No país dos agrotóxicos, produção de orgânicos resiste

Embora o Brasil trabalhe pela flexibilização dos agrotóxicos, o mercado de alimentos orgânicos continua crescendo e sendo um dos maiores do mundo

Foto: Divulgação

Uma reportagem de 2020 da BBC apurou que um terço da receita das principais fabricantes de agrotóxicos são garantidas pelo alto mercado encontrado em países emergentes, como o Brasil. Na matéria informa, ainda, que quase 41% dos principais produtos de multinacionais agroquímicas possuem pesticidas, que por sua vez, representam 35% da receita das cinco maiores empresas do mercado. Mais de dois terços das vendas são de países de renda média e baixa e, adivinhem, o Brasil é o principal comprador.

Apesar disso, o país também é considerado um dos maiores produtores de alimentos orgânicos do mundo desde 2013, segundo dados do Instituto de Pesquisa de Cultura Orgânica e da Federação Internacional de Movimentos da Agricultura Orgânica e divulgado pelo projeto Orgânica Brasil. Além disso, o Censo Agropecuário Brasileiro do IBGE estima que, de 2006 a 2017, os estabelecimentos agropecuários com certificação de produção orgânica cresceu mais de 1.000% no Brasil, dando um salto de 5.106 para 68.716.

Apesar da pandemia, que dificulta a realização de feiras, onde os alimentos orgânicos são mais vendidos, o consumo é crescente, conforme informou o engenheiro agrônomo, professor e pesquisador na Universidade Federal de Goiás (UFG), produtor e vendedor de alimentos orgânicos Paulo Marçal. “A feira do mercado da rua 74, em Goiânia, era bom indicador do aumento do mercado de consumidores. A gente estava com um crescimento elevado, mas aí veio a pandemia. A gente tinha até dificuldades de atender. São poucos produtores, então não adianta divulgar e não poder atender”, contou ao Jornal Opção.

Professor Paulo Marçal | Foto: Reprodução/UFG

Segundo ele, estudos realizados nos cursos de pós-graduação e mestrados da Agronomia na UFG mostram que, em geral, a população está disposta a pagar um pouco mais para ter alimentos orgânicos na mesa. “[O mercado] Ainda é pequeno comparado ao não orgânico. O número de produtores na Associação para Desenvolvimento da Agricultura Orgânica (Adao) nos últimos cinco anos pulou de 30 para mais de 50, que vendem em feiras. O número de produtores é crescente. […] Excluindo os efeitos da pandemia, o mercado é crescente. As pessoas que passam a consumir dificilmente deixam de consumir”, afirma.

A produtora da Terrauna, de Aragoiânia, Myllena Camargo Lima, também concorda que o mercado está em constante expansão para os orgânicos. “Em Goiânia a adesão é crescente entre o consumidor final, com possibilidades para além do consumidor direto, como programas estaduais de merenda escolar, como o PNAE e programas de aquisição de alimentos do município, como o PAA, assim aumentando o alcance tanto de quem produz como de quem se alimenta”, pontua.

Ela ainda reforça que o benefício do alimento orgânico vai além da ausência de agrotóxicos. “Para o produtor de orgânicos, em sua maioria pequenos produtores familiares, a agricultura ecológica e orgânica é a possibilidade (…) também de aplicar saberes tradicionais de cultivo e se dispor de técnicas e insumos sustentáveis em suas propriedades, o que aumenta a produção, o lucro e a qualidade de vida de quem produz.”

Além disso, o professor Paulo Marçal afirma que os alimentos orgânicos possuem maior valor nutricional. “Uma pesquisa de mestrado com tomate apontou diferença quantitativa em relação a nutrientes. Os orgânicos têm mais quantidade de nutrientes em relação ao convencional. No caso do tomate, por exemplo, a produção é muito maior de antioxidante, licopeno e compostos fenólicos”, explica.

“Um solo nutrido oferece plantas nutridas, portanto frutos nutritivos, o que não é o caso da agricultura convencional que se utiliza de elementos artificiais no cultivo, não se preocupando com a qualidade nutricional dos alimentos”, acrescenta Myllena.

O professor da UFG ainda pontua que o sabor dos alimentos também são um diferencial. “A qualidade sensorial é indiscutível. As pessoas detectam o convencional junto ao orgânico. A adubação e os agrotóxicos interferem, vão promover crescimento mais rápido que o natural, uma estruturação dos órgãos da planta mais rápido.”

Pandemia

Ambos produtores concordam que a maior dificuldade decorrente da pandemia foi a realização das feiras. No entanto, outras alternativas, como a venda pela internet ajudou a continuar conquistando clientes. “Com a dificuldade de realizar feiras livres com segurança para a prevenção da Covid-19 e respeitando os decretos municipais e estaduais, muitos agricultores e agricultoras se valeram das entregas a domicílio”, relata Myllena. “Nós realizamos as feiras de orgânicos de Goiânia, mas com a necessidade de ambiente seguro para aquisição dos alimentos na pandemia, nosso delivery de mais de três anos foi bastante solicitado no ano de 2020.”

Mercado Popular da Rua 74, em Goiânia | Foto: Reprodução

Segundo ela, o mercado cresceu muito nesse sentido, “construindo uma rede de fornecedores, em que os agricultores e agricultoras poderiam escoar a produção que em condições normais seriam vendidas nas feiras diretamente ao consumidor.”

Marçal, que realizava vendas dentro do Mercado da 74, nunca mais pôde realizar as feiras. “Os produtores se adaptaram. Eles vão até as pessoas e fazem a entrega. Entregam nas casas, marcam pontos de encontro, consumidores cadastrados vão buscar os produtos… São várias estratégias”, conta o professor, que apesar de achar que a internet facilitou muito o contato com consumidores, a marcar encontros, receber pedidos e criar uma lista de clientes, ele afirma que a melhor propaganda é o boca a boca.

“Eu acredito que o que mais funciona é o boca a boca. As boas noticias de produtores orgânicos, sobretudo entre pessoas que têm problemas de saúde ou pessoas com consciência de consumo maior. Os próprios clientes divulgam para suas relações e há um movimento muito grande no mercado”, conta.

Ele ainda pontuou que nos últimos anos, o governo facilitou registros de agrotóxicos e não ofereceu políticas públicas em prol da produção de orgânicos e de uma alimentação mais saudável. “A indústria da doença sempre foi maior que a da saúde, basta ver a quantidade de farmácias e drogarias. A produção orgânica deveria ser incentivada. Alimentos verdadeiros com qualidade, isentos de contaminação e que promovem a saúde. No Brasil falta incentivo, mas a gente não se preocupa com o governo, mas com os consumidores. Se eles aderirem e pensarem na sustentabilidade do planeta farão com que a produção cresça independente de políticas públicas”, opinou.

“O que estou fortalecendo quando compro? A quem estou promovendo? Dar preferência a produtos orgânicos é valorizar, porque trabalhamos com dificuldades, mas estamos crescendo para levar saúde”, disse.

Alimentos favoritos e diversidade

Segundo Marçal, entre os alimentos favoritos dos consumidores estão as folhosas e tomate. “Algumas pessoas dizem que nem vão na feira se não levarmos tomate, mas a gente procura diversificar. Nossa diversidade é maior que nas feiras normais. Buscamos resgatar variedades. Estou plantando mais de 40 variedades de feijões, com cores, texturas e sabores. Levo isso para os clientes. Vou inserindo produtos para diversificar. Vendemos tudo que levamos. Já comercializei mel de abelha nativa. Aí vira febre e todo mundo quer. Se não desenvolvermos produtos e levar, não vão comprar”, conta.

Tomate orgânico | Foto: Reprodução

A cliente Agda Vargas conta que começou a consumir orgânicos quando engravidou da filha, Isadora, que já irá completar oito anos em outubro. Além de frutas, verduras e legumes, ela diz que também dá preferência para ovos de produtores de orgânicos. Ela conta que a jornada de alimentação saudável iniciou quando o marido foi à Feira de Orgânicos, do Mercado da 74 e lá conheceu o professor Paulo Marçal e outros produtores.

“A gente conheceu vários alimentos depois que começamos a consumir, como a beldroega, ora pro-nobis, maracujazinho doce que tem alto valor nutricional e muitas outras coisas”, cita. Para ela o alimento orgânico é “mais saboroso. O alimento tem gosto”, diz.

A consumidora Ana Claudia Veloso conta que consome alimentos orgânicos já há dez anos. “Tenho experiência bastante considerável em relação a orgânicos. Eu entendo que é a melhor alimentação que nós podemos escolher para nós e para nossos familiares, a quem amamos”, pontua. Entre os produtos que ela conheceu com a alimentação saudável estão também ora pró-nobis, semente de girassol produzida pelo professor Paulo Marçal e uma biomassa de banana verde orgânica, produzida por outra vendedora em Goiânia.

Ora pro-nobis pode ser usado em diversas receitas | Foto: Reprodução

“Minha casa só aceita consumo de hortifrúti orgânicos. Nós nos limitamos, inclusive, a não consumir uma vasta gama de frutas porque os orgânicos ainda são limitados. Temos melão, melancia, kiwi, mexerica, bananas, maracujá, uvas de vez em quando, mas não é uma vasta gama de frutas como nos mercados que não existem orgânicos. Quando não temos identificada a origem orgânica, deixamos de consumir”, pontua.

“A diferença de sabor é extraordinária. Vem da qualidade da manutenção, da resistência das folhas, principalmente no que diz respeito às folhagens. Na minha casa consumimos muitas saladas, de maneira que a qualidade das folhas é muito importante. Também comemos apenas arroz e feijão orgânicos, grão de bico, linhaça, aveia, inclusive não apenas no hortifrúti, milho de pipoca, azeite orgânico e toda vasta gama de produtos orgânicos que identificamos”, conta Ana Claudia.

Benefícios

Para as duas consumidoras, o ponto principal da alimentação orgânica é a saúde em relação aos demais alimentos. Dentro disso, há inúmeras vantagens e benefícios. “Eu ter a noção da procedência e da seriedade de quem se dedica a esta prática que não é fácil, é um grande desafio, mas que hoje já ganhou um mercado muito grande e preservando nossa saúde também, é meu foco número um”, diz Ana Claudia.

“Não possuir agrotóxicos e também o que a gente sabe da procedência. Quando o Paulo não tem, são outros vendedores que foram alunos dele, que aprenderam com ele e vende lá [na Feira de Orgânicos] também. Consequentemente, sabemos que tem um outro valor nutricional. Aliás, tem valor nutricional”, comenta Agda.

“As pessoas as vezes falam que é muito caro, mas se você for observar, não é tão mais caro. Até porque você irá economizar remédio no futuro, eu vejo assim”, observa Agda. “Estamos educando nossas crianças. Quando vamos no supermercado, a Isadora olha se tem o T de transgênico. Se tiver, ela pode até amar e querer. Por exemplo, a gente queria fazer uma receita que leva maisena, quando ela viu que era transgênico ela pediu para substituir ou fazer outra receita”, relata.

“Eu sempre conscientizei ela, eu e meu marido. Aos quatro anos ela quis experimentar Coca-cola. Eu dei e ela não gostou e não quis mais. Ela é bem consciente, não é porque eu proíbo. Nós trabalhamos a conscientização da alimentação e da saúde. Alimento é remédio”, conclui.

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