Já não nos chocamos mais com a violência e os escândalos?

Parece que os brasileiros passaram a considerar “tudo normal”, desde os crimes contra a vida até os episódios de corrupção que se tornaram rotina no País

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Cezar Santos

“O horror, o horror…”

Palavras finais do personagem Kurtz, o europeu enlouquecido da obra-prima “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad.

O horror nos entra pelos olhos a todo momento, em todos os dias: a televisão, o rádio, os jornais e revistas, todos os meios de comunicação, principalmente a internet com sua instantaneidade, nos trazem a notícia. Como se não bastasse, a indústria cultural, principalmente a TV, se esmera em produzir atrações de baixo nível, como BBBs, que se tornam campeões de audiência. Ou seja, há quem goste e cultue o lixo, e até paga por isso.

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões…

A barbárie é variada. Criança arrastada até a morte. Pais que matam filhos. Filhos que assassinam pais. Genocídios. Pedofilia com bebês. Padres pedófilos. Evangélicos tarados. Estupros coletivos. Pornografia. Sequestradores mantêm reféns por décadas. Linchamentos. Psicopatas matam e comem pedaços de suas vítimas. Terroristas degolam reféms ao vivo. Ativistas introduzem crucifixos na vagina em público. Juízes vendem sentenças. Políticos ganham milhões e milhões em “consultorias” fajutas. Filho de ex-presidente da República fica milionário do dia para a noite. Ex-presidente da República enrolado em negociatas…

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação…

Não cabe numa página de jornal listar o compêndio de crueldades e imoralidades que acontecem lá longe, no outro lado do mundo, ou aqui no nosso país, no nosso Estado, na nossa cidade. A violência do ser humano contra seu semelhante, de grupos contra a população de um país, em variados graus, chega a níveis impensáveis para mentes ditas “normais”.
A política também produz fatos chocantes. Para nós brasileiros, a imoralidade chegou a extremos. A cada dia, um novo escândalo. Figuras que deveriam zelar pelo bem público se revelam escroques empedernidos. “Pais da pátria” surrupiam a pátria à luz do dia. Presidentes da Câmara e do Senado, Eduardo Cunha e Renan Calheiros, estão enrolados na corrupção. A presidente Dilma Rousseff se encontra com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) em outro país para tratar de assuntos nada republicanos, num total inconveniência ética.

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião…

E aí, muitos dizem “ah, é assim mesmo, sempre foi assim, todos roubam”.  Não é por acaso é esse o único argumento de defesa que os petistas que hoje comandam o País podem levantar: “só fazemos o que todos fazem; roubamos como todos roubam”.

A deterioração moral do PT pode ser personificada no ex-ministro José Dirceu (não só nele!), ex-presidente da sigla, que só não foi o nome do partido para suceder Lula da Silva como candidato à Presidência por ter sido flagrado na corrupção e condenado. Hoje, a cada dia, se revela que ele recebeu milhões e milhões do esquema de corrupção que drenou a Petrobrás.

Vamos celebrar Eros e Tanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade…

Diante dessa realidade de horror, há quem diga que as pessoas parecem não mais ficar indignadas com o que acontece. A violência, a estupidez, a falta de compostura, o ultraje, a grossura, o estapafúrdio, o grotesco, a corrupção, a leniência, a imoralidade absoluta e total se tornaram banais? A imagem de José Dirceu indigna as pessoas honestas? A imagem de linchamentos nos abala? Ou perdemos a capacidade de nos chocar?

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais…

O excesso leva à dessensibilização,

O psiquiatra Marcelo Caixeta diz não ter dúvida de que as pessoas ficam chocadas com certas coisas que veem no noticiário, mas admite que de fato existe essa tendência de começarem a achar “normal” o que é chocante. O psiquiatra reconhece uma dessensibilização das pessoas e credita isso principalmente à internet, que traz o “mundo cão” para a vida da gente.

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E sequestros…”

“A oferta de fotos, filmes sobre qualquer assunto, pornografia, mortes e qualquer coisa que se possa imaginar, está ao alcance das pessoas com alguns cliques. Se o cara gosta de ver gente sem cabeça, clica e vê. Se gosta de pedofilia, também. E a busca por esse tipo de coisa vai cada vez mais se aprofundando, não há satisfação e as pessoas querem sempre mais. Esse processo leva à dessensibilização”, diz o psiquiatra.

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã…”

Ele lembra ainda que os meios de comunicação não dão trégua: “E é só notícia de coisas ruins, coisas estranhas chegando a todo o momento”, diz o psiquiatra. Esse fato acaba causando um amortecimento psíquico e moral nas pessoas, o que de certa forma vai anulando ou diminuindo a capacidade de indignação.

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração…

Nesse sentido, Marcelo Caixeta diz que a imprensa de modo geral tem culpa nesse contexto, ao superficializar as coisas e não fazer o mea culpa no processo, além de não analisar as causas dos fatos, quase sempre só destacando o negativo.

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão…

Artigo: “Hoje, pode-se ver o que até então deveria permanecer oculto”

Cristiano Pimenta*

Nos tempos atuais vivemos as consequências de um desenvolvimento vertiginoso que a ciência, a serviço do capitalismo globalizado, vem produzindo. Os aparatos tecnológicos estão presentes em todos os setores das nossas vidas.

Uma das consequências mais importantes em nossas vidas diz respeito às modificações ocorridas no campo do olhar. Hoje, pode-se ver o que até então deveria permanecer escondido, oculto. Basta estar conectado à internet para, num click do mouse, se ter acesso às mais variadas formas de imagens proibidas.

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada…

Os acontecimentos recentes da divulgação viral via WhatsApp dos corpos de Cristiano Araújo e a namorada Allana mostram bem o que estou dizendo.

Aquilo que pode ser considerado transgressivo, ou seja, um real repulsivo ao olhar, aparece constantemente na cena projetada por nossas telas. E constatamos que é por intermédio delas que hoje vemos o que acontece no mundo. A consequência dessa exposição é uma banalização desse real que antes era interditado e mantido velado.

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção…

As cenas do ataque ao edifício World Trad Center, no 11 de setembro, por exemplo, já se tornaram banais ao nosso olhar. Outro exemplo importante de ser discutido é o da pornografia dita “caseira”. As relações sexuais reais (real sex videos), que antes só poderiam ser vistas pelo buraco da fechadura, invadem um terreno novo, o da cena de nossas telas de LED.

Não se pode negar que essa pornografia não seja um componente importante num programa televisivo de sucesso, o chamado Big Brother. Todos sabem que aquilo que os brothers fizeram e que não pode ser mostrado na TV será exibido “na íntegra” na internet.
Não vejo possibilidade de se compreender esses fenômenos sem o auxílio da psicanálise justamente pelo fato de que podemos constar que há aí uma satisfação, um gozo, às vezes paradoxal. Há um gozo perverso em ver as entranhas, em ver a carne por debaixo da pele, se assim posso me expressar.

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!…

Vivemos numa época em que não apenas podemos desfrutar desse gozo como somos incitados e até mesmo compelidos a fazê-lo. As consequências são danosas. Ainda quanto à pornografia, já podemos acompanhar os efeitos da exposição dessas imagens nos costumes das novas gerações: o estilo das relações sexuais se encontra marcado pelo desencantamento, pela banalização e até mesmo pela brutalização.

O que fazer diante dessa situação?

*Psicanalista membro da Escola Brasileira de Psicanálise e da Associação Mundial de Psicanálise. Mestre em psicologia clínica e graduado em filosofia.

[Os versos em destaque são a letra da música “Perfeição”, da banda Legião Urbana, autoria de Renato Russo — álbum “O Descobrimento do Brasil”, de 1993]

Uma resposta para “Já não nos chocamos mais com a violência e os escândalos?”

  1. Avatar Uatá Lima disse:

    O linchamento ocorre não porque há uma dessensibilização das pessoas, mas sim porque as pessoas se chocam e muito com a violência contra pessoas inocentes. Ficar horrorizado com morte de bandido é o mesmo que ficar indiferente com a morte de inocentes.

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