7 de Setembro e nota por diálogo entre Poderes fortaleceram Bolsonaro, creem apoiadores

Após saírem de Goiás para lutar por seus ideais em Brasília, eles afirmam estar ainda mais otimistas para disputa eleitoral

Dia em que se comemora a proclamação da Independência do Brasil, historicamente o 7 de Setembro é um dia marcado por traços de patriotismo. O rompimento entre Brasil e Portugal que ocorreu em 1822 após uma sequência de fatos que levaram ao episódio protagonizado por D. Pedro, conhecido como Grito do Ipiranga, fez com que a data se tornasse feriado nacional e passasse a ser comemorada anualmente. Apesar de ser tradicionalmente celebrada com desfiles militares e até escolares, conotações políticas tomaram conta do feriado com o passar do tempo, especialmente a partir da década de 1990.

Desde 2015, especificamente, as grandes avenidas brasileiras foram cenário de grandes manifestações que ocorreram, durante o Dia da Independência, pró e contra os governos de Dilma Rousseff, Michel Temer e, atualmente, de Jair Bolsonaro (sem partido). Neste 7 de Setembro de 2021, ano pré-eleitoral em que os nervos se encontram a flor da pele, não seria diferente. Assim, ainda que tenham tido várias mobilizações contra o atual presidente durante o feriado, Bolsonaro convocou todos os seus apoiadores para irem às ruas. E eles foram.

Ao sair às ruas durante o 7 de Setembro era muito fácil distinguir quem estava se manifestando em prol de pautas pró-governistas, já que em cores de camisetas, bonés, bandanas, na bandeira do Brasil, e em outros adereços, o verde e amarelo ressoava. Apesar de as movimentações terem ocorrido em diversas capitais brasileiras, o principal destaque, que contou com a participação do próprio Jair Bolsonaro, foi em Brasília e a capital paulista. Especificamente, na Esplanada dos Ministérios e na Avenida Paulista, respectivamente.

Goianos, com quem Bolsonaro tem uma relação próxima, ao visitar com certa constância o Estado, não poderiam ficar de fora. No dia 27 de agosto, por exemplo, menos de duas semanas do chamado ‘grande dia’ pelos apoiadores, o presidente da República esteve na capital goiana, onde participou de uma motociata junto de seus apoiadores. Assim, para honrar a convocação, a preparação para o 7 de Setembro logo foi iniciada. Produtos temáticos foram encomendados, caravanas foram organizadas e grupos de WhatsApp estiveram a todo o vapor.

Ao todo, pelo menos 17 ônibus alugados pelos manifestantes saíram da capital goiana para Brasília, para que pessoas pudessem lutar por seus ideais e acompanhar o discurso de Jair Bolsonaro. Outras, se organizaram por conta própria, junto a amigos e familiares, e se dirigiram em seus automóveis ou vãs alugadas em direção à capital brasileira. Foi o caso de pessoas como a notária Delma Messias, seu marido Alex Maia, do técnico em telecomunicações Cleiton Teixeira, do médico veterinário Alexandre Proto e do professor Roni. Com exceção de Alexandre, que saiu de Rio Verde, todos os demais foram de Goiânia a Brasília marcar presença no 7 de Setembro e fazer parte de mais um episódio que entrou para a história política do Brasil.

Apesar de não se conhecerem, todos eles se organizaram e chegaram muito cedo na Esplanada, entre cinco e sete horas da manhã, e em quase todos os aspectos, as expectativas foram superadas pelo que foi presenciado. “Eu saí de casa às cinco horas da manhã e retornei às dezoito horas e nesse período todo não vi nada diferente. Somos um povo do bem que fomos em busca de paz, então tudo superou minhas expectativas. O número de pessoas, a organização, a paz e a solidariedade do povo brasileiro um com o outro”, relatou Delma Messias.

De forma consensual, todos eles discordam dos números divulgados acerca da quantidade de pessoas presentes na manifestação, uma vez que o que narraram ter presenciado foi uma multidão incontável na busca pela liberdade. “Nós já sabíamos que ia muita gente, mas foi ainda mais impressionante, porque a quantidade era monstruosa. Foi como se Goiânia inteira, com todos os seus habitantes, fosse para lá. Era um formigueiro tremendo, e representou para quem viu que o povo está pedindo. A população correu em massa ruas afora. Se fizermos um cálculo matemático considerando o comprimento e a largura e quantos metros quadrados têm, com três pessoas por metro quadrado, não daria menos de dois milhões de pessoas”, relembrou o professor aeronauta Roni Piaguetti. Para Delma, o que foi visto nas ruas durante o 7 de Setembro serviu principalmente para mostrar que o “brasileiro acordou” e está lutando pelo que acredita. “É muito diferente o que está acontecendo com os fatos que são expostos. Eu nunca vi nada de tamanha proporção como foi ontem, mesmo em outras vezes que fui para a rua para defender algo dessa natureza”, acrescenta.

O que os manifestantes defendiam?

Presente na manifestação durante boa parte do dia, o professor Roni ressalta a diversidade de faixas estendidas e erguidas pelas pessoas, sendo que cada uma delas continha um objetivo diferente que havia feito as pessoas estarem ali. No entanto, ressalta que a grande maioria desses cartazes pedia pela exoneração imediata e prisão dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Isso, porque assim como o próprio presidente, que nas últimas semanas não andava com uma harmonia muito significativa com os poderes Legislativo e Judiciário, especialmente o segundo, a ideia contra as constantes interferências do STF e de seus ministros estava presente na motivação de vários que estiveram presentes em Brasília, naquela ocasião.

Faixa estendida em manifestação, em Brasília | Foto: Roni Piaguetti

Esse também era o caso do médico veterinário Alexandre, por exemplo. “O que mais me motivou a ir à manifestação foi minha indignação com o STF, porque de uns tempos para cá, o STF age como se fosse um órgão do Executivo”, revela. “Eu pessoalmente, fui lá para lutar por mim mesmo, como cidadão, para estar num país com liberdade absoluta, com garantia de direitos e obrigações. Nós nos movimentamos porque não podemos admitir que uma suprema corte comece a legislar sobre a população em coisas que não é da atribuição deles”, opinou.

Médico veterinário, Alexandre Proto, e esposa, durante manifestação em Brasília | Foto: Arquivo pessoal

“Estamos vendo deputados, como o Daniel Silveira, jornalistas, que estão sendo presos por expressar suas opiniões. Julgados e condenados pelo mesmo juiz da mesma corte, sendo que eles têm direito a liberdade de expressão. Se pessoas que tem cargos políticos estão tendo os direitos afrontados, quem dirá nós que não temos”, acrescenta o médico veterinário Alexandre, em concordância.

O professor Roni também se indignou com a posição do Legislativo, na ocasião, uma vez que os senadores “não quiseram aceitar o pedido de exoneração dos ministros”. “É o que o povo quer. Se esse é o representante que eu votei para que me representasse lá, e ele não recebe as solicitações do povo, isso significa que não é meu representante, e que não representa ninguém, somente a seus próprios interesses”, pontua o professor. Outro pedido constante enxergado nos cartazes expostos, segundo Roni, era pelo estabelecimento do voto impresso auditável. “Também havia pedidos de responsabilização dos governadores e prefeitos que fecharam o Brasil durante algum tempo sob a cobertura da Covid-19”, acrescentou o professor.

O que se espera para 2022

Apesar de desejarem a reeleição do atual presidente, no próximo ano eleitoral, em 2022, Roni e Alexandre deixam claro que a luta de quem foi para Brasília está além da figura do Bolsonaro. “Não fomos exatamente pelo Bolsonaro. Isso tem que ficar claro. Fomos lá em defesa de nós mesmos e do nosso país. O Bolsonaro é importante porque é uma peça estratégica no jogo de xadrez. Ele está dizendo o que nós queremos dizer e está tentado melhorar esse país”, afirma Roni.

“Nós encontramos no Bolsonaro uma pessoa que pode nos representar, porque passamos anos para esperando para ver como seria o governo de um conservador. Se nós conseguimos isso através do voto, o STF deveria ser imparcial. Conseguimos citar 125 vezes que o STF interferiu nas decisões que são de prerrogativa do presidente”, esclareceu o pastor Alex. Já Cleiton, o que mais o move na possibilidade de reeleger o atual presidente são as pautas pró-família.

Técnico em telecomunicações, Cleiton Teixeira, durante manifestações em Brasília | Foto: Arquivo pessoal

“Não tem como se votar em outra pessoa que segue outro tipo de ideologia, que tem uns tipos de discurso esquisitos. Se deixarmos para lutar em prol de algo que pode ser lutado agora, pode ser tarde demais, porque várias escolas vêm doutrinando as crianças, só que muitas pessoas nem percebem isso. Há um certo tipo de ideologia que vem sendo pregado na cabeça das crianças, isso pode ser visto em alguns vídeos que vazam na internet Brasil afora”, opina Cleiton.

O técnico em telecomunicações foi uma das pessoas que assistiu o discurso de Bolsonaro por completo, já que conseguiu se posicionar próximo onde se encontrava o carro de som, e assim como Alex, mesmo que por muitos tenha sido taxado como antidemocrático, achou que foi até bem moderado. “Ele foi um pouco evasivo. Existe uma classe de apoiadores que esperavam um posicionamento um pouco mais forte, mas acredito que isso é até um ponto de amadurecimento do presidente. Ele se mostrou mais cauteloso. Acenou de forma sutil para sua base, já que política não se faz com guerra, mas com discussão e apoio”, explica Alex.

Publicação de nota foi recuo?

O consenso dos apoiadores quanto ao impacto das manifestações em suas vidas foi claro, pontuando o 7 de Setembro como um grande marco. “Creio que o governo saiu bem mais fortalecido do que era”, afirmou Roni. Para ele, esse fortalecimento veio de forma ainda mais intensa a partir da publicação da nota em prol do diálogo entre os poderes, que foi divulgada dois dias após o Dia da Independência. Apesar de alguns de seus aliados terem se irritado com o posicionamento e acusado Bolsonaro de ter recuado. Logo depois, o presidente negou ter recuado, e Roni concorda com ele.

Na última sexta-feira, 10, Bolsonaro justificou que, ter dito, em nota, que suas ameaças ao STF foram realizadas no “calor do momento”, não significa que tenha recuado. “Não dá para ir para o tudo ou nada”, afirmou. Assim, em concordância com o presidente da República, tanto Roni, quanto Alexandre acreditam que foi uma decisão estratégica e que pode mudar o cenário de ameaças dos demais poderes em relação ao chefe do Executivo.

“O governo saiu bem mais fortalecido do que era para a possibilidade de ser reeleito. Eles querem mostrar que o Bolsonaro é extremista e que as atitudes dela são extremistas, mas quando ele publicou a nota, ele mostrou que não é bem assim. Que está aberto ao diálogo, que também pode errar e que a democracia é formada pelos três poderes, ressaltando a necessidade de diálogo”, explicou Alexandre. Já Roni acredita que isso pode ser caracterizado como um jogo de inteligência. “Ele mostrou que quem criou essa instabilidade e essa ruptura com os poderes não foi ele, foi o próprio STF”, opinou o professor.

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