Liderança feminina: mulheres inovam e superam desafios na pandemia

A preocupação em abrir caminhos para que as mulheres cresçam no mundo corporativo está cada vez mais evidente. Elas trilham caminho e são exemplos na superação de obstáculos

Vivenciamos uma aceleração das mudanças, que traz desafios imensos para as empresas e para a sociedade. É neste cenário de grande evolução em que a liderança feminina está cada vez mais presente na agenda corporativa. Ainda que sejam minorias a frente de empreendimentos, elas demonstram que estão preparadas para momentos de incerteza e instabilidade econômica, elas aproveitam oportunidades de reinventar, revisar a própria carreira e de conquistar o sucesso.

Seja por necessidade, inspiração ou desejo de empreender, as brasileiras seguem na luta pela conquista de seu espaço. Ainda que os obstáculos se agigantem, elas sempre sabem a dimensão do próprio potencial.

Paula Garcia Magalhães, sócia-fundadora do Amor & Co. sabe bem como é essa jornada. Ela idealizou seu negócio enquanto estava grávida de seu segundo filho. Ao mesmo tempo em que gerava um filho, ela se inspirava para empreender e criar a fábrica de fraldas ecológicas. Um modelo que tem se popularizado bastante e ganhado mercado.

“Me organizei em maio do ano passado. Em agosto abrimos o Microempreendedor Individual. Entramos no mercado em novembro, de forma muito tímida. A gente trabalhava em feiras e eventos, além da loja virtual, que também era tímida”, conta a empresária. Ela buscou aperfeiçoamento, ideias e se preparou para seguir com a empresa. Mas no começo do ano a pandemia jogou um balde de água fria.

Paula Garcia Magalhães, sócia-fundadora do Amor & Co. | Foto: Arquivo pessoal

O que Paula não havia se dado conta ainda era que de estava preparada para enfrentar essa adversidade e que poderia se dar muito bem. Ela conta que percebeu que as pessoas estavam ficando em casa, mais tempo com celular e na internet. Isso poderia favorecer suas vendas online. E foi exatamente o que aconteceu.

“Em abril eu tinha duas representações. Hoje eu tenho 22. Estamos atendendo praticamente o Brasil todo. Eu estou me surpreendendo muito”, diz a empresária. Ela não está mais sozinha no negócio, ganhou sócias e trabalha com um olhar mais profissional para seu empreendimento. 

Paula considera que a guinada no negócio foi favorecida pela formação e pelo treinamento que permitiu a ela explorar seus potenciais e a aproveitar a oportunidade. Ela participa de um programa do Sebrae chamado “DELAS” (Desenvolvendo de Empreendedoras e Líderes Apaixonadas pelos Sucesso. “Recebi orientações em grupo e individual sobre marketing digital, design thinking e finanças. Tudo isso me fez ver meu negócio de forma mais profissional. A trabalhar de uma forma diferente e que dá resultado”, diz. “Eu percebi que já praticava algumas coisas, mas de forma intuitiva. Agora não, agora sabemos para onde olhar. Temos prazos para cumprir e precisamos dos processos de operação padrão. Profissionalismo né”, completa.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), no primeiro trimestre de 2020, o número de mulheres que perderam o trabalho foi 25% maior que o de homens, aumentando a probabilidade de busca do empreendedorismo por necessidade pelas mulheres, muitas delas chefes de família.

A fotógrafa Cristina Dourado, que também participa do DELAS, aponta que a consultoria junto ao Sebrae a ajudou entender o seu negócio e de que forma se posicionar para o mercado. “Não quero ser uma pessoa que lida apenas com um tipo trabalho. Eu faço eventos, fiz aniversários e outros trabalhos. Meu produto é abrangente”, diz.

Cristina também se reinventou durante a pandemia. Usou sua inspiração e dom de empreender e lançou um novo produto. “E uma coisa que eu me envolvi que aconteceu neste momento, chama-se minipack. É um serviço em que a pessoa contrata  uma hora de trabalho fotográfico. Faço fotos do cliente para ele ter um banco de imagem para sua empresa. Profissionais liberais também têm procurado: São músicos, chefs de cozinha, arquitetos… Todos podendo usar o poder da imagem”, conta.

Fotógrafa Cristina Dourado | Foto: Luiz Augusto de Souza

A fotógrafa conta que sua relação com o DELAS começou de forma despretensiosa. “Fizemos uma primeira parte que tratamos como  inspiração. Nesta parte era um trabalho aberto. Haviam pessoas com empresas, MEI e outras ainda não tinham empresa. Em um segundo momento fizeram uma proposta que era a “transpiração”. Vieram para dentro da nossa empresa, vivenciando nosso dia a dia e fazendo apontamentos. E agora tem a terceira fase que é a “travessia”, relata. 

Cristina conta que tudo em sua empresa foi repensado a partir das reuniões com o DELAS. “Nosso planejamento financeiro foi refeito. Adotamos uma nova forma de marketing digital. Todo esse trabalho é muito importante para o negócio.”

Segundo estudo do Mckinsey Global Institute, a promoção da igualdade de condições de trabalho promoveria um incremento de cerca de 30% do produto interno bruto (PIB) brasileiro.

A pandemia quase desmotivou a empresária Nathalia Pedroso. Mas ela encarou a crise provocada pelo novo coronavírus como mais um dos desafios que ela já superou. E foi pra cima. “Quando começou a crise eu peguei minha reserva para ver quanto tempo iria sobreviver. Mas não foi isso o que aconteceu. Eu consegui fazer bons negócios”, diz. Ela é proprietária da Luna Greentech, uma uma empresa que atua no desenvolvimento de inovações tecnológicas e sustentáveis na produção de insumos naturais para cosméticos.

“Conseguimos 70% crescimento em um ano. Vendemos bastante matéria prima e insumos para higiene pessoal. Esse resultado é porque estávamos preparados para a hora certa”, avalia Nathalia. 

Parte desta preparação também partiu das consultorias do DELAS. Nathalia já tinha a empresa há dois anos quando recebeu a consultoria do Sebrae e, segundo ela, as mudanças foram perceptíveis. “Tivemos consultoria desde o princípio do ano. Foram conversas em grupo e individualmente. Tudo me fez ver melhor sobre o que o mercado precisa. Eles tratam nossas feridas. Vêem nosso ponto fraco e em seguida somos orientadas ao melhor caminho. É de grande valia”.

Exemplos de lideranças femininas

Os relatos das empreendedoras revelam como é importante a atuação de mulheres líderes para o mundo corporativo. Um estudo realizado pelo Instituto Peterson de Economia Internacional, com mais de 20 mil empresas de 91 países, identificou que as organizações com até 30% de liderança feminina tiveram um aumento de 15% em rentabilidade. Os dados da pesquisa evidenciam a competência das mulheres e as múltiplas tarefas que elas assumem nas últimas décadas.

O mundo do trabalho está exigindo um novo profissional, competências que perpassam por habilidades técnicas e socioemocionais, combinação que se mostra nas pesquisas com mulheres que ocupam cargos de alta gestão ou que são líderes empresariais.

24 milhões de mulheres empreendem no Brasil

E quando mulheres alcançam o sucesso no empreendedorismo elas se tornam espelhos para outras, que por vezes tem uma ideia, tem a inspiração e a vontade, mas não acreditam no potencial. “Por ser mulher temos um ponto a menos no mercado que é dominado por homens. Eu tive esse desafio. É preciso ter preparo e trabalhar para chegar a frente”, aponta Nathalia Pedroso. 

“Eu acredito que estou encorajando mulheres e espero que isso ocorra cada vez mais. O negócio que tem mulher a frente ele é um pouco melhor, porque mulher faz tudo e ainda  consegue colocar o coração. Temos esse diferencial”, enfatiza a empresária. 

Cristina pensa da mesma forma. “Eu acho que é muito fortalecedor poder contar com a inspiração de mulheres. As mulheres em geral são solidárias. A gente quer promover o mesmo bem estar para todas. Não somos tão competitivas”, diz. 

Já Paula diz acreditar que a inspiração que ela encontra nas outras mulheres é o diferencial do DELAS. “Quando vejo que outras mulheres enfrentam os mesmos preconceitos e barreiras que eu, essas histórias me inspiram. O fato de ter um espaço para encontrar outras mulheres e conhecer o sucesso e as dores delas é importante. Precisamos desses momentos para compartilhar nossas histórias.”

De mãos dadas para liderar

O DELAS é um programa do Sebrae de aceleração para ajudar empresárias a desenvolver a sua capacidade empreendedora e superar a crise. A ideia é disponibilizar capacitações e orientações gratuitas com o objetivo de aumentar a probabilidade de sucesso de negócios e ideias liderados por elas.

Consultoria Online Sebrae | Foto: arquivo pessoal Vera Lúcia

Nesse programa as mulheres têm a oportunidade de participar de atividades para desenvolver competências técnicas e emocionais buscando gerar negócios inovadores e sustentáveis. Elas participam de eventos, tem acesso a conteúdos sobre aspectos macroeconômicos, mercado, setor de atuação e boas práticas, além de consultorias individuais e em grupo.

Em Goiás a coordenadora do DELAS é a Vera Lúcia Vera Elias de Oliveira. Ela conta que a iniciativa nasceu depois de perceberam o comportamento de empreendimentos liderados por mulheres. “Em 2019 o Sebrae lançou uma série de estudos que trouxe como resultado as dificuldades das mulheres para empreender. Então precisávamos fazer algo para ajudar esse cenário a mudar”, conta. 

Vera Lúcia conta que o DELAS é baseado em três pilares, “Meu, eu, nós”, que são voltados para despertar e fortalecer a cultura empreendedora das mulheres. O “eu” corresponde ao que a mulher precisa desenvolver em sua vida, carreira, família, saúde e outros aspectos de sua vida. Os conteúdos trabalhados nesse pilar estão alinhados aos conceitos da psicologia positiva.

O “meu”, é tudo o que envolve o negócio, a ideia e o projeto. Por isso, os assuntos abordados estão alinhados ao caminho do empreendedor visando alcançar a maturidade e o crescimento da empresa.

No “nós” as temáticas envolvem o universo da comunidade feminina com abordagem na conexão entre as participantes e também com outras empreendedoras, a fim de construir e fortalecer redes de empreendedorismo feminino.

“Qualitativamente temos percebido que as mulheres que estão praticando as recomendações têm ampliado o faturamento em até 100%. Elas conseguem aumento a carteira de clientes e a presença digital aumentou muito. Diria que conseguimos mais de 20% da transformação digital das mulheres”, avalia a coordenadora do programa.

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