O drama do isolamento

Desde sempre, todo mundo sabia que as candidaturas de Antônio Gomide e Vanderlan Cardoso enfrentariam dificuldades. Mas o que esperar agora?

Vanderlan Cardoso padece da falta de chapa competitiva para deputado estadual e federal, problema de que também sofre o candidato do PT, o ex-prefeito de Anápolis Antônio Gomide | Fotos:  Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Vanderlan Cardoso padece da falta de chapa competitiva para deputado estadual e federal, problema de que também sofre o candidato do PT, o ex-prefeito de Anápolis Antônio Gomide | Fotos: Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Afonso Lopes

Na década de 1950, cineastas brasileiros ficaram espantados com a quebradeira geral das grandes companhias cinematográficas paulistas e partiram para a criação de uma nova linguagem, bem distante do padrão que já se empunha na época a partir de Hollywood. Era, resumido em uma só frase, trabalhar com uma boa ideia na cabeça e uma câmara na mão. Parece ser esse o destino de duas candidaturas a governador este ano em Goiás. Vanderlan Cardoso (PSB) e Antônio Gomide (PT) vivem tempos difíceis, sem grandes coligações partidárias e sem ao menos chapa de candidatos a deputado estadual e deputado federal realmente competitivas. O jeito então vai ser, de certa forma, aplicar na campanha a tal ideia na cabeça e câmara na mão.

Todo mundo sabia desde sempre que não seria fácil para nenhum deles montar uma boa estrutura, que não depende apenas de recursos financeiros. A questão dos candidatos proporcionais, por exemplo, é fundamental em qualquer campanha. Vai, inclusive, além do próprio tempo destinado pela Justiça Eleitoral à campanha eletrônica, no rádio e na TV. E as chapas de Vanderlan e Gomide são mínimas. De certa forma, o PMDB também tem dificuldades nessa área, mas o problema peemedebista é bem menor. Até pela espetacular capilaridade que o partido detém. Provavelmente, não há uma só comunidade no Estado inteiro sem a presença de um fiel eleitor do partido. PSB e PT também dominam algumas localidades, mas é bem menos.

Esse fato implica uma dificuldade extraordinária a ser superada. Sem os candidatos proporcionais em número e competitividade, as campanhas tendem a não atingir o dia a dia da totalidade dos eleitores, espalhados em quase 250 cidades e um número ainda maior de povoados. É possível obviamente, chegar até esses eleitores através da campanha no rádio e TV, mas esse contato dura exatamente o espaço de tempo em que o horário eleitoral é exibido. Não fica o recall proporcionado pelos candidatos a deputado federal ou estadual. Não há o repique das demais campanhas.

Isso significa que as candidaturas de Vanderlan Cardoso e Antônio Gomide estão previamente condenadas? Em tese, sim, sem a menor dúvida. Na prática, não. Eles vão ter que descobrir uma fórmula um tanto mágica pra impregnarem as suas candidaturas no inconsciente coletivo de modo a suprir a carência do tal repique. Ou seja, eles vão ter que se manter no dia a dia das localidades mais distantes mesmo sem contar com algum tipo de apoio local. Como conseguir isso? Aí é que está: não existe um modelo a ser seguido. Às vezes, em algumas campanhas eleitorais, um fato aparentemente pequeno e sem maior relevância detona o processo. Porque isso ocorre ninguém sabe, mas pode ter alguma relação com o momento ou alguma sensação não exteriorizada coletivamente que explode de uma hora para outra. Os grandes movimentos de junho do ano passado foram exatamente isso: um fato de alcance restrito, o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus, se transformou numa faísca que explodiu bilhões de sensações antes adormecidas no inconsciente coletivo.

Isso pode ocorrer também numa campanha eleitoral? Pode. O maior e mais estupendo exemplo é o de Fernando Collor de Mello, na eleição presidencial de 1989. Um governador do menor e mais pobre Estado do Nordeste, a bordo de um partido nanico, de repente foi crescendo no imaginário popular como um caçador de marajás do serviço público e arrebatou as multidões. Mas esse fenômeno não é algo que se vê todo dia, ou em todas as campanhas. Para se ter uma ideia, depois de 1989 nunca mais aconteceu nas disputas presidenciais, que sempre foram vencidas pelas maiores estruturas.

Vanderlan e Gomide vão se agarrar a essa possibilidade. E é óbvio que acreditam nisso. Mas não deve ser fácil para eles olhar para um lado e para o outro e constatar que lideram exércitos muito pequenos diante dos dois maiores adversários, Marconi Perillo e Iris Rezende. Mas não há mais o que fazer. Eles precisam se esforçar para não entregarem os poucos candidatos a deputado estadual e deputado federal à própria sorte. Afinal, se agora eles estão nessa situação complicada, foram eles próprios que a criaram. O jeito é trabalhar bem uma ideia e sair por aí. E jogar tudo nas mãos do imponderável. l

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