O impacto da epidemia das Fake News no combate à Covid-19 e os desafios da Ciência

Dados levantados pela comunidade Avaaz afirmam que, no Brasil, nove em cada dez pessoas viram pelo menos uma informação incorreta sobre a pandemia da Covid-19; sete em cada dez acreditaram nesses dados

As dificuldades enfrentadas por médicos, cientistas e outros profissionais que atuam no combate direto ao coronavírus, desde o início da pandemia, foram incontáveis. Desde a paramentação constante, que antes era somente realizada em situações cirúrgicas, até lidar com o constante sentimento de incerteza sobre a melhora ou piora dos pacientes. Uma delas, entretanto, atuou em direto desfavor de todo o trabalho realizado por esses profissionais – as Fake News, ou notícias falsas, assim como nas eleições presidenciais de 2018, se fizeram presentes de forma imensurável, de modo que ao abrir um portal de notícias, se tornou rotina encontrar manchetes que desmentiam rumores acerca do combate e do contágio da doença.

As notícias falsas, como narra o jornalista e pesquisador em Comunicação, professor doutor Luiz Signates, existem “desde que o mundo é mundo”. Seu termo, apesar de parecer recente, existe desde o século XIX, segundo registro no dicionário Merriam-Webster. A popularidade da expressão, no entanto, se deu com a utilização da internet e das redes sociais. A aliança com as tecnologias promoveu o agravamento desse advento, intensificaram sua transmissão e propiciaram interferência direta em eventos cotidianos – como a já mencionada eleição presidencial brasileira em 2018, a eleição presidencial dos Estados Unidos em 2016 e, por consequência, a pandemia da Covid-19 em todo o mundo, mas com grande força no Brasil.

O professor doutor Luiz Signates é pesquisador em Comunicação e estuda as fake news

Um estudo realizado pela Avaaz, uma comunidade de mobilização online que busca levar a voz da sociedade civil aos espaços de poder no mundo, durante o ano de 2020, apontou o Brasil como vítima de uma “infodemia” da Covid-19. Conforme o levantamento, que contou com pessoas entrevistadas virtualmente no Brasil, Itália e Estados Unidos, foi concluído que cerca de 110 milhões de pessoas acreditaram em pelo menos uma notícia falsa sobre a pandemia e o novo coronavírus. No Brasil, nove em cada dez pessoas viram pelo menos uma informação incorreta sendo divulgada e sete em cada dez acreditaram nesses dados.

O biólogo, professor do departamento de Ecologia da Universidade Federal de Goiás (UFG) e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), José Alexandre Diniz, acredita que, atualmente, as Fake News atingem todas as áreas, não somente a ciência ou a saúde. “A internet permitiu o espalhamento de notícias de uma forma muito rápida. As pessoas estão nas bolhas, então passam a se informar a partir das informações que estão ali e acabam não tendo como verificar a veracidade e a qualidade de suas fontes”, contextualiza.

Biólogo e doutor em Ecologia e Evolução pela UFG, José Alexandre Diniz

“Nós podemos caracterizar essas notícias falsas em vários tipos, mas em relação à própria existência da pandemia nós vimos algumas coisas, e vemos até hoje. Dizem que o coronavírus não existe, que é uma propaganda para desestabilizar e combater o Governo… Tem pessoas que até hoje não acreditam na pandemia por conta desse tipo de notícia que circula por aí. Também tem as Fake News em relação ao próprio isolamento social, que o caracterizam como desnecessário e não funcional, e ao uso da máscara, quando se diz que ‘todo mundo vai pegar a doença, então não se precisa usar o adereço’”, afirma.

A fórmula das notícias falsas

Além das próprias mentiras, que sempre foram contadas no cotidiano das pessoas, especialmente no contexto das democracias, desde o surgimento da internet foram sistematizadas estratégias para serem utilizadas por empresas de marketing político para fins específicos. O pesquisador doutor, Luiz Signates, lembra que a empresa pioneira e mais conhecida no ramo foi a já extinta Cambrigde Analytica. Suas ações duraram de 2013 a 2018 e sua popularidade se deu, principalmente, por seu trabalho na campanha presidencial de Donald Trump, nos Estados Unidos, e para o Brexit, que separou o Reino Unido da União Europeia.

Apesar do encerramento das atividades da empresa, Steve Bannon, um cabeças companhia e ativista de extrema direita, atuou com destaque nas eleições do Bolsonaro no Brasil a partir de informações hackeadas via Facebook no mês de setembro de 2018. “Esse é um case especifico de Fake News que interferiram nesses momentos muito importantes que aconteceram no mundo. Aparentemente, esse processo estratégico se mantém como politica de governo na assessoria do Jair Bolsonaro, no chamado gabinete do ódio como vem sendo revelado pela CPI das Fake News, do Congresso Nacional”, afirmou o pesquisador.

Signates ainda ressalta que a fórmula para a produção dessas notícias falsas é relativamente simples, por se tratar da mesma estratégia utilizada nas áreas de Marketing e Publicidade – notícias com conteúdos falsos que reforcem sentimentos já existentes no receptor.

“Suponha que alguém ache que os problemas econômicos são causados pela preguiça dos governantes. No momento em que isso é descoberto pela indústria das Fake News, ela inventa que determinado político adversário tem sido surpreendido dormindo no gabinete para fugir do trabalho; fazendo, portanto, que ele seja visto como um cara preguiçoso. Uma pessoa que já concorda com essa teoria de que os governantes preguiçosos são responsáveis pelos problemas econômicos, se ela for bombardeada constantemente com essa notícia, a tendência é ela terminar por acreditar e construir um sentimento de rejeição ao politico que é alvo das Fake News”, exemplifica Signates.

Foto: Jefferson Rudy /Agência Senado Fonte: Agência Câmara de Notícias

Para o pesquisador, a diferença das mentiras cotidianamente contadas com as notícias falsas de hoje, é que antes havia dificuldade disso virar noticia e de fazer com que o jornalismo assumisse noticias falsas nessa proporção. “Hoje, aplicativos de inteligência artificial que tenham acesso aos bancos de dados das redes sociais conseguem identificar centenas ou milhares de perfis específicos, para que os sentimentos dessas pessoas sejam individualizados e, com isso, as Fake News sejam construídas de forma customizada, direcionada a esses grupos de pessoas”, esclarece. Com esse processo personalizado, as notícias falsas alcançam um resultado ainda mais eficaz.

De forma contextual, Luiz Signates acredita que a produção massiva das Fake News no Brasil, acima de tudo, são decorrentes de um “fracasso da educação brasileira”. É uma coisa ostensiva. Para isso ser revertido, precisaremos ter décadas de investimento pesado na formação de professores, na especialização desses profissionais, e no incentivo para que eles ganhem melhor – afim de que os melhores da sociedade se tornem professores. A carreira do magistério precisa ser atraente às pessoas. É preciso a criação de uma cultura que valoriza o conhecimento, acima de tudo”, acrescenta.

Descrédito da Ciência e do próprio conhecimento

Em decorrência desse do aumento da publicação de notícias falsas, o que foi visto foi uma tentativa de criar um massivo descrédito na ciência. Para o biólogo, professor e pesquisador, José Alexandre Diniz, essa depreciação foi vista de forma constante e relação à pandemia. “Em prol da economia, o que ficou subentendido é que estava tudo bem que os trabalhadores continuassem atuando e se expusessem ao vírus, em prol da manutenção dos lucros. Os interesses políticos e econômicos querem desacreditar o próprio vírus e as medidas de combate que são necessárias para o fim da pandemia, porque, em muitos casos, isso vai contra esses interesses. Não interessa se as pessoas vão morrer ou vão para o hospital por isso”, complementa o biólogo.

A bióloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) e da Universidade Federal de Goiás (UFG), Mariana Telles, que também encabeçou o sequenciamento do genoma do novo coronavírus, em prol de promover um monitoramento genômico epidemiológico concorda que, na criação das notícias falsas, existe a intencionalidade de depreciar a ciência. “Na pandemia, vimos inclusive falas que apontaram o vírus como criado em laboratório. Isso coloca a sociedade contra os cientistas, já que quem cria as coisas em laboratório são eles”, menciona a infectologista.

A bióloga Mariana Telles coordenou o sequenciamento do genoma do novo coronavírus e fala dos estragos das fake news a respeito

Para o jornalista e pesquisador, Luiz Signates, as notícias falsas se tornam problemáticas quando causam o negacionismo da ciência. Para ele, atualmente, isso se tornou comum e promove, inclusive a própria desvalorização do conhecimento. “No Brasil, isso é muito comum vir carregado de que as universidades são promotoras das ideologias de esquerda, por exemplo. Como se as academias não estudassem de tudo e não houvesse pessoas de direita nos ambientes universitários”, completa.

Signates relaciona o negacionismo, estimulado pelas Fake News, como responsável direto por ‘milhares de mortes desnecessárias’ que ocorreram no Brasil em decorrência da pandemia da Covid-19. Para exemplificar, são citadas a propagação de medicamentos sem eficácia comprovada, como a cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina – utilizadas no chamado tratamento precoce – e até a recusa da vacinação.

Os chamados “Kit Covid” são citados como exemplo da propagação da desinformação

“A gente vive uma situação da cultural absurda em que se tem ciência o suficiente, que é capaz de nos colocar em parâmetros claros de preservação da saúde e nos ensinar como devemos nos proteger, com uma margem de erro muito pequena, mas ainda assim existe muita gente que vive a própria experiência social confiando que o senso comum ou que algum politico sem instrução possa ter mais razão do que pesquisas cientificas”, esclarece Signates.  

Extensão da pandemia, dados de morte e vacinação

Como consequências diretas desse fenômeno, que negaram a pandemia e fizeram com que muitos duvidassem da eficiência científica, vivemos um prolongamento da crise sanitária por mais de um ano. Isso, porque o primeiro caso da Covid-19 no Brasil foi confirmado em março de 2020, 14 meses antes da redação dessa reportagem.

Até esse momento, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, mundialmente já foram confirmados mais de 162,1 milhões de casos de infecção pelo coronavírus no mundo; desses, mais de 3,3 milhões foram fatais. No Brasil, de acordo com o Painel Coronavírus, do Governo Federal, 15.586.534 casos foram constatados e 434 mil pessoas morreram – a taxa de letalidade, portanto, se mantém em 2,8%.

No estado de Goiás, a contaminação pela doença já ultrapassou a marca dos 500 mil (com 577.960 casos) e 16 mil óbitos. Já na capital goiana, 154 mil casos foram confirmados e mais de 4,6 mil pessoas morreram.

Em contrapartida, a vacinação contra a doença, em solo brasileiro, também em decorrência do negacionismo do Governo Federal e do descrédito em relação à eficácia da vacina, caminha a passos lentos. Enquanto a China e os Estados Unidos já aplicaram, respectivamente, 1.398.514.553 e 368.892.757 doses, o Brasil ainda está na faixa de 50.308.106 – ocupando o 73º lugar no ranking de imunização que contém 166 nações e territórios.

Em Goiás, mais de um milhão de vacinas já foram contra a Covid-19 já foram aplicadas. Ao todo, mais de 549 mil pessoas se encontram completamente imunizadas, tendo recebido ambas as doses exigidas para a proteção contra o vírus. Na capital goiana, cerca de 520 mil doses foram aplicadas até a última sexta-feira, 14. Delas, 21,7 mil da Pfizer/BioNtech, 146 mil da Astrazeneca, produzida pela FioCruz e 352,9 mil da Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan.

Combate às Fake News e à desinformação

Para que o advento da produção e disseminação de notícias falsas seja combatido, para o professor e pesquisador, Luiz Signates, a primeira iniciativa a ser tomada é a criminalização dessas práticas. Ele pondera que, mesmo que haja dificuldades próprias desse processo, devido a vastidão que caracteriza a internet e a dificuldade em diferenciar verdades e mentiras no plano da lei, é possível avançar nesse sentido. No entanto, ainda ressalta a importante necessidade de mobilização das instituições do Estado, judiciárias e educacionais, com o objetivo de “tanger o País de volta ao caminho da civilização”.

“O produtor de Fake News precisa ser enquadrado e punido criminalmente. À parte disso, é um enorme e urgente processo de aprendizado social. Não é uma coisa simples. Vivemos um problema de déficit de civilizacional, é como se a gente tivesse perdendo as poucas coisas de modernidade que a gente conseguiu, do ponto de vista cultural. Mas acho que isso passa”, afirma.

Esperançoso em relação ao futuro, o comunicador cita últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos, que tornaram Joe Biden o 46º presidente do país. “Lá, a interferência das Fake News já não foi tão intensa. As instituições do primeiro mundo já estão se fortalecendo para impedir que essas coisas aconteçam. A sociedade está crescentemente aprendo a se defender. A internet já é popularmente vista como um ambiente pouco confiável, de forma que as agências de checagem de notícias se fazem cada vez mais populares”, conta Signates.

Como outro exemplo de atitudes a serem adotadas, o comunicador cita a adequação da experiência do conhecimento científico à realidade popular. “É preciso fazer um trabalho, na medida em que se reconhece que o fosso existente, para que, dentro do possível, se aproxime a linguagem cientifica da linguagem comum”, menciona Luiz Signates.

O biólogo e doutor em Ecologia e Evolução, José Alexandre Diniz, também acredita que a principal questão por trás das Fake News é a deficiência presente no ensino básico das pessoas, mas menciona a importância do interesse individual nesse processo. “Não é só acessibilidade do conhecimento, muitas vezes o conhecimento está disponível, mas as pessoas não vão chegar a ele, porque é difícil quebrar bolhas. E mesmo que cheguem, acabam por não se interessar nesse conhecimento, por ele estar fora da visão de mundo delas”, explica.

Em consenso, a médica infectologista, Juliana Barreto, afirma que a falta de uma campanha séria, bem feita e responsável por parte do Governo Federal, para combater as notícias falsas, poderia ter evitado a extensão da pandemia. “Como nem todo mundo é da área e não entende com profundidade a importância das medidas de combate que são simples de serem feitas, se os governos tivessem adotado políticas na mesma direção da informação correta, por meio de ações sincronizadas, estaríamos em situação melhor”, opina.

A médica infectologista, Juliana Barreto, concorda que as fake news contribuíram para o prolongamento da pandemia

Ela afirma, entretanto, que apesar de a pandemia ainda não estar controlada, ainda é possível alcançar a conscientização e reverter esse cenário. Para isso, destaca a essencialidade da contribuição de toda a população, uma vez que “só as ações do Governo, não se fazem suficientes nem se forem eficientes”.

“Todos podem ser agentes de disseminação de informações corretas, só precisamos a aprender a curar essas informações e a disseminar a familiares e colegas”, conclui a médica infectologista.

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