Grandes redes compram hospitais em Goiás – mercado da saúde fervilha

Na última semana, dois dos mais tradicionais hospitais privados foram adquiridos por grupos com ações negociados em bolsa


O Centro Brasileiro de Radioterapia Oncologia e Mastologia (Cebrom), principal clínica oncológica de Goiás, foi vendida na quarta-feira, dia 1, por R$ 190,5 milhões ao grupo mineiro Oncoclínicas. Ainda nesta semana, na segunda-feira, 30, outro dos mais tradicionais hospitais privados de alta complexidade foi vendido na capital goiana – o hospital neurológico, Instituto de Neurologia de Goiânia (ING) – por R$ 140 milhões ao grupo capixaba Kora Saúde. O que está acontecendo no mercado privado da saúde?

Segundo os assessores de aquisição médica, diretores de hospitais e representantes de associações ouvidos pelo Jornal Opção, o momento é complexo e o súbito aquecimento do mercado (cogita-se a possibilidade de uma bolha) é explicado por diversos fatores. Entre as razões para a tendência, especialistas enumeram a verticalização dos planos de saúde; a entrada de grandes grupos no estado; e o sucesso um de novo modelo de gerenciamento das unidades de saúde. 

O fervilhante mercado da saúde

As autoridades entrevistadas acreditam que o Cebrom e o ING não serão as últimas entidades a serem adquiridas por grandes grupos, e que sua aquisição é representativa. Ambas instituições são tradicionais, o Cebrom com 23 anos e o ING com 50 anos de atuação, e foram compradas por grupos com ações negociadas em bolsa. O movimento não fica restrito a Goiás – é considerado que essas aquisições tiveram início em 2014, com a compra do Hospital da Unimed na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, pela Rede D’Or São Luiz. Desde então a companhia já acumulou 52 unidades sob sua administração.

O modelo de negócio tem se provado rentável. “Grandes redes conseguem comprar insumos mais baratos porque adquirem em grande quantidade; conseguem manejar recursos entre unidades com logística simplificada; oferecem preços melhores porque ganham na escala”, afirma Haikal Helou, presidente da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (Ahpaceg). “Enfim, aumentam a eficiência e diminuem custos. Dois grupos (Rede D’Or e Grupo Amil, fundado pelo já falecido médico paulista Edson Bueno) criaram a tendência que orienta o mercado hoje”. 

Haikal Helou lembra que o fenômeno de grandes grupos que vencem a concorrência ao “ganhar na escala” é antigo e bem estabelecido na área dos supermercados, farmácias, universidades, e outros. Além das duas recentes aquisições em Goiás, pode-se citar como evidência do novo momento as aquisições do Hospital São Mateus, pela Kora Saúde, no Ceará; do Hospital São Matheus e Anchieta, em Cuiabá e Brasília; do Hospital Madrecor de Minas Gerais pela Hapvida – todos estes apenas no último mês. 

“Há dez anos, tínhamos apenas dois grandes grupos no mercado”, comenta Haikal Helou. “Hoje são pelo menos dez. Fala-se em bolha especulativa, com a maré de aquisições e fusões. Ainda atravessamos um momento de consolidação, mas ao fim desse processo, provavelmente terminaremos com quatro ou cinco grupos dominando o mercado”.

Planos de saúde verticalizados

A JK Capital é uma consultoria de finanças corporativas especializada na assessoria de fusão e aquisição de empresas. Sócio da empresa, o paulista Luís Mazzarella Martins acompanha as movimentações no mercado goiano de saúde. “Temos uma tese para explicar o que está acontecendo”, afirma. Segundo Luís Martins, mais um fator que fundamenta a tendência atual tem a ver com uma mudança na forma como operam os planos de saúde.

Tradicionalmente, os planos de saúde atendem uma rede de hospitais e clínicas credenciadas. Nesse modelo, cada prestador de serviço na ponta do atendimento tem incentivos para aumentar seus gastos. As clínicas, que recebem dos planos de saúde, ganham mais se fizerem mais procedimentos, exames e cirurgias. Há uma tensão entre a fonte pagadora e os operadores. Essa situação leva à uma inflação do preço e de volume de procedimentos e insumos.

“No início dos anos 2000, o ticket médio dos planos de saúde era de R$ 80”, afirma Luís Martins. “Hoje, por conta da inflação médica, os planos de saúde custam na média nacional R$ 600, enquanto se o reajuste seguisse a inflação normal dos demais mercados esse número estaria mais próximo de R$ 400”. A situação criou uma pressão sobre os planos de saúde, que, segundo Luís Martins, acumulam déficits por beneficiário, já que as mensalidades apenas não são capazes de cobrir os custos dos sinistros. 

“Alguns planos de saúde perceberam que, controlando hospitais, era possível controlar melhor a demanda por procedimentos e conter despesas desnecessárias”, comenta Luís Martins. Começou então um movimento pela chamada verticalização, que possibilitou o surgimento de planos de saúde com custo médio de R$ 210. “Além de terem melhores preços, são planos mais agressivos e ágeis”.

O fator explica em parte o aquecimento do mercado. “Cresceu a procura por hospitais porque esses planos de saúde precisam ter a estrutura completa. Não basta mais cobrir apenas exames, é necessário ganhar espaço sobre outros planos de saúde em toda a cadeia”, afirma Luís Martins. O consultor lembra que há seis anos o número de beneficiários de planos de saúde está estável no país: são 50 milhões de brasileiros cobertos por seguros. “É por este número fixo de consumidores que todos os fornecedores competem, o que explica a agressividade dos prestadores do serviço.”

O presidente da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (Ahpaceg), Haikal Helou, afirma que, no modelo tradicional, os diretores do hospital têm de se sentar com os operadores dos planos de saúde e discutir a tabela de preços e procedimentos, os reajustes ano a ano, etc. “Isso não acontece nos planos de saúde verticalizados. Como controlam toda a cadeia, eles podem se equilibrar conforme a necessidade, sem precisar de um acordo com diretores ou votação entre sócios. O que eles decidem na segunda-feira, está feito na terça. Essa é uma vantagem administrativa e logística muito grande”.

Reorganização

O médico Clidenor Gomes Filho faz parte do corpo clínico da Maternidade Ela e é presidente do Comitê Estadual de Mortalidade Materna. O ginecologista e obstetra também coordena a formação do grupo chamado de G500, composto por cinco hospitais privados de Goiás. O valor de mercado dos membros do G500 é de R$ 1,2 bilhão. Clidenor Gomes Filho afirma que a junção das unidades é motivada exatamente pela chegada de empresas estrangeiras no mercado goiano. Para ele, o grupo é além de uma tentativa de fortalecimento, oportunidade para oferecer serviços de melhor qualidade.

“Especificamente esse grupo começou a trabalhar com essa ideia desde novembro de 2020, quando começamos a ter uma série de abordagens de empresas ou pessoas de fora querendo comprar os nossos hospitais. Em um primeiro momento demos um não, as empresas estão sólidas e pensamos porque não conversamos entre nós, percebemos a oportunidade de trabalhar em conjunto. O grupo está formado para superar desafios e conquistar novos aspectos da assistência e melhorar o atendimento ao cliente final”, explica Clidenor Gomes Filho. 

De acordo com o médico, uma empresa de consultoria está identificando as prioridades de  planejamento empresarial. O G500 prevê a ampliação de 30% da capacidade de leitos hospitalares privados, além de geração de empregos e a ampliação de recursos para capacitação. A previsão é que os investimentos totais ultrapassem R$ 100 milhões durante a integração dos hospitais. “Estamos na fase de identificação de quais são as prioridades, o que deve ser coberto primeiro. Atrás dessa expansão vão aparecer novas oportunidades de emprego e novos leitos, enfim, toda consequência da expansão”, destacou.

Apesar do momento de inquietação para os hospitais privados, Clidenor Gomes Filho afirma acreditar que o momento de reorganização dos serviços de saúde trará progresso. “Nós temos de nos adaptar, mas o resultado final será positivo para os consumidores e pacientes, que terão mais opções de serviços; bem como para os médicos e trabalhadores. É um processo benéfico, porque a concorrência nos obriga a nos aperfeiçoarmos”, reflete Clidenor Gomes Filho. 

Compõem  a operação a Ela Maternidade, Hospital dos Acidentados, Hospital da Criança, Hospital do Coração e Hospital Santa Mônica. Outros dois hospitais têm dialogado para integrarem com o G500.

O cenário que se desenha

Haikal Helou, presidente da Ahpaceg, afirma que o sucesso das operações pós-venda depende, em última instância, da compreensão dos grupos sobre a instituição que adquiriram. “Não se trata apenas de um prédio. Hospitais lidam com a vida das pessoas e, no caso do Hospital Neurológico, são 50 anos de história com um corpo clínico excelente – um patrimônio local. O grupo de Vitória entenderá isso e absorverá parte da cultura local?”

Sobre o panorama dos hospitais privados, Haikal Helou afirma que este momento pode ser um ponto de virada para a credibilidade das instituições: “Aqui em Goiás, sempre foi muito comum a busca de pessoas com condições por tratamento em clínicas privadas de São Paulo. Isso ainda acontece. Temos em Goiânia uma unidade do Hospital Israelita Albert Einstein, mas ainda ouvimos dos familiares do paciente ‘temos de tentar de tudo para salvá-lo’, o que significa contratar uma UTI aérea e ir para São Paulo. Temos excelentes profissionais e hospitais aqui, mas este é um fator cultural que só pode ser transformado com a confiança, que é imaterial.”

Para Haikal Helou, a nova cultura trazida pelos grupos que chegam agora pode ser o elemento que faltava para a consolidação dessa confiança. “Hospitais aceitavam condições ruins das operadoras de planos de saúde porque não tinham fôlego para sobreviver sem elas. Com essas grandes redes, é diferente: há assoalho para negociações. Veremos planos diferenciados, competição por qualidade, preços mais atraentes”.

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