Meu reino pelo “S” do iPhone 6: o hiperconsumo na era do “cada vez mais”

É surreal pensar que o capitalismo se torna mais e mais um escravo de si mesmo. Mas uma hora essa roda viva vai precisar parar de girar

Consumidores fazem fila à espera de abertura de loja da Apple para comprar o último modelo de iPhone

Consumidores fazem fila à espera de abertura de loja da Apple para comprar o último modelo de iPhone

Elder Dias

Ela tinha trocado seu smartphone por outro, de última geração. Na verdade, mais do que isso, o aparelho havia sido o lançamento da semana, algo que ainda ninguém de seu círculo social possuía. E a mulher foi estrear a novidade em uma festa. Entre cliques e selfies, entre o Facebook e o Instagram, havia também o chope à vontade. E ela saiu para dançar, se distraiu e esqueceu o celular novinho em folha em cima da mesa. Nunca mais o viu. Entrou em pânico. Também por perder o presente que havia se dado, mas ainda mais por desaparecer o aparelho que lhe era valioso por dar a graça de uma “primazia de exposição” diante dos amigos e amigas.

Que eram gente de muita amizade, mesmo. Tanto que uma amiga teve a ideia de fazer uma rifa para comprar outro celular última-geração para a desafortunada. Não precisou: o marido fez isso. E o dinheiro que já haviam ajuntado serviu para dar a ela uma bolsa de 500 reais como prêmio de consolação. Claro, não era uma peça chique o suficiente para uma festa de gala, mas garantiria uma variação a mais para o look do dia a dia.

Kátia é o nome da mulher fictícia da história dos dois parágrafos acima, mas que, por sua vez, tem semelhanças, sim, com um fato específico realmente ocorrido. E mesmo se não assim fosse: fica aqui a particular convicção de que você, ao ler o texto, vai imaginar algo que se desenrolou de forma bem parecida com alguém próximo.

Para Kátia, era necessário e urgente possuir aquele celular “naquele” momento, “naquela” semana. Na outra, já seria tarde demais. Ela, como “cada vez mais” — e anote essa expressão entre aspas — pessoas no mundo, se enquadra no perfil do hiperconsumidor. O termo deriva da expressão “hiperconsumo”, cunhada pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky. Segundo ele, hoje não há apenas singelos compradores de mercadorias, mas hiperconsumidores. Estariam todos os humanos, uns mais e outros menos, inseridos em uma roda-viva socioeconômica e comportamental, baseada no ritual da compra contínua.

O conceito de hiperconsumo, por sua vez, vem dentro de outro: a hipermodernidade. Para Lipovetsky, não há mais sentido em usar o termo “pós-moderno”, que traz em si a inferência de que o moderno seja um ente ultrapassado ou até morto. Ao contrário, o que ele acredita é que há um estágio avançado da modernidade, concretizada pelo liberalismo globalizado, por uma individualização de grau avançado — e avançando — e pela transformação dos modos de vida em mercadoria a ser consumida.

Dando voz ao próprio Lipovetsky numa de suas conferências, em 2010: “Nossa época não é a do fim da modernidade, mas a que registra o advento de uma nova modernidade: a hipermodernidade. Tudo parece realizado com a escalada ‘cada vez mais’, ‘cada vez mais rápido’, ‘cada vez mais extremo’, em todas as esferas da vida social e individual: finanças, consumo, comunicação, informação, planejamento, esportes, espetáculos. Podemos definir o hipermoderno pela radicalização das três lógicas constitutivas da idade moderna: a tecnociência, o mercado e o indivíduo e sua transcrição política, a democracia.” É a cultura do excesso, do sempre mais. Do “cada vez mais”.

China, artéria do capital

O consumo seria, então, apenas um subitem, uma das esferas em que ocorre o fenômeno. Mas uma esfera bastante vital para o sistema. Dá para ter ideia do quanto esse francês de nome eslavo pode estar certo quando se pensa no fenômeno China. Até décadas atrás, o gigante país comunista era visto como algo impenetrável ao capitalismo. Na década de 80 ainda era algo que deslumbrava ver uma pitada de Ocidente dentro dos muros de Mao Tse-tung, a ponto de se cantar “até na China bebem Coca-Cola” (verso de “Revoluções Por Minuto”, música da banda RPM, ícone do pop-rock brasileiro dos anos 80).

Ironicamente, o mesmo capitalismo, na era globalizada, passou a ter nesse que é um dos poucos países comunistas que sobraram no planeta uma de suas artérias mais importantes. A ponto de uma leve queda no crescimento da economia chinesa poder causar grandes estragos na saúde do mercado internacional. O Brasil em recessão que o diga — principalmente o setor da mineração, afetado por uma queda nas exportações cuja origem se encontra muito menos na política do que na baixa da demanda oriental por ferro, níquel e outros recursos do subsolo nacional.

Como descreve Lipovetsky, na hipermodernidade e no hiperconsumo é preciso não perder a velocidade. Nem ao menos diminuí-la. Para isso, é preciso incentivar e manter o consumo; sua retração é uma tragédia e freá-lo de forma ativa é uma loucura — hoje já quase uma questão lesa-pátria o aumento dos juros para segurar o ritmo das compras.

Isso leva a um conceito básico do hiperconsumo, e que tem tudo a ver com a necessidade absurda que Kátia tinha de ter o mais novo smartphone: a obsolescência programada. Talvez seja a estratégia mais maligna do sistema, embora não tenha nada de recente. Criada na década de 1920 pela General Motors, a obsolescência programada busca fazer com que o mercado consumidor se sinta impelido a trocar um produto por ele mesmo, só que em uma versão mais avançada. No caso, a GM foi pioneira no ato de incutir, aos norte-americanos, a necessidade de mudar de carro frequentemente, colocando novos modelos e acessórios nos mesmos veículos.

No mundo atual, nada reflete mais esse tipo de tática do que o script para lançamento de novidades eletrônicas. A Apple faz de cada novo iPhone um evento em si, motivo de repercussão mundial. Pode parecer (só parecer?) um tanto bizarro, mas conseguir um modelo “saído do forno” no primeiro dia, enfrentando filas, intempéries e humilhações, é algo que hoje em dia traz grande reputação para as pessoas em certos círculos. Ser o primeirão da turma a comprar o “S” do iPhone 6S, no dia 13 de novembro, custou atropelos (literais, até) a muita gente mundo afora – dessa vez nem tanto no Brasil, onde a crise já havia arrefecido os ânimos dos hiperconsumidores menos convictos.

O filósofo Gilles Lipovetsky, idealizador do termo hipermodernidade: um mundo que excede seus excessos | Foto: Divulgação

O filósofo Gilles Lipovetsky, idealizador do termo hipermodernidade: um mundo que excede seus excessos | Foto: Divulgação

Apesar de a obsolescência programada já ser uma instituição capitalista quase secular, ela preocupa cada vez mais, exatamente porque “cada vez mais” – sublinhando Lipovetsky – é uma tática que se acelera. Quem tem mais de 30 anos que faça um pequeno trabalho mental, reflita e estabeleça o parâmetro sobre como era mais fácil reconhecer uma versão do Opala do que um modelo de Corolla ou qualquer outro carro atual.

Esse cada vez mais funciona como uma bola de neve sobre o planeta. O consumismo sem freio tem um custo ambiental gritante e cruel, a ponto de haver estimativas de que seriam necessárias dez Terras para saciar o apetite dos humanos se todos tivessem a mesma disposição para a futilidade que há no norte-americano médio. A “sorte” do mundo é que há ainda uma maioria de miseráveis na África, na América Latina e na Ásia (inclusive na própria China) — e, claro, há nessas palavras imediatamente anteriores aqui uma carga de ironia bem pesada — sem condições de consumir nem 10% dos homens e mulheres da terra de Barack Obama, do Mickey e de Donald Trump, citando personalidades do país, em escala decrescente na escala de evolução humanista.

Uma bolha imobiliária nos Estados Unidos e o mundo entrou em parafuso. Um resfriado na economia da China e muita apreensão no mercado. Pensar no capitalismo como algo tão frágil dessa forma é, de certo modo, surreal. Um governante chinês que resolvesse fechar a economia novamente para o mundo e produzisse apenas para consumo interno seria um personagem digno de protagonizar uma obra de Gabriel García Márquez. Mas mais surreal ainda é pensar que, ainda que não por esse motivo, o capitalismo como está é um escravo de si mesmo e, cedo ou tarde, por bem ou por mal, vai ter de ser menos “hiper”. A quanto tempo estamos desse ponto? Difícil pensar. Mas talvez fosse melhor nos preparamos para absorver da melhor forma o impacto quando de sua chegada.

Talvez um exemplo de como se possa agir desde agora esteja na prática de pessoas como Joana — outro ser humano imaginário baseado em fatos reais. Ela, como Kátia, também tinha um smartphone, já com alguns anos de uso. Ainda servia a seus propósitos, com algumas pequenas e toleráveis deficiências. Foi quando seu irmão lhe perguntou se aceitaria outro, também usado, mas de uma geração mais avançada, como presente. Era dele, que havia comprado um mais novo. E Joana, por sua vez, passou o seu para uma amiga, menos preocupada ainda com a obsolescência tecnológica.

Está posto, então, o debate de como se adaptar para viver dentro das condições hipermodernas. O próprio Gilles Lipovetsky diz que é possível (e, claro, é preciso) conciliar essa conjuntura com o modo de vida. Com alterações no comportamento, obviamente. Mas quem vai pagar o preço de não pagar para ter a última novidade do mercado? Essa é a questão. l

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