, particularmente, atuei em praticamente todas, desde que me formei.

O profissional de design é o profissional que pensa o produto?

No caso do design gráfico, é esse profissional que pensa o produto de comunicação visual seja ele impresso ou digital. Atualmente, o mercado digital tem crescido bastante. No digital, o profissional pensará em interfaces: seja web, aplicativos, jogos. Já no impresso: embalagens, sinalização, editorial, livros, jornais, revistas, materiais publicitários, por exemplo.

A proposta do NDesign é a mudança de estado, de pensamento, na quebra de paradigmas, é sair do conforto para o crescimento humano”

“A proposta do NDesign é a mudança de estado, de pensamento, na quebra de paradigmas, é sair do conforto para o crescimento humano”

Como é o mercado goiano?

O mercado, hoje, principalmente por causa desse novo perfil do profissional e da tecnologia que envolve o design, se expandiu muito e é muito difícil você dizer sobre um “mercado goiano”. No sentido que aquela ideia “o profissional que se forma e vai trabalhar em uma empresa sediada no centro de Goiânia com rotina tal e tal” tem desaparecido. Atual­mente, são clientes que estão no mundo inteiro e você, aqui, pode atender a todos eles. Muito comum os escritórios de profissionais terem uma sede na capital e atenderem clientes do Sudeste, do Nordeste e até de fora do país, devido à condição tecnológica existente. Até brinco com os alunos: O mercado do design é o mundo todo. Basta estar conectado. Portanto, se expandiu bastante. Em geral, são dois tipos de profissionais. Os que têm seu próprio escritório e os que são empregados de alguma empresa. Esse segundo tipo tem tendência, cada vez mais, a diminuir por conta do perfil sempre dinâmico da profissão. Também não compensa para muitas empresas ter um único profissional. Elas estão sempre mudando de perfil ou posicionamento e, assim, têm contratado agências. E essas agências atendem vários lugares.

Há uma problemática de valorização da profissão, pelo mercado e até pela sociedade?

Existe uma dificuldade muito grande da sociedade em reconhecer e entender o que é o profissional do design. Eu, em sala de aula, costumo dizer que só não podemos achar que somos o umbigo do mundo, pois é um problema geral. Eu pergunto a eles: Quantos aqui foram ao nutricionista este ano?, e ninguém levanta a mão. E quem disse que eles não precisariam ter ido? Portanto, a falta de reconhecimento é geral na nossa sociedade. É uma falha em entender a profissão, como em entender qualquer outra. A maior dificuldade que encontramos, hoje, é quando há falta de reconhecimento dos profissionais da região. Quando você descobre que há uma preferência, por exemplo, em comprar projetos prontos ou quando o empresário, que é o cliente preferencial, não aceita inovar, por exemplo. O empresário brasileiro é muito acomodado, muito temeroso em arriscar, investir e prefere, muitas vezes, comprar um projeto pronto a contratar um profissional que vai pesquisar, que vai propor inovações. E muitas soluções acabam sendo cópias do que já existe.

Isso reflete no financeiro?

Um pouco. Quando você tem esse empresário que quer comprar o produto pronto, ele quer comprar mais barato também. Se já está pronto, ele não entende, portanto, qual o trabalho de fato que será realizado. Isso é um impasse. Quando você tem essa visão mais ampla do mercado, você tem retorno financeiro adequado. A problemática é mais comum com clientes de determinados mercados não tão avançados, e não só em Goiás. É em várias regiões.

Como será a participação no N_Goiânia?

Eu estarei em uma mesa-redonda e em um workshop. A mesa-redonda é sobre design editorial. É a área em que sou formado e em que atuo já há muito tempo e realizo pesquisa. Minha participação é para falar um pouco sobre essa discussão de mercado impresso e digital e o papel do design, o pensamento do design para os dois produtos. O workshop é sobre ePub, uma linguagem de programação para livro digital.

Qual a diferença entre o impresso e digital, para o design?

O suporte impresso tem uma perenidade maior. Uma vez que se projeta para o impresso terá uma predefinição do que o usuário verá. Aquilo que você projetou é o que estará na mão do usuário. Quando você pensa o digital, você tem uma maior fluidez. Por exemplo, você seleciona uma determinada tipografia que pode mudar em função do dispositivo que o usuário disponha. E, com isso, tem toda uma discussão de ergonomia visual, pois, o conceito gráfico fica bastante fragilizado nesse ambiente. Cria-se, então, outro desafio para o designer, como recurso de interação. Quando você tem um produto impresso, não existem os recursos de interatividade que existiriam em um ambiente digital. Por exemplo, ao contrário de uma figura estática, você pode ter um vídeo exemplificando um texto e entra outros fatores, como de que forma esse vídeo será apresentado, de que forma se relaciona com o texto, e por aí vai.

Qual sua perspectiva sobre a temática do NDesign?

Mude seu estado_ é você sair da sua zona de conforto. Por exemplo, na minha área específica, se tem toda uma bibliografia assentada na discussão do impresso e nada muito perto do digital. Portanto, é sair dessa metodologia pronta para novos desafios, novas incertezas que temos pela frente.

Por fim, existe uma confusão entre design e publicidade?

Para alguns sim, mas depende muito de qual área do design você está atuando. É uma confusão quando você olha para o produto que o designer faz e ele tem um caráter publicitário. Quando trabalho com design editorial, o publicitário não se relaciona. Quando eu trabalho com sinalização, eu me aproximo muito mais do arquiteto do que do publicitário. Ou, então, quando eu trabalho com design de interface, eu me aproximo muito mais do engenheiro de programação… Então, o design é uma área que presencia diversas profissões, diversas outras áreas. A formação é interdisciplinar por natureza. Se eu faço um projeto de animação, é muito fácil eu me aproximar de um cineasta e trabalhar com linguagens similares. Depende do ponto de vista de quem vê. Eu já sofri todas essas questões: Qual a diferença do que você faz com o que faz um publicitário? Qual a diferença do que você faz com um engenheiro de software? Com um arquiteto?, isso depende do que você faz. A grande diferença é que trabalhamos na comunicação enquanto transporte de mensagem e experiência do usuário. Bem-estar e conforto do usuário. Eu também costumo dizer aos meus alunos que o caso, específico, da publicidade é que o publicitário tem consumidor e nós temos usuário. Não me interessa muito se ele vai ou não comprar o produto. O que me interessa é se quando ele comprar, ele vai dar conta ou não de usar esse produto. É basicamente isso.

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Raul De Oliveira Silva

As palavras do Wagner são sempre medidas minunciosamente. Exímio professor :)
Ótima matéria, muito boa pra quem quer entender um pouquinho mais sobre a profissão!
Ah! O N_Goiânia foi ótimo! :D Sucesso total!