Inovar: um jeito de se destacar no mercado

Ainda que muitos acreditem que inovação é algo dispendioso e ligado à caríssima tecnologia de ponta, a verdade não é bem essa. Reinventar-se é a melhor saída

Pratos italianos são exemplos de inovação que o empreendimento Merenda levou ao público, disponibilizando o produto de forma inédita na cidade

Pratos italianos são exemplos de inovação que o empreendimento Merenda levou ao público, disponibilizando o produto de forma inédita na cidade

Yago Rodrigues Alvim

Corte em fatias um pão ciabatta. Regue, então, cada fatia com azeite e leve ao forno por alguns minutos, a fim de dourar, levemente. Em uma frigideira, frite alho e tomate picado, em azeite. Tempere com açúcar, sal, orégano e pimenta do reino e, ao desligar o fogo, misture folhas de manjericão. Mais azeite e pronto. Sirva-se.

Pode até parecer fácil, receita sem muito segredo, mas sem aquele carinho ou segredo de família o prato não é o mesmo. A tradicional bruschetta italiana lista dentre os pratos principais do restaurante Merenda, um novo estabelecimento goiano. Junto a ela, a também italiana piadinha tem caído no gosto do público.

A história do Merenda começa em 2013. Ao se ver desempregado e sem nem o salário do mês no bolso — uma vez que a empresa de armários planejados em que Eduardo Paes Leme trabalhava havia falido —, a saída que avistara dava à paisagem que mirava pela janela: queria ser empreendedor. Paes, então, continuou no ramo; empreender precisava maturar ainda. O tempo que se dedicou em outra loja de armários foi apenas para salvar dinheiro, uma vez que havia se encontrado sem capital algum.

Em 1999, ele foi estagiário do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a secional goiana Sebrae-GO. Com a ideia na cabeça, o jeito foi se por em ação: voltou, então, ao Serviço que tem como objetivo auxiliar quem sonha em empreender. A fim de não se ver na mesma situação de 2013, sem lugar para correr e sequer um tostão no bolso, foi cuidadoso. Com a equipe da seccional, orientou-se quanto a detalhes administrativos, de gestão e fez cursos, gratuitos e disponíveis online. “O Sebrae foi imprescindível”, conta.

No interim, pesquisou ainda — soube bem que empreender requer a cabeça no alto, mas os pés bem fincados ao chão. Com o objetivo de conhecer outros negócios da área alimentícia, viajou à Brasília, São Paulo, Natal e Salvador. Foi então que aliou o gosto pela culinária, que veio do pai, Ildeu, que trabalhava com massas, à oportunidade de mercado. Empreendeu, assim — e, a título de curiosidade, não; nem Paes, nem o pai têm descendência italiana. Abril de 2016, o projeto que começou em 2013, concretizou-se: o Restaurante Merenda abriu as portas.

Inovação

Empreendedor do Restaurante Merenda, Eduardo Paes: “Inovar é uma forma de se destacar, dentre o que já existe, o que é comum no mercado”

Empreendedor do Restaurante Merenda, Eduardo Paes: “Inovar é uma forma de se destacar, dentre o que já existe, o que é comum no mercado”

Muito comum no jornalismo, iniciar um texto com uma narrativa — muitas vezes, inventada — é estratégia para chegar a um assunto. Mas como já elucidado no título, a história de Paes quer sim dizer de algo: de inovação. Mas, observação: o Merenda existe sim, bem como Paes e suas bruschettas e piadinhas; inclusive, caro leitor, é possível provar de ambas as delícias, caso a boca tenha salivado ao ler o texto. O restaurante fica no Bueno, na T-4 com a T-13, na galeria do Le Quartier, um edifício residencial.

Mas, de volta ao assunto inovação, voltamos também ao cardápio do Merenda. Muitos em­preendedores, empresários têm consigo que inovar é algo ligado a novas tecnologias, coisas caríssimas, dispendiosíssimas de capital, e, como o mar econômico brasileiro não está para peixe, o jeito é nem pescar. Mas, já muito bem sabido: quem não arrisca não petisca e, mais sabido ainda no meio empresarial, todo cuidado é pouco. Por isso, que tal petiscar com cuidado?

A exemplo de Paes, que buscou a ajuda do Sebrae, a inovação veio no próprio produto que não existia nos demais comércios do segmento alimentício espalhados pelas ruas goianas. Ele cita apenas São Paulo e Fortaleza, lugares onde se servem o prato, como especiaria da casa. Paes destaca ainda que a forma de servi-la é algo novo no mercado, pois a iguaria italiana é tida apenas como prato de entrada, o que não acontece no Me­renda. A bruschetta é prato principal — isso, por ter ganhado uma nova roupagem, um tamanho suficiente para matar a fome.

Outra inovação que o em­preendedor lembrou, e também do ramo alimentício, é o P di Pizza que, por exemplo, inovou ao vender pizza por pedaços. Goiânia é cheia de pizzarias, mas até surgir o restaurante não havia um sequer que tivesse a ideia de comercializá-la em pedaços, como em outros locais, São Paulo, principalmente.

“No curto tempo de experiência como empreendedor, vejo que é sim preciso inovar. Eu já trouxe inovação com o prato e busco ainda fazê-la no atendimento. A qualidade de atendimento é sine qua non [imprescindível] para qualquer negócio; e o público não é carente apenas de novos produtos, mas também em como é apresentado, em sua composição. Portanto, inovar é uma forma de se destacar, dentre o que já existe, o que é comum”, completa.

Maristo

Os empreendedores Lorran Souza e Gracielle Guedes, da Agência Maristo: “O Sebrae tem muito auxiliado as empresas inovadoras e inovar, hoje, é também uma maneira de fugir da crise”

Os empreendedores Lorran Souza e Gracielle Guedes, da Agência Maristo: “O Sebrae tem muito auxiliado as empresas inovadoras e inovar, hoje, é também uma maneira de fugir da crise”

Relações públicas, Gracielle Guedes tem, ao lado do administrador e especialista em gestão de projetos Lorran Souza e da publicitária Yara Baylão, empreendido na Agência Maristo. O trio se formou em 2013 e também envolvidos com o Sebrae, onde participaram do ALI — Agentes Locais de Inovação, um programa que reúne recém-formados a fim de que desenvolvam junto a um empresário um plano de inovação.

Até 2015 e juntos no Sebrae, eles trabalharam no escopo do projeto do que viria ser a Maristo. Ao fim do contrato, deram vida à agência de negócios que também inova no segmento. Guedes conta que muitas das agências atuante atualmente não se atentam a gestão empresarial e dedicam-se apenas ao marketing digital. Dife­renciadamen­te, a Maristo faz uso da jornada que os três empresários tiveram. Eles não só oferecem conhecimentos de marketing digital (ligado a redes sociais, por exemplo), bem como realizam cursos estratégicos, voltado à prática. “Ofertamos um mix de serviços a fim de que o empresário alcance seus objetivos”, diz.

Durante o bate-papo realizado com a empreendedora, por exemplo, eles ministravam um curso com o goiano Coletivo Centopeia. “Nós já atuamos na região Norte, em Macapá (AP), onde trabalhamos com três turmas na área de estratégia em mídias sociais e gestão de pessoas. Também estivemos em Ituiutaba, em Minas Gerais, em maio, e temos uma boa agenda daqui para frente. Nós vamos a Belo Horizonte, também em Minas, onde realizaremos um curso na área digital. E, em agosto, temos outra turma em Goiânia e em Pirenópolis, voltadas para marketing digital em turismo”, conta.

Guedes destaca que inovar é o alimento básico para que uma empresa se mantenha viva no mercado. “Uma empresa que não inova fica para trás e muitos acham que inovação está ligada apenas às novas tecnologias, mas não. Você pode fazer algo diferente que inove, seja em produto ou serviço. E inovação é um meio para fugir da crise, pois se você não buscar um diferencial, você não conseguirá se manter. Inovar, então, é essencial, uma necessidade, não tem para onde correr.”

Muito recentemente, no início de julho, o Sebrae nacional lançou mais um projeto a fim de que os pequenos empresários empreendam com inovação. Desta vez é o Edital Sebrae de Inovação. Quando indagada sobre a nova ação, Guedes afirmou que é um ótimo apoio e que a Maristo irá buscar saber mais sobre o edital e que, se enquadrar nos pré-requisitos, tentará sim. “O Sebrae tem muito auxiliado as empresas inovadoras. Vamos tentar”, diz. Mais informações sobre o Edital nos próximos parágrafos.

Edital totaliza R$ 20 milhões para projetos de inovação de todo país

Analista do Sebrae-GO, Rodson Marden Witovicz conta que o Serviço vê a inovação como uma missão e que busca levá-la às empresas para que se tornem competitivas e sustentáveis. “Sem inovação é praticamente impossível que uma empresa continue competitiva e sustentável no mercado, principalmente diante a instabilidade política e econômica brasileira”, diz.

Os empreendedores Lorran Souza e Gracielle Guedes, da Agência Maristo: “O Sebrae tem muito auxiliado as empresas inovadoras e inovar, hoje, é também uma maneira de fugir da crise”

Os empreendedores Lorran Souza e Gracielle Guedes, da Agência Maristo: “O Sebrae tem muito auxiliado as empresas inovadoras e inovar, hoje, é também uma maneira de fugir da crise”

Inovar, portanto, é pré-requisito. Segundo ele, as empresas que não inovam ficarão obsoletas no mercado, sem competitividade dentro do segmento, e que o Sebrae tem articulado no sentido de apresentar opções e ferramentas para que essas, dos mais diversos segmentos, possam se reinventar.

No mercado consumidor, os clientes e suas demandas mudam constantemente. As empresas precisam acompanhar estas mudanças que são contínuas, por isso a necessidade de sempre criar algo novo. “À medida que a tecnologia, a opinião do consumidor e tendências e oportunidades dentro do segmento vão mudando, as empresas têm de se adaptar — seja na gestão, em seus processos, divulgação ou mesmo em marketing”, afirma.

Acompanhar tais mudanças é um jeito de continuar no mercado e, para isso, é preciso ser competitivo. Ter um empreendimento não significa apenas abrir as portas de um negócio. Sustentabilidade, no empreendedorismo, significa ter vida longa diante às dificuldades que surgem. E só se é sustentável quando se é competitivo.

“Às vezes, procedimentos simples podem ser implementados dentro de uma empresa para que ela se destaque no segmento. São informações como essas que levamos junto a uma gama de ferramentas, soluções, propostas, programas, subsídios para que os pequenos empresários alcancem um melhor lugar no mercado”, pontua Witovicz.

Diretor técnico da seccional goiana do Sebrae, Wanderson Portugal Lemos destaca a mais recente proposta do Serviço voltado para o tema. O Edital Sebrae de Inovação tem como objetivo fomentar e desenvolver negócios inovadores e criativos. O subsídio será de até R$ 120 mil por projeto, com prazo de execução de 24 meses. No total, serão disponibilizados R$ 20 milhões, destinados a projetos intensivos em tecnologias inovadoras ou capital intelectual, contemplando as cinco regiões brasileiras. Voltado para micro e pequena empresa, o Edital, no entanto, pode ter parceria para execução de média e grande empresa; o que modifica é a forma de repasse de recurso.

“As empresas interessadas e que atenderem aos requisitos do Edital devem entregar seus projetos até dia 16 de setembro. Esta é mais uma oportunidade que oferecemos ao segmento dos pequenos negócios, tanto do campo quanto da cidade, para que possam se desenvolver. O valor do edital é considerável, pois totaliza R$ 20 milhões para todo o país. E as empresas da região Centro-Oeste, ao lado de empresas do Norte e Nordeste, serão ainda mais beneficiadas, pois no mínimo 20% dos recursos do Edital serão reservados a estes empreendimentos”, afirma Lemos.

Pelo fato de o Sebrae ser uma en­ti­dade que tem a missão de apoiar os pequenos negócios, o Edital irá receber projetos para apoio técnico e fi­nanceiro às micro e pequenas empresas que visem o desenvolvimento e a implantação de inovações tecnológicas, pequenos negócios que tenham potencial de alto impacto, que apresentam possibilidades de crescimento e elevada capacidade de se diferenciar e gerar valor por meio da inovação.

Podem participar do certame os pequenos negócios, constituídos por microempresas e empresas de pe­queno porte, as chamadas MPEs, e ainda, os produtores rurais que possuam inscrição estadual de produtor, número do Imóvel Rural na Receita Federal (NIRF) ou declaração de ap­tidão (DAP) no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Fa­­miliar (Pronaf) e ainda os pescadores com registro no Ministério da Pesca.

Analista do Sebrae-GO, Rodson Witovicz: “A nossa perspectiva é que várias empresas se inscrevam no Edital, o que será muito bom para a economia do Estado”

Analista do Sebrae-GO, Rodson Witovicz: “A nossa perspectiva é que várias empresas se inscrevam no Edital, o que será muito bom para a economia do Estado”

Serão atendidos os projetos em duas modalidades; a primeira é de desenvolvimento tecnológico — os projetos empresariais de inovação são apresentados pela empresa inovadora, com contratação de uma Entidade de Ciência, Tecnologia e Inovação, conhecida como (ECTI) —, voltada aos que possuem competência técnica para prestar os serviços descritos no projeto apresentado.

Já a segunda modalidade é de encadeamento tecnológico — os projetos empresariais de inovação são apresentados pela empresa inovadora em parceria com uma Média ou Grande Empresa, conhecida como (MGE) —, para as quais desejam executar um projeto de inovação de interesse mútuo e também com contratação de uma ECTI; estas devem ter competência técnica para prestar os serviços descritos no projeto ao todo ou em parte, conforme regras e condições do certame.

O analista Witovicz explica ainda que cada modalidade tem um valor. A primeira, de desenvolvimento tecnológico, visa projetos de até R$ 200 mil; o Sebrae o subsidiará em até 60%, o que equivale a R$ 120 mil. A empresa dá uma contrapartida de 40%. Já a de encadeamento tecnológico, que abarca maiores projetos, de até 400 mil, o Sebrae subsidia até 30%, o que também equivale a R$ 120 mil. Mas, nesse caso, o porcentual de contrapartida da empresa é de 20%, pois ela conta com a participação das MGE, que subsidiam os demais 50%.

“Cada modalidade contará com R$ 10 milhões para os projetos. Caso o total dos projetos classificados de uma das modalidades não atinja o limite de recursos de R$ 10 milhões, a diferença do montante será migrado, automaticamente, para a outra modalidade. Essa ação do Sebrae tem o propósito total de fomentar o desenvolvimento deste importante segmento da nossa economia que responde por 95% das empresas formalizadas no país. Em Goiás, todos os interessados, a partir da próxima semana, podem acessar o edital (disponível no site www.sebraego.com.br) ou procurar um dos 12 Escritórios Regionais do Sebrae”, conclui Lemos.

Pré-requisitos e Expectativa

Segundo o analista, existe uma série de pré-requisitos no Edital. Ele destaca, porém, que o principal é se uma empresa é de fato inovadora, se o projeto propõe ou não algum impacto que irá diferenciar e gerar valor por meio da inovação para ela. Não há um limite de projetos que podem ser inscritos. “Nós receberemos todos os projetos e estes vão passar por uma banca de avaliadores, que têm notórios saberes dentro da área de inovação, que, a partir dos critérios de inovação, dará o resultado dos melhores projetos a serem contemplados e subsidiados”, diz.

A divulgação já tem sido realizada junto a parceiros do Serviço, instituições de ensino, órgãos de governo e será ainda ampliada no Estado. Witovicz acrescenta: “A nossa perspectiva é que várias empresas se inscrevam, para que Goiás tenha suas empresas inovando. Isso será bom não apenas para o empreendedor, mas para a economia do Estado, pois além de contribuírem na área empresarial, contribuirão também na área social, com a geração de emprego e, dentre outros exemplos, movimentação da economia.” O resultado sai no dia 16 de dezembro.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.