Infectologista diz que novo coronavírus assusta mais que HIV e H1N1

Com a experiência de quem acompanhou a proliferação da aids e da gripe suína, Boaventura Braz de Queiroz compara a Covid-19 à Segunda Guerra Mundial

Boaventura Braz de Queiroz, sobre a Covid-19: “Nunca vi nada igual” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A pandemia causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2), que em pouco mais de três meses rompeu os limites de uma província chinesa, Wuhan, e ganhou cinco continentes, assusta quem acompanha o noticiário ou recebe informações pelas redes sociais. Mas, mesmo profissionais experientes se surpreendem com a Covid-19. “Nunca vi nada igual”, diz um estupefato Boaventura Braz de Queiroz, um dos mais notórios infectologistas de Goiás.

Boaventura está no Hospital de Doenças Tropicais, de Goiânia, desde 1986, quando fazia residência médica. Foi diretor do serviço por 13 anos. Acompanhou a chegada dos primeiros pacientes de aids, em meados da década de 1980; a epidemia de H1N1 entre 2009 e 2010 e um surto de malária em 2015.

O HDT também recebe cotidianamente pacientes com outras doenças graves, como meningite. Porém, a Covid-19 tem relevado um impacto potencial muito maior que todas elas. “O vírus que causa a Covid-19 [o Sars-CoV-2] tem uma alta taxa de transmissão jamais vista. A doença foge de qualquer contexto, [é semelhante] somente ao da Segunda Guerra Mundial”, diz.

A princípio, a comparação com a Segunda Guerra Mundial parece exagerada. O conflito que durou de 1939 a 1945 matou algo como 80 milhões de pessoas – dessas, 50 milhões de civis. Até o sábado, 21, à noite, a Covid-19 havia matado mais de 13 mil pessoas – a maior parte na China e na Itália.

Mas a analogia tem sido usada por líderes mundiais, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a chanceler alemã, Angela Merkel. Ambos disseram que estão diante do maior desafio planetário desde a Segunda Guerra. O presidente da França, Emmanuel Macron, também utilizou a metáfora bélica para se referir ao combate à pandemia atual.

Para Boaventura Braz de Queiroz, o que torna o novo coronavírus um inimigo tão perigoso é exatamente a velocidade com que se propaga. Com mais de 300 mil infectados em três meses e taxas de disseminação exponenciais, ninguém sabe ao certo quantas pessoas podem ser atingidas a médio e longo prazo. Em comunicado, o chefe do Departamento de Epidemiologia da Universidade de Harvard (EUA), Marc Lipsitch, estima que entre 40% a 70% da população mundial possa ser infectada em um ano. Isso dá algo entre 3 bilhões a 5,3 bilhões de doentes.

Diante desses números, a comparação não se apresenta tão absurda. A taxa de letalidade da Covid-19 gira, atualmente, em torno de 3%. Mas, em alguns locais, ela tem sido muito mais alta. “Na Itália, ela está em quase 9%”, lembra Boaventura. Segundo ele, esse número decorre de alguns fatores, como a demografia italiana – o país tem 168 idosos para cada 100 jovens, sendo o segundo do mundo em número absoluto de idosos, atrás apenas do Japão. “Mas também tem a ver com a demora de uma resposta das autoridades. Só depois de os casos terem se multiplicado é que o governo italiano fechou tudo”, avalia Boaventura.

Boa notícia, mas nem tanto

Paradoxalmente, o que parece uma boa notícia, o fato de que proporcionalmente são poucos os casos graves, esconde um problema. “Dos infectados, 80% apresentarão sintomas leves. Entre 30% a 50% serão tão leves que podem nem perceber e confundir com um resfriado comum”, afirma. A questão é que esses assintomáticos vão continuar levando o vírus e transmitindo.

Boaventura estava no HDT quando a aids começou a disseminar. O primeiro caso registrado em Goiás é de 1984 – dois anos, portanto, antes de ele começar a residência médica no hospital. No início, 100% dos casos eram fatais. Ainda assim, o infectologista se assusta com a Covid. “A transmissão do HIV [vírus causador da aids] é mais complexa. Ela ocorre por meio da relação sexual e precisa de uma série de condições. O processo [de infecção] foi lento”, explica. No caso do novo coronavírus, a transmissão prescinde do contato corporal, podendo ocorrer por meio da tosse, espirro ou toque em superfícies contaminadas.

Medicamentos controlam o HIV no organismo e o soropositivo pode ter uma vida normal

Além disso, no início dos anos 1990 foram descobertos medicamentos que barravam a multiplicação do vírus HIV dentro do organismo humano. Com o desenvolvimento de fármacos mais potentes, o soropositivo pode levar uma vida praticamente normal, não podendo apenas prescindir da medicação diária, semelhante ao que ocorre com um diabético ou com quem tem pressão arterial alta. Em relação à epidemia de H1N1, na virada de 2009 para 2010, não tardou a ser descoberto um tratamento e também uma vacina.

Ainda não existe medicação ou vacina para o novo coronavírus. Boaventura cita que há experimentos em andamento, especialmente na China e na Itália. Os pesquisadores testaram um medicamento que combate o HIV (a combinação ritonavir/lopinavir) – cujos resultados foram decepcionantes, segundo publicado no New England Jornal of Medicine. Nos Estados Unidos, os testes envolvem a hidroxicloroquina – segundo o presidente Trump, os resultados foram promissores. “Ainda é preciso aprofundar os estudos”, ressalta Boaventura.

O infectologista também compara o Sars-CoV-2 a outro coronavírus, o Sars-Cov-1, que causou a epidemia de 2002 e 2003. Naqueles anos, morreram 774 pessoas na Ásia em decorrência da doença. O continente teve uma grande retração econômica e o medo se espalhou pelo mundo, mas a doença acabou circunscrita. O vírus de 2002 tinha muito menos capacidade de transmissão e, até por sua alta letalidade (cerca de 10%), não se espalhou tanto.

“O mecanismo do Sars-CoV-2 ainda é desconhecido, mas sabe-se que a transmissão é da ordem de 7 por 1. Por isso a impotência diante dele. [O governo] tem mesmo de impor restrições às pessoas até se descobrir a cura”, alerta o infectologista Boaventura Braz de Queiroz.

Entrevista / Fabíola Fiaccadori

Fabiola Fiaccadori: “As infecções virais surgiram desde os primeiros registros de atividades humanas” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Os vírus convivem com os seres humanos (e às vezes os mata) desde que colocamos os pés no planeta terra. Mas foi só no século 19 que experimentos possibilitaram definir o que são esses seres microscópios, que dependem de um organismo vivo para se reproduzir.

A palavra vírus tem origem no latim e o significado original é veneno, entre outros. Quando cunhada, porém, não havia noção da existência do parasita. A capacidade de proliferação é tão espantosa que se tornou um verbo, viralizar, que é usado para classificar a popularidade de conteúdos da internet que alcançam milhões de pessoas em todo o mundo.

Nessa entrevista ao Jornal Opção, a professora Fabíola Fiaccadori, do Laboratório de Virologia e Cultivo Celular do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (IPTSP/UFG), explica um pouco sobre eles:

Afinal, o que são os vírus? São seres “vivos”? É possível “mata-los”?
Os vírus são os microrganismos menores e mais simples que existem, não possuindo maquinaria necessária para a produção de energia metabólica e para a síntese de seus componentes. Fora de uma célula viva os vírus são estruturas químicas. Desta forma, necessitam das funções e do metabolismo celular para se multiplicar e por isso são considerados parasitas intracelulares obrigatórios.

Quais os tipos de vírus existentes? E quais são as doenças mais comuns causadas por vírus?
Existe um número muito grande de vírus circulando nas diferentes espécies de seres vivos, desde vírus que infectam bactérias até aqueles que infectam organismos como os mamíferos e plantas. São reconhecidas mais de 1.500 espécies de vírus, que abrangem mais de 30.000 cepas ou variantes. Em humanos os principais agentes virais estão associados a quadro respiratório, gastrointestinal, febril exantemático, hepatite entre outros, como o HIV associado a um quadro de imunodeficiência.

Desde quando a humanidade tem conhecimento deles?
As evidências sobre as infecções virais surgiram desde os primeiros registros de atividades humanas. Na segunda metade do século XIX, já era conhecida a existência de bactérias e fungos, por exemplo. A identificação dos vírus foi possível a partir de uma série de estudos complementares. O primeiro foi desenvolvido por um químico alemão, Adolf Mayer, em 1876; e, em 1892, experimentos realizados por Dimitri Ivanovsky, biólogo russo-ucraniano, tornou possível a primeira definição de vírus – agente filtrável. A partir de então, novas descobertas foram permitindo aprofundar no conhecimento da composição destes agentes filtráveis e os diferentes aspectos associados ao potencial de infecção, não apenas em humanos como em outras espécies animais, assim como em células vegetais.

Quais foram as maiores epidemias?
A varíola foi uma doença que alcançou a proporção de epidemia nas cidades europeias, durante o século XVIII, e permaneceu relevante na população com o passar dos séculos, até ser considerada erradicada. Posteriormente, o vírus influenza esteve envolvido em diferentes pandemias. Em 1918, a gripe espanhola H1N1, com cerca de 20 milhões de mortes. Em 1957, a gripe asiática H2N2 e em 1968 a gripe de Hong Kong H3N2. Na atualidade a pandemia de 2009 pelo influenza H1N1 teve importante papel o desenvolvimento de uma vacina eficaz em seu controle.

Como eles agem no organismo? Quais são os vírus mais letais?
Os vírus são considerados parasitas intracelulares obrigatórios. Isto quer dizer que os vírus obrigatoriamente precisam de uma célula hospedeira viva para realizar o seu ciclo replicativo. Para que esta infecção celular ocorra é determinante que a célula apresente, em sua superfície, receptores específicos a cada determinado vírus. É essa especificidade que determina o hospedeiro e o tipo celular ou tecido que são suscetíveis a determinado agente viral. Em sua célula específica, o que os vírus fazem é utilizar o maquinário celular para realizar o seu ciclo replicativo e assim se disseminar no organismo do hospedeiro.

Temos algumas famílias ou espécies de vírus que apresentam uma capacidade de se adaptar melhor às células hospedeiras dos indivíduos infectados. Isso resulta para o vírus em um maior poder infeccioso sobre o hospedeiro, e por outro lado vai caracterizar um dano tecidual maior ao organismo infectado. Ainda, são diferentes danos que podem ser ocasionados a partir da replicação viral, refletindo em perfis de infecção diferenciados. Outros fatores também estão associados à extensão do dano da infecção viral, principalmente associados ao hospedeiro, como faixa etária, estado nutricional, presença de outras comorbidades.

Por que é mais difícil conseguir a vacina para algumas doenças virais, como Aids, ou, em alguns casos, as vacinas têm de ser “refeitas” anualmente, como no caso da gripe?
A vacina consiste em um imunobiológico produzido com a intenção de ativar o sistema imune do hospedeiro a produzir uma resposta imune específica e protetora contra determinado agente. Mas para isso, são necessários inúmeros estudos que permitam compreender como ocorre este processo no organismo para depois, a partir de novas pesquisas, conseguir produzir o produto vacinal. Este produto ainda necessita ser testado por diferentes etapas antes de se tornar viável para ser disponibilizado.

Entretanto, para alguns vírus, embora os inúmeros estudos, ainda novos conhecimentos são necessários para melhor compreender o processo da imunidade da infecção, como é o caso do HIV. Ainda, para outros casos, como o vírus influenza, existe a necessidade de reformulação anual do produto vacinal. Isso se deve ao perfil de variabilidade deste agente, onde mutações e recombinações frequentes levam ao escape da resposta imune e, assim, à necessidade de novas vacinas anuais.

Por que algumas doenças virais se tornam pandemias, como a Covid-19, e outras, como a causada pelo ebola, ficam circunscritas a algumas regiões?
Os coronavírus pertencem a uma importante família de vírus RNA que são comuns em diferentes espécies, como morcegos, gatos e humanos. Ainda, são caracterizados como vírus de importante perfil de variabilidade. Nós já conhecemos coronavírus que circulam entre humanos mas também aqueles que circularam entre outras espécies animais, os quais podem sofrer mutações e se adaptarem a novas condições.

O contato muito próximo entre humanos e outras espécies animais, é um fator importante na ocorrência desta variabilidade em amostras de vírus animais, tornando-os capazes de infectar humanos. Quando isso acontece, estamos diante de uma amostra viral completamente nova, já que não existe nenhuma relação destes vírus com os que já circulavam entre humanos, para a qual não apresentamos qualquer imunidade. Isso favorece a dispersão do agente pois ele encontra uma ampla comunidade suscetível sem nenhuma barreira imunológica. Adicionalmente, para o SARS-CoV-2, a sua via de transmissão aérea constitui um fator a mais que favoreceu sua rápida dispersão pelo mundo.

Uma resposta para “Infectologista diz que novo coronavírus assusta mais que HIV e H1N1”

  1. ziro disse:

    Com estes políticos em guerra por poder, infelismente o povo brasileiro vai pagar um preço muito auto pelos custos com coronavírus chinês. Bolsonaro e seu clã, obviamente, não passaram nas próximas eleições.

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