Histórias de quem perdeu a vida para a Covid-19 em Goiás

Doença causada pelo coronavírus tem atingido pessoas de todas as idades, ainda que seja mais fatal entre os idosos

Rafael Rodrigues, 31 anos, e Maria Perequito, de 75, entraram para as estatísticas de vítimas da Covid-19 / Foto: arquivo pessoal

Ton Paulo e Italo Wolff

Desde que começou a ser compreendida e registrada pelos pesquisadores e autoridades da Saúde, a Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, o Sars-CoV-2, jogou por terra o conceito de “grupo de risco”. Existem vítimas em todas as faixas etárias e perfis socioeconômicos. A enfermidade, que inicialmente era causa da preocupação de idosos e portadores de doenças crônicas, pode levar também crianças, jovens, adultos e idosos saudáveis a agonizar sem ar até a morte.

A doença no país segue a tendência mundial: 85% dos mortos têm mais do que 60 anos. Entretanto, os números mostram que os jovens também estão sendo duramente afetados pelo vírus. No Brasil, os mais jovens representam 22% das mortes. Para se ter uma noção, no estado de São Paulo, o mais atingido pelo coronavírus, 38% das vítimas fatais que não apresentavam comorbidades tinham menos de 60 anos. Uma dessas vítimas foi uma menina de 11 anos que morreu no início deste mês em decorrência da Covid-19 com o quadro mais grave já registrado no Hospital das Clínicas, que tornou-se referência para o tratamento da doença na capital.

A criança não era portadora de comorbidades mas apresentava sintomas de falta de ar e quadro de choque cardiogênico. O ocorrido deixou a equipe médica aflita, uma vez que a maior parte das crianças infectadas pelo coronavírus apresenta sintomas leves ou pode ser até assintomática.

Em Goiás, dos quase 50 mortos pela Covid-19, três tinham entre 40 e 49 anos e dois tinham entre 30 e 39 anos. O Estado tem mais de mil casos confirmados, entre jovens e idosos, mas uma coisa é certa: ninguém está completamente a salvo.

Aos 31, Rafael Rodrigues deixou esposa e filha

A primeira música que Alice, de 2 anos e 4 meses, dançou na vida foi de uma banda inglesa de rock, a The Police. Essa é uma lembrança bastante clara na memória da mãe, a empresária Juliane Severo, de 30 anos. O pai da pequena, o engenheiro agrônomo Rafael Rodrigues Pereira, mesmo sendo um exímio fã de sertanejo, adotou Every Breath You Take como a canção oficial dele e da filha. A cada vez que a música tocava, os dois, entre risadas, dançavam juntos. Entretanto, hoje Rafael não pode mais cantarolar a música e acompanhar os passos dançantes de Alice: o rapaz de apenas 31 anos morreu na madrugada de 11 de abril, sábado, em Itumbiara, entrando para as estatísticas de milhares de vítimas da Covid-19.

Jovem e sem histórico de comorbidades, Rafael estava no Hospital da Unimed desde o dia 28 de março. Ele esteve internado em Aloândia, onde vivem os pais, e passou por Goiatuba antes de ir para Itumbiara. Quando chegou, foi direto para a UTI do hospital. A notícia da morte do marido chegou para Juliane às 6 horas de sábado. “O interfone da minha casa começou a tocar muito. Fui abrir a porta e era meu irmão, chorando e falando pra mim que o Rafael tinha morrido”. Ela se recorda de chorar muito e sair arrumando a casa. “Era como se eu não quisesse acreditar”, relembra.

A empresária conta que recebeu o atestado de óbito do marido pelos Correios, uma vez que funerais para vítimas do coronavírus são vedados para evitar contaminação, e nem chegou a ver Rafael em seus últimos momentos de vida. “Eu vi ele saindo de casa e nunca mais voltar. É um negócio estranho, porque você não vê a pessoa de novo, nem que fosse num caixão. Eu acho que ele não iria querer que a gente visse ele do jeito que estava, porque ele estava muito debilitado”, relata.

Rafael e Juliane comemoram o aniversário de dois anos de Alice / Foto: Arquivo pessoal

A música da banda The Police é apenas uma das várias lembranças que Juliane guarda do marido. A casa que ela morava com Rafael e Alice no município de Rio Verde teve de ser deixada para trás. “Qualquer buzina na porta a Alice saía correndo e chamando o pai. Hoje eu mudei para outro lugar, um apartamento. Mas quando chega alguém, ela pega a pessoa pela mão e sai mostrando tudo, inclusive as fotos do pai”, conta Juliane. A empresária revela que às vezes não acredita que o marido tenha morrido. “Parece um pesadelo”, diz. Juliane, que foi casada com Rafael por sete anos, revela que ainda não conseguiu tirar a aliança do dedo. “Não sei se vou conseguir tirar tão cedo, porque é uma coisa muito difícil de acreditar, sabe”.

Ela conta que a filha foi a realização de um sonho de Rafael, que sempre quisera ter uma menininha. “Ele me acordava à noite, quando eu dormia primeiro que ele, e falava que olhava a Alice dormir e não acreditava que tinha realizado o sonho de ser pai”, recorda. Três dias após o óbito, Juliane, que até o momento ainda não havia dado a notícia para a filha, estava no quintal de casa quando uma borboleta amarela pousou em sua mão. O inseto colorido, curiosamente, trouxe a imagem do marido à sua mente, e foi quando ela se sentou com Alice e lhe contou que o pai não voltaria mais. “Eu disse pra ela que o pai tinha virado uma borboleta, que ele não ia voltar mais mas que ainda estaria no coração dela”. Desde então, Juliane conta que a filha associou a figura do pai a uma borboleta amarela e, por uma coincidência ou não, o bichinho parece ter entendido a ligação.

“Ela sempre me pede para eu desenhar o Rafael com asas, como se fosse uma borboleta. Sábado passado ela estava no quintal da casa do meu irmão, comendo, e minha cunhada falou que uma borboleta amarela apareceu e ficou voando em volta dela. Nunca tinha aparecido uma borboleta amarela lá antes”, conta emocionada.

Juliane destaca a “alegria de viver” que o marido tinha e diz que hoje vê com mais clareza a intensidade com que ele tocava sua existência. “O Rafael tinha uma humildade que poucas pessoas têm nesse mundo, e um coração enorme. Lembrar dele é lembrar de uma pessoa que tinha uma vontade incrível de viver. Hoje eu entendo porque ele queria viver tanto e tão rápido, ficar tanto perto da família: ele não ia estar muito tempo ainda com a gente. Parece que no fundo, no fundo ele sabia disso”, diz.

Hoje, Juliane revela que encontrou conforto na concepção dos propósitos divinos mas acredita que muita dor e sofrimento ainda serão causados pelo vírus que levou seu marido. “Eu não queria, de verdade, nunca que ninguém passasse por isso. Ver a filha chamar pelo pai, desenhar ele o dia inteiro e saber que ele não vai voltar. Infelizmente muita gente ainda vai perder a vida, essa onda de dor, esse rastro de tristeza vai demorar passar. Mas a vida continua e Deus está levando também muita gente boa porque precisa por perto de gente boa para ajudar na recuperação do mundo, na restauração de tudo. Isso me conforta muito. Dói muito perder alguém que a gente ama, mas esse entendimento de que nada termina de vez me conforma”, revela.

Juliane está fazendo um diário para a filha, contando quem era seu pai, do que gostava, como eles se conheceram”. Ela conta que tem recebido de amigos e colegas vários relatos e histórias alegres que pretende passar para Alice. A pequena ainda tem como sua canção preferida Every Breath You Take e não perdeu o costume de dançá-la enquanto ela diz, numa tradução literal: “Eu olho em volta, mas é você que eu não consigo substituir”.

Maria Rodrigues, de 75, quase foi deixada para morrer em casa

Maria Rodrigues Perequito foi a primeira vítima da Covid-19 na cidade de Anápolis | Foto: Reprodução

Maria Rodrigues Perequito, de 75 anos, foi a primeira vítima da Covid-19 na cidade de Anápolis. Sua neta, Brenda Rodrigues de Souza, conta a trajetória da família pelo sistema de saúde, desde  a entrada na Unidade de Pronto Atendimento (Upa) no dia 13 de março, até seu fim, no Hospital Célia Câmara no dia 25 de abril.

Brenda relata que a idosa foi diagnosticada com pneumonia e medicada com antibióticos. Porém, não houve melhoras. Após uma semana, a família retornou à Upa, onde ouviu dos médicos que, por conta do risco de infecção com o novo coronavírus na unidade de saúde, a idosa deveria ser tratada em casa. Os medicamentos foram trocados, mas Maria Rodrigues Perequito não melhorava.

De volta à Upa dois dias depois, 21 de março, Maria Rodrigues Perequito foi diagnosticada com infecção urinária, mas os médicos afirmaram que a pneumonia havia regredido; lhe disseram para continuar o tratamento e retornar em dois dias. Brenda Rodrigues conta que a idosa tinha muita dificuldade para respirar.

Novamente, outra vez na Upa após dois dias, o quadro de Maria Rodrigues Perequito era ainda pior. Antibióticos e vitaminas foram receitados. Brenda Rodrigues relata: “Ela voltou pra casa mais uma vez e a angústia e as noites em claro, assistindo minha avó piorando, se estenderam até o dia 30 de março. Minha avó quase morreu em casa!”

Brenda afirma que a família entrou em contato com a Secretaria de Saúde do Município de Anápolis e insistiu para que Maria Rodrigues Perequito fosse examinada em casa. No dia 30 de março, uma médica e duas enfermeiras visitaram-na e, após breve consulta, emitiram o parecer médico. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e Maria Rodrigues Periquito levada para o Hospital Jacob Facuri, em Goiânia.

A idosa foi internada com diagnóstico de grave infecção urinária e pneumonia, mas ainda não havia qualquer suspeita de Covid-19. Maria Rodrigues Perequito passou 25 dias na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) Humanizada, onde Brenda, sua mãe e suas tias se revezavam para acompanhá-la durante a noite.

“Durante esses dias, seu quadro clínico melhorou muito, a ponto de termos uma previsão de alta para o dia 19 de abril. Iríamos da UTI para o quarto do hospital, e de lá podríamos ir para casa no dia 20”, conta Brenda Rodrigues. No dia 20 de abril, o médico responsável por Maria pediu exames do coração e afirmou que seria necessário que a família instalasse um balão de oxigênio em casa.

Ainda, Covid-19 não havia sido cogitada. “Isso porque toda semana eram feitos exames de rotina, coleta de sangue. A todo momentos os médicos diziam que o estado clínico dela era bom, que ela já não apresentava mais pneumonia, que a infecção urinária e renal também estavam melhores”, diz Brenda Rodrigues.

Entretanto, no dia 21 de abril, os médicos decidiram interná-la em UTI, onde familiares não poderiam acompanhá-la. Um dia depois, os médicos disseram que durante a noite os batimentos cardíacos tinham caído muito e que Maria continuaria em observação. Houve o último contato entre os familiares e a paciente. No dia seguinte, não houve visitas.

“Foi só no dia 24 que os médicos nos disseram que a minha avó provavelmente tinha contraído o vírus dentro do hospital. Até então, não estávamos cientes de nada. Tivemos contato direto com ela o tempo todo, enfermeiras e médicos também tiveram contato sem proteção, muitas vezes”, conta Brenda Rodrigues.

Maria foi transferida para a Maternidade Municipal Cecília Câmara – que foi redesignada para receber exclusivamente pacientes da Covid-19 – e “entubada”, isto é, ligada a respiradores mecânicos. Brenda Rodrigues conta que o Hospital Jacob Facuri não deu explicações acerca de como proceder, agora que a família poderia estar infectada, ou acerca de como sua equipe não percebera a contaminação pelo novo vírus.

Maria Rodrigues Perequito faleceu no dia 25 de abril e a família não teve acesso a prontuários médicos ou a qualquer tipo de informações oficiais. “Só soubemos que o teste para Covid-19 deu resultado positivo através de um médico da prefeitura de Anápolis, que nos atendeu no dia 30, em casa, quando soube do falecimento da minha avó”, conta Brenda Rodrigues.

Brenda Rodrigues relata ainda que a senhora Maria Domingas, que dividiu o quarto de UTI com sua avó, também foi diagnosticada com Covid-19. E que também neste caso, a família da colega de quarto não foi testada.

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