Há saídas para a crise?

Mesmo com auxiliares citados na Lava Jato, analistas políticos avaliam que a boa relação com o Congresso é trunfo para a gestão do peemedebista

Presidente Temer precisa apresentar resultados na recuperação da economia, sob risco de a crise política se agravar

Presidente Temer precisa apresentar resultados na recuperação da economia, sob risco de a crise política se agravar

Cezar Santos

O presidente Michel Te­mer está numa encruzilhada: ou suas medidas para a recuperação da economia apresentam resultados logo ou a instabilidade política de seu governo continuará crescendo, ameaçando seu mandato-tampão. Os partidos de oposição, por sinal, já entraram com pedidos de impeachment na Câmara Federal — é pouco provável que prosperem, mas são ingredientes que não ajudam em nada a governabilidade.

“Não acredito que Temer caia. Há dificuldades sim, há uma crise política e econômica sim, mas acho muito difícil que o presidente perca o mandato”, diz David Fleischer, um dos mais atentos observadores da cena política nacional nas últimas décadas, cientista político e professor emérito da Uni­versidade de Brasília (UnB). O cientista aposta principalmente na solidez da relação de Temer com os congressistas.

Também ressalta a boa relação do presidente com os ex-colegas de Parlamento o sociólogo Thiago de Aragão, pesquisador associado sênior do think tank inglês FPC’s (Foreign Policy Centre – London), analista político. Ele, que também é diretor de Análise de Risco Político latino-americano da Arko Advice (uma das principais empresas de análise política no Brasil, sediada em Brasília e escritórios em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Nova Iorque e Londres), lembra que Temer foi três vezes presidente da Câmara e o que o principal articulador do governo, Eliseu Padilha, tem habilidade incrível de relacionamento com os parlamentares.

Não é por acaso que o governo vem obtendo vitórias no Congresso, mesmo num ambiente politicamente instável. “Então essas vitórias no Congresso são esperadas e mostram que há uma solidez na relação do Executivo com o Legislativo. Com problema ou não, a PEC dos gastos foi aprovada no Senado.”

Mas, se a relação do governo com o Congresso tem sido muito boa desde o início, o governo Temer peca muito “da porta pra fora”. Essa é a grande crítica de Thiago de Aragão. “Como ele não comunica direito, as pessoas ainda se surpreendem com uma aprovação (da PEC dos gastos) como ocorreu. O grande problema se dá na falta de comunicação dessas vitórias, na falta de explicação sobre eventuais derrotas. Precisa­ria deixar a população bem informada sobre essas decisões, do porquê da PEC dos gastos, do por­quê da reforma da Previdência.”

Segundo Aragão, a comunicação do governo é fraquíssima. Ele lembra que a capa da “Folha de S.Paulo” de terça-feira, 13, mostra que seis em cada dez brasileiros são contra a PEC dos gastos, essencialmente porque não sabem o que é essa PEC. “A culpa é do governo por não saber explicar o que é a PEC dos gastos. Quando 60% dos brasileiros, conforme a pesquisa, são a favor de que se gaste mais do que se tem, isso mostra que a situação está realmente crítica não só pelos problemas, mas também na percepção dos problemas.”

Sociólogo Thiago de Aragão: “A relação com o Congresso tem sido  muito boa desde o início, mas o governo Temer não comunica direito”

Sociólogo Thiago de Aragão: “A relação com o Congresso tem sido muito boa desde o início, mas o governo Temer não comunica direito”

Outro problema no departamento comunicação, aponta o sociólogo, é que a imprensa em geral não tem o menor interesse em informar sobre a importância das propostas do governo encaminhadas ao Congresso, como a PEC dos gastos, a reforma da Pre­vidência. “A agenda da im­prensa é crise, é corrupção, o que dificulta ao governo demonstrar eventuais vitórias de uma forma compacta à sociedade civil.”

Mas, descontado o flagrante descompasso governamental na comunicação, a pergunta que pode ser feita neste momento é: há saída para a crise?

A boa relação governo-Con­gres­so pode ser uma chave para isso?

Tanto Thiago de Aragão quanto David Fleischer dizem que a boa relação com o Con­gresso é um ca­minho para a saída da crise a partir do momento em que as políticas econômicas e as políticas de recuperação fiscal sejam rápidas e eficientes.

“Aí o Congresso vai gerar retorno. A boa relação por si só não gera fatos positivos para a sociedade civil. Isso porque tanto o Executivo quanto o Legislativo têm imagem péssima com a população”, diz Aragão. Fleischer lembra que o entrosamento do governo com o Congresso tem possibilitado a aprovação de matérias complicadas, e é um fator que pode facilitar a saída para a crise política.

É a economia

Thiago de Aragão afirma que a saída da crise passa pelo ambiente econômico, lembrando que população tende a ser mais tolerante com a política quando a economia vai bem. Ele dá como exemplo o caso do mensalão durante o governo Lula, um escândalo de corrupção de proporções gigantescas no qual ninguém se levantou da cadeira para ir às ruas protestar, porque a maioria das pessoas estava satisfeita com o ambiente econômico.

“A deterioração do ambiente econômico leva a uma maior atenção ao ambiente político, principalmente quando essa deterioração se dá por má gestão política. A situação hoje é que vivemos uma crise econômica resultado de gestão amadora do governo Dilma, por parte do então secretário do Te­souro Arno Agustin”, afirma Aragão.

Outro complicador, diz, é que paralelamente a isso, a operação Lava Jato afeta sem distinção todos os partidos em todos os níveis, mantendo a nuvem negra sobre qualquer possibilidade de resolução da crise. “Graças a Deus, não há nenhum mecanismo para acabar com a Lava Jato, mas existem sim mecanismos para amenizar e, eventualmente, superar a crise econômica. O governo já está tomando algumas medidas, mas precisam ser mais enfáticas e, mais que isso, repito, sejam mais bem comunicadas à opinião pública.”

Recesso agora e minirreforma em fevereiro podem aliviar o cenário

Cientista político David Fleischer: “Não acredito que Michel Temer caia. Acho muito difícil que o presidente perca o mandato”

Cientista político David Fleischer: “Não acredito que Michel Temer caia. Acho muito difícil que o presidente perca o mandato”

O tempo pode ser um fator de alívio para o governo em crise de Michel Temer. O sociólogo Thiago de Aragão afirma que saída da crise política é dada pelo tempo. “Não há muita saída hoje porque há um ambiente deteriorado, com personagens deteriorados e a Lava Jato minando qualquer possibilidade de esses personagens terminarem essa crise política.”

Já o cientista político e professor David Fleischer diz que o tempo está sendo generoso para Michel Temer, porque chega o recesso do fim de ano, e isso vai aliviar a pressão por resultados. Entre outras considerações, Fleischer resume que ao fim e ao cabo, a pressão maior se dá por causa do conturbado quadro econômico. “Com o recesso do Congresso, do Judiciário, as festas de ano-novo, a situação tende a ser amenizada”, diz.

David Fleischer aposta, também, na reforma ministerial que Temer deve promover em janeiro ou fevereiro. “Se o presidente der uma ‘expurgada’ na equipe, tirando gente que está citada na Lava Jato, isso vai contar positivamente, não há dúvida.”

E, de fato, a minirreforma ministerial a que alude Fleischer está no radar do governo — mais que isso, está sendo engendrada como uma delicada operação política para reacomodar sua base aliada e contornar insatisfações no início do ano que vem. Temer deve mexer nos comandos de pastas como Trabalho, Saúde e Meio Ambiente.

A intenção é trocar nomes que possam deixar o governo federal até o início de 2017 por causa das delações premiadas de executivos da Odebrecht e contemplar com mais espaço na Esplanada dos Ministérios partidos da base.

O presidente está empenhado em evitar que siglas governistas abandonem a tropa de choque no Congresso diante de turbulências geradas na política pela revelação de novas denúncias de irregularidades, sobretudo no momento em que legendas de oposição articulam o im­peachment de Temer, anotou a “Folha” na quinta-feira, 15.

Ameaça de rebelião

Segundo o diário, o núcleo duro do governo avalia que é preciso atuar de maneira mais incisiva diante de eventuais ameaças de rebelião na base aliada. No PSB, por exemplo, um grupo defende a saída da sigla do campo governista e, no chamado “centrão – aliança de legendas médias –, dirigentes partidários articulam contra pautas enviadas pela gestão federal.

Para eliminar o risco de saída do PSB da base, Temer estaria disposto a dar o Meio Ambiente à sigla, uma vez que o PV já anunciou posição de independência no Congresso Nacional. À “Folha”, o líder do PV na Câmara dos Deputados, Evandro Gussi, disse que, apesar da postura de independência do partido, a bancada verde apoia a gestão do peemedebista.

E Temer sabe que terá de cevar o “centrão”. O que se planeja é manter as pastas do Trabalho e Saúde sob o comando de partidos desse grupo, que reúne cerca de 200 deputados federais. A jogada, aí, será trocar os titulares por nomes que favoreçam um consenso em torno da disputa pela presidência da Câmara dos Deputados, hoje comandada por Rodrigo Maia (DEM-RJ), um aliado fiel e importantíssimo para a aprovação das medidas de interesse do Palácio da Planalto.

Jovair Arantes: o goiano é um  dos nomes para substituir Rodrigo Maia no comando da Câmara Federal

Jovair Arantes: o goiano é um
dos nomes para substituir Rodrigo Maia no comando da Câmara Federal

A “Folha” registra, ainda: “No PP, que comanda a Saúde, o líder Aguinaldo Ribeiro (PB) tem articulado apoio para a presidência da Casa Legislativa. No PTB, que controla o Trabalho, o líder Jovair Arantes (GO) tem se apresentado como possível candidato ao posto de Maia.”

Ao diário um assessor de Michel Temer confidenciou que, com a ameaça de novas revelações contra a cúpula do governo, o presidente precisa garantir a vitória de um nome na Câmara dos Deputados que barre qualquer hipótese de um eventual pedido de impeachment contra ele.

O problema é possível retaliação do “centrão”, que até tinha ameaçado barrar a admissibilidade da reforma previdenciária — a PEC da reforma da Previdência teve parecer favorável à tramitação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, na madrugada de quinta-feira, 15, por 31 votos a 20.

Câmara dos Deputados

Cauteloso, Temer vai deixar para fevereiro, no rescaldo da minirreforma ministerial, a nomeação do deputado federal Antonio Imbassahy (PSDB-BA) para a Secretaria de Governo. O “centrão” teme que o tucano possa interferir na eleição da Câmara dos Deputados e favorecer a reeleição de Rodrigo Maia.

É sabido que Temer prefere a recondução de Maia ao posto, mas não pode assumir isso publicamente para não rachar a base aliada. A estratégia é usar a mexida ministerial em 2017 para contemplar aliados que venham a ser derrotados na disputa pela sucessão da Câmara.

Outra mudança cogitada pelo Palácio do Planalto é passar o comando do Planejamento, hoje com o ministro interino Dyogo Oliveira. O PSDB chegou a reivindicar a pasta, mas o ministro Henrique Meirelles (Fazenda) quer manter um nome técnico à frente dela, blindando-a de uma indicação política.

A reportagem lembrou que, há poucos dias, o conteúdo da delação premiada de Cláudio Melo Filho, ex-vice-presidente de Relações Institucionais da Odebrecht, atingiu a cúpula do Palácio do Planalto e desgastou a imagem da gestão peemedebista. No documento, o nome de Temer apareceu 43 vezes. O do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, foi mencionado 45 vezes; e o de Moreira Franco, secretário de Parceria e Investimentos, 34.

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