Goiânia tem 87 mil famílias na pobreza

Programas sociais alcançam apenas 25.523 famílias goianienses, ou seja, 59,3 % da estimativa de famílias pobres no município

Desempregado, Luiz Cândido da Silva, de 53 anos, abre mão de se alimentar para ter o que vender no dia seguinte: “Preciso comprar cana ama­nhã” | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Yago Sales

Eles recolhem legumes, verduras e frutas espalhadas pelo asfalto ao final de feiras livres de Goiânia. Cabisbai­xos, abordam transeuntes apressados no Centro, pedindo algum trocado. Arrastam carrinhos carregados com papel e latinhas pelas ruas e avenidas. Aguardam o fim do expediente de restaurantes para descolar uma refeição. Eles são goianienses anô­nimos, esfomeados, largados à pró­pria sorte.

Conforme o Cadastro Único, do Ministério do Desenvolvi­men­to Social (MDS), em de­zem­bro o número de famílias pobres ficou em torno de 87 mil famílias na capital. Elas têm ren­da mensal de até meio salário mí­ni­mo por pessoa. Dessas, 15.136 mil famílias têm renda per ca­pita familiar de até R$ 85, insuficiente para dar mínimas con­­dições a crianças e idosos, por exemplo.

Desnutridos, isolados em ca­sas sem condições dignas em bairros da periferia de Goiânia, vivem de doações. Este é o per­fil de Luiz Cân­­dido da Sil­va, de 53 anos. Há mais de um ano desempregado, ele é mais um número em relatórios e gráficos que revelam o de­sem­pre­go e a fome no Brasil. Os da­dos são discutidos séria e eloquentemente pelos técnicos, mas o argumento para pessoas como Luiz são os sintomas da miséria.

“Situada no umbral entre vida e morte, a fome é difícil de ser des­crita e compreendida pe­los que não a vivenciam”, escreve Ma­ria do Carmo Soares de Freitas no livro “Agonia da fo­me”. Com dou­torado em Saúde Pú­blica pela Uni­versidade Fede­ral da Bahia (UFBA), Maria do Car­mo pesquisou os efeitos da fome no Brasil e traz relatos de experiências que viu e ouviu, mesmo assim reconhece que não consegue dimensionar a tragédia da fome.

Uma contribuição para a erradicação deste quadro é o Pro­gra­ma Bolsa Família, do governo fe­de­ral. Mas o programa, que alcança famílias pobres e extremamente pobres, beneficiou, por exemplo, no mês de fevereiro de 2018, 25.523 famílias goianienses, apenas 59,3 % da estimativa de lares pobres no município.

As famílias recebem R$ 126,81. Com os beneficiados em fevereiro, o governo federal de­sem­bolsou R$ 3.236.504. Luiz Cândido da Silva tentou, mas não conseguiu o benefício. “Ia ajudar, né? Ia comprar leite pro meu fi­lho”, disse.

O aumento de famílias pobres e extremamente pobres pode devolver o Brasil para o Mapa da Fome, de onde foi retirado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultu­ra (FAO) há três anos. O sinal de alerta veio pela taxa de desemprego cada vez mais alta e pela ren­da per capita, indicadores importantes para compreender as ne­ces­sidades do brasileiro e para o es­tabelecimento de políticas pú­bli­cas por parte dos governos.

Pesquisador Ta­deu Alencar Ar­­rais: “O Bolsa Família é importante pa­ra diminuir a pobreza, principalmente a pobreza geracional”

Doutor em Geografia, o professor da Univer­sidade Federal de Goiás (UFG) Ta­deu Alencar Ar­­rais explica que o Brasil tem três benefícios fundamentais para dar as­sistência às pessoas de baixa ren­da: a aposen­tadoria rural, o Bene­fício de Pres­­tação Conti­nua­da (BPC) e o Bolsa Família.

“É preciso dar continuidade a es­tes programas para que possamos erradicar a fome e a miséria. O Bolsa Família é importante pa­ra diminuir a pobreza, principalmente a pobreza geracional, ou seja, obrigando os pais das crianças a levá-las para a escola e para o médico”, explica Arrais.

O pesquisador considera, ain­da, que os benefícios contribuem para movimentar a economia. “O Bolsa Família é revolucionário. As pessoas devolvem esse valor quando consomem. O problema, no entanto, é que assistimos a uma regressão no benefício. Na me­dida que o número de cadastro tem aumentado, o governo não au­mentou o número de beneficiados”, observa.

Para piorar, dados de desemprego dão conta dos problemas so­ciais. No dia 28 de fevereiro pas­sado, o Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE) di­vul­gou que a taxa de desemprego no País atingiu 12,2% no trimestre encerrado em janeiro de 2018, ou seja, 12,7 milhões de pessoas es­tão sem trabalho. Até o final do ano passado, Goiás contabilizava 339 mil fora do mercado de trabalho. E Luiz Cândido é um desses, personagem de uma biografia com capítulos de desemprego e fome, como verificou a reportagem do Jornal Opção.

Família vive de doações

Família não desliga do canal religioso, na esperança de que Deus mude sua situação

Na quinta-feira, 1º, sem saber que se tornou estatística, Luiz Cândido da Silva saiu em­pur­rando um carrinho onde mói cana e faz garapa desde às 6 horas. Ele narra, em primeira pessoa, a história de alguém in­teressado apenas em não ter de se preocupar que o alimento que re­cebe de doações não dure até o do­mingo. Um tique nervoso faz balançar sua cabeça, enquanto ele atende aos primeiros clientes com entusiasmo, sorrindo.

Mas, perto das 16 horas, uma dor faz Luiz parar, curvar-se um pou­co para frente e respirar. Ele pros­segue a andança pelas ruas dos bairros durante o final de tar­de. Manca de uma perna. Al­go parece pressionar seu estômago: ele não comeu nada o dia to­do. “Eu preciso comprar cana ama­nhã, não posso comer”, revela. Mesmo assim, o homem se diz feliz.

É que, 12 meses sem em­pre­go, passou as últimas se­manas consertando a máquina de moer cana que ganhou de uma mulher. Re­men­dou os pneus, soldou algumas pe­ças e pintou a lataria. Ga­nhou 20 caules de cana, dois pa­cotes de co­pos descartáveis e percorre a re­gião da Vila Isaura.

Luiz vai se lembrando do dia em que foi dispensado da função dos serviços gerais da Prefeitura de Goiânia, no final de 2016. De­mo­rou alguns dias para contar à mu­lher, Sebastiana Silva, 51. Co­mo conseguiria outro emprego, aos 53 anos?

Ele recebia pouco mais de um sa­lário mínimo, o suficiente para com­prar o leite e a bolacha do fi­lho Lucas Cândido, 21. O ra­­paz foi diagnosticado com deficiência mental há poucos anos. O pai não entendia quando pro­fessores o alertavam para as dificuldades de Lucas na escola: o me­nino não aprendia a ler nem a es­crever o próprio nome.

Nos meses seguintes à demissão, Luiz chegava em casa de mãos abanando depois de passar o dia inteiro procurando trabalho. Foi quando a família deixou de, pri­meiro, comer carne, depois feijão, que Luiz recorreu a uma das coi­sas que um homem trabalhador nem imaginaria que seria ca­paz: pedir comida em restaurantes e supermercados da região.

Dessa forma, conseguia levar pa­ra casa arroz, feijão e alguns pe­da­ços de carne. A mulher, que tam­bém toma remédios controlados, não consegue cozinhar. “Eu mes­mo faço tudo aqui em casa”, con­ta, apontando para a cozinha.

Família não desliga do canal religioso, na esperança de que Deus mude sua situação

Há mais de 30 anos à frente de pro­jetos sociais na Vila Isaura, Ma­ria Consuelo Bastos Seabra, 76 anos, soube da história de Luiz e sua família porque os ouvidos de­la se concentram facilmente na mi­séria alheia. Como de praxe, ela pro­curou ajuda com açougueiros, do­nos de frutarias e preparou a pri­meira cesta para a família. Luiz vol­taria outras vezes ao Centro de Referência de Assistência Social (Cras) Vila Isaura, conveniada com a Prefeitura de Goiânia.

Goiânia conta com 15 Cras es­palhados por todas as regiões. São locais para convivência, mas que normalmente resistem apenas pe­la boa vontade de funcionários e voluntários. Muitos deles têm con­vênios com o município e de­pen­dem de repasses. Nas últimas se­manas, por exemplo, as unidades não contaram com profissionais que, obrigatoriamente, precisariam estar no quadro de funcionários, como psicólogos e assistentes sociais. Funcionários informam que há um processo seletivo aber­to para contratar novos profissionais.

Quando fala de Luiz Cândido, Maria Consuelo parece emocionada. “Ele precisa de um empreguinho. De ajuda. Já trouxe ‘trem’ lá de casa para ele”, conta. “Nós te­mos muitas famílias aqui na região que precisam de ajuda.”

O Jornal Opção percorreu outros bairros, mas poucas pessoas quiseram falar da própria mi­sé­ria. Uma mulher, mãe de quatro fi­lhos, marcou entrevista com o re­pórter, mas desistiu. “Você vai me ajudar? Não quero me expor, ex­por meus filhos para nada.”

No Jardim Novo Mundo, não foi possível chegar a uma região de casas de alvenaria. “Aqui a gen­te não recebe jornalista”, gritou uma mulher gestante, visivelmente alterada. O repórter quis saber se ela recebia o Bolsa Família. “Não queremos dar mídia. Pôr nos­sa cara em jornal não. O que vai resolver?”

Luiz Cândido não se preocupa em abrir as portas enferrujadas e sem trinco da casa que construiu no lote do sogro, quando casou-se com Sebastiana. No quarto, abar­­rotado de roupas doadas, mal ca­bem duas camas que ele encontrou na rua.

O casal dorme colado à cama de Lucas, o filho de 21 anos. A sa­la, num cômodo minúsculo, é on­de a família assiste durante todo o dia a programação da Igreja Mun­dial, com o apóstolo Valdemiro San­tiago. “A gente assiste para ver se Deus muda a nossa situação”, jus­tifica Luiz. Na cozinha, a geladeira contém apenas água e um fran­go que a família ganhou de um vizinho. Sebastiana prefere guar­dar a mistura para comer no fi­nal de semana.

O filho do casal, Lucas, tenta ame­nizar a situação de pobreza da fa­mília dizendo que sempre há ar­roz e feijão.” O pai, então, pergunta: “E o leite, meu filho?” Lu­cas não responde. Sebastiana decide falar, depois de um dia em si­lên­cio, sempre muito introspectiva: “A gente prefere ficar calado. Re­clamar pode irritar a Deus, né, meu filho?”

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