“No Tocantins não há crise. O que há é muito trabalho para superar dificuldades”

Peemedebista pegou o Estado com grandes problemas, mas comanda uma gestão com o olhar à frente, buscando alternativas para o desenvolvimento

Marcelo Miranda: "a Ferrovia Norte-Sul já está funcionando no estado do Tocantins. Por ela, estamos escoando  boa parte de nossa produção para o porto de Itaqui” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Marcelo Miranda: “a Ferrovia Norte-Sul já está funcionando no estado do Tocantins. Por ela, estamos escoando boa parte de nossa produção para o porto de Itaqui” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

“Estou animado.” Assim o governador Marcelo Miranda (PMDB) resume seu atual momento depois de seis meses à frente de seu terceiro mandato à frente do Tocantins. O Estado é colocado como um dos mais promissores por especialistas de várias áreas, por causa de seu potencial hídrico, dos recursos naturais e da margem para crescimento econômico.

Em busca de investimentos, Miranda foi à Europa há poucos dias e teve vários acenos positivos. Mas o primeiro semestre não foi fácil para o peemedebista, que pegou folhas de pagamento atrasadas e teve de conviver com greves de servidores públicos — uma delas a dos professores, que teve seu anúncio de encerramento exatamente du­rante esta entrevista concedida ao Jornal Opção, na quinta-feira, 2. O fato foi visto pelo governador como mais uma prova de sua boa relação com o funcionalismo e também de seu poder de articulação na Assem­bleia Legislativa.

Patrícia Moraes Machado – O sr. assumiu há seis meses e vem enfrentando greves de funcionários por conta de demandas que vêm do governo passado. Como sair desse furacão de greves e pleitos que não são de sua gestão? Como achar solução para isso?
Primeiramente, com a força de Deus. Tenho experiência adquirida durante mais de 20 anos de mandato de vida pública. Ao assumir, eu sabia que encontraria muitas dificuldades, mas não da forma como encontrei. Há seis meses estamos discutindo questões relativas aos servidores públicos. Tivemos uma greve da Polícia Civil e hoje (quinta-feira, 2) sentamos à mesa, discutimos, chegamos a um denominador comum e eles retornaram ao trabalho. Em seguida, houve a greve do quadro geral de servidores e da educação. Outros setores não paralisaram, porque aceitaram a proposta do governo.

Patrícia Moraes Machado – Mas essas greves são em função de demandas do governo anterior.
Realmente, quando assumimos o governo pegamos um quadro em que o governo passado tinha assumido compromissos com os servidores públicos e que, pela situação de dificuldade econômica por que passa o País, nós não te­mos condições hoje de cumprir. O To­cantins também passa por um momento de dificuldade, mas nestes seis meses, nós procuramos os sin­dicatos para chegar a um denominador comum, na questão da data-base. Não fugiríamos dessa responsabilidade, mesmo que te­nha vindo do governo anterior. A data-base é de 8,34%. Como pagar, se já tínhamos pendências com as progressões que os sindicatos também nos cobram? Há um passivo grande dos servidores públicos, o que também temos de resolver.

Cezar Santos – Já foram encaminhadas as soluções?
Para alguns setores já resolvemos a situação, incluindo o da Saúde. Temos a Educação para resolver, mas o quadro geral agora, graças a Deus, foi resolvido. E aqui quero destacar o trabalho dos deputados, sob a presidência do deputado Osires Damaso (DEM), e o líder do governo, deputado Paulo Mourão (PT), com nossa equipe. A minha equipe de trabalho esteve sempre presente na Assembleia para discutir não só os projetos dos servidores, mas outros também de alcance social. Saindo disso, o governo vai continuar trabalhando e vem trabalhando para alcançar as metas que foram ditas à população. Temos trabalhado muito nestes primeiros seis meses de governo.

Patrícia Moraes Machado – Percebe-se ânimo no sr., em que pese as dificuldades que o País atravessa.
Posso dizer que estou otimista, muito otimista. Enquanto alguns Estados, com esse ajuste fiscal, estão em contenção de despesas, falando até em demissões, no Tocantins estamos procurando nos ajustar sem demissões. Estamos trabalhando de forma muito objetiva. A conjuntura econômica nacional pede sacrifícios e temos de fazer sacrifícios também. Temos de debelar essas crises e estamos debelando. Mas isso é passado. Sempre digo que o Tocantins é a bola da vez. Temos de mostrar para o Brasil e para o mundo que é possível investir e trabalhar conjuntamente com setores fortes da economia. A nossa administração está simplificando a máquina pública. Temos consciência das dificuldades, mas também temos confiança de sair do que eu não chamaria de crise — porque costumo dizer que no Tocantins não há crise, mas sim demandas a serem atendidas. Temos trabalhado muito para superar as dificuldades, que são muitas, não há dúvidas.

Patrícia Moraes Machado – Qual é montante da folha de pagamento dos servidores do Tocantins?
Da ordem de R$ 260 milhões.

Cezar Santos – Houve queda de arrecadação no Estado em relação ao ano passado?
Não houve queda de arrecadação. Estamos num patamar que nos dá certa tranquilidade em relação a isso. A crise não afetou a arrecadação do Estado. Temos uma questão orçamentária: nosso orçamento anual foi de R$ 9 bilhões, mas encontramos déficit de mais de R$ 5 bilhões, o que reduz nossa capacidade de fazer investimentos.

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Governador Marcelo Miranda: mesmo com dificuldades, mantém o ânimo | Fotos: Fernando Leite / Jornal Opção

Cezar Santos – O governo do Tocantins tem procurado introduzir o conceito de “governança para resultados”. Até vem realizando seminários sobre o tema. O que vem a ser isso exatamente?
Governança é crucial em qualquer administração. O governo do Tocantins, em virtude dessas de­mandas, tem procurado ouvir consultores para que nos ajudem na questão de governança — e isso está dentro do nosso planejamento. Em todos os setores da nossa administração temos um gestor — o secretário da área, de quem cobramos os resultados. Para isso, temos de considerar a questão orçamentária, já que as pastas têm limitação de recursos. Em resumo, a boa governança exige que trabalhemos de forma a alcançar bons resultados com os poucos recursos disponíveis, ou seja, otimizando esses recursos. Nosso objetivo com isso é fazer uma gestão diferenciada das gestões anteriores, com mais resultado, com mais atendimento às demandas represadas da população.

Cezar Santos – Mesmo com o pouco tempo, apenas seis meses de sua gestão, é possível perceber melhorias?
Sim, por exemplo, o setor de saúde melhorou. Igualmente a segurança pública. Mas não podemos fe­char os olhos para a realidade. Neste momento, faltam-nos condições, principalmente de orçamento, para que possamos melhorar a máquina da segurança pública e da saúde. Mas estamos procurando buscar recursos para progredir nessas áreas.

Cezar Santos – Quando o sr. assumiu, a saúde no Tocantins vinha de uma crise seriíssima, com denúncias até na imprensa nacional, hospitais com equipamentos quebrados, um verdadeiro caos. Melhorou nesses aspectos mais imediatos?
Melhorou sim, trabalhamos muito para isso, mas não é uma situação simples. Temos de registrar que o Tocantins absorve uma demanda expressiva de Estados vizinhos. Gente do Pará, principalmente do sul do Pará, do Mara­nhão, do Piauí, da Bahia, do Mato Grosso. Então, imagina um Estado que já tem uma forte demanda própria ter de absorver tanta gente de fora na área da saúde.

Temos três vertentes na área de saúde no Tocantins: em Gurupi, em Palmas e em Araguaína. Em Gurupi estamos retomando a obra de construção do hospital. Em Palmas, estamos aumentando mais 200 leitos no Hospital Geral. Em Araguaína, infelizmente, estamos com dificuldades financeiras para dar início à construção do novo hospital. E por que estamos com dificuldades? Por falta realmente de recursos, mas os esforços nesse sentido estão sendo feitos, é uma das nossas prioridades. E podemos dizer que avançamos em outras áreas. Hoje, temos profissionais da saúde altamente comprometidos, pois entenderam a importância de agregar valores. E, assim, absorvemos toda a demanda que tínhamos.

Patrícia Moraes Machado – Esse cenário de greves, que engessam a administração pública, é comum em quase todos os Estados brasileiros. Quais as alternativas que o sr. tem para cumprir com todas as promessas de governo?
Com esses compromissos saldados com os servidores públicos, o carro-chefe são os recursos. É o que estou fazendo: sair do nosso dia a dia e ir buscar recursos lá fora, pois só conseguimos nos distanciar da crise, se buscarmos alternativas. Fui à Europa buscar parceiros nas instituições financeiras internacionais.

Cezar Santos – E trouxe boas notícias?
Posso dizer que voltei de lá bastante entusiasmado. Não quero vender facilidades, mas encontramos pessoas que têm compromissos no Tocantins e já investem no Estado.

Patrícia Moraes Machado – Que pessoas são essas?
De bancos e indústrias. Vou dar um exemplo: a Abengoa, uma empresa da área de energia que é muito forte na Europa, principalmente na Espanha, já está com um escritório montado na cidade de Araguaí­na, onde já gera mais de 150 empregos. Sobre ela, estão os investimentos da União para o Norte do Brasil e o escritório central fica no Tocantins. Na Europa, tivemos uma reunião na cidade de Figueiras (Portugal) e fiquei impressionado com o entusiasmo que os empresários estão tendo com o Tocantins. Quatro empresários da área da construção civil levaram a mim outros 35, dos quais 15 já querem vir para o Brasil, especificamente para o Tocantins, para investir tanto na construção quanto na hotelaria. Na Europa, principalmente na Espanha, só se fala em energia, água e alimentos. Eles têm uma confiança muito grande de que o Brasil vai suprir as demandas por alimento. E, nesse aspecto, o Tocantins sai na frente, principalmente pelo que temos de melhor, que são os grãos — a soja, o milho, o arroz etc. Além disso, também há o lado da fruticultura: melancia, abacaxi, uva e outras frutas. Por isso, acredito que o Tocantins será o grande porta-voz do País na área de alimentação.

Cezar Santos – Quais outras empresas o sr. visitou?
Um delas, que encontramos em Madri, foi a Tracsa, uma empresa do governo espanhol que atua no mercado externo com empresas privadas. No Brasil, ela atua com recursos hídricos. E o Tocantins hoje tam­bém é muito forte nessa área e eles se interessaram. E há várias ou­tras, mas algo que me chamou mais a atenção, além da Abengoa, foi que ti­vemos a oportunidade de ir até o BBVA [Banco Bilbao Vizcaya Ar­gen­taria, grupo bancário espanhol de gestão e oferta com participação financeira em mais de 30 países, inclusive o Brasil]. O governo passado começou, mas não deu continuidade a uma tratativa de R$ 100 milhões, que vêm diretamente para nós, justamente para investirmos em infraestrutura, como estradas, a área da saúde e da segurança pública. Então, saí de lá muito animado com esses recursos. Outra empresa im­por­tantíssima foi o grupo Eu­rofinsa, que foi referenciado pelo BBVA. O diretor do banco nos apresentou esse grupo. Essa empresa também trabalha na área de energia. Hoje, na Espanha, se discute muito a questão da energia solar pelos painéis fotovoltaicos, que precisa ser explorada pelo Brasil o quanto antes.

Elder Dias – Há poucos dias, uma das principais pautas da presidente Dilma Rousseff com o Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, foi justamente a questão das energias renováveis, além da hidrelétrica. Então, o Tocantins quer sair na frente?
Não tenha dúvida. Nosso Estado está aberto. Recebemos recentemente um empresário com um projeto na área de usinas de biomassa, que transformam cana em energia. O Tocantins já tem quatro usinas hidrelétricas em funcionamento. Ima­ginem se nós partirmos para a biomassa e as energias eólica e fotovoltaica. Teremos um impulso energético muito grande. Outra coisa que me atraiu a atenção, voltando um pouco às visitas que fizemos, foi a Expo Milão. Quem tiver a oportunidade de conhecer essa exposição, que começou em maio e vai até outubro, deve ir. A grande esperança da Expo Milão está depositada no Brasil na área de alimentação. Há essa vontade de que nosso País saia na frente para alimentar o mundo. Água também é outro fator bastante discutido. Eles querem investir onde tenha água.

Patrícia Moraes Machado – Esse momento de crise por qual passa o Brasil tem algum impacto para que essas empresas queiram investir no País?
Lá estão em crise. Todos sabem que a Espanha passa por uma crise já há algum tempo. Então, a crise do Brasil não afeta muito, não senti isso. Senti que eles querem participar de projetos como esses que já disse. Minha ida à Europa foi exatamente para que pudéssemos conhecer novos projetos e ter este contato. Estive com o embaixador da Es­pa­nha [Paulo César de Oliveira Campos] e ele nos garantiu que o Brasil ain­da tem crédito na Europa. A­credito que o Brasil e o Tocantins pos­sam ser o País e o Estado das soluções.

Patrícia Moraes Machado – A Federação da Indústria do Estado do Tocantins (Fieto) argumenta que o Estado precisa buscar transformar insumos, como a soja e demais grãos, para agregar valores e mão de obra na indústria. Há algum projeto neste sentido?
Estamos prestes a inaugurar a primeira esmagadora de soja, na cidade de Porto Nacional. Eu acho que é um ganho muito grande para o Estado. Vamos começar a transformar a nossa matéria prima in natura. Vejo que o Tocantins, por sua localização e força no agronegócio, tem tudo para dar certo. Ontem recebi no palácio o ministro Mangabeira Unger [Secretaria de Assuntos Estratégicos da Pre­sidência da República], que está entusiasmado com as regiões Norte e Nordeste para investimentos na área de educação básica, para mudar essa visão que a educação básica é somente escola em tempo integral. O mais importante é investir em escolas profissionalizantes. Precisamos preparar nossos profissionais. Se não prepararmos nossa mão de obra não tem como partir para a industrialização do nosso Estado, e estamos vivenciando isso.

Patrícia Moraes – Uma das saídas do Brasil vai ser o Centro-Norte. A impressão que tenho é que as economias do Sul e Sudeste estão esgotadas e que a saída será por aí. O sr. concorda?
Quero parabenizá-la por essa visão, que é a mesma do ministro Mangabeira Unger. O Centro-Oeste é o coração do Brasil — e insiro também o Tocantins —, para que possamos desenvolver um projeto de nível regional. Os Estados que têm uma logística hoje que pode contemplar isso são Tocantins e Goiás. Mas se não tiver a parceria do governo federal nada vai para frente. Atualmente temos o projeto arrojado do Matopiba [região composta por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, que possui 7 milhões de hectares e é responsável por quase 10% da produção de grãos no país; o projeto inclui a criação de uma agência de desenvolvimento para a região], um dos grandes projetos do governo federal que pode dar certo. Mas, para que ele possa dar certo, não vamos falar apenas do agronegócio: outros setores também podem ser inseridos, como o turismo. Para que tudo isso aconteça temos de trabalhar em infraestrutura. Há um comprometimento dos quatro Estados com esse projeto. Quando a presidente Dilma assinou o decreto, faltaram o Ministério dos Transportes e o do Planejamento, que são carros chefes disso também. Acredito que este seja um dos maiores projetos da atual gestão da presidente Dilma, não tenha dúvida. E acredito que isso vai ter de caminhar a despeito da crise. O Matopiba tem um alcance extraordinário e abrange mais de cem municípios.

Elder Dias – O MaToPiBa envolve todo o extenso Estado da Bahia?
Não, apenas uma parte da Bahia, sua região oeste, mais próxima da divisa com o Tocantins, Piauí e Maranhão. Mas o Tocantins detém a maior parte do Matopiba, que é a região de Mateiros, Lisarda, toda a divisa com a Bahia. Não temos ainda uma estrutura para receber um pacote de investimentos ali, mas estamos trabalhando por uma agência de desenvolvimento. Temos de conseguir que essa agência não fique apenas nas costas do Ministério da Agricultura — e aqui parabenizo a ministra Kátia Abreu (PMDB) por nos ajudar nesse projeto.

Elder Dias — Como a Ferrovia Norte-Sul tem ajudado o Tocantins?
Nós estamos escoando parte de nossa produção por ela, via Pedro Afonso e Colinas. Em Colinas, onde há o modal, nós fazemos o escoamento até o porto de Itaqui (MA). Não a passos largos, mas nossa produção está sen­do escoada. A Ferrovia Norte-Sul está funcionando no Tocantins, não totalmente, mas em boa parte, sim.

Patrícia Moraes Machado – Como está a relação do sr. com a Assembleia Legislativa agora, visto que no início do mandato havia uma relação difícil, complicada?
Já está tudo tranquilo. Eu tenho uma boa convivência com o presidente da Assembleia [deputado Osires Damaso, do DEM] e com os deputados. Não tenho tido nenhum problema lá.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. pretende interagir nas eleições municipais de 2016, já que o País vive um momento de crise? O governo do Tocantins vai interferir em alguns municípios?
Não. Acredito que deixaremos para o próximo ano. Agora ainda está muito longe para pensar nisso.

“Prioridades são saúde, educação e segurança”

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Patrícia Moraes Machado – Mas o PMDB está articulando?
O PMDB nacional, principalmente.

Patrícia Moraes Machado – E quanto ao sr.?
Sim, nós estamos trabalhando no sentido de fortalecer não só o nosso partido, como os partidos coligados. Todos sabem que tivemos o apoio do PV, do PT. Todos estão integrados no meu governo. O próprio PSD, apesar de não ter indicado nomes, em alguns setores tem pessoas. Nós temos uma boa convivência com o prefeito da capital, Carlos Amastha (PP). Temos feito parcerias em prol da infraestrutura da cidade. Ainda assim, estamos discutindo as questões nos municípios. Acredito que mais à frente nós vamos voltar a essa questão.

Cezar Santos – Mas em Palmas não há pré-candidato do PMDB?
Neste momento, não.

Patrícia Moraes Machado – A tendência é apoiar a reeleição do prefeito Amastha?
Não, eu não estou dizendo que a tendência é apoiar Carlos Amastha. Ele é um bom gestor e acredito que possa, mais à frente, abrir uma discussão com os partidos. O PMDB não faz parte do governo dele. Nós temos uma convivência institucional. É um bom aliado e me dou muito bem com ele.

Patrícia Moraes Machado – Percebe-se que o sr. está muito tranquilo diante de um cenário nacional que é de crise. Até dezembro, o que o tocantinense pode esperar em relação à conclusão de seu primeiro ano de mandato?
Muito trabalho, muita dedicação. Na prática, o cidadão vai sentir mudança na saúde, na segurança pública, uma mudança de gestão, pois as gestões anteriores deixaram a desejar. Eu também posso ter deixado a desejar, em alguns aspectos, nas minhas gestões anteriores — afinal, as demandas são muitas e nem sempre se consegue realizar tudo o que sabemos ser necessário.

Mas eu quero mudar esse paradigma de que os governos ficam empacados em alguns setores da administração pública. Qual era a esperança da população tocantinense? Era o Marcelo? Sim, e eu fui guinado ao governo. Tivemos dificuldade? Sim, também, mas faz parte do processo. Ainda assim, eu acredito que nós — eu, Marcelo Miranda, e o governo do To­can­tins — temos procurado fazer o que precisa ser feito. Estamos nos esforçando em setores, principalmente na saúde, segurança pública e educação. São os três pontos que se discutem.

Patrícia Moraes Machado – É normal, quando um governo de oposição assume, haver grupos do setor empresarial que se colocam contrários à nova administração. São grupos políticos identificados com o status anterior — setor empresarial, funcionalismo, o todo que rege uma estrutura administrativa. Como está essa relação hoje, seis meses depois?
Não quero vender facilidades, mas ainda assim estou muito bem, em uma convivência muito boa com a Confederação das Indústrias, sob a presidência de Roberto Pires, com a Associação Comercial, com setores como o Sebrae e o sistema S. Estamos trabalhando conjuntamente com todas essas instituições. Com o Judiciário, também, temos uma boa convivência com o presidente do Tribunal de Justiça [Ronaldo Eurí­pedes], com os desembargadores e também com o Tribunal Regional Eleitoral (TER). Há uma boa convivência também com o Ministério Público e com o Tribunal de Contas.

Patrícia Moraes Machado – Os ânimos, então, no Estado do Tocantins estão em paz?
Os ânimos estão tranquilos, serenos, pois quando sentimos que pode haver algum problema, algo que possa dificultar, sentamos e conversamos. É o meu estilo. Nós queremos conversar sobre projetos e o Tocantins oferece bons projetos. Por exemplo, atualmente, nós temos uma discussão — e eu a levei para Europa — sobre as hidrovias. Para ter ideia, nós temos um porto na cidade de Praia Norte, chamado de Ecoporto, que vai nos dar condições de escoar melhor nossa produção. Estaremos mais próximos ao derrocamento de São Lourenço, próximos de Marabá e Tucuruí [cidades do Pará]. Teremos condições de receber (produtos) da Zona Franca de Manaus, tudo mais perto e estaremos mais perto, também, do Oceano Atlântico. Já existe interesse de empresas de vários países europeus e da Ásia em investir e em se instalar no Ecoporto de Praia Norte. Queremos reforçar que o Tocantins é o Estado com a melhor logística do País. Com projetos como esse — que está em curso e se tornando uma realidade —, podemos atrair novos investimentos para aquela região. E, então, vamos investir nas vocações das regiões, de forma otimizar a produção e incrementar a geração de mão de obra.

Patrícia Moraes Machado — O momento de crise já passou para o governo, tanto político quanto econômico? Agora é outra fase?
Eu acredito que nós viveremos outro momento. Digo que, realmente, não dá para negar que dificuldade nós temos, já que pegou um Estado com folha de pagamento atrasada, embora já a tenha colocado em dia. Mas tenho muita esperança e boas expectativas. Como já disse, não quero vender facilidades, mas os recursos, agora com o programa Crema [do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes-Dnit que trata da restauração, recuperação e manutenção das rodovias federais], na infraestrutura, nós voltaremos a recuperar as rodovias, como já recuperamos quilômetros e quilômetros de rodovias, pavimentadas e vicinais. Vamos agora investir mais de mil quilômetros em recuperação de estradas vicinais e em pavimentação asfáltica, a partir do segundo semestre.

Cezar Santos – E quanto à transparência, o Estado do Tocantins está cumprindo a lei e colocando na internet os números e as informações sobre as ações do governo?
Sim, o Portal da Transparência vol­tou a funcionar. A sociedade, atualmente, pode ver em números o que o To­cantins tem a oferecer.

Patrícia Moraes Machado – E o Igeprev [Instituto de Gestão Pre­videnciária do Estado do Tocantins, que perdeu mais de R$ 260 milhões por causa de má gestão no passado], o sr. vai entrar nisso? Con­tinuará com a investigação?
Sem dúvida. Nosso procurador-geral do Estado entrou com representações junto ao Ministério Público, que está com dez ações que pedem bloqueio de bens dos envolvidos. Nós daremos prosseguimento e quem for culpado vai pagar, não tenha dúvida.

Cezar Santos – Recentemente, saiu uma boa notícia: o Tocantins paga o quarto melhor salário básico ao professor. Essa política de valorização é uma prioridade do governo tocantinense?
Pagamos o quarto maior salário aos professores no País e me perguntam: estão em greve por quê? É o que não entendo, já que é o quarto melhor salário e que também está em dia. Eles entendem que merecem mais. Sobre o que é direito adquirido, eles vão lutar e nós vamos saldar esses direitos. Mas, mais uma vez, quero dizer o que disse na cidade de Araguaína: que eu gostaria de continuar com o crédito que eu sempre tive com os servidores públicos. Em toda greve, quem perde é o aluno.

Cezar Santos — O crédito com o servidor a que o sr. se refere advém de quê?
Tenho crédito porque fui o governador que mais valorizou, mais investiu e respeitou o servidor público. Fui o primeiro a fazer um plano de cargos, carreiras e salários, o que deu mais incentivo institucional, o primeiro a instituir concurso. Por isso, tenho esse crédito. Tenho essa relação histórica de respeito e de valorização do servidor público, tanto que, como deixei claro, enquanto outros Estados estão em crise — enxugando a máquina pública e gerando desemprego em função da crise —, estou fazendo a tarefa de casa, preservando e respeitando o direito do servidor e cumprindo todas essas reinvindicações, dentro das condições que encontrei no Estado. Isso me dá um crédito com o servidor, e várias vezes já ouvi isso de muitos deles, que reconhecem esse trabalho.

Patrícia Moraes Machado – O sr. acredita na reforma política que foi votada na Câmara dos Deputados?
Pessoalmente, vejo o que foi feito até agora com insatisfação. Não satisfez o povo brasileiro. Essa reforma política está deixando a desejar, porque não vejo essa questão do fim da reeleição, ou do aumento do mandato para cinco anos, como fundamental. Isso é o de menos. O povo brasileiro esperava mais. Por exemplo, não mudou em nada a questão do financiamento de campanha. O foco precisaria ser direcionado mais para o respeito ao cidadão brasileiro. Nós, políticos, não oferecemos nada nessa reforma para isso.

Elder Dias – O que o sr. acha que poderia ser feito, na reforma, para levar mais em conta esse cidadão?
Eu sou político há mais de 20 anos e vejo que é muito fácil, a cada dois ou quatro anos, se candidatar. Deveríamos ter um processo de endurecimento, para que os políticos tivessem ideia de sua importância e, dessa forma, promovessem um avanço nesse aspecto das candidaturas. Não dá mais para ficar insistindo com essas pessoas que não têm condições de ter mandato. Não quero desmerecer ninguém, mas não dá mais para ficar assim.

Patrícia Moraes Machado – Como o sr. avalia a questão da maioridade penal, cuja redução foi aprovada nesta semana?
Eu fui e sou favorável à redução da maioridade. Sabemos dos empecilhos que teremos pela frente — nós ainda desconhecemos como será o comportamento de um jovem de 16 anos a partir dessa alteração aprovada. Mesmo assim eu, se estivesse votando, daria meu voto pela redução. Hoje, no Tocantins, jovens dessa faixa etária estão sequestrando, assaltando bancos, estuprando. Dizem que tudo é por conta da questão da droga. Mas será que tudo é culpa da droga? Será que tudo é questão de família?

O jovem de 16 anos, hoje, faz tudo o que um adulto faz – podem votar, muitos já dirigem. Faz tudo o que um cidadão de 18 anos faz. Eu sou pai e tenho filhos adolescentes. Como fica isso? Por isso, quero aplaudir a Câmara por ter aprovado a redução da maioridade penal.

Governador Marcelo Miranda fala aos editores Patrícia Moraes Machado, Cezar Santos e Elder Dias: “Sou otimista” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Governador Marcelo Miranda fala aos editores Patrícia Moraes Machado, Cezar Santos e Elder Dias: “Sou otimista” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

“Queremos união para fortalecer os Estados”

Patrícia Moraes Machado — Qual o objetivo e os possíveis resultados desta reunião entre os governadores do Centro-Oeste e do Tocantins em Goiânia?
O objetivo é de nos unirmos para que possamos fortalecer os Estados junto ao governo federal. Temos de discutir reforma tributária, desenvolvimento regional e as demais demandas dos Estados. O ministro Mangabeira Unger é o grande anfitrião desta reunião, juntamente com o governador Mar­coni Perillo (PSDB), e nos uniu para pôr em pauta ações conjuntas sobre educação básica, uma pauta muito cara ao ministro. Vamos discutir a questão do agronegócio, em que Goiás é muito forte. Discutir também logística, um dos pontos que também está na pauta tanto de Goiás e Tocantins como dos demais Estados. Acredito que saímos à frente por causa de nossso potencial, principalmente no agronegócio. É preciso discutir também outros setores, pois nossos secretários de Planejamento e da Fazenda estão se reunindo em torno da pauta e das demandas que levaremos para a reunião com o governo federal.

Outra proposta para a reunião com o ministro Mangabeira Unger foi exatamente a definição de um currículo comum para o ensino médio, com a criação de uma agência interestadual de empreendedorismo, com foco no fomento e na mineração. Também estão na pauta inovações no campo da saúde.

Patrícia Moraes Machado – Como inovar na saúde?
Com novas políticas públicas para o setor, viabilizando a saúde de formas mais criativas. Outra proposta é a revitalização da Sudam [Superintendência de Desenvol­vimento da Amazônia, equivalente à Superintendência de Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco)].

Cezar Santos – Recentemente o governo federal anunciou um pacote de concessões, prevendo quase R$ 200 bilhões de investimentos. Como o sr. avalia isso, no que diz respeito ao Tocantins?
Goiás foi muito bem beneficiado com as concessões. O Tocantins ficou apenas na questão da ferrovia e um ponto que nós temos que rediscutir é quanto à duplicação da BR-153, pois nos faltou isso também. Tanto o norte de Goiás quanto o To­cantins ficaram fora dessa duplicação. Portanto, estou levando essa demanda também para que possamos reforçá-la junto ao governo federal.

GO, MT, MS, DF e TO fundam Movimento do Brasil Central

Governadores de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Tocantins, com a presença do ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), Roberto Mangabeira Unger, formalizaram, na sexta-feira, 3, a fundação do Movimento do Brasil Central, com o propósito de unir forças e trabalhar por uma estratégia regional de desenvolvimento.

Pela manhã, eles assinaram uma carta de intenções especificando tópicos que fundamentam uma agenda comum para que busquem soluções de cooperação que impulsionem as economias e melhorem a qualidade de vida da população dos entes federados participantes.
No documento, os governantes se comprometeram a criar dois instrumentos para o desdobramento da ação conjunta interestadual: o Fórum dos Governadores do Brasil Central e uma entidade com governança exclusiva dos Estados do Centro-Oeste e do Distrito Federal, com inclusão do To­cantins, com o objetivo de orientar e financiar as políticas de desenvolvimento da região. Além disso, o bloco quer dar força e rumo à Superintendência de Desenvol­vi­mento do Centro-Oeste (Sudeco).

Para consolidar o bloco e discutir os detalhes da parceria, os governadores e suas equipes se reunirão com frequência numa das capitais dos Estados participantes. A próxima reunião foi marcada para o dia 7 de agosto, em Cuiabá (MT). O tema prioritário será a organização desta entidade: sua forma jurídica, seu modelo de governança e sua fonte de financiamento.
Para o Fórum em Mato Grosso, serão convidados também os presidentes das Assembleias Legislativas para participarem do encontro. Além de Goiânia e Cuiabá, os governadores do Brasil Central se reunirão em mais três ocasiões, sempre às sextas-feiras: dia 4 de setembro, no Tocantins, dia 2 de outubro em Mato Grosso do Sul e dia 6 de novembro em Brasília.

Governadores unidos

Governadores e ministro Mangabeira Unger: convergência de forças | Foto:  Eduardo Ferreira

Governadores e ministro Mangabeira Unger: convergência de forças | Foto: Eduardo Ferreira

A intenção dos governadores é, em bloco, construir um modelo de desenvolvimento que dê instrumentos ao espírito empreendedor, inovador e criativo que marca o Brasil Central. Para o governador do Mato Grosso do Sul, Reinaldo Azambuja, o Brasil Central tem muita coisa em comum além da vocação para o agronegócio. “Temos muito mais pontos que nos unem do que nos divergem”, resumiu.

Para o governador do Tocan­tins, Marcelo Miranda, essa aliança mostra a força do coração do Brasil e a integração Centro-Oeste, Centro-Leste e Norte do Brasil. “É uma união em favor dos Estados e do País.”

Já o governador do Mato Gros­so, Pedro Taques, o espírito de cooperação e união é fundamental entre os entes federados. “Não queremos retirar poder da União. Queremos que os Estados sejam respeitados”, explicou, lembrando ainda que a produção da região do Brasil Central é responsável pelo superávit da balança comercial brasileira.

O governador de Goiás, Mar­coni Perillo, agradeceu o esforço intelectual e pessoal do ministro. Além disso, ele antecipou que os governadores convidarão Rondônia para fazer parte do bloco. “Avan­çamos muito na criação do Fórum e no próximo encontro esperamos contar também com a presença do governador de Rondônia. Um sexto governador é muito bem vindo para tornar nossa parceria ainda mais forte”, afirmou. (com a comunicação setorial da Secretaria de Planejamento de Goiás)

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