Iris Rezende é o messias cuja vinda não trará nenhuma redenção

Se é preciso dar novo rumo para Goiânia, tudo o que a cidade não precisa é de uma nova administração do líder peemedebista. Ou de alguém que pretenda se passar por ele

Em seu escritório político, Iris Rezende sobe em mesa para ser aclamado por correligionários de Aparecida de Goiânia

Em seu escritório político, Iris Rezende sobe em mesa para ser aclamado por correligionários de Aparecida de Goiânia

Elder Dias

Na semana passada, enquanto as redes sociais e as conversas nos intervalos do trabalho se desenvolviam com comentários e sátiras sobre o “excesso” de chuva em Goiânia — uma blasfêmia para uma cidade que tem uma estação seca de praticamente seis meses —, centenas de famílias passavam por sentimentos e sensações que foram evoluindo com o cair das águas: preocupação, tensão, desespero, pânico, desorientação, tristeza, angústia e desamparo.

Muitas dessas pessoas, a maioria, se encontram entre os habitantes menos favorecidos da capital. São os moradores das áreas de risco, dos fundos de vale, de locais totalmente inadequados para se ter um lar, e que veem o período chuvoso sempre com apreensão. Por conta da escassez de grandes precipitações nos últimos anos, os ribeirinhos viveram tempos de relativa tranquilidade. Neste janeiro, ao contrário, vieram bastantes surpresas. E dolorosas. Na Vila São José, no Crimeia Oeste, no Setor Jaó, no Setor Caiçara e em vários outros bairros, a água do Ribeirão Anicuns e do Rio Meia Ponte invadiu ruas e casas. Móveis e mantimentos, roupas e calçados, esperanças e dignidades, tudo se perdeu em meio à enchente.

Foi também na semana passada, na quinta-feira, 21, em seu escritório político no Setor Marista, que Iris Rezende — ex-prefeito de Goiânia e ex quase tudo em cargos políticos, à exceção de deputado federal e presidente da República — recebeu uma comitiva de peemedebistas de Aparecida de Goiânia. A missão deles era lhe encorajar a ser novamente candidato na capital. Então, deu-se uma cena inusitada: a lenda viva do PMDB goiano subiu em uma mesa e discursou, de cima dela, para a plateia de lideranças de olhos brilhantes.

Uma cena inusitada, mas também icônica. Se fosse eternizada em uma tela, poderia representar fielmente a imagem que Iris Rezende sempre quis passar de si mesmo: vê o personagem de que se ocupa como uma entidade etérea, que aparece quando quer, transcende o tempo e dele dispõe como deseja. Aclamado, ungido, requisitado por seus eleitores — a quem chama sempre de “povo” —, não dá para negar que sabe se projetar como personalidade mítica.

Completa sua figura a veste de administrador inigualável e trabalhador incessante. Uma conjunção de símbolos e palavras chave que formatam um marketing perfeito, fácil de ser elaborado como “natural”. Iris é iluminado; Iris é o homem do povo; Iris sabe administrar; Iris é madrugador. Aquele a quem recorrer nos momentos mais críticos, quando tudo parece ruir e é necessário um ser singular para salvar a cidade do caos e redimir sua população. Sintomática e elementar, então, sua declaração em entrevista no dia seguinte à cena descrita, respondendo à sempre presente questão: “O sr. vai ser candidato?”. “Tenho pedido muito a Deus para me iluminar neste momento. Quem vai definir o meu projeto é a iluminação divina e o coração do povo”, disse à Rádio 730 AM.

Iris é praticamente o mesmo desde seus primórdios na política. Não se renovou nem acha isso necessário. E talvez nem seja. Gosta de fazer obras e o povo que o admira gosta de dizer que ele as faz. Mesmo que sejam de pouca qualidade — se tiver quantidade de sobra para uma prestação de contas na campanha futura é o que importa. No imaginário do brasileiro, é isso que parece condicionar a figura do bom administrador: construir, pavimentar, erguer, inaugurar. E, ao longo das décadas, o peemedebista soube como poucos deixar marcas: o Parque Mutirama, quando prefeito na década de 60; como governador nos anos 80, as mil casas em um dia — em um mutirão que teve repercussão nacional e virou notícia no “Fantástico” numa época em que Goiás não existia para o Brasil; e os parques e viadutos construídos em sua última passagem pela gestão de Goiânia, de 2005 a 2010.

Esse estilo tocador de obras, porém, encobre alguns senões. Ou, melhor ainda, um único e grande senão: o custo-benefício delas para os cofres públicos. Durante a trajetória de Iris no Poder Executivo, foi comum ver seus sucessores, também aliados, passarem por dificuldades financeiras em suas gestões. Foi assim com Henrique Santillo (1987–1991, que o sucedeu no primeiro governo), boicotado por Iris, então ministro do presidente José Sarney; também com Maguito Vilela (1995–1998), que se manteve fiel ao líder, mas passou por crises que culminaram mesmo com a venda de patrimônio do Estado – a usina de Cachoeira Dourada; e agora com Paulo Garcia (PT), que tem administração bastante contestada, mas que, ao assumir, recebeu como legado um cofre em forma de bomba-relógio.

Mais do que isso, cuidar do legado físico de Iris não tem sido algo agradável a nenhum gestor. As construções de Iris têm sido frequentemente contestadas. De sua última passagem por Goiânia ficaram dois viadutos que passaram longe de solucionar o problema do trânsito na região em que foram erguidos, na Avenida 85; a pavimentação que levou a dezenas de bairros precisa de manutenção constante e foi apelidada pela própria população de “asfalto sonrisal”, por sua facilidade de se dissolver sob a ação da água.

No entanto, talvez a consequência mais grave dos anos Iris tenha sido a deterioração da paisagem da cidade. Ironicamente, parte dessa perda de qualidade de vida se deveu à implantação dos muitos parques pela cidade, feitos registrados e ressaltados como positivos para a sociedade.

Se sempre houve a interferência do interesse das construtoras e imobiliárias na condução do planejamento da cidade, foi na última década que isso se evidenciou de forma bem clara. A paisagem urbana ganhou outra formatação. O Setor Marista, com seus casarões e sobrados dos anos 60 e 70, agora está sendo tomado de forma acelerada por conjuntos de arranha-céus, de torres com um mínimo de 30 andares — até a década de 90, era incomum encontrar um prédio acima de 20 andares na capital.

Fazer um voo panorâmico hoje pelo coração de Goiânia é como planar sobre um gigantesco “Banco Imobiliário”: as placas nos altos dos prédios com os nomes das grandes construtoras marcam o território de seus empreendimentos. Um jogo de salão da vida real. A propósito, muitas das construtoras hoje tidas como grandes assim se tornaram a partir da gestão de Iris Rezende. Uma das que mais cresceram foi a Consciente, de Ilézio Inácio, hoje responsável, com a JFG, de Júnior Friboi, pela obra do gigante Nexus Shopping & Business, que teve problemas com relatórios de impacto de vizinhança revelados pelo Jornal Opção. Uma obra que trará alterações imprevisíveis e irreparáveis à região em que está prevista sua construção, na Praça do Ratinho, confluência das Avenidas D e 85.

Parque Flamboyant

Mas provavelmente o exemplo mais claro de como se dá o modo Iris de administrar seja a transformação da região do Parque Flamboyant, no Jardim Goiás. Há dez anos, havia ali a sede abandonada do Automóvel Clube de Goiás e um espaço de preservação ambiental regulamentado por lei. Em parceria com incorporadoras e grandes empresários, o então prefeito Iris Rezende deu à população um parque de convivência que hoje é referência na cidade. Mas nesse ponto preciso estabelecer a tal relação custo-benefício, o preço a ser pago “a priori” e “a posteriori”. E então a conta não fecha positivamente: a preocupação com a preservação ambiental, que no caso deveria ser algo prioritário, se revela apenas um pretexto para a ocupação, pela especulação imobiliária, de um espaço nobre da cidade. Em outras palavras, o parque ambiental é oferecido ao investidor/ morador como o jardim dos condomínios verticais em volta.

Pior: com uma rápida análise, vê-se que a preservação do meio ambiente passa de pretexto a simples fachada. No Parque Flamboyant, por exemplo, as grandes torres causaram grave impacto nas nascentes do Córrego Sumidouro. Além de suas fundações serem de grande porte — de 30 a 40 andares —, todas têm pelo menos um pavimento de subsolo. O rebaixamento do lençol freático tem feito cair a níveis críticos as águas do lago formado ali, especialmente no período de estiagem.

O adensamento extremo entupiu a região de automóveis e tornou inviável transitar na região com razoável mobilidade nos horários de pico. Uma deturpação das diretrizes do Plano Diretor. Em tempo: ao mesmo tempo em que se deu a ocupação irracional dessas áreas de grande potencial comercial e imobiliário, com a justificativa da “cidade compacta”, inexplicavelmente — pelo menos em termos urbanísticos e orçamentários — foram aprovados loteamentos há quilômetros da última mancha urbana da cidade. É o caso dos residenciais Orlando de Morais e Antônio Carlos Pires, na região norte de Goiânia.

A proliferação de parques, na verdade e a contradição urbanística deram origem a um grande problema ambiental e uma tragédia social. E aqui aqueles dois primeiros parágrafos do texto, que pareciam soltos até o momento, vão começar a se encaixar na história.

Um desses espaços verdes criados foi o Parque Cascavel, na região sudoeste da capital. Como a maioria dos demais, a área pretensamente ambiental se consolidou por meio de uma espécie de parceria público-privada: foi concluída em 2009, financiada por duas construtoras, Goldfarb e Trípoli, em regime de compensação ambiental. Ou seja, para construir seus prédios ali, ao lado do parque, as empresas se comprometiam a fazer um lago artificial e uma urbanização em volta dele. Um custo que nada tinha de custo: era tido como investimento de retorno garantido, já que o empreendimento só faria mesmo sentido se viesse a benfeitoria. Sem parque, sem chamariz de vendas. No fim, era uma cortesia para si mesmos em forma de cumprimento da lei.

Mas nesse caso o plano não deu certo. Esqueceram-se de fazer o acordo com a geologia do local e, com o decorrer das obras das construtoras, houve a destruição das nascentes e o assoreamento do lago. Isso se soma à impermeabilização do solo nos fundos de vale — agravada na gestão de Iris, por conta da pavimentação inadequada, inclusive dessas regiões. Asfaltar é preciso, sim, mas dentro dos parâmetros adequados. Infelizmente, poucos gestores em Goiânia — e Iris Rezende não foi um deles — investiram em galerias pluviais da mesma forma com que fizeram a pavimentação asfáltica.

Moradores da Vila São José caminham entre o que sobrou de seus móveis após enchente: consequência final da falta de planejamento administrativo

Moradores da Vila São José caminham entre o que sobrou de seus móveis após enchente: consequência final da falta de planejamento administrativo

O resultado é um aumento intenso e às vezes abrupto do volume das águas quando ocorrem chuvas fortes ou constantes. Por coincidência ou não, os bairros mais atingidos pelas inundações da semana passada estão próximos ao encontro do Córrego Cascavel com o Ribeirão Anicuns ou abaixo do ajuntamento de suas águas — Vila São Paulo, Vila São José, Vila Irany, Setor Progresso, Vila Santa Helena, Vila Roriz, entre outros.

A ocupação desorganizada, passando por cima de diretrizes básicas do planejamento urbano, tem sido característica da administração de Goiânia. Na verdade, nem só de Iris Rezende. Mas o ex-prefeito foi tomado como exemplo de gestão por muitos de seus sucessores, que viram o apelo popular de seu modo de trabalhar. Ocorre que o Iris da década de 60 não difere muito do Iris dos anos 2000. A aura de messias persiste, o trato personalista no estilo “eu vou e faço”. Acredita em seu próprio método e é propenso a rejeitar novidades ou algo que o contrarie.

Eis a questão: a política de meio século atrás continua tendo vez na Goiânia atual, que está agora muitas vezes mais populosa e conurbada com as cidades vizinhas — com as quais precisa necessariamente dialogar. Isso enquanto parece hoje incapaz de solucionar problemas básicos, como a questão do lixo e das áreas de risco, que deveriam há muito tempo pertencer ao passado.

Esse atraso de Goiânia não começou com o atual prefeito. Pelo contrário, ele deu sequência ao trabalho de seu antecessor, por quem se confessou inspirado e de quem durante muito tempo seguiu o estilo à risca. O que Goiânia é hoje, para o bem e para o mal, se deve a todos os seus prefeitos, mas mais ainda de Iris Rezende: além de ter sido gestor por três mandatos, foi motivo de inspiração.

Por isso, se a cidade quer novo rumo, não tem por que buscar o velho caminho, que já se sabe onde vai dar. Tudo o que Goiânia não precisa é de uma nova administração de Iris Rezende. Ou de alguém que pretenda se passar por ele.

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