Lula: “Você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam”

Em livro publicado no mês que antecedeu sua prisão, ex-presidente conta conversa que teve com Dilma pouco tempo antes do impeachment

Foto: José Cruz Agência Brasil

“Quando a Dilma ga­nhou em 2014, eu estive com ela, senti a Dilma triste no dia da vitória [26 de outubro de 2014]; eu estive com ela junto com o Franklin Martins, e saímos conversando da casa dela para o hotel onde ela foi fazer o pronunciamento, [eu] convencido de que era a primeira vez que via uma pessoa ganhar triste, inquieta.” Quem diz isso é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), entre a metade e o final de fevereiro, naquela que seria a última entrevista concedida pelo petista antes de ser preso no sábado 7 de abril.

Identificado com autor do livro, Lula aparece em uma entrevista de 125 páginas publicada no dia 16 de março como parte de “A Verdade Vencerá: o povo sabe por que me condenam” (Boitempo Editorial, 2018, 216 p.). Parte das três rodadas de perguntas, nos dia 7, 15 e 28 de fevereiro, feitas no Instituto Lula, em São Paulo, pelos jornalistas Juca Kfouri, Maria Inês Nassif, o professor de relações internacionais Gilberto Maringoni e a fundadora e diretora da editora Boitempo, Ivana Jinkings, são sobre a relação de Lula com a destituída presidente petista Dilma Rousseff.

Sobre a vitória de Dilma, em ou­tubro de 2014, Lula continua: “A sen­sação que tive foi de que ela não tinha gostado de ganhar. Quando me aproximei dela, ela falava: ‘Eu nunca mais quero participar de um debate, nunca mais’. Estava visivelmente irritada, não sei se foi pela vitória apertada; mas a vitória apertada é mais gostosa do que qualquer outra coisa!”.

Mesmo ao dizer no livro que os dois sempre foram muito próximos, Lula tece críticas pesadas às decisões tomadas durante os pouco mais de cinco anos e quatro meses que Dilma esteve na Presidência da República. Mas antes afirma que sempre esteve muito ligado à presidente destituída pelo Con­gresso. “O que eu comecei a notar? Que havia, por parte da imprensa, uma tentativa de criar uma separação entre Dilma e Lula. Todo santo dia tinha uma tentativa de criar divergência.” E continua: “Era um compromisso total, de alguém que tinha indicado uma pessoa em quem confiou plenamente”.

A principal das críticas é sobre o perfil arredio e distante de sua equipe que a petista construiu. “Em todas as conversas que eu mantinha, as pessoas queixavam-se 100% dele [Aloizio Mercadante, então ministro-chefe da Casa Civil] e 101% da Dilma. E eu nunca vi tanta unanimidade de deputados e senadores contra; todo mundo reclamava. Eu cheguei a ponto de dizer pra companheira Dilma: ‘Olha, você vai passar para a história como a única presidente que nem os ministros defenderam’”, comenta o petista.

Lula diz na entrevista contida no livro que esperava uma atuação mais coletiva de Dilma, o que não aconteceu quando ela esteve no Palácio da Alvorada. “Eu apenas achava que a mesma inteligência que ela usou para aprender termos técnicos, termos econômicos, ela deveria ter tido para aprender na relação humana, na relação com o político”, reclama.

Em três rodadas de entrevistas, Lula da Silva faz críticas à postura de Dilma Rousseff, que não ouvia seus conselhos | Foto: Ricardo Stuckert

Muitos erros
O petista chega a ser taxativo sobre a falta de habilidade da ex-presidente para lidar com a equipe de governo. “Ela cometeu muitos erros na política pela pouca… talvez pela pouca vontade que ela tinha de lidar com a política; muitas vezes ela não fazia aquilo que era simples de fazer.” E diz que a petista pecou muito quando se defendeu durante o impeachment em 2016. “Quando você decide enfrentar uma guerra como a do impeachment, politicamente, quem está no governo precisa ter noção da força que tem. Não se trata de se reunir com um deputado de um partido!”, descreve.

Para Lula, o governo Dilma pecou na estratégia adotada junto ao Congresso e seus apoiadores, o que teria ocasionado a abertura do processo de destituição pela Câmara, no domingo 17 de abril de 2016, por 367 votos a favor, 167 contrários e 7 abstenções. “É você chamar a bancada do partido que te apoia, com o presidente do partido que te apoia, com os senadores e os ministros do partido que te apoia, colocar na mesa: ‘Estamos aqui, qual é o jogo?’. Isso não foi feito em nenhum tempo, acharam-se números fictícios de que teríamos 300 votos, 280, 270, e terminou não sendo…”

Lula diz que por muitas vezes procurou uma versão da Dilma presidente que não existia. “Acontece que, quando ela assumiu… Vocês se lembram de uma frase minha: ‘Cadê a Dilma da Dilma?’. Qual era a minha preocupação? A Dilma tinha levado a Casa Civil para dentro da Presidência, a Casa Civil passou a morar no Alvorada. Talvez ela achasse que não havia alguém, além dela, capaz de fazer as coisas. É uma diferença de origem, de formação”.

Na entrevista, o ex-presidente lembra que por várias vezes tentou ajudar Dilma com indicações para a formação de sua equipe econômica, como Henrique Meirelles (MDB) para o ministério da Fazenda, quando a petista ignorou o conselho e voltou da Austrália com Joaquim Levy como o escolhido. Em outra oportunidade, Lula defende que alertou a ex-presidente da demora em agir: “Tem muita coisa para falar desse período. Eu dizia para a Dilma: ‘Querida, não espere janeiro [de 2015] para mudar o seu governo; ele vai nascer velho. Mude agora, troque agora’”.

Por várias vezes no livro, Lula revela que ficou insatisfeito com muitas posturas e atitudes de Dilma enquanto presidente. Uma delas era a mania de dizer que “está tudo normal”. “Quando um governo coloca na cabeça que está tudo certo, é difícil mudar. E o partido tinha pouca influência, porque a Dilma era muito gentil. […] A verdade é que aquilo que nós falávamos não acontecia, porque não era o que ela queria nem o que outras pessoas do governo queriam”, observa.

Livro é registro da última entrevista de Lula antes de ser preso em Curitiba | Capa: Ronaldo Alves; Foto: Ricardo Stuckert

A eleita que governa
Aparentemente cansado de dar opinião e tentar ajudar Dilma a presidir o País, Lula se mostra conformado: “E aí, o que eu falava, depois de já ter sido presidente? ‘Bom, ela ganhou, ela tem que governar’”. Mesmo com dificuldade ao cumprir o papel de conselheiro da petista, o ex-presidente defende que Dilma sempre mostrou “uma postura de muita lealdade” com ele.

“Eu tinha sido alertado de que a Dilma ia ter dificuldades na política, mas eu a achava tão inteligente… Se ela tivesse montado uma equipe…”, admite o erro ao escolher a ex-ministra-chefe da Casa Civil como sua sucessora. E relata a gravidade da troca de Alexandre Padilha como ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais por Ideli Salvatti em junho de 2011. “Não queria que o Padilha fosse ministro da Saúde, eu queria que ele continuasse como ministro responsável pela articulação política, porque ele era tudo o que a gente precisava, uma figura simpática, agradável, que se relacionava com todo mundo.”

Outra pessoa que Lula diz ter insistido para que não assumisse a Casa Civil seria Antonio Palocci, hoje desafeto do PT, mas que fez parte dos governos petistas. “Falei pra ela, mas ela não me ouviu.” O petista, em certos momentos, chega a ironizar a falta de habilidade de Dilma, como neste trecho: “Ela chegou a falar para um deputado, brincando: ‘Você não entende de política’. O cara tá na Câmara há 48 anos… [risos]”.

Para o ex-presidente, sua atuação durante os dois mandatos da petista teria sido a de falar aquilo que ela não ouvia dos mais próximos. “Eu era a única pessoa que dizia à Dilma as coisas como elas eram, conversando com franqueza. Ela ouvia, mas, como tem uma personalidade muito forte, devia pensar: ‘Esse cara não entendeu nada’”, avalia Lula. Na entrevista, ele alega que alertou Dilma sobre a diferença entre respeito e medo. “Quando o cidadão te respeita, ele vai fazer coisas que você espera; quando ele tem medo, ele começa a evitar conversar com você’.” E revela que havia até uma piada nos bastidores do governo sobre “as duas alegrias dos ministros”: “Uma quando conseguiam a audiência e outra quando era desmarcada [risos]”.

Sobre o impeachment, Lula faz a seguinte consideração sobre o momento: “Costumo fazer um paralelo entre a Dilma e o Fernando Henrique Cardoso; em 1999, ele estava na mesma situação que a Dilma em 2015: com 8% de aprovação nas pesquisas, morto. Qual era a diferença? O Fernando Henrique Cardoso tinha o Temer como presidente da Câmara querendo aprovar as coisas e o [Marco] Maciel, como vice, completamente fiel a ele. A Dilma, na presidência da Câmara, tinha o Eduardo Cunha, totalmente antagonizado com ela, e um traidor como vice [Michel Temer]”.

Apesar de fazer várias críticas aos erros cometidos por Dilma, como a negativa em aumentar o preço da gasolina, que teria sacrificado o setor de produção de etanol, e mudar o nome do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para Plano de Investimento em Logística (PIL), o que deu errado, Lula reconhece a lição deixada pelo impeachment. “O Congresso Nacional não gosta de presidente forte, eles gostam de presidente fraco. Quanto mais fraco, mais eles impõem a regra do jogo. O presidente tem que ser forte. Quando o presidente é forte, meu caro…”, pontua.

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Adalberto de Queiroz

A matéria acabou assim mesmo? “Quando o presidente é forte, meu caro…”, pontua.”
O leitor fica interessado em saber: “Meu caro, etc. etc…”