Iris Rezende ganhou a eleição, mas nunca esteve tão frágil politicamente

Ao forçar a mão para eleger o presidente da Câmara de Vereadores, peemedebista joga crise para dentro do Legislativo; pra piorar, forma equipe composta por perdedores

Iris Rezende: foi eleito, mas fragilidade política fica evidente nos números da eleição e na dificuldade para formar equipe | Foto: Kelly Nascimento

Cezar Santos

O PMDB venceu a eleição na capital no ano passado, sacramentando o quarto mandato de Iris Rezende na Prefeitura. As informações dessa primeira frase não trazem nenhuma novidade, é certo, posto que o decano peemedebista efetivamente assumiu em 1º de janeiro, conforme determina o calendário eleitoral, montou sua equipe e está governando.

Mas, longe de navegar em águas calmas, Iris Rezende não teve um dia sequer de tranquilidade desde que foi sacramentada sua vitória no segundo turno sobre Vanderlan Car­doso (PSB). Pelo contrário, os problemas se deram no minuto seguinte, quando ele teve de começar a montar na cabeça a equipe de auxiliares.

Aliás, a necessidade de garantir a governabilidade a todo e qualquer preço, fez Iris Rezende interferir com mão pesada na eleição da mesa diretora da Câmara de Vereadores. Ele impôs o nome de sua preferência, o vereador Andrey Azeredo, para a presidência, garantia de que tanto quanto possível, o comando da Casa será subserviente aos interesses do Executivo. E, para isso, Iris chegou a vetar aliados até de seu partido, como Wellington Peixoto.

A interferência pesada de Iris na Câmara, entre outros fatores, deixou sequelas e a crise está instalada na Casa. O vereador Jorge Kajuru, do PRP, por exemplo, em tese aliado do Paço, já mostrou que será um incômodo também para o prefeito. Ele está pedindo a anulação da eleição da mesa diretora da Câmara, sob argumento de que houve interferências externas na escolha dos nomes.

Resolvida questão de ter na Câmara um aliado totalmente fiel, a equação seguinte para Iris Rezende foi a formação do secretariado, o que vem sendo um parto dolorido. E aí a surpresa: logo de início Iris nomeia para sua equipe Kleber Adorno, na Cultura, e Samuel Almeida, no Governo. Duas figuras que respondem a ação penal movida pelo Ministério Público de Goiás.

Os goianienses certamente se perguntam se Kleber e Samuel são tão bons a ponto de o prefeito não ter outros nomes limpos de suspeita para a função? Claro que essas nomeações iriam dar problema e, na quarta-feira, 18, os vereadores Elias Vaz (PSB), Jorge Kajuru (ele de novo) e Priscilla Tejota (PSD) protocolaram no Ministério Público duas representações que pedem o afastamento dos secretários recém-empossados.

Kleber Adorno e Samuel Almeida estão sob suspeita, mas integram o primeiro escalão: não havia nomes limpos? | Fotos: Paulo José (Kleber); Divulgação (Samuel)

E tem mais “enrolados” na equipe de Iris. O servidor Wesley Batista foi nomeado pelo prefeito para a chefia de gabinete do Instituto de Assistência à Saúde e Social dos Servidores (Imas). Batista ocupou o cargo de diretor do Departamento de Alimentação Educacional (Dale) na gestão de Paulo Garcia, foi afastado pelo petista e recebeu suspensão de três meses por decisão de uma comissão instituída pela prefeitura para apurar as denúncias de irregulaaridades na compra e repasse da merenda escolar em Goiânia. A Polícia Federal ainda está investigando a denúncia e, na quinta-feira, 19, o vereador Elias Vaz (PSB) anunciou que vai notificar o Ministério Público Federal sobre a nomeação de Batista.

Na semana que passou, o pre­feito anunciou mais alguns no­mes, o que tem sido feito aos poucos e mostra as imensas dificuldades que Iris vem en­frentando para fazer as acomodações necessária a fim de abrigar aliados de vários matizes.

Time de derrotados

Mizair Lemes Jr., Célia Valadão, Ormando Pires, Sílvio Fernandes e Robson Paixão de Azevedo: perderam nas urnas em 2016, mas ganharam lugar no time de derrotados da equipe irista | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção (Célia, Ormando e Robson); Câmara de Vereadores de Goiânia (Mizair); e Divulgação (Silvio).

Diante dessas dificuldades, chama a atenção o grande número de candidatos derrotados nas eleições municipais que, de uma forma ou de outra, estão se impondo nesse arranjo. Gente que, se tem (ou tinha) votos, não têm efetivamente maiores predicados para o exercício administrativo. Isso é prenúncio de que a gestão propriamente dita do quarto mandato de Iris Rezende começa contaminada pela ineficiência.

Nesse rol de gente sem grandes predicados, pode-se arrolar nomes como dos ex-vereadores que tentaram e não conseguiram a reeleição: Célia Valadão, do PMDB, e Mizair Lemes Jr., do PR. Célia ficou apenas na quarta suplência da coligação PMDB-PDT-PRTB e foi nomeada para a Secre­taria da Mulher. Mizair, que ficou na segunda suplência da chapa PR-PMN, é o novo diretor de Planejamento da Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg).

Na Comurg também foi agasalhado Ormando Pires (PMDB), ex-presidente da empresa e que agora é diretor Operacional. Ormando foi também um derrotado na eleição do ano passado. O mesmo caso dos médicos Sílvio Fernandes (DEM), novo presidente do Instituto de Previdência dos Servidores Municipais (IPSM), e Robson Paixão de Azevedo (PMDB), designado superintendente de Vigilância em Saúde.

Trata-se de um belo time de… derrotados.

Não se pretende colocar em dúvida a capacidade de trabalho dos novos auxiliares de Iris Rezende, que nem começaram a atuar, mas não há dúvida de que a montagem de uma equipe com tantos derrotados indica fragilidade política de Iris. O decano se vê obrigado a abrigar todas as tendências possíveis dentre de seu governo, como forma de tentar garantir a governabilidade.

Esse quadro, antes, era impensável. Mesmo tendo de fazer acomodações — como, de praxe, fazem todos os eleitos para o Executivo também nas esferas estadual e federal —, Iris tinha força para surpreender positivamente na montagem de sua equipe, visando a boa gestão. Foi assim em 2005, quando ele alçou gente nova para o primeiro escalão, quadros como Waguinho Siqueira, Francisco Júnior e Agenor Ma­riano. Eram nomes técnicos que se revelaram bons políticos no desempenho de suas funções.

Agora, a equipe que está sendo montada aos trancos e barrancos não tem perfil técnico, e o perfil político, que evidentemente tem, é lamentável, para dizer o mínimo.

Até que ponto Caiado e Braga serão aliados fiéis?

Senador Ronaldo Caiado e publicitário Jorcelino Braga: projetos próprios poderão afastá-los de Iris Rezende | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Outro indicador da fragilidade política de Iris Rezende se dá na falta de um grupo forte e coeso em torno dele. Não vale citar aqueles velhos “manda-brasas” sem votos, que desde sempre se serviram de Iris para ocupar cargos sem dar a devida contrapartida em termos de utilidade efetiva para a população no exercício desses cargos. Dentro do PMDB, há claramente uma corrente que destoa do decano, mesmo reconhecendo nele uma liderança ainda forte. É o caso do grupo maguitista, que tem pensamento diverso ao de Iris no que diz respeito a futuro — e o futuro está bem ali, na virada de 2017 para 2018, quando se definem as alianças para a campanha ao Palácio das Esmeraldas.

E se alguém disser que o grupo de Iris Rezende hoje é composto pelo senador Ronaldo Caiado (DEM) e o ex-secretário Jorcelino Braga, presidente do PRP, a resposta é sim. Mas cabe questionamentos. Caiado está com Iris na medida em que Iris puder ser um aliado para ajudar a levar o PMDB a compor seu projeto de candidatura ao governo em 2018 — se o projeto nacional do senador não vingar. E, aí, o choque com os maguitistas será inevitável — aliás, já vem saindo faíscas, por enquanto pequenas.

Caiado e Braga são aliados circunstanciais de Iris Rezende. Aliaram-se ao peemedebista porque se isolaram politicamente. Iris é a possibilidade deles de estarem no poder na capital, o que é importante para sustentar certa visibilidade e abrigar alguns cabos eleitorais na Prefeitura. Mas, e quando chegar 2018? Se Maguito Vilela (ou Daniel Vilela) for candidato pelo PMDB, como fica essa aliança? Caiado e Braga sairão da aliança com os peemedebistas?

Dificilmente os dois permanecerão fiéis a Iris, quando não houver mais perspectiva de poder. E não se está insinuando aqui que Ronaldo Caiado e Jorcelino Braga são homens maus ou adrede propensos à traição, mas não se pode esquecer que eles têm projetos políticos, o que é natural, e se Iris não estiver em condições de ajudá-los a alavancar esses projetos, eles buscarão possibilidades mais efetivas.

Seria exagero dizer que, neste momento, o prefeito Iris Rezende estaria quase isolado no PMDB, mas não é exagero considerar que ele está longe, muito longe de exercer o domínio absoluto de outrora. Há adversários internos, que hoje são fortes e que perderam o medo de enfrentar o decano nas hostes partidárias.

Se há problema para Iris em seu próprio partido, fora a situação também não é das melhores. Basta lembrar que na campanha do ano passado ele se viu obrigado a se aliar a siglas pequenas, insignificantes até. O resultado é que o decano não conseguiu formar um grupo que o sustente. As poucas figuras novas que têm surgido carecem de expressão política.

Daniel Vilela e Maguito Vilela: se um deles for o candidato do PMDB em 2018, complica situação de Iris | Fotos: Fernando Leite/ Jornal Opção

Maioria não quis Iris

Por fim, mesmo com quase três meses após a eleição, uma rápida análise sobre os números do pleito atesta que houve sim um enfraquecimento eleitoral de Iris Rezende. No primeiro turno, o peemedebista e Vanderlan chegaram na frente, passando ao segundo turno. Iris teve 277.074 votos, ou 40,47%, e Vanderlan teve 217.981 votos, ou 31,84%, com os outros candidatos somando 189.602 votos, ou 27,7%.

No segundo turno, deu Iris Rezende, com 379.318 votos, 57,7%; e Vanderlan Cardoso com 278.074 votos, 42,3%. Mas o interessante aí é que do total de 726.606 votos, os válidos foram 657.392 (90,47%), os brancos 15.478 (2,13%), os nulos 53.736 (7,40%) e as abstenções somaram 230.555 (24,09%).

Então, a simples soma de votos dados a Vanderlan (278.074) com as abstenções (230.555) passa dos 500 mil, enquanto Iris teve 379 mil. Isso prenuncia claramente que a maioria expressiva do eleitorado goianiense não queria Iris Rezende como prefeito, com uns cravando o nome do adversário dele nas urnas, e outros assinalando a recusa na forma de abstenção (quando o eleitor em condição de votar se recusa a fazê-lo, seja por repúdio ao candidato, seja por protesto com o processo político-eleitoral).

O fato incontestável é que Iris Rezende não teve a maioria dos votos dos goianienses, mais um indicador de que seu decantado poder de fogo na capital está arrefecendo. Como o sistema eleitoral brasileiro computa os votos válidos e não o total de eleitores, o peemedebista foi o vencedor e, do ponto de vista jurídico-legal, a vitória dele é inquestionável, mas do ponto de vista político-eleitoral, não.

Por essa se outras, os tempos mostram que a força de outrora que Iris Rezende ostentava diminuiu sensivelmente. A aguardar os próximos acontecimentos.

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