Mutação do coronavírus pode estar por trás do colapso em Manaus

Cientistas consideram o papel que uma mutação genética do novo coronavírus pode ter desempenhado para o colapso do sistema de saúde de Manaus

Imagens do colapso no sistema de saúde em Manaus | Foto: Reprodução

No último domingo, 10, o governo japonês anunciou que detectou em seu território uma nova variante do coronavírus em quatro viajantes que vieram do Brasil para o Japão. Os passageiros desembarcaram no aeroporto internacional de Tóquio em 2 de janeiro vindos do Amazonas,  estado que não confirmou a detecção de casos de uma nova variante do Sars-CoV-2. 

Entretanto, na terça-feira, 12, um estudo brasileiro que fez a análise genômica de amostras de coronavírus colhidas no Amazonas foi publicado. Nele, os pesquisadores afirmam ter detectado variantes do vírus semelhantes às encontradas nos viajantes de Tóquio, mas independentes de outras variantes encontradas no Rio de Janeiro em julho. Essas evidências sugerem o aparecimento de uma nova linhagem do vírus, chamada de B.1.1.28, no estado nortista. 

O estudo também caracteriza geneticamente outras linhagens do vírus causador da Covid-19 que foram detectadas no Amazonas em dezembro de 2020, como a B.1.1.7 (detectada no Reino Unido e com surgimento estimado em setembro) e B.1.351 (originária da África do Sul com surgimento estimado em outubro). 

Diversos estudos sugeriram que estas linhagens do vírus são mais transmissíveis e podem agravar a pandemia de Covid-19 devido ao seu potencial superior de se espalhar pela população. Em 7 de janeiro de 2021, 45 países relataram a presença de B.1.1.7 e 13 países relataram B.1.351

Agora, em meio a um surto no número de casos de Covid-19 e de óbitos no Amazonas, cientistas consideram o papel que a mutação genética pode ter tido no cenário de desastre que ocasionou o colapso do sistema de saúde de Manaus.

O que é a nova cepa

Euclides Matheucci Junior é doutor em bioquímica e co-fundador da empresa DNA Consult, empresa de biotecnologia especializada em análise genética. Segundo o cientista, é natural que os seres vivos acumulem alterações em seus genes a cada geração. “São mutações aleatórias”, diz o bioquímico, “algumas são boas para o vírus e outras (a maioria) são ruins porque atingem sequências importantes do material genético do vírus. Acumulamos mutações a cada geração, mas os vírus se reproduzem muito rápido e em grande quantidade, o que faz com que mutações sejam mais perceptíveis em um curto período de tempo”.

Mutações adquiridas por variantes preocupantes afetam principalmente a espícula viral (proteína “spike”)| Foto: Getty Images

O próprio Sars-CoV-2 já acumula centenas de mutações desde seu surgimento, mas Euclides Matheucci explica que aquelas mais preocupantes são as que atingem os trechos de seu material genético (RNA) que codifica e expressa a proteína Spike (ou proteína S). “Essa proteína é responsável por fazer a ligação entre o vírus e o receptor na célula humana. Todos os vírus se ligam às células através de uma proteína específica – eles têm uma espécie de chave que se encaixa em uma fechadura específica”. O pesquisador afirma que uma enzima na membrana de nossas células, chamada ACE2, é a receptora explorada pelo vírus para adentrar as células humanas. 

O estudo brasileiro mostrou que as novas linhagens verificadas no Amazonas apresentam a mutação N501Y – uma variação que ocorre nos aminoácidos da região do gene que codifica a proteína Spike e que altera sua ligação ao receptor (ACE2). “Essa mudança faz com que o vírus entre de maneira mais eficiente no receptor ACE2. O vírus se liga com maior facilidade, fica mais infeccioso, e não é prejudicial para o vírus porque altera apenas um dos seus milhares de aminoácidos”, afirma Euclides Matheucci. 

No Reino Unido, em dezembro, houve um aumento no número de casos sem que o protocolo de isolamento tivesse sido alterado. Isso alertou cientistas para um fator que pudesse explicar o aumento na taxa de transmissão do vírus. Seguindo o exemplo extrangeiro, outro estudo brasileiro se propôs a analisar as linhagens circulantes em Manaus em amostras de 37 pacientes de Covid-19. Os autores da pesquisa encontraram que 13 indivíduos (ou 42% do total) apresentavam uma nova linhagem, descendente da já conhecida B.1.1.28, chamada de linhagem P.1.

Profissional de saúde realiza a coleta para o exame PCR-RT | Foto: Reprodução

Sabemos, por exemplo, que a descoberta e rápida disseminação de B.1.1.7 e B.1.351 destaca a importância de dados abertos e em tempo real para rastrear a disseminação de SARS-CoV-2 e para informar futuras intervenções de saúde pública e conselhos de viagem. Inclusive a nova variante pode fazer com que países de várias partes do globo bloqueiem voos vindos do Brasil. No Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson já admitiu essa possibilidade.

Não há evidências, entretanto, de que as novas cepas do Sars-CoV-2 consigam escapar da imunização produzida pelas vacinas em desenvolvimento, já que para afetar a eficácia de vacinas de forma significativa, mutações têm que afetar várias regiões da proteína. Conforme expõe pesquisa que testou em 20 participantes a imunização produzida pela vacina da Pfizer, pacientes apresentaram respostas imunes equivalentes às novas e antigas cepas do coronavírus.

Mesmo a testagem via PCR-RT (que detecta especificamente o material genético do patógeno) é capaz de encontrar as diversas variantes do coronavírus, explica Euclides Matheucci Junior. “A DNA Consult, que desde 1998 trabalha com análise de DNA e RNA, procura em seus exames de PCR-RT duas regiões do genoma do Sars-CoV-2. Trabalhamos com os genes N1 e N2. São genes estáveis, pois mutações neste trecho do genoma causam a inatividade do vírus. Entretanto, publicações do FDA (equivalente americano à Anvisa) alertam para a possibilidade dos testes não serem capazes de identificar vírus por mutações. É possível que aconteça. Por isso é importante usar bons testes que identificam 2 regiões do genoma do vírus”, conclui  Euclides Matheucci Junior.

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