Goiano que trabalha em estatal chinesa diz que expectativa do país com Bolsonaro é “excelente”

Para Edival Lourenço Jr., a aproximação do próximo governo com Donald Trump não representa um problema para o elo entre Brasil e China, mas, em função da relevância e volume desta relação, o presidente eleito precisa se cercar de pessoas que entendam a complexidade e as minúcias de como funcionam as negociações com o país asiático

Goiano Edival Lourenço Jr.: próximo governo deve tratar bem a China, que é o principal cliente do Brasil | Foto: Arquivo pessoal

Antes mesmo de iniciar sua campanha, o próximo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PSL), já dava sinalizações de que queria buscar uma aproximação com os Estados Unidos de Donald Trump.

Após os resultados das urnas, o capitão reformado do Exército conversou com o republicano por telefone. No Twitter, Donald Trump comentou o caso e disse que quer trabalhar junto ao Brasil especialmente nas áreas militar e comercial.

O anúncio do diplomata Er­nes­to Araújo como futuro ministro das Reações Exteriores, feito na quarta-feira, 14, é mais um sinal de que o País deve mesmo se alinhar aos estadunidenses. Atualmente, o próximo chanceler do Brasil ocupa o posto de diretor do Depar­ta­mento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Internacionais do Itamaraty.

Ernesto Araújo demonstra simpatia por Donald Trump e escreveu recentemente em uma revista diplomática que o republicano pode ser o único capaz de salvar o Ocidente.

China

Enquanto os Estados Unidos recebiam maior atenção, Jair Bolsonaro tomava atitudes e dava declarações que poderiam comprometer as relações do Brasil com a China, o principal parceiro comercial do País e destino de 28,8% das exportações brasileiras.

Ainda durante a pré-campanha, a visita do hoje presidente eleito a Taiwan é um exemplo da preocupação causada nos chineses — a China não reconhece a ilha como país independente, assim como o Brasil, que adota a postura de “uma só China” desde a assinatura do Comunicado Conjunto quando do estabelecimento das relações diplomáticas entre os governos brasileiro e chinês, em agosto de 1974.

Aliás, no plano de governo de Jair Bolsonaro, registrado no Tri­bu­nal Superior Eleitoral (TSE), a Chi­na não é citada em nenhum mo­men­to, enquanto Taiwan aparece quatro vezes como referência nas áreas de educação, tecnologia e logística.

O presidente eleito também disse, já durante a campanha presidencial, que a China não quer comprar do Brasil, mas sim comprar o Brasil. É por essas e outras que, depois da vitória de Jair Bolsonaro, a China escreveu um editorial em seu principal jornal estatal, o “China Daily”, alertando para as consequências que este tipo de posicionamento poderia trazer.

“O custo econômico pode ser duro para a economia brasileira, que acaba de sair de sua pior re­cessão da história”, diz trecho do e­ditorial, que destaca ainda a im­portância das exportações brasileiras ao país asiático para o crescimento tanto do Brasil quanto da China.

O jornal também alerta para o risco de o Brasil reproduzir medidas de Donald Trump em relação ao governo chinês — Estados Unidos e China estão, hoje, em uma guerra comercial.
“Ainda que Bolsonaro tenha imitado o presidente dos EUA ao ser vocal ultrajante para captar o interesse dos eleitores, não existe razão para que ele copie as políticas de Trump. […] Até que ponto o próximo líder da maior economia da América Latina vai afetar a relação Brasil-China?”, questiona o editorial do “China Daily”.

Contudo, esta tensão entre os dois países parece ter ficado para trás. Pouco mais de uma semana após as eleições, Jair Bolsonaro se reuniu com o embaixador da China no Brasil, Li Jinzhang. O encontro foi visto como um sinal de que a boa relação entre os governos brasileiro e chinês deve permanecer intacta.

Goiano quase chinês

Formado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), o goiano Edival Lourenço Jr. foi cursar um MBA na Universidade de Pequim — tida como a “Har­vard chinesa” — em 2011. Em julho do ano seguinte, começou a trabalhar na ZhuZhou Times New Material and Technology (TMT), subsidiária da gigante estatal China Railway Rolling Stock Cooperation (CRRC).

Ao Jornal Opção, Edival Jr., que fala mandarim fluentemente, relata que está do lado chinês na mesa de negociações há um bom tempo e que gostaria de poder usar o seu conhecimento acumulado a favor do Brasil algum dia. “Entendo as minúcias de um negócio chinês desde um ponto de vista macrocultural até um ponto de vista de detalhes como a etiqueta chinesa.”

“Sou brasileiro e patriota. Mesmo defendendo o lado chinês há oito anos, tenho um sonho de defender o lado brasileiro”, diz o goiano, que, durante este período, tratou principalmente de negócios da China na América Latina e, em breve, assumirá uma parte da expansão da sua empresa para a América do Norte, que tratará, por exemplo, de questões relativas ao metrô de Nova York.

Para ele, Jair Bolsonaro tem se rodeado de pessoas competentes, como Paulo Guedes e Sergio Moro — futuros ministros da Economia e da Justiça e Segu­rança Pública, respectivamente — e que o mesmo tem de ser feito com aqueles que ficarão responsáveis pelos negócios com a China, que, segundo ele, tem uma expectativa “excelente” em relação ao futuro presidente, apesar das declarações passadas.

“Bolsonaro não é obrigado a entender sobre a China, mas ele tem que colocar gente que entenda e possa dar bons conselhos a ele”, pontua Edival Jr, que diz não enxergar a aproximação do presidente eleito com os Estados Unidos de forma negativa para os chineses.

“Para a China, isso não é um problema. Porque, do ponto de vista político-ideológico, o país não tem, hoje, um modelo que queira exportar. O negócio da China é business, diferentemente dos Estados Unidos, que querem implementar alguns modelos, como a democracia ‘Made in America’, em outros lugares”, ressalta.

Edival Jr. diz que o Brasil não tem o mesmo poderio econômico dos EUA para enfrentar a China e, por isso, deve tratar bem o país asiático. “Tratar bem o seu cliente é uma regra básica de negócio e a China é um cliente muito importante para o Brasil.”

“Declarações contra a China podem ter um efeito cascata. Se o governo chinês soltar uma nota dizendo que fazer negócio com o Brasil oferece riscos, muitas empresas seguirão esta orientação. E isso é desnecessário, porque o investidor chinês compra bem e paga valores do mercado internacional”, avalia.

O goiano explica que há uma “percepção comum” de que a China está comprando tudo no Brasil, mas frisa que o País não é nem de longe o principal destino do dinheiro chinês.
“O fato é que, em função de anos de recessão, os ativos brasileiros se depreciaram e é comum que investidores comprem ativos que estão baratos. Os chineses pensam a médio e longo prazo e sabem que os ativos podem se recuperar. É por isso investiram tanto no Brasil”, sublinha Edival Jr.

Segundo ele, o governo não deve se opor a isso porque se trata de dinheiro entrando no Brasil, mas, ressalta, é preciso que haja regras. “O setor elétrico, por exemplo, é estratégico e deve ser protegido.”

De acordo com Edival Jr., a in­fraestrutura é um dos setores que mais tem potencial de parceria entre os dois países. Ele argumenta que a construção de ferrovias, como a bi­oceânica, seria um excelente negócio para a China e também para produtores brasileiros, que teriam os custos logísticos de escoamento de safra “significativamente reduzidos”. “Uma verdadeira relação de ganha-ganha.”

O goiano quase chinês sugere que Brasil deve fazer o seu dever de casa e traçar objetivos claros sobre o que o País quer da relação com a China. “Historicamente, o Brasil tem um posicionamento muito passivo nesta relação”, diz. “Chegou a hora da mudança de postura.”

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